THE DELAGOA BAY REVIEW

13/10/2009

J&M Lazarus e Lisboa, Abril de 1915

jmlazarus

por ABM

Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.

Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.

A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.

Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.

No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.

Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.

Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”

Que foi o que fiz.

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3 comentários »

  1. Gostava de copiar algumas fotos da visita de CRAVEIRO LOPES a Porto Amelia, Moçambique em 1958 (é o 8º tópico). Obrigado.

    Sou Jorge Cameira em Beja, email: jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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    Comentar por jose jorge cameira - beja — 19/10/2011 @ 8:19 pm

  2. minha terra

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    Comentar por amit — 08/12/2012 @ 9:44 am


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