THE DELAGOA BAY REVIEW

10/05/2010

A GRANDE LENA HORNE

Filed under: Icones — ABM @ 3:09 pm

por ABM (10 de Maio de 2010)

Lena Horne, que morreu ontem aos 92 anos de idade em Nova Iorque, foi, para além de uma mulher estupidamente bonita e cheia de talento, um dos discretos pilares na dolorosa luta das pessoas de cor para terem acesso às oportunidades que durante o século XX eram sumariamente negadas porque a maioria era alegremente racista.

Quem pode esquecer a sua interpretação de Stormy Weather? é de arrepiar. Ou, como se diz nos Estados Unidos, um class act.

Que aqui se toca, em sua memória.

http://www.youtube.com/v/QCG3kJtQBKo&hl=en_US&fs=1&

01/05/2010

A VISITA PRESIDENCIAL

Filed under: Portugal-Moçambique — ABM @ 7:19 pm

por ABM (1 de Maio de 2010)

No meio da confusão, da crise despoletada pelo anúncio da empresa de análise de risco Standard & Poors quanto à descida do nível de risco da dívida portuguesa, e das audições na televisão do processo da TVI, a visita de dois dias do presidente de Moçambique e de uma comitiva de setenta personalidades a Portugal praticamente passou despercebida. Umas linhas aqui e ali e mais nada.

O que é curioso, dado que, supostamente, o relacionamento institucional entre os dois estados é supostamente melhor que bom, já que teoricamente, depois de três décadas e meia, estarão sanados os grandes diferendos.

De entre o que foi feito, assinalo apenas um evento que achei interessante, que foi o assinar de um protocolo (a implementar) em que os cidadãos portugueses que trabalham em Moçambique irão passar a poder transferir os créditos pelos descontos feitos para a segurança social moçambicana, para a a segurança social portuguesa. E vice-versa.

PS – A Travessa da RPM, cuja tabuleta se exibe, fica situada em Mem-Martins, a caminho de Sintra. É espúria, mas o que conta é a intenção.

NÃO SOMOS GREGOS (REPETIR DEZ VEZES)

Filed under: Economia Portuguesa — ABM @ 7:03 pm

por ABM (1 de Maio de 2010)

Se não fosse tão trágico e afectasse tanta gente, dava para rir.

Há uma semana, os média internacionais o mundo assistiam à lenta agonia da Grécia e os esforços do seu governo de tentar reunir consensos para obter um vultuoso empréstimo que desse para pagar as suas contas nos próximos tempos e assim ganhar mais algum tempo para endireitar as suas contas.

No entretanto, os destacados líderes portugueses, de uma forma um tanto ingénua e tépida, iam dizendo que a situação económica, financeira e fiscal portuguesa não era, de forma alguma, comparável à da Grécia.

Só que, como já aqui referi, lamentavelmente, é.

Dizer isto em amena conversa privada maschambiana não abala o mundo.

Quando, quase extemporâneamente, um ex-economista chefe do FMI o disse num artigo a semana passada, aí o trânsito das ideias parou por um momento para tentar perceber o que se passava.

Mas quando a Standard & Poors divulgou que tinha reavaliado a sua percepção do risco de (in)cumprimento das obrigações da república portuguesa no início desta semana, para A, foi o fim da picada. Até Aníbal Cavaco Silva, que estes dias navega no fio da navalha política, ficou mudo, dizendo naquele estranho discurso na terceira pessoa que ele parece apreciar, que “o presidente da república prefere não se pronuncar quanto esse tópico nesta altura”.

Imediatamente, instalou-se um pequeno pânico luso-latino. Na manhã seguinte, as taxas de juro dispararam e na pequena bolsa de valores de Lisboa uma pequena legião de investidores começou a vender o que tinham a qualquer preço. Foi o dia na história da bolsa em que mais acções se transaccionaram.

Mas como felizmente há gente que acredita na vida após o socratismo, e os depósitos a prazo nos bancos portugueses, verdade seja dita, pagam cerca de um por cento ao ano depois de impostos, aí pela hora de almoço percebeu-se que, em contrapartida aos que estavam a vender em pânico, havia uma série de gente a comprar acções em preço de saldo, mesmo tendo em conta que o Sr engenheiro Sócrates há dias fizera passar uma lei que, retroactiva e provavelmente ilegalmente, passava a tributar as mais valias obtidas na bolsa [detidas por mais que um ano] em vinte por cento.

A medida faz parte daquela tese socialista de que há ricos em Portugal, que os ricos são quem tem todo o património e as acções, e que portanto lixar-se esses primeiro em tempos de crise é ser-se bom português.

A imprensa internacional contextualizou a questão. Em resumo, Portugal não é a Grécia mas é quase:

as taxas portuguesas não subiram como as gregas, mas estão a apontar bem para cima

...e já agora, a quem é que Portugal deve dinheiro lá fora

Claro que o problema de fundo não é que os portugueses individual e colectivamente estejam endividados até às pontas dos cabelos e que essas dívidas sejam devidas a estrangeiros nervosos.

O problema nem sequer é que eles não querem emprestar mais, e querem cobrar mais pelo que os portugueses devem.

O problema é que, em boa parte, eles olham lá de fora para dentro do rectângulo luso-ibérico e não vêm as coisas a irem ao sítio.

Pelo contrário.

Não se vislumbra crescimento ou sustentabilidade em lado nenhum, a taxa de inflação está a subir, já se começam a ver greves à moda da Grécia à esquerda e à direita, a taxa de desemprego subiu o mês passado meio por cento para uns meteóricos 10.5 por cento, o governo continua a gastar desportivamente como se nada estivesse a acontecer, e toda a gente menos os comunistas e aqueles senhores da esquerda chiquérrima perfumada já bradam sangue nas ruas com o pouco que se fez pelas massas vulneráveis, e que dá pelo curioso e algo kafkiano nome de Plano de Estabilidade e Crescimento.

No fundo, tudo isto é excelente para José Sócrates, que não tem mais que fazer que dizer que tem que ser: aumentar estupidamente os impostos, algo que é nobre e socialista, tentar timidamente conter as despesas, algo que nenhum governo naquele país, muito menos um de socialistas, alguma vez conseguiu fazer em 36 anos de república socialista. E clamar vitória.

Ainda por cima a oposição é suposta assinar por debaixo.

O resultado vai ser o agravamento da agonia económica e social dos residentes em Portugal e mais uma onda de fuga de captais (maioritariamente portugueses) para praças offshore, mais desemprego e mais uma onda de emigração de gente para fora.

Incrivelmente, Pedro Passos Coelho, o novo José Sócrates do PSD, foi à televisão desabafar que a gente que meteu Portugal no euro cometera um erro. Ou seja, o que ele implicitamente estava a dizer é que, se ainda houvesse escudos, o que ele faria era desvalorizar o escudo uns 25 por cento e estava o assunto arrumado. O que é uma das mais lamentáveis expressões de desistismo e falta de espírito de luta e de sacrifício que vi estes dias. Grave, por sair da boca de quem saiu.

O que prevejo é que estes dois anos que se abordam vão ser verdadeiramente inesquecíveis. A versão lusa do inferno na Divina Comédia de Dante Alghieri, de que a imagem em cima é uma alegoria.

E a procissão ainda nem vai no adro. Os exmos Leitores que esperem até o Sr. Papa se meter no avião de volta para Roma lá para o fim do meado de Maio, depois de visitar a Cova de Iria e arredores.

LEHMAN BROTHERS E A TVI

Filed under: Politica Portuguesa — ABM @ 5:55 pm

por ABM (1 de Maio de 2010)

Basta assistir durante umas horas ao vivo pela televisão às sessões parlamentares de inquérito norte-americanas sobre a falência do defunto banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers e, em Portugal, sobre (basicamente) quem disse e fez o quê em relação a um delírio socratiano (em última instância concretizado) para calar a todo o custo a informação da estaçãozinha de televisão portuguesa TVI antes da eleição parlamentar portuguesa de Setembro de 2009, para rapidamente constatar o amadorismo, a falta de diligência e a habitual dose de nacional-porreirismo imbecil que envenena a máquina política portuguesa.

Até na geografia das salas se nota esses informalismo latino: as salas de audiências americanas estão configuradas como salas de tribunal, em que os legisladores se sentam mais alto, mesmo em frente aos inquiridos. Nas audiências parlamentares portuguesas, acotovelam-se legisladores e inquiridos uns em cima dos outros em redor de uma mesa pequerrucha, e há uma figura qualquer a presidir à sessão, a que todos, caninamente, chamam “sôr presidente”. Que ainda por cima senta-se mesmo ao lado dos inquiridos.

Ambos assuntos de extraordinário interesse público, indicativos de gravíssimas falhas nos respectivos sistemas políticos e económicos de ambos os países, compare-se apenas a atmosfera, o tom e o conteúdo das intervenções de quem pergunta e de quem responde, para tomar o pulso às coisas. Mesmo tendo em conta de que em ambos os casos se proferiram as maiores barbaridades.

Nas inquirições do senado norte-americano, os legisladores eram severos, estavam preparados e entravam a matar. Os inquiridos sabiam que as suas vidas estavam na linha.

Nas audiências no parlamento português, era o regabofe, o habitual ambiente da Alice no País das Maravilhas, em que ninguém sabe, ninguém estava lá, ninguém viu, ninguém se lembra, ninguém decidiu, nem sequer sabem porque foram chamados a depor.

Entretanto, discretamente, as gravações das conversas entre o primeiro-ministro de Portugal e um seu amigo, que estiveram na base de tudo isto (para quem não se recorda) foram destruídas esta semana. Eram irrelevantes para a descoberta da verdade, disse-se.

Não havendo provas, e neste ambiente de alegre e quase inacreditávelmente irresponsável pirotecnia política, e enquanto todo o país resvala para a beira de mais um abismo político, social e económico, fica o registo de mais uma instância, esta ao mais alto nível político e empresarial, de que assacar responsabilidades continua a não fazer parte do léxico português corrente. Zeinal Bava, o “nosso” moçambicano mais bem pago da praça e afinal mais português que todos nós, até aproveitou para uma pequena diversão, falando em inglês enquanto badalava a “portugalização dos conteúdos”, algo que não tinha rigorosamente nada que ver com o assunto em mão.

Oh yeah. A gente acredita em tudo.

Ora veja-se.

http://www.youtube.com/v/H-Jm2ILQxTE&hl=en_US&fs=1&

http://www.youtube.com/v/XcnXMyGS0Xo&hl=en_US&fs=1&

24/04/2010

O NOVO CENTRAL PARK DE MAPUTO


por ABM (24 de Abril de 2010)

Armando Guebuza anunciou ao mundo ontem que um dos maiores espaços ainda verdes à volta da cintura da cidade de Maputo, chamado o paiol de Malhazine, será fechado e convertido num parque e jardim com 600 hectares.

Este espaço fica situado quase directamente a Norte da cidade para quem vai pelo Bairro da Coop acima, à direita da Avenida de Moçambique.

Após décadas em que os parques da cidade foram abusados, menosprezados e até confiscados, eis uma medida extremamente positiva e com enorme impacto para o futuro da cidade. A governância está de parabéns.

No Google Earth, o futuro parque tem o aspecto que se pode ver acima.

O 28 DE MAIO DO 25 DE ABRIL

http://www.megavideo.com/v/QHOYAVC0c88b2df95cdaaaecced4af3c7aeeff90

por ABM (24 de Abril de 2010)

Estas coisas das memórias e do seu significado têm tanto que ver com o seu impacto e posterior percepção e re-interpretação como das idades e experiências de cada um de nós.

Quando eu crescia na cidade outrora conhecida como Lourenço Marques, lembro-me muito, muito, vagamente, de que se dizia qualquer coisa no dia 28 de Maio sobre o 28 de Maio. Que terá sido a “Revolução Nacional”. A tal que, descobri mais tarde, descambou para a incontornáveis quatro décadas e meia de Salazar e afins. Pois. Que isto de ser-se português, ou afim, significa que, dada a inabilidade dos políticos e da congregação política de evoluírem e mudarem as coisas, faz mais ou menos parte do processo haver revoluções, hecatombes, golpes de Estado, pronunciamentos militares, etc.

Mas o ponto aqui é que 28 de Maio, nos anos 60 do século passado, com as devidas diferenças ideológicas e fanfarra um tanto quanto mais militarizada, fora o 25 de Abril para muitos da então velha geração. E nessa altura em Lourenço Marques, penso, já ninguém se lembrava do que aquilo fora. Tirando o ocasional velho caquético já ninguém sequer existia que tivesse visto o que aquilo foi, e tirando os quase absolutamente insuportáveis discursos dos senhores da Situação, herdeiros directos desses longinquos ecos da História, ninguém já percebera o que fora e para que fora.

Era mais um feriado.

Estamos a um dia do dia 25 de Abril de 2010. Isso significa que amanhã se assinalará que, há trinta e seis anos, meia dúzia de oficiais militares de baixa patente, com o beneplácito de (mais ou menos) os dois principais ex-chefes militares portugueses (os generais Spínola e Costa Gomes) e na minha opinião o desistismo de um derreado Marcello Caetano, a II República portuguesa acabou e se inaugurou o que se supõe ainda hoje ser uma versão revista da I República, sem os seus exageros e histerismos.

A República Socialista.

Trinta e seis anos é muito tempo e revelador. Em Junho faz trinta e cinco anos que Moçambique é independente e continuamente liderado pelas mesmíssimas pessoas que desde meados dos anos 60 já controlavam, do seu lado, o poder político. Daqui a cinco anos, já terão estado mais tempo no poder continuamente, que os anos durante os quais a União Nacional criada por Salazar governou Portugal.

Circunstancialmente, levou trinta e cinco anos para Portugal mais ou menos bater com o seu virtual nariz no espelho e, depois das repetidas bombas de oxigénio e manobras, ter de se confrontar, como nação, para o seu corpo nú e esfarrapado, sem as muletas de África e das Índias, entrerrado em dívidas e sem os dinheiros oferecidos da CEE e da União Europeia, sem o internacional-porreirismo e o doublespeak da internacional camaradagem, e ter que se perguntar: quem somos nós? o que teremos que fazer e como? com o que podemos contar?

Esta fase da história portuguesa é verdadeiramente fascinante. Parece o fim de um thriller de Agatha Christie. Quem, afinal, matou o morto? como se vai descobrir isso? e o que fazer em seguida?

Mas o tempo não perdoa e a verdade dramática e reveladora está no vídeo acima. Como aconteceu comigo quando era miúdo em Lourenço Marques e, sem ninguém me explicar, eu assistia ao moribundo e insignificante deambular de alguns velhos e políticos cheios de caruncho, sobre a tal supostamente gloriosa revolução do 28 de Maio.

Pese a suposta explosão democrática trazida desta vez, já poucos sabem o que foi isso do 25 de Abril. Ou como foi. Ou quem o fez.

Os mitos das revoluções e os seus protagomistas são muito mais fáceis de manipular, de realçar e de a re-inventar em regimes onde essa experiência passada convém muito aos que mandam agora e que nela buscam a sua fraca legitimidade, que num regime (mais ou menos) democrático cuja legitimidade supostamente só pode ser derivada de votos depositados em urnas e contados um a um. Em Portugal, isso na verdade só aconteceu quase dois anos depois, em Abril de 1976. Poucos se lembram que foi quase por acaso. E mesmo aí foi uma democracia hifenizada: a tal república socialista. O pai, Mário Soares. Até este momento não se passou daí.

É por isso, com algum humor, que aqui assinalo o pronunciamento militar de Abril de 1974, o tal que libertou as colónias e os demónios sociais num dos países mais atrasados do continente europeu, que achou necessário tantos anos para começar vagamente a lidar com as suas hipertrofias. Aproxima-se a hora de mais uma reflexão: continuar o experimento socialista ou tentar outro rumo.

No meio disso, a ironia do tempo: a de as mais jovens camadas da população portuguesa em Abril de 2010 já não saberem bem o que foi o 25 de Abril de 1974, por que foi, para que foi, quem o fez. É apenas mais um feriado em Abril.

Tal como foi o 28 de Maio quando eu era miúdo, em Lourenço Marques.

22/04/2010

QUO VADIS, EURO?

Filed under: Economia de Moçambique, Economia Portuguesa — ABM @ 10:26 pm

por ABM (22 de Abril de 2010)

Thursday, Dec 31            1.4406 USD
Monday, January 4        1.4389 USD
Tuesday, January 5        1.4442 USD
Wednesday, Jan 6           1.4350 USD
Thursday, January 7     1.4304 USD
Friday, January 8           1.4273 USD
Monday, January 11      1.4528 USD
Tuesday, January 12     1.4481 USD
Wednesday, Jan 13        1.4563 USD
Thursday, Jan 14            1.4486 USD
Friday, January 15        1.4374 USD
Monday, January 18    1.4369 USD
Tuesday, January 19    1.4279 USD
Wednesday, Jan 20      1.4132 USD
Thursday, Jan 21           1.4064 USD
Friday, January 22       1.4135 USD
Monday, January 25    1.4151 USD
Tuesday, January 26    1.4085 USD
Wednesday, Jan 27       1.4072 USD
Thursday, January 28  1.3999 USD
Friday, January 29        1.3966 USD
Monday, February 1     1.3913 USD
Tuesday, February 2    1.3937 USD
Wednesday, Febr 3       1.3984 USD
Thursday, February 4 1.3847 USD
Friday, February 5       1.3691 USD
Monday, February 8    1.3675 USD
Tuesday, February 9    1.3760 USD
Wednesday, Febr 10     1.3740 USD
Thursday, Febr 11         1.3718 USD
Friday, February 12     1.3572 USD
Tuesday, February 16 1.3649 USD
Wednesday, Febr 17    1.3726 USD
Thursday, Febr 18        1.3567 USD
Friday, February 19    1.3519 USD
Monday, Febr 22          1.3626 USD
Tuesday, Febr 23         1.3577 USD
Wednesday, Febr 24    1.3547 USD
Thursday, Febr 25       1.3489 USD
Monday, March 1         1.3525 USD
Tuesday, March 2         1.3548 USD
Wednesday, March 3  1.3641 USD
Thursday, March 4      1.3668 USD
Friday, March 5            1.3582 USD
Monday, March 8         1.3662 USD
Tuesday, March 9        1.3557 USD
Wednesday, March 10 1.3610 USD
Thursday, March 11     1.3657 USD
Friday, March 12           1.3765 USD
Monday, March 15       1.3705 USD
Tuesday, March 16       1.3723 USD
Wedn, March 17             1.3756 USD
Thursday, March 18     1.3660 USD
Friday, March 19           1.3548 USD
Monday, March 22       1.3471 USD
Tuesday, March 23      1.3519 USD
Wedn, March 24            1.3338 USD
Thursday, March 25    1.3356 USD
Friday, March 26          1.3353 USD
Monday, March 29       1.3471 USD
Tuesday, March 30      1.3482 USD
Wedn, March 31            1.3479 USD
Thursday, April 1         1.3468 USD
Monday, April 5           1.3486 USD
Tuesday, April 6          1.3396 USD
Wednesday, April 7   1.3340 USD
Thursday, April 8       1.3296 USD
Friday, April 9             1.3384 USD
Monday, April 12        1.3585 USD
Tuesday, April 13       1.3583 USD
Wednesday, April 14  1.3615 USD
Thursday, April 15      1.3544 USD
Friday, April 16           1.3535 USD
Monday, April 19        1.3432 USD
Tuesday, April 20       1.3486 USD
Wednesday, April 21 1.3373 USD
Thursday, April 22    1.3339 USD

Quanto ao Metical, vai-se aguentando bem, considerando as circunstâncias. A chatice é a inflação em Moçambique. Mas para quem ganha em dólares, é o totobola.

Na falta de melhor, em Portugal também já anda tudo num rodopio para subir preços.

É a competitividade portuguesa no seu melhor.

Fonte: http://www.x-rates.com/d/USD/EUR/data120.html

NICK BRANDT VAI A ÁFRICA

Filed under: Nick Brandt — ABM @ 9:05 pm

por ABM (23 de Abril de 2010)

O Nick, que é um fotógrafo nascido em Londres, tirou umas fotografias nas Áfricas que são de arrepiar e de que a de cima são apenas um modesto exemplo de um impressionante conjunto. Ele agora vive na Califórnia.

Através da Young Gallery, que creio que fica em Bruxelas, ele vende as fotos por um pequeno balúrdio, mas para os monetariamente deficientes como eu, ver o que já se viu aqui encanta sem depauperar. Para quem comprar e que está está dentro da União Europeia, não esquecer os 21 por centozinho para a Dona Iva.

18/04/2010

UM AR DA SUA GRAÇA

por ABM (18 de Abril de 2010)

Graça Machel deu uma curta entrevista em Joanesburgo e que foi publicada ontem no jornal britânico Mail & Guardian.

A curta entrevista, sobre o papel dos britânicos em África e nomeadamente em relação aos últimos anos no Zimbábué, é interessante quer pelo seu tom, quer por alguns dos comentários feitos avulsamente. Deliciosamente concluída com um comentário por Eddie Cross, um parlamentar zimbabueano do MDC, que parece concluir que, por piores que os britânicos sejam e tenham sido, que nada poderia ser tão mau como o colonialismo português. Para isso, refere que Samora Machel terá dito que, no que toca aos colonialistas, os britânicos foram de longe os melhores.

Donde se pode concluir que há bons e maus colonialistas. Os leitores britânicos devem-se ter babado com esta. Ah, rule Brittania, eles é que sabiam fazer as coisas.

Interessante para o exmo leitor que lê inglês, é ver os comentários feitos pelos leitores no fim da peça.

Graça é provavelmente a mulher mais rica de Moçambique e neste momento patriarca da dinastia Machel, apesar de ser simultaneamente a terceira mulher do grande Nelson, o que lhe confere um estatuto à parte.

A entrevista:

One of Africa’s most eminent political figures has condemned Britain for taking a patronising “big brother” attitude to its former colonies.

Graça Machel, a founder member of the Elders group of world leaders and the wife of former SA president Nelson Mandela, warned British politicians to “keep quiet” about countries such as Zimbabwe and let African diplomacy take its course.

Machel (64) is a former first lady of Mozambique, where she served as education minister, and has won numerous international awards for her advocacy of women’s and children’s rights.

In an interview with the Guardian in Johannesburg, she indicated that the crisis in Zimbabwe has revealed the shortcomings of a persistent imperialist mindset.

“Can I be a little bit provocative?” Machel said. “I think this should be an opportunity for Britain to re-examine its relationship with its colonies. To acknowledge that with independence those nations will want to have a relationship with Britain which is of shoulder to shoulder, and they will not expect Britain to continue to be the big brother.

“When a nation is independent, there is no big brother. They are partners. Part of the reason why Britain finds it difficult to accept Zimbabwe is precisely because that relationship of a big brother is influencing [efforts] to try to understand.”

Britain, along with the European Union and United States, has imposed travel restrictions and asset freezes on Zimbabwe President Robert Mugabe and his political and business allies. It has defied calls from South Africa to end these measures for the sake of the power sharing agreement between Mugabe’s Zanu-PF and the Movement for Democratic Change (MDC).

Earlier this year Foreign Secretary David Miliband said the UK would be “guided by what the MDC says to us about the conditions under which it is working and leading the country”. Critics said this handed Zanu-PF a propaganda coup, allowing it to portray the MDC as a puppet of Britain and blame it for sanctions.

Machel added: “I’m not saying things are OK, they’re all fine in Zimbabwe. I’m saying a different kind of dialogue, a different kind of bridge to try to understand the other side could have produced a different result from what it is.

“The more the British shout, the worse the situation will be in terms of relationship with Zimbabwe. That’s why sometimes I really question, when something happens in Zimbabwe and Britain shouts immediately. Can’t they just keep quiet? Sometimes you need just to keep quiet. Let them do their own things, let SADC [Southern African Development Community] deal with them, but keep quiet, because the more you shout, the worse [it is].”

Expectations
Asked if Britain’s attitude is patronising to its former colonies, Machel replied: “I’m afraid so. And what I’m saying is they have expectations which do not always coincide with what are the aspirations and expectations of those who are their former colony.

“When you change the relationship, you just have to give yourself to take the humility to stop and listen. And when you listen, then you take into account the other side. You put your case, then you take the other side. In a way, you harmonise interests of both sides.”

Zimbabwe will mark 30 years of independence this weekend. Britain remains politically and economically influential and denies Mugabe’s claim that it reneged on promises to fund the redistribution of land to the black majority.

Mugabe’s response, the chaotic seizure of white-owned farms, has been blamed for the collapse of Zimbabwean agriculture.

‘There’s more to Africa than Zimbabwe’
Machel, whose first husband was the late Mozambique president Samora Machel, called on Britain to take a broader view of the African continent. “That’s one of the issues, particularly with the British people: because of the emotional attachment they have with Zimbabwe, in many cases they define the continent in terms of Zimbabwe. Zimbabwe is one country among 53 countries, so you have all the rest of 52 countries. Well, let us put aside Somalia also, which is a failed state. But you have 50 countries who are running a relatively normal situation in the continent.

“I would like to raise with you the issue that yes, Zimbabwe has failed, and it is hurting British people directly, but there’s much, much more to Africa than Zimbabwe.”

Machel, who became Mandela’s third wife in 1998, also accused developed countries of double standards on CO2 emissions and climate change.

“This has been very clearly stated at the negotiations to Copenhagen. They know — the developing world, including China — that Africa has very small responsibility in the impact of climate change, but Africa is the one paying the highest price.”

Britain’s intentions are still treated with scepticism in Zimbabwe, even among some members of the MDC. Eddie Cross, policy coordinator general of the MDC, said: “Perfidious Albion. I tell you, you Brits have a well-deserved reputation for perfidity in your colonial relations … I think Britain’s always been very sophisticated in its relations with its former colonies — it’s got more experience than any other state in the world — but it doesn’t necessarily make them right.

‘You would never choose to be colonised by the Portuguese’
“Britain’s role in the last 10 years has often been difficult for us in the MDC to interpret and read. Sometimes they’ve backed certain initiatives in Zimbabwe which have not been helpful in terms of pursuing a principled transfer of power and I think sometimes the Brits regard us as being rather naïve in the MDC and they have a rather jaundiced view of Africa and African politics.”

But Cross, an economist and MP, added that other European powers probably behaved worse: “Samora Machel once said to me: ‘If you were to choose to be colonised, you would never choose to be colonised by the Portuguese.’ The colonial record was pretty dismal. For the British it was probably the best.”

15/04/2010

NÃO ME MATE, EU NÃO SOU O BOER

Filed under: África do Sul, Mundial de Futebol 2010 — ABM @ 8:52 pm

por ABM (15 de Abril de 2010)

Em tempos, era comum para os meus amigos moçambicanos que viajavam até Johannesburgo nos seus carros, ao passarem a fronteira em Ressano Garcia, mudarem as suas matrículas de fundo preto e letras em branco, por uma espécie de matrículas inventadas mas com as cores características das matrículas da província de Gauteng.

Isto porque havia a percepção de que os moçambicanos eram alvos preferidos para os asslatantes.

Na face das recentes polémicas relacionadas com o assassínio de um antigo líder radical sul-africano, com uma canção cujo refrão é “mata o boer” e as declarações e atitudes do líder do sector da juventude do ANC, o Sr. Julius Malema, já me mandaram a foto acima (obrigado JP e CA) como forma, que espero ser humorística, de alguns brancos que visitam a África do Sul, se tentarem proteger contra eventuais represálias de terceiros pela circunstância da cor da sua pele.

Acima, no verso das t-shirts de uns turistas brancos à chegada ao aeroporto Oliver Tambo em Johannesburgo, a frase que se pode ler é “por favor não me mate, eu sou apenas um turista, não o boer”.

Entretanto, como aparentemente e para início de festa metade das pessoas que se esperavam na África do Sul não apareceram, está em curso a venda de quinhentos mil bilhetes para os jogos de futebol, a metade do preço. A alternativa era vermos os jogos do Mundial em estádios vazios.

Este campeonato mundial de futebol na África do Sul promete.

DEUS E O MEU CORREIO ELECTRÓNICO

Filed under: António Botelho de Melo, Religião — ABM @ 8:14 pm



por ABM (15 de Abril de 2010)

Sempre recebi essas mensagens, mas o facto de nos últimos meses ter aumentado a sua frequência, me levou a pensar mais sobre o assunto.

Antes, um pouco de contexto:

Apesar de toda uma educação formal nos bastidores moçambicanos da igreja católica colonial nos anos 60 – a igreja arqui-conservadora dos senhores cardeal Cerejeira e o então bispo Custódio Alvim Pereira, e de a mãe BM ter sido quase toda a sua vida uma católica dedicada, eu não sou religioso.

Nunca fui.

Simplesmente, nunca acreditei que existisse um ou mais deuses no universo. Não acredito que um ou mais deuses tenha passado mensagens transcendentais e códigos de conduta celestiais para que nós, que sobrevivemos precaria e perenemente à superficie da terra, nós, descendentes prolíficos de um punhado de austrolopitecus quaisquer que sobraram em África de uma qualquer série de razias naturais que em tempos ainda não identificados assolaram o planeta, possamos saber o que é isso de viver uma vida decente e moral, que saibamos o que é a diferença entre o certo e o errado.

Para isso, a razão, a moral e o bom senso bastam a maior parte do tempo.

Mais: qualquer pessoa, crente ou não, que leia um bom livro de história, rapida e facilmente constatará que da corporização e codificação das religiões ao longo dos séculos tem resultado tanto bem como mal.

Em nome das respectivas deificações e específicos paradigmas, cometeram-se as maiores carnificinas, as maiores injustiças, entre os seres humanos.

E se calhar evitaram-se males piores.

E também se fez muito bem.

Ao mesmo tempo, obrigo-me, por princípio, e na esperança de alguma reciprocidade, a respeitar quem acredita que existe um ou mais deuses e as mensagens que supostamente constituem a expressão do que essas entidades quererão que seja feito pelos homens que nelas acreditam. Faço-o primariamente pela constatação básica de que, normalmente, as religiões organizadas podem ser formidáveis catalisadores do bem para muita gente boa e moral.

Algo muito fácil para mim, que tive a relativa sorte de crescer e viver em países mais ou menos plurais política e religiosamente.

E, ao nível pessoal, também constato que muito boa gente aguenta-se psicologicamente perante os por vezes pesados desafios da vida por sentir que existe esse apoio que a sua religião presta.

Bom para eles e elas.

Onde a coisa começa a andar mal é quando este ou aquele crente, esta ou aquela religião, começa a sentir que a sua verdade é a única verdade universal, que se aplica a mim, e que quem não está com ela está contra ela.

Essa intolerância, que se expressa das variadíssimas formas, é perigosa e fomentadora de problemas. Muitos. Há quem diga que hoje em dia se vive mais uma confrontação entre essas visões do homem e do divino. Nalgumas,aparentemente ínfimas franjas destas audiências, resolve-se as disputas à bomba e em espectáculos de assassínios em massa, o palco os media cada vez mais interligados e globalizados.

Eu não escondo as minhas convicções, mas também não faço delas propaganda. Não está no centro do meu universo. A maior parte do tempo, estou calado.

E por isso não me surpreende nada quando, ocasionalmente, alguém que eu conheça relativamente bem me aborde sobre assuntos de religião, assunto que, de facto, estudei, ao contrário de muito boa gente, que fala do que não sabe.

Mas no mundo da internet, onde se trocam milhares de mensagens por ano, existe uma forma de propagação da fé que me tem vindo a ser encaminhada, por pessoas que até conheço bem, e que de certa forma me surpreende.

Com a recessão económica, constato que a sua frequência aumentou.

São aquelas longas mensagens, frequentemente apresentações de slides com música “celestial” a acompanhar, em que o autor (não necessariamente o emissor da mensagem, que apenas se associa pelo gesto de a re-enviar) me exorta a ler a palavra do seu deus, a fazer isto ou aquilo, com promessas de vida eterna feliz e a garantia de uma ida súbita para o inferno se eu não re-enviar a mesma dentro de x minutos para toda a gente que está registada no meu (parco) ficheiro de endereços de correio electrónico ou, ainda pior, se eu simplesmente apagar a mensagem.

Ora, por definição, eu sou quase absolutamente imune à evangelização religiosa exógena, venha ela de quem vier e sob que forma vier. E nos meus 50.3 anos de vida, já praticamente vi, li e ouvi tudo, desde a vigorosa proliferação das religiões mais estabelecidas até ao fenómeno da tele-evangelização inovadora, inventada nos Estados Unidos quando eu lá vivia, e que se foi espalhando pelo mundo, incluindo a sua explosão em Portugal nos anos 90 do século passado e em Moçambique a seguir.

Consistente com a minha abordagem ao assunto, não reajo. Não é algo que me concerne particularmente. Nalguns casos leio o que me é enviado, noutros não, e tudo apago. Discreta e respeitosamente.

Ao mesmo tempo, não entendo o fenómeno, que vem acompanhado de outros fenómenos menores de superstição organizada, astrologia, profecias do fim do mundo, etc. Pois não é assim que eu penso e se calhar apenas indica que quem me conhece, não conhece tão bem como possa parecer ao início.

Mas enviar algo deste tipo, que à partida presumo ser um assunto sério para quem envia, com a ligeireza com que por vezes assisto, é algo um pouco desconcertante. Pois, algo paradoxalmente, eu trato este assunto com pouca ligeireza.

Mais: será mesmo possível, hoje em dia, converter ou de alguma forma influenciar alguém, em termos religiosos, enviando uma carrada de mensagens com conteúdos religiosos, profecias, ameaças de inferno, promessas do cumprimento de desejos, etc?

Não creio.

Mas se o exmo. Leitor acredita nestas coisas, peço que re-envie nos próximos dez minutos esta crónica a quinze dos seus melhores amigos senão esteja certo de que as duas piores coisas que lhe possam acontecer na vida (escolha agora) irão acontecer nas próximas 24 horas, sem apelo nem agravo.

14/04/2010

A GENIAL ESTUPIDEZ

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 5:26 pm

por ABM (14 de Abril de 2010)

No restaurante Macdonald’s na marina de Vilamoura no fim de semana passado, comprei um daqueles menús de galinha com batatas fritas e Coca-Cola Zero.

Quando me sentei a comer, li no copo a instruções acima, a explicar … como beber a Coca-Cola através da palhinha.

Como estava no Algarve, as instruções vinham primeiro em espanhol, e passo a citar:

1º Coger la pajita

2º Poner la pajita en la bebida favorita

3º Llevar a la boca y disfrutar de una sensación refrescante

Assim, se e quando o exmo Leitor for a Espanha ou ao Algarve e beber algo no Macdonald’s, já sabe como é que se faz.

Cuidado que o Macdonald’s NÂO TINHA instruções em como tirar a cobertura de plástico da palhinha, o que me causou sérios problemas. Então, para que tudo corra bem, sugiro o seguinte procedimento complementar:

1º Coger la pajita

2º Segurar la pajita entre los dientes numa extremidád, entonces que segura la otra extremidád com las manos con alguna fuerza

3º pujar el plastico que cobre la pajita con los dientes imientes que segura la otra extremidád

4º cuspir el plastico de la pajita (si es espanhol, para la prateleira, si es portugés, para el chán pués que tán poco aqui ninguém si impuerta)

SALVAR A PÁTRIA, POR HENRIQUE MONTEIRO

Filed under: Citações, Economia Portuguesa, Politica Portuguesa — ABM @ 4:48 pm

por ABM (14 de Abril de 2010)

O director do semanário lisboeta Expresso escreveu na edição de 13 de Março de 2010:

Quando comecei a trabalhar, a pátria precisava de ser salva dos desvarios do PREC e por isso pagámos mais impostos.

Depois, nos anos 80, houve um choque petrolífero, salvo erro, e tivemos de voltar a salvar a pátria.

Veio o FMI, ficámos sem um mês de salário e pagámos mais impostos.

Mais tarde, nos anos 90, houve mais uns problemas e lá voltámos a pagar mais, para a pátria não se afundar.

Por alturas do Governo de Guterres fui declarado ‘rico’ e perdi benefícios fiscais que eram, até então, universais, como o abono de família. Nessa altura, escrevi uma crónica a dizer que estava a ficar pobre de ser ‘rico’…

Depois, veio o Governo de Durão Barroso, com a drª Manuela Ferreira Leite, e lembraram-se de algo novo para salvar a pátria: aumentar os impostos!

Seguiu-se o engº Sócrates, também depois de uma bem-sucedida campanha (como a do dr. Barroso) a dizer que não aumentaria os impostos. Mas, compungido e triste e, claro, para salvar a pátria, aumentou-os! Depois de uma grande vitória que os ministros todos comemoraram, por conseguirem reequilibrar o défice do Estado, o engº Sócrates vê-se obrigado a salvar a pátria e eu volto a ser requisitado para abrir mão de mais benefícios (reforma, prestações sociais, etc.), e – de uma forma inovadora – pagando mais impostos.

Enquanto a pátria era salva, taxando ‘ricos’ como eu (e muitos outros, inclusive verdadeiros pobres), os governantes decidiram gastar dinheiro. Por exemplo, dar aos jovens subsídios de renda… por serem jovens; ou rendimento mínimo a uma pessoa, pelo facto de ela existir (ainda que seja proprietária de imóveis); ou obrigar uma escola pública a aguentar meliantes; ou a ajudar agricultores que se recusam a fazer seguros, quando há mau tempo; ou a pedir pareceres para o Estado, pagos a peso de ouro, a consultores, em vez de os pedir aos serviços; ou a dar benefícios a empresas que depois se mudam para a Bulgária; ou a fazer propaganda e marketing do Governo; ou a permitir que a Justiça seja catastrófica; ou a duplicar serviços do Estado em fundações e institutos onde os dirigentes (boys) ganham mais do que alguma vez pensaram.


E nós lá vamos salvar o Estado, pagando mais. Embora todos percebamos que salvar o Estado é acabar com o desperdício, o despesismo, a inutilidade que grassa no Estado. Numa palavra, cortar despesa e não – como mais uma vez é feito – aumentar as receitas à nossa custa.


Neste aspecto, Sócrates fez o caminho mais simples. Fez exactamente o contrário do que disse, mas também a isso já nos habituámos. Exigiu-nos que pagássemos o défice que ele, e outros antes dele, nunca tiveram a coragem de resolver.


VERDADE INTEMPORAL

Filed under: Citações — ABM @ 4:35 pm

por ABM (14 de Abril de 2010)

Em tempos de crise e para quem já não se lembra bem porquê, partilho este lindo azulejo, à venda por 1 euro e 89 cêntimos na loja do Sr. Luis em Aveiras de Cima.

08/04/2010

O TSUNAMI NO HORIZONTE

Filed under: Economia Portuguesa — ABM @ 4:11 pm



por ABM (Cascais, 8 de Abril de 2010)

Creio que a mensagem fundamental do que se está a passar em Portugal economicamente neste momento é precisamente o contrário do que o pai BM  já me dizia em miúdo: “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. No presente episódio das dificuldades económicas portuguesas, assiste-se a um claro dourar da pílula, ou, se formos generosos, a um fenómeno de “gradualismo socratiano”.

Temporariamente.

Ou seja, parece que vem aí um verdadeiro tsunami e, para nosso bem, é melhor que se encaixe nas nossas cabeças o que é que isso quer dizer.

Em baixo reproduzo, com vénia, um excelente, se algo venenoso, parecer de uma conhecida casa de analistas macroeconómicos, em que escalpelizam o que está a ser feito. Peço desculpa mas o texto vai em inglês.

Mas antes, mais uns dados de contextualização do tal tsunami de que falo, para o exmo leitor mais literária do que economicamente inclinado:

1. Por “classe média portuguesa” entende-se quem ganhe um salário médio mensal de até 700 euros por mês. Não 1400, não 2000. Ser classe média em Portugal é ganhar até 700 euros por mês.
2. Actualmente, 15 por cento dos contribuintes portugueses já pagam 85 por cento dos impostos cobrados em Portugal. Pergunta-se: de onde virão os próximos impostos?
3. Pela primeira vez na história portuguesa, se se contarem na população total com os velhos, os jovens e os reformados, dos cerca de 10 milhões de pessoas que ali vivem, são mais os que não trabalham do que os que trabalham.
4. Generosamente, com a forte e crescente incidência de impostos indirectos e a eliminação quase total de benfícios fiscais, cada vez mais até o desempregado, o reformado e o pobre pagam impostos (imposto automóvel, imposto sobre combustíveis, imposto de valor acrescentado, taxas, emolumentos, impostos sobre o património, sobre juros, sobre “ganhos”, etc).
5. Só nos cinco anos entre 2005 e 2010, cada cidadão português em média, em termos de dívida privada (isto quer dizer excluindo a dívida pública) passou a dever a instituições estrangeiras de 5 para 10 mil euros, um crescimento de cem por cento.
6. Em 2009, o défice entre a despesa feita pelo governo e o dinheiro arrecadado em impostos foi de 9.4 por cento do produto interno nacional
7. A taxa de desemprego, que se cifra actualmente em 10.3%, deverá manter-se nesses parâmetros até 2013, no entanto os subsídios de desemprego começarão a acabar dentro de seis meses, o que augura uma situação em que centenas de mikhares de pessoas não terão nem emprego nem forma clara de sustentarem as suas vidas.
8. Até 2013, as taxas de juro, que neste momento são sustendadas por uma taxa de base artificialmente baixa (1%) apenas poderão mover-se num sentido: para cima.
9. A dívida externa, pública e privada, continuará a subir e atingirá níveis verdadeiramente estratosféricos. Alguns dirão mesmo, aludindo aos presentes problemas da república helénica, que nos veremos “gregos” para lidar com a situação.

O “gradualismo socratiano”, já anunciado para 2010, consiste para já no seguinte: a) “baixar” o défice em 2010 de 9.4 para 8.5 por cento; b) aumentar alguns impostos, subir mais uma vez a idade em que as pessoas se podem reformar, congelar alguns daqueles projectos dos tempos das vacas gordas, timidamente tentar reduzir o número de funcionários públicos e c) privatizar tudo o que puder ser privatizado, ou seja, ir buscar mais dinheiro para tapar o buraco vendendo o património que o governo ainda detém.

Mas como serão 2011, 2012, 2013 e 2014?

E não convém aqui pensar em termos partidários. Se por acaso o novo senhor da casa do PSD, o pródigo Pedro Passos Coelho, substituir o actual primeiro-ministro, o que vai ter que ser feito vai ter que ser feito.

A análise da Casa Roubini Global Economics, feita há um mês, por Arnab Das, Elisa Parisi-Capone, Natalia Gurushina, Katharina Jungen e Jennifer Kapila:

Portugal is among the weakest members on both the external and domestic front. Portugal’s single-A sovereign rating and smaller 2010 borrowing needs shield it from the acute rollover concerns that have escalated the situation in Greece. But Portugal shares many of Greece’s medium-term vulnerabilities. As in Greece, the economy’s negative net savings position is a warning sign of insufficient domestic resources for a sustainable growth pattern. Rather than fiscal overextension, Portugal has suffered primarily from anemic productivity performance since the launch of the EMU, as well as low price competitiveness as shown in the persistent trade and current account deficits. The fact that Portugal’s main trading partner, Spain, faces a prolonged domestic demand retrenchment does not help either. The counterpart to the current account deficit accumulation are large debt levels, especially in the private sector. Including private and public debt, the total debt to GDP ratio reached almost 300% in 2007, among the highest in the eurozone and in line with the ratio in the United States. The current account deficits are mainly financed by cross-border bank borrowing and by a negative net international financing position of about 100% of GDP. By 2008 the stock of external debt has reached 200% of GDP, whereas the IMF projects the external debt to exports ratio to exceed 700% in 2009.

On the positive side, earlier fiscal consolidation efforts put Portugal’s public finances in a better position to weather the Great Recession than many other countries. Over the longer term, Portugal needs to resume the stalled convergence process in living standards with the eurozone average through aggressive structural reforms in the product and labor markets, to head off further competitiveness losses and unsustainable increases in external indebtedness.

Due to a steep deterioration in public finances, the markets have singled out Portugal as the second riskiest EZ country after Greece in early 2010. While Portugal long avoided a build-up of an excessive debt burden a la Italy, the debt-to-GDP ratio shot up drastically as a result of the current crisis. Portugal entered the recession with a debt ratio of 64% in 2007, which the Portuguese government expects to rise above 85% by 2010. Debt primarily increased on the back of large fiscal deficits which ballooned in light of falling tax revenues, the sizeable fiscal stimulus and increased social spending.

In late January 2010, the Portuguese Prime Minister Socrates presented the government’s fiscal consolidation plan, which envisions a reduction of the budget deficit to 3% by 2013, in line with the targets laid out by the European Commission. The government rejects immediate austerity measures in favor of a gradual deficit reduction from 9.3% in 2009 to 8.3% in 2010, with a view toward supporting the still fragile economic recovery. While from 2011 on the speed of fiscal consolidation is set to accelerate, it remains to be seen if financial markets are satisfied with the back-loaded nature of the fiscal plan and its inherent uncertainty, or if instead they will demand immediate spending cuts.

A disappointing government bond issue in early February exposed market doubts, and the issue had to be cut from €500 million to €300 million. Portugal cannot afford to underestimate the severity of the situation. As Greece painfully experienced in recent months, a credible and ambitious fiscal consolidation plan, which includes immediate and more detailed fiscal austerity measures and structural reforms, is essential. This in turn will help to calm financial markets, thereby relieving Portugal of some of the additional pressure resulting from financial markets’ uncertainty, such as the rising cost of debt. Restoring its credibility is crucial, given that Portugal is facing financing needs of €18 billion in 2010. In Q1 2010 alone, Portugal is scheduled to raise €5.5 to €6.5 billion.

While the proposed spending cuts appear feasible, budget and debt ratio targets are likely to remain out of reach given that the fiscal plan is based on the government’s over-optimistic growth forecast. The Portuguese government expects the economy to grow 0.7% in 2010, followed by an acceleration of the momentum in subsequent years, while the European Commission is forecasting economic growth of 0.3%. Economic activity is likely to remain subdued, given substantial structural issues as well as the fiscal consolidation’s unfavorable effect on growth.

Prime Minister Socrates is confident about reaching the envisioned budget targets, often citing the valuable experience he gained during the successful fiscal consolidation of Portugal’s public finances in the last decade. This time around, however, the Socialist government he is leading does not enjoy a majority in parliament, so the fiscal consolidation plan is likely to lack sufficient political support to be implemented in full. The government received a taste of the political difficulties ahead, when the Portuguese opposition parties pushed through a law on higher regional spending in early February 2010. The Law on Regional Finance, which foresees spending hikes equivalent to roughly €400 million over a period of four years, the bill is likely to jeopardize the fiscal consolidation plan’s feasibility. While President Anibal Cavaco Silva can still veto the bill, his position remains unclear for the time being. With financial markets’ extreme sensitivity to “credibility deficits” these days, Portugal’s political parties need to pull on the same rope.. Moreover, while social unrest is likely to rise given the public sector hiring freeze and wage cuts the fiscal plan proposes, it is essential for the government to abstain from watering down the fiscal consolidation plan. In fact, given that the deterioration in the budget deficit was largely structural, there is a pressing need for additional reforms to boost employment and growth.

Fiscal Consolidation Measures in Portugal

* a public sector wage freeze
* a 50% tax on bonuses paid to financial institutions’ top executives in 2010
* the reduction of public work projects
* a 150% public sector employment replacement rate
* the recommencement of a privatization program that was stopped given the difficult market conditions

The rating agencies may well further downgrade Portugal in the light of the unconvincing fiscal consolidation plan and the rising cost of debt. In H2 2009, all three major rating agencies revised Portugal’s sovereign rating outlook to negative, but only S&P actually lowered the country’s credit rating 2009 one notch to A+. Moody’s and Fitch so far have confirmed their respective Aa2 and AA ratings.

Que Deus ajude os portugueses.

04/04/2010

GUINÉ-BISSAU

Filed under: Portugal-África — ABM @ 2:22 am

por ABM (Alcoentre, 4 de Abril de 2010)

Como é viver num país onde não parece haver “ordem estabelecida”? felizmente não faço uma ideia clara, se bem que testemunhei em pessoa os eventos de 1975 em Portugal continental, o que já deu para uma vida.

Mas o que se vem passando na Guiné estes últimos anos é obra. Numa altura em que já se tornou mais ou menos fora de moda fazer golpes militares, nesse pequeno país que foi um território menor (geograficamente falando) do espólio africano português, continua a tê-los, quase alegremente. Com a agravante dos rumores persistentes de que aquilo pode estar a tornar-se em mais uma plataforma giratória das rotas da cocaína (um pouco como Portugal).

Não conheço a Guiné apesar de ter lido já algumas coisas sobre aquele país e de ter uma amiga em Angola que é de lá. Praticamente indefensável aos preços que Salazar estava disposto a pagar, foi o calcanhar de Aquiles da guerra em três frentes e uma das causas mais directas da discreta rebelião militar que desembocou no pronunciamento militar em Abril de 1974.

Basicamente, queriam que os militares ali fizessem a omelete sem ovos. Nenhum militar que eu conheça gosta de fazer omeletes sem ovos. Na guerra moderna, há coragem mas raramente há milagres.

O percurso desde a independência tem sido penoso e imagino que o custo dessa instabilidade cai directamente sobre a pele dos seus cidadãos.

No mais recente episódio, não se percebe o que o governo português anda a fazer, mas imagino que, fora de cena, estejam a tentar resolver a coisa.

Nem se percebe como é que os militares, os últimos garantes da ordem, são os principais protagonistas da desordem.

O Dr. Amílcar Cabral, uma figura notável dos anos 60 e que lutou por aquela terra (juntamente com Cabo Verde) não ficaria nada satisfeito.

A PRENDA DO COELHINHO

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 12:04 am

por ABM (Alcoentre, 4 de Abril de 2010)

Para os exmos leitores maschambianos um mimo de Páscoa: o ovo da Páscoa, em cima, por Fabergé, e uma prenda muito, muito especial, carregando aqui.

Não sou religioso mas qualquer ocasião festiva é sempre boa.

E às três pessoas que me mandaram um daqueles e-mails com um ovo e um coelho aos saltos….obrigadinho. Gostei muito daquele em que do ovo saiu uma sra loira nua com orelhas de coelho cor de rosa a dançar o Copacabana e uma das mensagens tinha um vírus que me ia mandando abaixo todo o computador. Mas o que interessa? o que conta é a intenção. Estou grato. Reconhecido. Mais uma vez, obrigado.

E um bom domingo de Páscoa.

Ao J Ribeiro, obrigado pela música.

02/04/2010

A PRIMEIRA VEZ QUE CONDUZI UM VOLVO

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 2:37 am

por ABM (Alcoentre, 2 de Abril de 2010)

A primeira vez na vida que segurei o volante de um carro em andamento com as minhas mãos foi em 1964. Tinha quase cinco anos. E não foi com o pai BM, pois se eu tocasse no carro dele, mesmo estacionado e com as chaves no bolso dele, a minha vida correria perigo.

O feito aconteceu num domingo com um casal nosso vizinho, os Rocha, que viviam numa ruazinha transversal da Massano de Amorim (hoje Mao-Tsé-Tung? não sei) no curtíssimo periodo entre os BM virem de Boane e se instalarem definitvamente no coração da Polana, onde cresci.

Creio que o Sr Rocha era delegado de propaganda médica em LM, como o Rui Knofly. Eu gostava muito deles e ainda mais da filha, a bela Sandra, mais conhecida lá em casa como a “Sandrinha Bufinha” (não sei as raízes profundas do cognome). Não me recordo nitidamente porque gostava dela, nem me lembro de nada particularmente especial sobre ela, mas algures tenho um fotografia dela num caixote, vestida num daqueles vestidinhos brancos domingueiros com um chapéuzinho branco. E à volta da fotografia, com uma caneta BIC, fiz na altura uns traços e uns desenhos de umas flores.

Suponho que isso era uma espécie de expressão de paixão assolapada, versão de puto de cinco anos.

Um dia, um domingo à tarde, fui com eles passear de carro. Passear de carro ao domingo naqueles tempos da bucólica Lourenço Marques era andar devagar na avenida marginal. Os mais intrépidos (nesse sentido, os Rochas eram-no) iam até à Costa do Sol, que para mim na altura ficava positivamente no Fim do Mundo.

No regresso, Sr e Sra Rocha à frente e eu e a Sandra Bufinha atrás, ele perguntou-me se eu queria conduzir o carro. Eles tinham um carro, um Volvo, igualzinho ao que está em cima. Nunca sendo alguém para fugir aos desafios, disse que claro que queria conduzir o carro. Ele parou, eu sentei-me ao colo dele e lá fomos, durante o que me pareceu uma eternidade, eu com as mãos no volante a “conduzir”, o Sr Rocha a fazer tudo o resto. No Passeio dos Tristes aos domingos em Lourenço Marques a velocidade máxima era para aí 20 quilómetros por hora, por isso suponho que não tenha causado transtornos a ninguém.

Uns anos depois os Rocha desapareceram. Diseram-me que tinham ido viver para a “Metrópole” (que para mim ficava noutra galáxia).

Vi o Sr Rocha e a mulher apenas uma vez depois disso, em 1972, quando pela primeira vez na vida visitei Portugal. Tinha doze anos de idade. Não sei como obtive o telefone deles mas telefonei-lhes e disse-lhes que gostava de os ver. Como eu estava com a equipa de natação de Moçambique e eles nessa noite jantavam numa enorme churrasqueira que ainda existe em Lisboa no fim do Campo Grande junto ao antigo estádio do Sporting, foi aí que os vi, brevemente, à entrada. Quase não os reconheci. A conversa foi fugaz. A Sandrinha Bufinha já só era Sandra e não viera.

Nunca mais os vi.

Mas recordo-os e o meu baptismo de fogo automóvel. Num Volvo.

Lembrei-me disto tudo (e mais) quando hoje li uma noticiazinha que mostra para o bravo novo mundo para onde nos movemos. A Volvo, que era sueca e que já havia sido comprada pelos americanos da Ford, foi esta semana vendida por estes (depois destes quase a lixarem) a uma tal Geely, uma empresa chinesa que faz automóveis aparentemente com a mais duvidosa qualidade. A Volvo custou 1800 milhões de dólares, o que é, para o exmo.. leitor imaginar, menos que metade do que custou ao governo português tapar mais ou menos o buraco do Banco Português de Negócios mas que é até este momento a maior aquisição de uma marca estrangeira por um fabricante automóvel chinês. A Geely, cujo chefe é um tal Sr. Li Shufu, conta obter o enorme conhecimento da Volvo nas áreas de qualidade, segurança, gestão de distribuição mundial e tecnologia, para melhorar a sua produção e tornar-se competitiva a nível mundial.

É curioso como os tempos correm. A Land Rover é indiana. Agora a Volvo é chinesa.

Hum. O que diria a Sandrinha Bufinha disto tudo?

01/04/2010

A NOVA TOPONÍMIA DE MAPUTO

Filed under: Maputo, Nova Toponímia de Maputo, Politicamente Correcto — ABM @ 9:33 pm

por ABM (Alcoentre, 1 de Abril de 2010)

Esta coisa de mudar os nomes às coisas em partes de África é uma festa que não acaba.

Alguns exmos Leitores não devem ter reparado que há uma semana, pela Resolução 20/AM/2010, a Assembleia Municipal de Maputo mudou os nomes de todos os distritos municipais de Maputo.

Assim, o DM1 passou a chamar-se Kapfumo, o DM2 passou a chamar-se Nlhamankulo, o DM3 KaMaxaquene, o DM4 KaMavota, o DM5 KaMubukwana, o DM6 Ka Tembe e o distrito da Inhaca KaNyaka.

Confesso que nem suspeito quais eram os nomes anteriores. Nem quais as implicações para os nomes (tradicionais?) das localidades afectadas.

Eu também gostava de mudar os nomes dos sítios por onde pairo em Portugal. Mas ninguém me deiixa mudar o nome de Cascais e no caso de Alcoentre, pesem as implicações anatómicas subjacentes e o facto de ser o nome do invasor colonial fascista imperial árabe há mil anos, disseram-me que nem pensar. Ninguém quer e dizem que é muito caro.

Mas mesmo assim quis participar na moda e, em nome dos bons velhos tempos, decidi mudar o nome da rua que dá acesso à minha casa para uma algo mais genuinamente moçambicano, pelo que anuncio a tabuleta que está lá em cima, acabada de fazer, e que deve ser inaugurada lá mais para o verão, juntamente com umas febras, tinto e fados do Sr. José Luis (que está a segurar a tabuleta).

Famba Ti Cunza
, termo de raiz ronga, era o que eu dizia algumas vezes a umas pessoas quando eu era mufana.

31/03/2010

AS NOVAS E AS VELHAS FRONTEIRAS

Filed under: Mundo — ABM @ 4:05 am

http://www.youtube.com/v/LZ0ue-XGl9c&hl=en_US&fs=1&

por ABM (Alcoentre, 31 de Março de 2010)

Ouvi dizer que a fronteira Ressano Garcia-Komatipoort vai finalmente ser alterada. Aquilo realmente anda-se a tornar num filme de terror aos fins de semana, feriados e férias.

Entre Portugal e Espanha hoje em dia em geral é sempre a andar sem parar.

Aparentemente, numa fronteira qualquer entre a Índia e o Paquistão é assim como se vê em cima. Confesso que acho piada ao espalhafato, mas a realidade subjacente é pouco feliz.

30/03/2010

QUEM VIVE NA PERIFERIA

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

Nas últimas semanas referi primeiro um projecto ambicioso para construir um bairro de luxo nos aterros onde se situava a FACIM na zona baixa da cidade de Maputo, e a seguir um artigo sobre o crescimento quase desmedido da periferia da capital moçambicana. É oportuno ver o quadro acima, baseado em dados da ONU, sobre o que se tem passado no mundo, e tirar uma ou duas ilacções.

Refira-se que os dados, citados numa peça do Economist desta semana, compreendem o periodo entre 1990 e 2007, ou seja, excluem os efeitos da crise que estalou em Outubro de 2008 e que começou com a falência do banco norte-americano Lehman Brothers.

Já por mais que uma vez afirmei que a maior revolução em termos do planeta e da nossa espécie, iniciada no século XVIII na Europa e que agora percorre o planeta, é a urbanização, isto é, a saída em massa das populações das zonas rurais para cidades. Esta migração tem tido e continuará a ter consequências profundíssimas em todos os aspectos da vida e actividade humanas, para o ambiente, para a terra. É uma revolução cataclísmica.

Referirei aqui a África do Sul, que está no quadro, e Moçambique e Portugal, que não estão.

Em vinte anos, a população sul-africana que vive em bairros da lata, que em 2007 se estimava ser cerca de 8.4 milhões de pessoas, diminuiu em cerca de metade em termos percentuais. Ou seja, presume-se que essa alteração assentou na integração de milhões de pessoas na fibra das cidades sul-africanas, o que em parte reflecte a evidência de que o objectivo – o sonho – de um (essencialmente, negro) sul-africano poder viver numa cidade é não só altamente desejável como um objectivo exequível.

Ora a taxa de sucesso nesta migração, ainda que se tenha reflectido em maiores taxas de criminalidade e a saturação das infra-estruturas sul-africanas, paradoxalmente é se calhar o maior sucesso da fase do pós-apartheid. De certa forma manteve a África do Sul a caminho do futuro (e o futuro, inexoravelmente, é a urbanização) e politicamente permitiu manter a paz política através da concretização do novo “sonho sul-africano” e ainda (pelo menos por enquanto) relegar para segundo plano a questão emocional mas largamente irrelevante da posse da terra, que naquele país podia ser tão quente senão mais do que no vizinho Zimbabué. Que está e vai estar de rastos.

No caso de Portugal, a saída das pessoas das zonas rurais, quer por via da urbanização para as cidades portuguesas, quer por via da emigração (que na verdade é outra forma de urbanização) acentuou-se nos anos 50 do século passado e percentualmente está a atingir os níveis médios da Europa Ocidental, com a consequência que um tema recorrente e popular na política portuguesa nos últimos anos é a “desertificação” das zonas rurais e interiores (as principais cidades portuguesas situam-se na faixa litoral atlântica). Esta tendência não se vai alterar. As muitas vilas e aldeias portuguesas, que hoje fazem lembrar as boom towns desertas do Faroeste americano de há cento e trinta anos atrás, irão continuar a esvaziar-se à medida que as gerações mais velhas morrem. As escolas continuarão a fechar, os serviços a deslocarem-se para onde está agora a viver a maior parte dos portugueses (fábricas, hospitais, polícia, serviços). O luxuoso capricho de tentar “fixar” as populações no interior tem sido apenas isso: luxuoso, e caprichoso.

O caso de Moçambique é mais difícil de quantificar mas mais interessante .

É mais interessante pelo percurso da sua urbanização e pelas escolhas políticas feitas antes e depois da independência.

Nos anos 50 e 70 e até 1974, as cidades moçambicanas, em larga parte “alimentadas” pelo crescimento económico e industrial e pela migração de quadros médios e técnicos especializados, a maior parte dos quais vindos de Portugal dada a inexistência de meios de os formar na então província portuguesa (mais conhecidos localmente por “os brancos”) caracterizavam-se pelo crescimento concumitante de vastas periferias residenciais e industriais para onde gradualmente se deslocavam as populações africanas vindas das zonas rurais. No Sul, essa migração era há muito “desviada” pela então deslocação de centenas de milhares de homens para alimentar a indústria mineira e agrícola sul-africana, iniciada nos anos 80 do século XIX com as descobertas de vastos depósitos de ouro e de diamantes em Kimberley e no Witswatersrand.

Mas a situação alterou-se radicalmente com o advento da independência, quando a economia entrou em colapso quase imediato e radical, e a liderança política da altura fez dogma da ruralidade, consagrada numa legislação chamada lei da terra – legislação e dogma que, com enormes, quase aberrantes buracos, permanecem até este dia, com algumas consequências funestas.

O efeito combinado destas realidades foi que a população moçambicana permaneceu no mato e quer o processo de modernização social, representado pela urbanização, que invariavelmente se traduz em mais oportunidades de trabalho, maior disponibilidade de serviços e qualidade de vida, congelou. De facto, a apregoação das virtudes da vida rural tornou-se em quase uma religião de Estado e uma forte (mas, a meu ver, falsa no longo prazo) mola de apoio do regime. Ainda hoje faz parte do discurso político a (totalmente falaciosa) afirmação de que uma das grandes “conquistas” da independência foi a posse da terra pelo “povo” (na realidade, à disposição de quem manda).

Pois a prazo, a terra é apenas – apenas – um factor de produção. Como exemplo, nos Estados Unidos, de longe a maior potência agrícola do planeta, menos que 1 por cento da população trabalha a terra.

A segunda migração urbana de Moçambique consistiu em tirar os portugueses e seus descendentes (“os brancos”) das cidades e substitui-los por moçambicanos. Para o efeito, o governo, que, convenientemente, apregoava uma linha dura de marxismo-leninismo, para além da terra, nacionalizou quase tudo. Em 1984, quando visitei Moçambique pela primeira vez desde a independência, as cidades e arredores estavam congeladas, as casas construídas até 1974 cheias de gente que viera do mato e quase sem nada que fazer. Os efeitos das guerras e da consequente repressão começavam a fazer-se sentir.

A terceira migração ocorreu no fim dos anos 80 quando a guerrilha da Renamo, com o apoio logístico das forças de segurança sul-africanas, espalhou a guerra pelas vastas zonas rurais moçambicanas e aterrorizou as populações que ali viviam, uma parte das quais fugiu e refugiou-se nas cidades e suas periferias, cujo controlo e relativa segurança eram ainda asseguradas pela Frelimo. Quando a guerra acabou em Outubro de 1992, as principais cidades moçambicanas estavam inundadas por gente rural essencialmente refugiada.

Uma boa parte da qual não voltou para os campos, que estavam abadonados, minados e sem quaisquer infra-estruturas. Afinal, a miséria peri-urbana era menos sombria que a enorme incerteza de sobreviver no mato, sem qualquer rede de apoio.

As cidades moçambicanas e o establishment político levaram algum tempo a reagir. A ideologia “ruralista” e a lei da terra intocadas, a sensação do observador externo era que se esperava que, cessadas as hostilidades, as pessoas voltariam para os campos e tudo voltaria a ser como dantes.

Só que não voltaram.

E aconteceu entretanto outro fenómeno; a população continuou (e continua) a crescer agressivamente. O que significa que em 2008 Moçambique passa a ter um cenário curioso: ao mesmo tempo, apesar de todos os esforços, continua com perto de 80 por cento da sua população total, que se cifra perto dos 22 milhões de pessoas (havia 6 milhões em 1974) a viver no mato e primariamente da subsistência – eufemisticamente descrita como “actividade agrícola”- enquanto que os remanescentes 20 por cento residem nas cidades e suas periferias, as quais, na sua configuração básica, continuam a ter quase exactamente a mesma estrutura que tinham em 1974, com a agravante dela não ter sido mantida nem tão pouco expandida.

Aliás daqui se extrai uma curiosa estatística: apesar de percentualmente, segundo os magos destas coisas, haver hoje uma percentagem da população abaixo de um mitológico (qualquer) “limiar da pobreza absoluta”, em números reais hoje há muito mais moçambicanos na miséria do que nunca.

Os poderes constituídos, convertidos entretanto a uma espécie de capitalismo keynesiano em que os capitalistas são eles e a parte keynesiana é composta por um curioso sortido de países doadores, ONG’s, empréstimos de instituições internacionais e grandes empresas, têm feito o que podem. O que se tem traduzido por “grandes” projectos de extracção daquilo que os portugueses pelos vistos se esqueceram que estava debaixo dos seus pés durante 475 anos.

Só que, à excepção daquela estação espacial que é a Mozal, e que fica entre Boane e a Matola, esses projectos têm que ficar situados por cima de onde os bens se encontram, que são sítios como Moatize, Moma, Pande, etc.

Bom, mas não vai resolver por si só o problema dos números.

Nos países que passaram por este processo, a urbanização foi acompanhada por forte (ou melhor, quase selvagem) crescimento industrial e comercial nas cidades e suas periferias, que geravam, bem ou mal, empregos aos milhares.

Mas o mundo de hoje já não é o que era. Não é fácil promover a substituição de produtos manufacturados importados pelos mesmos produzidos domesticamente, até porque, neste caso, como se sabe, só entre a China e a vizinha África do Sul, não há quase nada que Moçambique possa possivelmente fazer que estes dois países não façam melhor, mais barato, mais depressa e com maior qualidade.

Portanto, se já há algum (peco aqui pela contenção) sub-emprego urbano e suburbano pela ausência de uma “revolução comercial e industrial” urbana, como é que vai ser quando, nos próximos 50 anos, aproximadamente metade da população rural de Moçambique, e os seus descendentes, se deslocarem para as periferias das cidades, em busca de emprego e de uma melhor vida? Estamos a falar de 12 milhões de pessoas. Como vão Maputo-Matola, a Beira, Nampula, Chimoio, Xai-Xai, Inhambane, aguentar?

Como vai ser gerir Maputo com cinco, seis milhões de habitantes, noventa por cento dos quais provavelmente, praticamente, à beira da miséria?

Por outro lado, o que vai acontecer nas zonas rurais?

Este irá ser seguramente um dos maiores desafios da liderança da geração dos pós-fundadores.

Um desafio logístico, político e de paradigma.

ECOS DE ÁFRICA NO RIBATEJO

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 3:55 am

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

É curioso. À primeira vista, o Ribatejo em 2010 parece estar tão longe de África, e da África dos tempos antigos, como é possível imaginar-se.

Mas com os anos, e retirado o verniz da superfície, há tantos vestígios, tantas histórias, espalhados nos recantos mais isolados e inesperados, que com o tempo se vão evaporando. Muita gente andou por lá, teve família lá, andou na tropa lá.

Alguns negociantes de velharias que me conhecem, e que andam por aí a adquirir a tralha que já ninguém quer, de vez em quando trazem-me exemplos dessa presença, como por exemplo o que está em cima, que é cópia duma credencial emitida a um tal senhor chamado Manuel Francisco da Silva, que andou pelos lados da Beira a trabalhar como torneiro mecânico. Obviamente alguém das suas relações despachou o documento.

O que achei interessante é que o documento acima tem o ar mais sério e formal do mundo, é enorme, do tamanho A2 (ou seja, duas folhas A4 juntas), vem do funcionalismo público e é basicamente uma referência.

Para o que servia não sei. Mas ao pé deste canudo o meu diploma do MBA que conclui em 1989 (e que custou uma pequena fortuna) mais parece um vulgar guardanapo de restaurante.

Agora vai para o fundo do meu caixote de quinquilharias, à espera de um destino qualquer.

O MUNDO DE ACORDO COM LUC FERRY

Filed under: Europa, História, Mundo — ABM @ 3:13 am

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

No meu estado de feliz ignorância, nunca tinha ouvido falar deste senhor, que é um francês que me parece ser um daqueles deliciosos adiantados mentais, com credenciais académicas que não acabam e uma curiosa visão do mundo, e que tive o prazer de ouvir esta tarde numa emissão da estação de rádio TSF durante um daqueles engarrafamentos de arromba na 2ª Circular de Lisboa, em rota de Cascais City aqui para a província.

Depois de ler José Gil, Luc Ferry, que foi ministro da educação lá na França e que parece que anda a promover um livro que escreveu sobre o amor e o casamento (cuidado que o tema engana, aquilo é duma abrangência fantástica), deu uma entrevista que absolutamente recomendo seja escutada. O exmo. Leitor Maschambiano pode sintonizar aqui e depois ir fazendo outras coisas no seu computador.

Fascinante visão do mundo actual, dos homens, da história, da filosofia, da religião.

Curiosamente, com uma tónica positiva. Com este não há a nebulosa neura que presentemente afecta uma parte significativa da população portuguesa e adjacente.

A entrevista é em francês, mas se o francês do exmo. Leitor estiver como o meu (je confésse que mon français d’aujourd’hui est un peu emmerdé par le temps) não se preocupe: a TSF meteu lá uma tradução simultânea do melhor que há.

Para o exmo leitor leu a entrevista que o nosso pensador top 25 do Mundo, e que veio de Quilimani, José Gil, deu a um jornal de Lisboa, oiça este senhor e tente estabelecer os contrastes nos pontos de vista.

29/03/2010

JOSÉ GIL, MOÇAMBIQUE E A CARNEIRADA

José Gil de Quelimane, português via Paris



por ABM (Cascais, 29 de Março de 2010)

Que José Gil (que agora se reformou formalmente do seu emprego como professor numa universidade de Lisboa, após a habitual e orgiástica última aula de sapiência) tenha escrito um interessante livro dedicado a examinar o espírito doentio de carneirada dos portugueses residentes in lusus rectangulus é uma coisa. Como quase nada de fundamentalmente relevante funciona neste país dos portugueses (nos noventa e nove menos o um por cento de Olivença, que na verdade parece que já nem sequer isso é) e nada se pode fazer para curar o mal, há toda uma literatura dedicada ao tema dos defeitos dos portugueses e de Portugal.

Creio que esta longa e sempre florescente actividade livreira assenta numa subrreptícia necessidade neuro-terapêutica de delírio da cura pelos compradores destas obras: definir a doença e prescrever a cura.

A alternativa, em tempos menos complicados, claro, é simplesmente a de emigrar. Lá fora ou cá dentro.

E quanto mais ilustre o escriba, melhor. E nessa óptica, Gil, que nasceu em “Quilimani” e cresceu em Moçambique, é entre o melhor. Corta o podre chouriço nacional com a perícia de um cirurgião – ou será a perfídia do Dr. Jekill?

Mas há nestes, e não entendo bem, a tentação de passar da análise ao aconselhamento para a cura (Eça teve-a bem mas resistiu, deixando-se por Paris e pela aceitação da alguma beleza na mediocridade, o que considero supremamente irónico da sua parte – ou a suprema expressão da sua ironia na Cidade e as Serras). Gil não resistiu e escalpeliza a talvez menos subtil qualidade de muitos portugueses – a inveja.

Cuja melhor resposta, claro, é o mesmismo, a falsidade e a mediocridade.

Pois desses ninguém pode possivelmente ter inveja.

Não sei porque faz isso. Pois por definição está na natureza da carneirada ser carneirada, ignorar a sua condição e muito menos buscar formas de a alterar. A essência da carneirada está, mais do que no seu estatuto, na sua satisfação com o statu quo. Portanto vir para aqui dizer que há problema e qual é a (sempre dura, sempre penosa) solução, é, reconheçamos, terapéutico mas pouco político.

É precisamente por isso que, quando a mudança vem, vem sempre e apenas porque a mudança vem de fora, seja por invasões espanholas, francesas ou inglesas, pelas hecatombes da economia mundial, pelas delegações do FMI que nos pôem a ferro e fogo, ou pelo mais reles copianço das modas estrangeiras, importadas por alguns iluminários da casa.

Interessantemente, após a sua aula de despedida (que cá mete jornalistas, despedidas carpideiras como se o visado fosse para o céu e uns copitos e rissóis pelo meio) o Dr. José deu uma “grande” entrevista” ao Bruno Mateus do Correio da Manhã, que a publicou ontem, e em que ele diz umas coisas giras e, numa frase lapidar que deixarei ao Maschambiano mais atento a tarefa de a encontrar, o que ele acha do seu Moçambique.

Também gostei da mentira em que ele às tantas diz que não liga ao que dizem dele.

A entrevista de Gil, feita por Mateus, com vénia:

“Fez parte das elites intelectuais em frança nos anos 50, 60 e 70. Hoje, com 71 anos, o filósofo que acabou de dar a sua última aula na universidade analisa: “os portugueses não se interrogam muito sobre qualquer que seja o acontecimento da sua vida”.

- Nesta fase da sua vida, sente que o País precise de si como filósofo?

- Não, porque o País não precisa de um personagem qualquer salvador. Eu não faço a união, há muita gente que pensa contra mim e que não suporta o que eu digo.

- Disse na sua última aula que “as pessoas pensam sozinhas”. Por que é que os portugueses pouco questionam as grandes decisões do Governo?

- Os portugueses não se interrogam muito sobre qualquer que seja o acontecimento da sua vida, da vida social, da política.

- Somos um povo inteligente?

- Com certeza. Temos é uma infelicidade, por razões sociais: Substituímos a nossa inteligência – como povo que produz génios, intelectuais, cientistas – pela esperteza. Pior: Pela esperteza saloia.

- Nota isso na nossa governação?

- Absolutamente. Há qualquer coisa mesmo do espertismo saloio no próprio discurso político em Portugal. Foi um chico-espertismo toda – ou quase toda – a propaganda que o Governo fez antes das eleições, para imediatamente a desmentir.

- Falta memória aos portugueses?

- Falta. E falta talvez por um apego que os portugueses têm a um presente, que vale por si. Não estamos a pensar no passado, como nas sociedades rurais que estão a desaparecer. E como nas sociedades modernas – que ainda não somos – não estamos a pensar sempre no futuro.

- Teme pelo futuro?

- Só um tonto não teme pelo futuro. Os nossos dirigentes temem. Nós vivemos num clima ameaçador. De quê? De que realmente aconteça a catástrofe que é a perda do adquirido na qualidade de vida, nas expectativas, em tudo.

- Alguma vez teve medo de perder a sua reforma, como muitos têm?

- Vejo à minha volta muita gente que pensa que depois de 30 anos de trabalho não vai ter reforma. Se todos vão ser punidos pelas medidas que estão a ser tomadas, por que é que eu não haveria de ser?

- Disse que o auditório que assistiu à sua última aula estava a abarrotar por causa da “falta de acontecimentos” no País. Não acha que sejamos um povo de filosofar?

- Não se filosofa por razões interiores, é por acontecimentos externos a nós que nos abanam, que nos violentam o pensamento, e somos obrigados a pensar. Não temos muitos filósofos talvez porque há uma pregnância extrema da religião e talvez da poesia, que pretendem dar respostas àquilo que os filósofos se interrogam.

- Fale-me do medo. Pela primeira vez, na democracia nacional, sente que se caminha para um estado de medo do primeiro-ministro José Sócrates?

- As sondagens mostram o contrário. Mas elas são paradoxais porque o medo em relação ao futuro é maior hoje. A confiança em relação aos dirigentes, em geral, não me parece aumentar. E no entanto as sondagens dão uma confiança sólida constante que os portugueses manifestam em relação ao primeiro-ministro.

- Será também por falta de Oposição?

- É certamente falta de Oposição, que está em frangalhos. Mas é sobretudo resultado do medo que os portugueses têm de se encontrar perdidos. Nós estamos sob um clima ameaçador e estamos cada vez mais perdidos. Resta-nos um homem que aparece aí sabendo que o futuro vai ser bom. E os portugueses agarram-se a ele.

- E podemos confiar nele?

- Sócrates já passou a símbolo de único alicerce. É por isso que não se vai embora.

- É propaganda?

- Não. É o que uma personalidade e um discurso firmes, com certezas, provoca como efeito em pessoas perdidas.

- Isso serve os nossos interesses?

- Claro que não serve. Claro que se de repente tirar esse homem, cai tudo para o lado. E fica tudo ainda mais caótico.

- E está a construir alguma coisa?

- Está-me a levar agora para uma discussão sobre a política geral do Governo de Sócrates e do PS, não é?

- E não quer entrar por aí!?

- Não, é muito longo.

- Muito bem. Orgulha-se de ter pertencido à classe dos professores?

- Não é bem orgulho, tenho “fierté”, esse brio interior de pertencer a uma corporação em que o trabalho é para a comunidade. Ver, de repente, um aluno a abrir-se para qualquer coisa é um espectáculo extraordinário. Infelizmente não se dá a importância na sociedade aos professores.

- São maltratados?

- Foram. Há bastante tempo, mesmo antes do Governo de Sócrates e da ministra Maria de Lurdes Rodrigues ter devastado o ensino, no meu entender.

- E continuam a ser?

- Ainda não se viu. É demasiado cedo.

- Publicou em 2005 o best-seller ‘Portugal Hoje – O Medo de Existir’, considera-se popular?

- Popular é ser uma ‘star’ qualquer.

- Já se googlou? Procurou na internet saber o que se diz sobre si?

- Não. Já me fizeram ver o que dizem de mim na internet. E não me interessa.

- O que diziam de si?

- Sei lá. Repartia-se entre agradecimentos e o total desprezo pelo que digo.

- O que fez José Gil a este País para que se lesse o seu ensaio filosófico?

- Eu não tenho resposta para isso. Certamente que o tema interessa aos portugueses. E talvez porque consegui ser claro.

- E atingiu os medos das pessoas.

- Acho que sim. Isto resume-se numa frase: Temos extraordinárias potencialidades e múltiplos factores históricos e sociais que criaram em nós uma cultura de medo, o que inibe as nossas potencialidades de nos exprimirmos.

- A Economia será um dos inibidores?

- Será um factor maior. Além do medo de se exprimirem, existe um medo económico, que inibe o primeiro. Sabe aquelas imagens que vemos da Grécia?

- Teme uma convulsão social cá?

- Não tenho resposta. Acredito que possa haver muito mais manifestações de rua.

- Como vivem os partidos de Esquerda em Portugal?

- Partidos como PCP e o BE vivem numa espécie de equívoco interno, pelo facto de as suas críticas a tudo o que é de Direita se fundarem em qualquer coisa que é o Marxismo, sem que possam propor uma alternativa. O Marxismo não se renovou numa teoria do poder, por exemplo. Então, quando se pergunta qual a alternativa global que o PCP propõe para Portugal, o que vamos ter como resposta? Uma segunda União Soviética mas à maneira portuguesa? Está a ver que isso não dá.

- Onde é que se situa politicamente?

- Situo-me politicamente na Esquerda que não existe. Mas a Direita tal como nós a conhecemos tradicionalmente, o funcionamento do capitalismo, é para mim um dos factores de caotização da sociedade.

- Em quem vota?

- Não me pergunte. O meu voto é muitas vezes circunstancial. E infelizmente muitas vezes o meu voto é negativo. Voto em A porque não quero votar em B.

- O seu livro ainda está actual?

- Não sei. Muita coisa mudou, certamente. Mas as estruturas profundas que entravam esse dinamismo que devia haver na sociedade devem ter permanecido.

- É um homem de paixões?

- Ah, sim. Para mim a vida é fundamentalmente paixão. Quer dizer, um desencadear de energia que pode ser por exemplo a paixão pela criação. Isso abre uma liberdade.

- Está apaixonado pela vida?

- Eu não estou apaixonado pela vida. Se eu a vivesse como vivi… A vida deve ser vivida apaixonadamente.

- Por que é que fala no passado?

- Porque eu vivi um período colectivo, em França, único: Os anos 50, 60 e 70. A paixão intelectual atravessou milhares de pessoas. Foi o momento em que, em Paris, tudo se transformou – artes, cinema, literatura, filosofia, antropologia.

- O facto de ter nascido em Moçambique influenciou o seu pensamento?

- Certamente. E das maneiras mais esquisitas, não foi propriamente só de maneira harmoniosa. Por difracções, por desfasamentos entre a língua e o Sol e a geografia. Entre os espaçamentos entre uma comunidade negra imensa e ilhotas, que eram os brancos.

- Sentia-se apartado?

- Não. Mais tarde, aos vinte e tal anos, quando pensei nisso, verifiquei que ali havia qualquer coisa que me era interdita de viver. Mas que eu não sentia como falta.

- Voltou para Portugal há 29 anos; Gostava de ter ficado em França?

- Houve um tempo em que eu teria dito imediatamente que sim. O rumo do meu pensamento modificou-se sobretudo por falta de bibliotecas em Portugal. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade francesa é muito fechada aos estrangeiros. Eu nunca pretendi ser francês.

- O que resta hoje da sua família?

- Eu tenho uma grande família portuguesa do lado paterno e do lado materno. Já não via familiares da Beira, naquela região do Fundão, há muito tempo e há dois anos fui lá. Eu próprio tratei as pessoas como se tivesse deixado de as ver na véspera.

- Gosta dos seus 71 anos?

- A minha idade cronológica não corresponde a outra idade que não sei qual é, mas que é a idade de vida. Eu serei velho pela idade, mas não me sinto velho.

“A LITERATURA É UMA ACTIVIDADE QUE EM MIM É FRUSTRADA”

- Gostaria de ter seguido por uma área das Belas-artes? A sua mãe era poeta.

- Tenho três romances pequeninos publicados. A literatura é uma actividade que em mim é frustrada porque não segui por aí. Mas durante muitos anos, quando eu era novo, eu hesitava entre a filosofia e a literatura.

- Imagino que hoje já não hesita!?

- Hoje não hesito.

- Mas desde que deixa o ensino tem portas abertas para fazer o que quiser.

- Absolutamente. E é verdade que eu penso no que está a dizer.

“NÃO TENHO BEM IDEIA DO QUE FIZ”

- Na sua última lição não fez um balanço. Porquê?

- Porque em Portugal não há verdadeiramente uma comunidade filosófica. Eu não tenho bem ideia do que fiz e do que pude transmitir. Foi uma surpresa ver na última lição tanta gente. Se eu soubesse fazer o balanço, talvez não me devesse surpreender.

- Não lhe serve de balanço ter sido nomeado um dos 25 mais importantes pensadores do Mundo?

- Não me sobe à cabeça essa classificação. Eu tenho a consciência de uma certa singularidade até pelo que eu deliberadamente não faço: Quando há qualquer coisa já dita, já feita, eu não repito.

PERFIL

José Gil, 71 anos, nasceu em Moçambique. Em 1957 veio para Lisboa estudar Matemáticas. Mas depressa mudou para Filosofia e licenciou-se em Paris. Há 29 anos regressou para Portugal como professor de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, onde deu a sua última aula a 10 de Março último. É autor de vários livros, entre eles o best-seller ‘Portugal Hoje – O Medo de Existir’ (ed. Relógio d’Água).

(fim)

Numa entrevista ao Público em 3 de Janeiro deste ano, Gil fez uns comentários curiosos, em que não me revejo de forma alguma mas que diz algo da sua experiência moçambicana:

O primeiro: “O nosso vocabulário lá [em Moz] era para os lírios do campo, que não existiam lá. Cantávamos canções na escola primária, que era sobre o campo, em Portugal. Portanto, vivíamos em distância”.

O segundo: “O facto de existirem criados cria nos filhos de colonos uma horrível noção de se julgarem eleitos. Sabe o que é ter cinco criados, alguns deles com barbas brancas, e você, com três, quatro anos, dá-lhes ordens?”. E conclui: “ Fica julgando que é rei do mundo. E isso continua. Isso forma-o. É um estrato que lhe provoca o pior. Uma consciência de uma suprioridade que não tem. Nada lhe permite esse sentimento de superioridade. Não tinha esta consciência, mas tinha este sentimento. Como todos os brancos.”

Bolas. Os BM deviam ser os únicos brancos do Moçambique colonial que praticamente não tinham criados. Tivemos um ou outro, por pouco tempo, nunca resultou, e um deles uma vez deu-me uma valente bofetada por eu lhe ter feito não sei o quê e a seguir ia levando outra da minha mãe. O que não é bem aquela cena do patrão colonial cabrão de que tanto se gosta de protagonizar. Lá em casa também não se deambulava sobre as implicações sócio-culturais da relação de forças entre o criado preto e o patrão branco e as ilacções cósmicas para ambas as partes e o mundo. E é uma pena, porque hoje daria panos para mangas e até está na moda regurgitar sobre isso.

São as memórias autobiográficas.

Mas é bom saber que havia gente como o Zé que lá em casa tinha cinco criados e que deixavam os putos de quatro anos dar ordens neles. Se eu fosse preto, assim, eu até eu matava tudo para me libertar.

Ou melhor, nas circunstâncias, para escolher outro jugo.

Pois cedo se descobre que na verdade na verdade, qualquer relação de subjugação tem surpreendentemente pouco a ver com a cor da pele. Tem muito mais que ver com o respectivo grau de estupidez das partes envolvidas. E que o “colonialismo” era apenas a codificação temporária da estupidez de uma geração numa dada era. Enfim. Os romanos tinham escrevatura, n’est ce pas?

Adorei ler o, e sobre o, Zé Gil, mas como ele não quer saber no Gúgele o que dizem dele, ele nunca vai saber disso.

27/03/2010

A OUTRA MAPUTO

Filed under: A outra Maputo, Maputo, Maputografia, Quem Vive na Periferia — ABM @ 4:06 am

Quando Maputo era LM, 1970. Vista da rotunda ao pé do Hotel Girassol. Foto tirada pelo pai BM

por ABM (Alcoentre, 27 de Março de 2010)

Há dias, falou-se nesta casa num mega-projecto que cedo se confirmou e que importará num investimento imobiliário de luxo na zona da FACIM, com o valor de 1200 milhões de dólares.

O meu amigo Deep Throat do Centro (DTC) referiu-me um artigo da autoria de Floris e Moschetti, publicado há um ano na Além-Mar e que aborda assunto concomitante, que é a inexorável migração das populações rurais para as zonas urbanas e, neste caso, o que é que isso pode significar. Merece leitura e aqui se reproduz com vénia:

Bairros de lata: vulcões prestes a explodir
por: F. FLORIS e D. MOSCHETTI

O êxodo rural, as calamidades naturais e a crise económica global estão a fazer aumentar assustadoramente a população urbana pobre, sobretudo nos países a sul do mundo. Com habitantes a viverem na incerteza e na precariedade, sem oportunidades reais, os bairros-de-lata configuram-se como vulcões prontos a explodir a qualquer momento e pretexto.

Em África a população das grandes cidades aumentou 10 a 12 vezes entre 1960 e 2005. Este incremento não esteve associado a um desenvolvimento económico correspondente. Pelo contrário: o produto interno bruto (PIB) diminuiu 0,66 por cento ao ano. Contudo, as cidades em África jogam um papel crucial no crescimento económico nacional. Hoje, em geral, a taxa anual média de crescimento da população africana anda à volta de 4 por cento, enquanto o das grandes cidades atinge 8 por cento, e não são casos excepcionais os de cidades que crescem 10 por cento ou mais, especialmente em regiões onde o êxodo rural se acentua devido a calamidades naturais ou fenómenos ligados ao desenvolvimento desigual do território.

Miragem

Além disso, a taxa de crescimento populacional em instalações urbanas precárias e marginais é por vezes superior a 25 por cento ao ano. Anualmente, mais de 5 milhões de africanos procuram uma nova residência nas periferias das cidades. A grande maioria da nova população urbana parece destinada a sobreviver na total incerteza, na precariedade, na procura, destituída de oportunidades reais, de uma melhoria das suas condições de vida, à margem da «grande miragem» representada pela cidade moderna. Escreve Peter C. W. Gutkind, autoridade de renome mundial no campo da antropologia urbana, falecido em 2001: «As cidades da África são, na maioria, novas. O seu nascimento é fruto da colonização que modelou a estrutura urbana com base em modelos não africanos, que favorecem um modo de vida completamente diferente e alheio à realidade local.» O resto fê-lo a incúria para com as zonas rurais – falta de investimentos e de apoio à economia familiar e de políticas tendentes à protecção dos solos – e a ausência de investimentos na construção civil popular nas cidades.

O primeiro factor, isto é, a falta de projectos tendentes a proteger as áreas rurais, provoca a fuga das aldeias e determina a decisão de procurar algures um lugar onde satisfazer as necessidades que a vida nas aldeias não satisfaz. Esta procura concentra-se na única alternativa possível: a cidade. Assim, a presença de um sistema urbano inarticulado implica e favorece a concentração de populações em pouquíssimos centros, que têm de acolher fluxos relevantes de gente.

Bairros-de-lata

É um «crescimento urbano sem cidade» que dá origem aos famigerados «slums», os bairros-de-lata: espaços autoconstruídos em terrenos do Estado, sem que haja um único tijolo, uma única viga de ferro e um único metro quadrado de vidro. «Nos países em vias de desenvolvimento», recorda-nos o professor Claudio Stroppa, «a dissolução da estrutura agrária agrava o êxodo dos camponeses sem terra; os bairros-de-lata acolhem-nos e desempenham um papel de mediação entre cidade e campo. Os bairros-de-lata muitas vezes consolidam-se e oferecem aos seus habitantes um “sucedâneo” da vida urbana, porventura miserável, mas muito intensa.»

Os efeitos destas contradições são evidentes na expansão das cidades. Trata-se de espaços complexos, onde estão presentes muitos dos contrastes que caracterizam a vida do planeta. Trata-se de cidades divididas por numerosas fronteiras, cujo simples atravessamento produz o sentido de passagem de uma fronteira a outra. Mas são fronteiras não simplesmente físicas: para entrar nos slums passa-se pela «fronteira do medo», enquanto para aceder aos bairros ricos se atravessa a «fronteira do bem-estar».

As cidades assim fragmentadas, em vez de serem lugares de encontro e de integração entre grupos sociais diferentes pelo nível económico, cultura e proveniência, transformam-se numa espécie de arquipélago constituído por muitas ilhas, marcadas pela qualidade das suas construções, pela presença (ou ausência) de infra-estruturas e serviços, pelas maiores ou menores condições de segurança.

Obviamente, as ilhas comunicam, os seus habitantes entrelaçam relações, e uma chave de entrada de uma ilha a outra é a conveniência económica, capaz de instituir relações e níveis de comunicação. Os ricos precisam de mão-de-obra barata e os pobres precisam de trabalhar. Nascem, assim, os intercâmbios, as subempreitadas, o fornecimento de serviços, o comércio nos slums de produtos industriais. Protagonista deste fluxo é o sector informal da economia, capaz de gerar postos de trabalho, riqueza e capacidade de poupança para a maioria dos habitantes das residências informais.

Confrontações

As ilhas vivem lado a lado e, no dia-a-dia, por vezes confrontam-se. Mas apresentam aspectos fortemente contrastantes: há island cities, «cidades-ilhas» ricas, do Primeiro Mundo, e outras pobres, do Terceiro Mundo. De um ponto de vista estético, o moderno arranha-céus e a barraca são os símbolos de cidades-arquipélagos, como Nairobi, Joanesburgo e Rio de Janeiro.

As island cities vivem em dois níveis. Uma parte «está no alto», ligada economicamente com o resto do mundo, porque a tecnologia que sustenta a rede global permite trabalhar e comunicar via éter. Esta parte do arquipélago está acima da outra e, muitas vezes, comunica mais em sentido horizontal, com as distantes cidades do mesmo nível, do que verticalmente, com o resto da própria cidade. A parte pobre do arquipélago, pelo contrário, está fortemente ligada à terra, porque luta diariamente para pertencer a essa terra, quer ocupando as estradas com os trabalhos informais, quer construindo a sua casa, geralmente pequena, pelo menos ao início, para poder ser edificada no menor espaço de tempo possível.

Na África Subsariana, na América Latina, no Médio Oriente e em algumas regiões da Ásia, a urbanização sem crescimento é também o resultado de uma conjuntura mundial específica – a crise da dívida do fim dos anos 70 e a reestruturação das economias em vias de desenvolvimento sob a égide do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 80 – e não tanto do êxito sabe-se lá de que lei coerciva do progresso tecnológico.

Explosão

A explosão dos bairros-de-lata foi analisada pelo relatório das Nações Unidas de 2003, The Challenge of Slums, «O desafio dos bairros-de-lata». O texto, o primeiro autêntico estudo a nível mundial sobre a pobreza urbana, compreende inteligentemente diversas sondagens locais, de Abidjão a Sydney, e estatísticas globais que incluem, pela primeira vez, a China e os países do antigo bloco soviético. O relatório lança uma advertência sobre a ameaça planetária da pobreza urbana. Os autores definem os bairros-de-lata como espaços caracterizados por sobrepovoamento, habitação precária ou informal, reduzido acesso à água corrente e aos serviços de saneamento, vaga definição dos direitos de propriedade.

Trata-se de uma definição pluridimensional e, em parte, restritiva, na base da qual se calcula, contudo, que a população dos bairros-de-lata atingia em 2001 pelo menos a 921 milhões de pessoas. Hoje os habitantes destes aglomerados representam 78,2 por cento da população urbana dos países menos desenvolvidos e um sexto dos cidadãos do planeta. Considerando a estrutura demográfica da maior parte das cidades do Terceiro Mundo, pelo menos metade desta população tem uma idade inferior a 20 anos.

A taxa mais elevada de habitantes de bairros-de-lata regista-se na Etiópia e no Chade, com 99,4 por cento da população urbana. Seguem-se o Afeganistão, com 98,5 por cento, e o Nepal, com 92 por cento. Todavia, as populações urbanas que mais se encontram na miséria são certamente as de Maputo (Moçambique) e Kinshasa (R. D. Congo), onde o rendimento de dois terços dos habitantes é inferior ao mínimo vital diário. Em Nova Deli, os urbanistas deploram a existência de «bairros-de-lata dentro de bairros-de-lata»: nos espaços periféricos, à histórica classe pobre da cidade expulsa em meados dos anos 70 acrescentam-se recém-chegados, que colonizam os últimos espaços livres. No Cairo, Egipto, os que chegam agora ocupam e arrendam partes de habitações sobre os tectos, gerando novos bairros-de-lata «suspensos no ar».

População subestimada

A população dos bairros-de-lata é muitas vezes subestimada, por vezes em grandes proporções. No final dos anos 80, por exemplo, Banguecoque, a capital da Tailândia, tinha uma taxa oficial de pobreza só de 5 por cento, mas alguns estudos demonstravam que um quarto da população, o equivalente a 1,10 milhões de pessoas, vivia nos bairros-de-lata e em habitações de risco.

Existem mais de 250 mil bairros-de-lata no mundo. As cinco grandes metrópoles da Ásia do Sul (Carachi, Bombaim, Deli, Calcutá e Dacca) albergam quase 15 mil zonas urbanas tipo do bairros-de-lata, para uma população total de mais de 20 milhões de pessoas. Os habitantes dos bairros-de-lata são ainda mais numerosos nas costas da África Ocidental, enquanto imensas urbanizações de pobreza se estendem até à Anatólia e aos planaltos de Etiópia, envolvem as zonas aos pés dos Andes e dos Himalaias, proliferam à sombra dos arranha-céus da Cidade do México, Joanesburgo (África do Sul), Manila (Filipinas), São Paulo (Brasil) e colonizam as margens do rio Amazonas, do Congo, do Níger, do Nilo, do Tigre, do Ganges, do Irrawaddy e do Mekong.

Os nomes do «planeta-bairros-de-lata» são todos intercambiáveis e, ao mesmo tempo, únicos no seu género: bustees em Calcutá, chawl e zopadpatti em Bombaim, katchi abadi em Carachi, kampung em Jacarta, iskwater em Manila, shammasa em Cartum, umjodolo em Burban, intra-muros em Rabat, bidonville em Abidjão, baladi no Cairo, gecekondou em Ancara, conventillos em Quito, favelas no Brasil, villas miséria em Buenos Aires e colónias populares na Cidade do México.

Um estudo recente, publicado pela «Harvard Law Review», calcula que 85 por cento dos habitantes das cidades do Terceiro Mundo não possui nenhum título de propriedade legal. Está em acto uma contradição estridente, porque o terreno onde crescem os slums é de propriedade dos governos, enquanto as casas construídas são de propriedade de poucos que impõem rendas puxadas aos pobres urbanos, os quais não possuem sequer a barraca em que vivem.

Dependência

As formas de instalação dos bairros-de-lata são muito variáveis: desde as invasões colectivas da Cidade do México e Lima aos complexos e muitas vezes ilegais sistemas de arrendamento dos terrenos na periferia de Pequim, Carachi e Nairobi. Em algumas cidades, por exemplo em Nairobi, o Estado é formalmente proprietário da periferia urbana, mas a especulação fundiária permite ao sector privado realizar enormes proventos à custa dos mais pobres. Os aparelhos políticos, nacionais e regionais, contribuem para este mercado informal – e para a especulação fundiária ilegal – e conseguem inclusive controlar as vassalagens políticas dos habitantes e explorar um fluxo regular de rendas e luvas. Destituídos de títulos de propriedade legais, os habitantes dos bairros-de-lata são obrigados a uma dependência quase feudal com relação aos políticos e burocratas locais. A mínima infracção à legalidade clientelar resolve-se com a expulsão.

A oferta de infra-estruturas, pelo contrário, está longe dos ritmos de urbanização, e os bairros-de-lata muitas vezes não têm qualquer acesso ao saneamento e aos serviços do sector público. E todavia, apesar de serem locais que se definem em termos de ausência – aquilo que não têm diz o que são –, os slums atingirão os 2 mil milhões de habitações em 2030, porque representam a única solução habitacional para a humanidade em excesso do século XXI.

Os bairros-de-lata poderão transformar-se em vulcões prestes a explodir? E os habitantes poderão transformar-se em sujeitos políticos capazes de «fazer história»? Muito dependerá da capacidade de desenvolver uma cultura de organização colectiva, mesmo se, como explicava Kapushinski, «os pobres, normalmente, estão calados. A miséria não chora, não tem voz. A miséria sofre, mas sofre em silêncio. A miséria não se revolta. De facto, os pobres só se insurgem quando pensam poder mudar alguma coisa». Saberemos ser parte desta mudança?

Amontoados nas cidades

Durante este ano de 2008, a população urbana terá superado a população rural. O processo de urbanização do planeta desenvolveu-se mais rapidamente do que o previsto pelo Clube de Roma no famoso estudo «Os limites do crescimento» publicado em 1972. Em 1950 existiam no mundo 86 aglomerados urbanos com mais de um milhão de habitantes. Hoje são 400. E calcula-se que, no ano 2015, serão 550. Desde 1950, os centros urbanos absorveram dois terços da explosão demográfica do mundo. Hoje os números da população urbana (3200 milhões de pessoas) ultrapassam os do conjunto da população mundial em 1960.

As previsões indicam que 95 por cento do crescimento da humanidade terá lugar nas zonas urbanas dos países emergentes. A população destes países deverá duplicar no curso da próxima geração. Este crescimento será liderado por países como a China, a Índia e o Brasil. A característica mais espectacular desta evolução será o multiplicar-se das cidades com mais de oito milhões de habitantes e o impacto das megacidades com mais de 20 milhões de habitantes. Na Ásia, por exemplo, em 1995 só Tóquio tinha atingido estes níveis de urbanização. Mas calcula-se que em 2025 só na Ásia haverá mais de 10 aglomerados urbanos destas dimensões, entre eles: Jacarta, na Indonésia, que terá uma população estimada em 24,9 milhões de habitantes; Dacca, no Bangladesh, que terá uma população de 25 milhões; Carachi no Paquistão com 26,5 milhões de habitantes; Xangai, na China, com 27 milhões; Bombaim, na Índia, com 33 milhões.

Mas a urbanização não dirá respeito só às megacidades. O crescimento urbano acentuar-se-á sobretudo nas cidades pequenas e médias, zonas urbanas secundárias, muitas vezes a acrescer sem planificação e serviços adequados. A China é o exemplo desta urbanização: o número das cidades passou de 196 em 1978 para 640 em 2008. Também na África, o crescimento explosivo de grandes cidades como Lagos, na Nigéria (que passou de 300 mil habitantes em 1950 para os 10 milhões de hoje) foi acompanhado pelo crescimento de pequenos aglomerados urbanos, como Ouagadougou no Burkina Faso, Douala nos Camarões, Antananarivo no Madagáscar. Na América Latina, enquanto antes o crescimento urbano foi monopolizado pelas grandes urbes, hoje são as cidades pequenas a crescer mais, como Tijuana no México, Curitiba, Salvador e Belém, no Brasil, Temuco no Chile. Na China, o êxodo da população rural para as cidades é determinado por uma revolução industrial e um processo de transformação social em acto. Mas em muitos dos países do Sul o processo de urbanização é alimentado por outras causas e não é acompanhado pela industrialização nem por qualquer outra forma de desenvolvimento e de promoção social.

O SÓCRATES DO PSD ?

Filed under: Politica Portuguesa — ABM @ 3:40 am

por ABM (Alcoentre, 27 de Março de 2010)

Este senhor quer ser primeiro ministro de Portugal.

Antes, quero ver se ele é mesmo presidente do seu partido.

A ver vamos.

PLAY IT SAM

Filed under: Icones — ABM @ 3:00 am

http://www.youtube.com/v/7vThuwa5RZU&hl=en_US&fs=1&

por ABM (Alcoentre, 27 de Março de 2010)

A cena mais memorável do filme mais memorável, Casablanca, Óscar de melhor filme em 1943.

Já perdi a conta ao número de vezes que já vi este filme. Para quem veio de África aos pontapés, há interessantes paralelos com o “we’ll always have Paris” com que Rick se despede de Elsie no fim do filme.

Para além da evocação dos casos de amor mal resolvidos.

E de que nesta vida é suposto haver valores mais altos que as meras vidas de duas pessoas.

Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, imortalizados.

CARMEN MIRANDA

Filed under: Icones — ABM @ 2:42 am

A portuguesa de origem mais famosa do século XX.

Bom fim de semana.

20/03/2010

JOSÉ SÓCRATES E AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Filed under: Globalização, Politica Portuguesa, Sociedade portuguesa — ABM @ 12:56 pm

por ABM (20 de Março de 2010)

Os dados acima reproduzidos, divulgados no Economist de ontem, foram preparados pelo Met Office Hadley for Climate Change, sedeado no Reino Unido, uma das instituições europeias líderes no estudo das alterações climáticas.

Do lado esquerdo, em azul, vêem-se as variações das médias das temperaturas em terra. A linha castanha indica as tendências dessas variações anuais.

Do lado direito, em azul, estão as variações das médias das temperaturas nos oceanos. A linha castanha indica as tendências dessas variações anuais. A linha laranja, mesmo por cima, indica as tendências relativamente à temperatura do ar mesmo por cima do mar.

Claramente, algo se passa no mundo desde pelo menos o final dos anos 70. E não são só estes dados, publicados ontem, que o indicam. O norte-americano Albert Gore, o antigo vice-presidente de William Clinton, ganhou um prémio Nobel por conduzir uma campanha, centrada num filme que paguei para ver, em que foca nas tendências em termos da componente de dióxido carbono na atmosfera terrestre.

Concumitantemente, nos últimos dez anos, pessoas, governos e empresas começaram a adoptar medidas no sentido de mitigar os efeitos altamente poluentes do nosso actual estilo de vida.

Olhemos ao que se passou no mundo nos últimos 35 anos.

Essencialmente, a Guerra Fria acabou, o Brasil, a China e a Índia surgiram como gigantes industriais e tecnológicos, e a população do mundo quase que duplicou.

Consideremos agora Portugal e em maior detalhe.

Para um português com mais do que 45 anos (e eu tenho 50) 35 anos é mais ou menos desde que alguns militares que fizeram um pronunciamento em Portugal acabaram com o projecto colonial português entregando o poder aos movimentos de guerrilheiros da altura e assim despacharam Angola e Moçambique e o resto.  Em Portugal, os comunistas estiveram a um fio de tomar o poder e, com a ajuda de uns valentes sacos de dinheiro dos nossos amigos alemães, de Frank Carlucci e dos outros militares, estes os não comunistas,  Mário Soares adquiriu as suas credenciais degladiando-se com Cunhal e ajudando a inaugurar a III república. Com um algo doentio complexo de esquerda, a III república proclamou-se “socialista” e democrática.

Economicamente, a III república tem sido basicamente um desastre. Logo no início, com uma justificação sócio-política, expropriou praticamente tudo o que interessava às classes previamente abastadas, acompanhadas por vagas ameaças de mandados de captura e assédio a sério. Champalimaud, Mellos e Espíritos Santos refugiaram-se na Suíça, Espanha e Brasil e quase que tiveram que começar do zero. Aqui, aumentaram-se generosamente os salários – 13º mês, subsídio de férias, emprego garantido para toda a vida e o maior sector público de sempre. Mediante a constante desvalorização do escudo e o aliciamento, com um custo significativo, do envio dos fundos ganhos no estrangeiro por portugueses emigrados, a economia foi-se aguentando até ocorrer um pequeno crash, entre 1983 e 1985. Foi nessa altura que Mário Soares um dia foi à televisão antes do Natal e disse aos portugueses que trabalhavam que o subsídio de Natal desse ano ia ser comido como imposto. Um pouco como está a acontecer agora com os chamados “bónus”.

Por essa altura, ocorreu a adesão à então Comunidade Económica Europeia, que foi negociada por Soares mas aproveitada por um então praticamente desconhecido Aníbal Cavaco Silva. Durante os quinze anos que se seguiram, choveu dinheiro em Portugal.

Foi uma verdadeira festa.

Os dois mandatos consecutivos de Cavaco Silva foram curiosos, pois se por um lado se assistiu a um enorme acrescento na infra-estrutura pública, e a um aparente regresso a uma economia um pouco mais empresarial, em que surgiram dois bancos privados de raíz e se iniciou a privatização de parte do que o que os comunistas tinham nacionalizado em 1975, na realidade o que sucedeu foi que o aparelho de Estado, e especialmente as despesas públicas, e ainda mais os impostos, dispararam quase desmesuradamente. Foi Cavaco Silva que introduziu o IVA, que instituiu aumentos de ordenados fantásticos para os funcionários públicos e, quase no fim do seu mandato, negativamente simbolizado por um protesto contra um aumento na portagem em uma das pontes que serve Lisboa, e ainda por não ter concedido tolerância de ponto num dia de carnaval, Cavaco muda fundamentalmente as regras de financiamento do Estado.

Até então, o governo financiava-se essencialmente junto da banca portuguesa, o que tinha um efeito de crowding-out em termos da procura doméstica do dinheiro. Isso significava que o crédito no país era extremamente caro e limitado. O crédito ao consumo era proibitivo praticamente proibido, e financiar uma casa era a 12 anos e custava entre 20 e 25% de juros ao ano – o exmo leitor lembra-se?

Ao passar a financiar-se no estrangeiro, de repente a banca portuguesa tinha uma fonte quase inesgotável de dinheiro, mas sem saber o que fazer com ele. A solução? emprestá-lo – ou melhor, nalguns casos impingi-lo – aos consumidores e empresas. Simultaneamente, ao aderir ao Sistema Monetário Europeu, que desembocaria em 2002 na extinção do Escudo e a adopção do euro, as taxas baixaram para níveis impensáveis apenas quatro anos antes.

Foi a segunda festa, ainda maior que a primeira, pois por esta altura os portugueses já se tinham habituado à boa vida. Mas pela primeira vez em séculos, os portugueses tiveram a ilusão de que eram “europeus”. Toda a gente comprou casa, comprou carro, passou a aquecer a casa no inverno, passou a ir de férias uma e duas vezes por ano ao estrangeiro, passou a usar roupa de marca, passou a andar de telélé na mão, televisão a cores na sala e no quarto. Quase duma assentada, criaram-se gigantescos centros comerciais por toda a parte, o maior dos quais chama-se Freeport.

Rapidamente, os bancos portugueses tiveram tanto sucesso nos seus esforços que também eles começaram-se a financiar no estrangeiro. A certa altura, dezenas de milhões de euros por dia fluiam para Portugal em empréstimos públicos e privados.

Mas o que aconteceu entretanto na indústria e no comércio? por via da entrada maciça de produtos europeus, sucedidos por produtos chineses após a adesão da China à Organização Mundial do Comércio, Portugal passou a importar quase tudo e a preços que não havia uma empresa que conseguisse bater. A partir do fim dos anos 90, assistiu-se à crescente desindustrialização do país nos têxteis, na pesca, na agricultura, no calçado. Ineficazes, e por causa da forma como as leis operam em Portugal, as empresas não faliam: vegetavam numa longa, infindável agonia. A forma de combate normal a um mercado de trabalho insuportavelmente rígido e com férreas leis que protegem os empregados para além de quase qualquer lógica era convidar pessoas com 40, 50 anos de idade para a “reforma”. Cá chamam-lhes “reformas antecipadas”. Isto sem considerar as situações, amplamente divulgadas, de pessoas que, inexplicavelmente, acumulam duas, três, quatro reformas. O rol de “reformados” disparou e, para fazer face à crescente despesa, aumentaram-se mais os impostos e os descontos forçados.

E entretanto os portugueses, que se tornaram ricos, e já praticamente não tinham filhos, deixaram de fornicar ao nível mínimo para manter uma população sustentável. Para além do aparecimento das empregadas ucranianas, dos dentistas brasileiros e dos médicos angolanos (todos bem-vindos, atalhe-se) criou-se uma situação em que daqui a dez anos, cada português que trabalhe terá que sustentar com os seus impostos um reformado. Na geração do meu pai o rácio era de 10 para 1. Incapaz de atrair investimento, o governo pagou milhões à Volkswaggen e a outras empresas para abrirem fábricas em Portugal.

Entretanto, e ao mesmo tempo que a manufactura, a indústria e o comércio implodiam, e os níveis de emprego eram mantidos artificalmente, citavam-se dogmas indecifráveis para o cidadão comum: que Portugal estava-se a deslocar para uma economia de conhecimento, para uma produção com valor acrescentado, para uma nova era tecnológica, para uma economia “limpa”.

Enquanto tudo era dito, silenciosamente, o governo engordava, aumentava os impostos e a dívida pública e privada e pública explodiam.

Entra José Sócrates em cena.

Em boa verdade, quando José Sócrates ganha a sua maioria absoluta em 2004, os males que acima descrevio  já estavam basicamente em fase quase terminal.

Mas como é típico dos políticos portugueses, ele fez o que todos fazem quando confrontado com um défice medonho: simplesmente, aumentou os impostos.

E a coisa teria corrido bem mais uns anitos, não fosse a circunstância de os americanos se terem metido naquele inferno chamado “a crise do sub-prime”, que começou no final de 2007 mas que abalou o mundo no final de Setembro de 2008, quando, no espaço de duas semanas, a quase totalidade do sistema financeiro mundial, liderado pelos Estados Unidos, entrou em colapso.

A resposta do governo português foi gastar o que tinha e o que não tinha, em nome de coisas nobres como a estabilidade, a coesão social e outras coisas. No fim de 2009, a taxa de desemprego estava nos 10%, o défice do orçamento 9.3% do produto nacional bruto português e as taxas de endividamento público e privado verdadeiramente astronómicas. O incêndio da falência de dois bancos foi apagado com uma loucura em termos de dinheiro (não se sabe ainda ao certo esse velor, que é na ordem dos milhares de milhões de euros). As exportações caíram 20%.

Para além dos constantes escândalos e suspeitas e amigos duvidosos – e isso já dava panos para mangas, – o mandato de José Sócrates tem sido marcado por algumas características peculiares, algumas em contradição umas com as outras.

Por um lado, ele é o primeiro ministro das grandes obras que nunca mais se fazem: mais pontas sobre o Tejo, um novo aeroporto primeiro na Ota e depois não sei aonde no outro lado do rio junto duns campos de arroz, de auto-estradas de toda a parte para toda a parte, de uma linha de comboio cuja lógica eu simplesmente não entendo, de subsídios para assegurar “padrões mínimos de riqueza.

É o ministro das iniciativas com nomes sonantes, desde o “Plano Tecnológico” às “Novas Oportunidades”, o (caríssimo) programa do computador Magalhães, da reforma dos procedimentos administrativos do Estado, da desburocratização.

É o ministro da ecologia, das energias renováveis e limpas, do uso do aquecimento solar, dos benefícios fiscais para as renováveis, dos parques eólicos, dos carros eléctricos. Quer que Portugal seja líder mundial nesta área. Acabou de lançar a iniciativa misteriosamente apelidade de “re, new,able”.

Por outro lado, ele é suposto endireitar as contas públicas de alguma forma. Face ao rescaldo de 2008, ele praticamente não fez nada em 2009 para além de atirar dinheiro à fogueira (havia eleição em finais de Setembro, que ele venceu com maioria simples) e agora aumentou novamente os impostos, em toda a linha. Ainda quer fazer alguns dos projectos acima referidos, e basicamente não vai fazer nada com as despesas públicas, usando em vez disso uns últimos cartuchos que sobraram de 1975, vendendo (a quem, não sei, mas não deve ser a portugueses) o que resta das empresas públicas em que o estado mantém participações.

Ora, eis o paradoxo, que desdobro em dois:

1. A criação de mecanismos para a produção de energias alternativas, sendo totalmente meritória, é quase ruinosamente cara, numa altura em que em todo o mundo os combustíveis fósseis continuam a ser muito mais competitivos do que as alternativas (e Portugal fingir que não é assim é patético, mesmo adoptando medidas oportunistas e ruinosas dos cidadãos tais como artificialmente e exageradamente tributar o preço da electricidade e dos combustíveis que em Portugal são dos mais caros da Europa perante o poder de compra do consumidor português).

Portugal não só não dispõe de capital para investir neste esquema, como, mesmo que o faça, o custo por unidade de custo de energia no fim será tão caro que não há indústria que resista a estes preços. Não vão conseguir competir. Ou seja, isto de ser líder nas energias vem com um custo que terá que ser pago agora, e vai ser caro, no contexto das prioridades que se apresentam agora, para benefícios que podem representar pouco ou nada em termos de competitividade.

2. O segundo paradoxo é parcialmente ilustrado pelo quadro acima reproduzido: Portugal ainda está inserido no planeta Terra, e em que é menos que 1 por cento da população europeia e uma verdadeira insignificância em termos da população mundial, que já vai nos cerca de 6200 milhões de pessoas. Os portugueses são 10 milhões. A actual geração defronta-se com desafios titânicos em termos de pôr a casa em ordem e de competir numa economia em que os bens e capitais (ainda) fluem livremente. Um Portugal limpo e verde e ecológico é excelente – mas será competitivo, quando temos uma Ásia que ainda não tem regras e uns EUA que estão ainda a começar a discutir, vagamente, o assunto? será que o que 10 milhões de portugueses vão fazer vai afectar de alguma forma as estatísticas que acima estão indicadas? e a que custo?

Eu acho que tenho o azar de pertencer à primeira geração em muitas décadas que suspeita que a geração que vem a seguir, a dos nossos filhos, vai herdar um mundo que pode ser pior do que o que o meus pais me deixaram.

E isso é muito triste.

19/03/2010

FOGE CÃO QUE TE FAZEM BARÃO – NA INHACA

Filed under: António Botelho de Melo, História Moçambique — ABM @ 6:40 pm
ABM numa praia do Baronato de Inhaca, no dia 31 de Dezembro de 1974

ABM numa praia do Baronato de Inhaca, no dia 31 de Dezembro de 1974

por ABM (Cascais, 19 de Março de 2010)

Até Almeida Garrett, que terá vociferado a frase acima (sem a referência toponímica) antes de ter sido feito Visconde de Almeida Garrett, teria ficado surpreendido, como eu fiquei, quando, ao pesquisar um detalhe sobre concessões feitas no Sul de Moçambique no fim do século XIX, “descobri” que de facto houve um Barão de Inhaca.

O título de 1º Barão de Inhaca terá sido criado pelo inefável rei D. Carlos I em 8 de Novembro de 1892 e atribuído a um tal de Alfredo Auerbach, sobre quem não sei quase nada. A não ser que morreu em Sintra, que nuns documentos ficou registado um seu protesto relativo a umas concessões quaisquer na actual Suazilândia em 1888 (quando ele ainda não era barão) e que num obscuríssimo livro da autoria de E. Torre do Vale com a ajuda de João Albasini e Mulwana Shandrake, intitulado Dicionários de Shironga-Português, Português Shironga (livro impresso em 1906 na Imprensa Nacional de Lourenço Marques, aquele velho edifício que hoje fica na baixa de Maputo em frente ao Hotel Tivoli e do Prédio 33 Andares e que consta que vai ao ar para dar lugar a mais um desses prédios de arromba) diz assim na página 317: “Appendice, contendo uma interessante resenha dos principaes cognomes ou alcunhas, pelos quaes são conhecidos entre os indígenas alguns antigos e modernos residentes em Lourenço Marques”. E no meio da lista vem: “Habela: — Barão de Inhaca”.

Ora como aquilo é um dicionário, fui ver o que quer dizer em português habela em Shironga. É um verbo e supostamente quer dizer “voar para”.

Enfim, um facto misterioso do passado, para reflexão em mais um fim de semana chuvoso em Tugaland.

Mas confesso que não sabia que existiu um único título de nobreza associado a Moçambique, ao contrário de Angola, onde já conhecia pelo menos um.

Bom fim de semana.

Ou, como se diz em inglês, TGIF – Thank God it’s Friday.

« Newer PostsOlder Posts »

The WordPress Classic Theme. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 194 outros seguidores