THE DELAGOA BAY REVIEW

29/09/2009

A Menina de Ouro Deles

Filed under: África do Sul — ABM @ 1:37 pm

ATHLETICS-WORLD/

(Ou um caso de femininibilidade desportiva duvidosa)

(por ABM)

Apesar de alguma, muito penosa e controversa evolução, as sociedades estão basicamente organizadas, habituadas a subscrever profundamente raciocínios quase perfeitamente binários no que concerne certos aspectos da existência humana – como são raça, sexo, religião, e opção sexual. Desvios da norma são rapidamente rotulados como aberrações ou anomalias e descriminados, legal, moral, socialmente ou ambos.

Poucos casos, no entanto, causaram mais confusão e debate recentemente que o de Caster Semenya, uma jovem atleta sul-africana que subitamente se tornou mundialmente conhecida quando, no dia 19 de Agosto, durante os campeonatos do Mundo de atletismo em Berlim, a capital da Alemanha, ganhou a final da corrida dos 800 metros, vencendo a segunda classificada e anterior detentora do título de campeão do mundo por 2.45 segundos.

Talvez por ser alta, musculada, praticamente não ter seios e ter uma voz grossa, desde que Caster apareceu nos campeonatos na Alemanha que se especulava nos meios do atletismo se haveria alguma situação anómala envolvendo a atleta, tal como consumo de esteróides, uma mudança de sexo, ou outra condição. Testes químicos efectuados após a sua prova no dia 19 de Agosto rapidamente provaram que ela não tinha consumido nenhuma substância na longa lista de químicos banidos pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (AIFA).

Na África do Sul, em parte porque Caster é negra, em parte por causa da fixação nacional em raça, desportos e em ganhar, a reacção à controvérsia foi em geral de indignação e de acusação de obscuras manobras racistas (algumas das adversárias na corrida não eram da mesma raça que Caster) e uma conspiração para negar à África do Sul a medalha de ouro dos 800 metros.

Só que, segundo um artigo do Economist a propósito deste caso, emergiu então a informação de que, de facto, antes da corrida, a AIFA mandara fazer testes físicos à atleta sul-africana e, com base dos resultados recebidos, terá recomendado à federação sul africana de atletismo (que vai pela sigla ASA ou Athletics South Africa) que retirasse Caster dos campeonatos. O seu presidente, o Senhor Leonard Chuene, recusou, afirmando que previamente ninguém tinha alguma vez suscitado dúvidas sobre se Caster era efectivamente uma mulher ou não.

Mas a saga não acabou aqui. Segundo informações surgidas mais tarde, foi revelado que Leonard Chuene mentiu sobre o seu desconhecimento sobre a situação de Caster. De facto, antes da equipa sul africana viajar para a Alemanha para disputar os campeonatos mundiais, o presidente da ASA havia mandado fazer testes físicos e já sabia que o corpo de Caster exibia algumas características femininas e masculinas, o que quase certamente poria em causa o seu desempenho nas competições. Mas, aparentemente mais preocupado em trazer para a África do Sul uma medalha de ouro, guardou os resultados dos testes na gaveta e tentou minimizar a crítica. Numa reunião da Direcção da ASA no final da semana passada em Kempton Park em que era suposto deliberar sobre o papel do Sr. Chuene neste escândalo, nada foi dito nem feito.

Apesar de não serem conhecidos os detalhes dos resultados dos testes feitos a Caster, do que transpirou ela é – não se sabe até que ponto – hermafrodita. Para uma pessoa qualquer, esta circunstãncia poderia até certo ponto passar despercebida da sociedade ou até pela própria. Só que Caster era campeã de atletismo da África do Sul e ia entrar em competições internacionais. E aqui as regras mudam completamente. Nomeadamente, para quem não reparou, na maioria dos desportos discrimina-se a participação com base no sexo, ou seja, homens e mulheres têm que competir separadamente. Adiconalmente, há, por uma variedade de razões e em muitos desportos, um maior e melhor desempenho dos homens do que das mulheres. Regra geral os homens são maiores e têm mais força e resistência.

Assim, em resultado de situações que foram aparecendo ao longo dos anos, foram sendo desenvolvidas regras e testes para assegurar que não existam circunstâncias, ocorridas natural ou artificialmente, que dêem uma vantagem ilegítima a uma dada pessoa se comparado com – no caso do ateletismo feminino – uma mulher “normal”. Nomeadamente, o facto básico, se desconcertante, que uma característica masculina é a presença de níveis elevados de testosterona, uma substância que, se presente numa mulher (com ou sem aspas) lhe daria uma significativa vantagem sobre as restantes.

O adjectivo “normal” é colocado entre aspas pois a definição de “normal” é não absoluta mas relativa e sujeita a discussão por um painel de especialistas. Um artigo de opinião publicado no Los Angeles Times e da autoria de Megan Daum, cita fontes da organização ISNA, que se especializa em questões vulgarmente identificadas em língua portuguesa como hermafroditismo, indicando que em cada 100 pessoas nascidas, em média uma exibe uma ou mais características do outro sexo. É mais ou menos a frequência com que se vê alguém na rua com cabelo ruivo.

No caso de Caster, a imprensa refere que ela tem ambos órgãos masculinos e femininos, se bem que os seus órgãos masculinos não sejam visíveis a olho nu. Terá testículos internos mas não um útero ou ovários.

Como parte do clima de exaltação algo carnavalesca que se tem vivido na África do Sul, a revista You, que ali se publica, publicou um trabalho fotográfico em que Caster é figura de capa, exibindo a atleta em sensuais poses femininas, de saltos altos, pintada e com roupa de moda.

Neste momento não há registo de que os órgãos internacionais que gerem o atletismo mundial hajam retirado a medalha de ouro que Caster conquistou em Berlim em Agosto. Essa medida penderá de uma análise detalhada dos relatórios dos testes médicos efectuados e uma ponderação dos mesmos.

Quanto à atleta em si, pouco tem dito. A imprensa reporta que de nada suspeitava e que aguarda a evolução da sua situação, sendo que já não competiu numas provas recentes, pendendo um esclarecimento quanto à sua condição de “femininibilidade desportiva adequada”.

Neste caso, ditada pela AIFA.

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4 comentários »

  1. Nao so ja nao e a primeira vez que uma atleta so descobre da sua condicao hermafrodita atraves de testes por parte dos orgaos reguladores do desporto como de facto se suspeita que grande maioria dos casos de hermafroditismo na populacao em geral passam despercebidos porque:
    1 – o hermafroditismo nao e uma entidade unica e sim uma nuvem de condicoes que resultam de variadas disrupcoes do processo fenologico de diferenciacao sexual que podem ser mais ou menos perceptiveis.
    2 – o processo de definicao sexual de um ser humano tem uma fortissima influencia social.

    O comportamento do chefe do desporto sul africano e absolutamente vergonhosa. Um pulha, resumindo.
    A associacao de atletismo podia talvez ter feito as coisas com mais tacto para a atleta e pessoa em questao, nao esquecer que este caso questiona a identidade desta pessoa que se julgou uma mulher, talvez uma mulher excepcional ate recentemente, mas de facto eu nao sabia que ja haviam alertado as autoridades Sul Africanas discretamente antes da prova, e possivel que tenham no final sido forcados, pela inaccao a virem para a imprensa.
    A grande vitima, creio, e a atleta. A verdadeira questao e que tipo de apoio psicologico lhe estao a providenciar.

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    Comentar por Lowlander — 29/09/2009 @ 3:41 pm

  2. errata:

    leia-se processo de diferenciacao sexual fenotipica

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    Comentar por Lowlander — 29/09/2009 @ 3:43 pm

  3. Caro Sr Lowlander

    Subscrevo tudo o que referiu e só a economia de palavras e o foco no enredo não permitiu referir o que também adivinho seja uma situação pessoal no mínimo muito perturbadora para a jovem e ainda arrasadora do seu estatuto enquanto desportista, pois que, se entendo bem, corre o risco de se situar em terra de ninguém, não podendo concorrer nem com mulheres nem com homens. Ainda não há campeonatos do mundo de atletismo para pessoas com “diferenciação sexual fenotípica”.

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    Comentar por ABM — 29/09/2009 @ 4:54 pm

  4. Dois bons comentários.

    Subscrevo os dois.

    Mas, permitam-me destacar:

    “O comportamento do chefe do desporto sul africano e absolutamente vergonhosa.
    Um pulha, resumindo.”

    Crápula.

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    Comentar por umBhalane — 30/09/2009 @ 6:51 pm


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