THE DELAGOA BAY REVIEW

21/10/2009

O Custo do Ano Eleitoral de 2009

Filed under: Politica Portuguesa — ABM @ 7:04 am

j-socrates

por ABM –

1. Para quem ainda tiver dúvidas do que realmente foi o custo desta eleição do PS para uma maioria relativa e do que vão ser os próximos tempos, veja-se as primeiras estimativas, reveladas hoje, do que custaram os balões de oxigénio eleitorais de 2009:

O valor provisório do défice do subsector Estado relativo ao período entre Janeiro e Setembro deste ano situou-se em 9.087,7 milhões de euros, correspondendo a um aumento de 254% quando comparado com 2008″.

254%. O aumento não foi nem dois nem dez por cento. Foi de duzentos e cinquenta e quatro por cento.

2. Mas como se isso não fosse suficiente leia-se isto:

O saldo da Segurança Social caiu no final de Setembro para 1.001,9 milhões de euros, um valor que representa uma queda de 719,1 milhões relativamente a igual período do ano anterior. (…) a receita efectiva cresceu 847,6 milhões, isto é, mais 5,3% (…) a despesa efectiva evidencia um acréscimo de 10,9% quando comparadas com os valores registados no período homólogo de 2008″.

Ou seja, matematicamente falando por este andar daqui a dois anos a Segurança Social portuguesa estará falida. Outra vez.

3. Eu pensava que o filme já era mau. Mas a seguir tive que ler esta:

A situação orçamental é «realmente grave» e, «se quisermos reduzir o défice, isso só será feito pela via do aumento de impostos», (Francisco Van Zeller, presidente da Confederação Industrial portuguesa)

Eu devo estar a sonhar. Em vez de o Estado reduzir as suas despesas, o representante do patronato português vai à televisão e defende que o Estado aumente mais os impostos. Presumo que esteja a falar dos impostos sobre as empresas – não?

Isto é quase tão bom como o que ouvi no rádio esta tarde enquanto preso num daqueles agradáveis engarrafamentos na 2ª Circular de Lisboa em hora de ponta, em que dizia que a liberdade de imprensa Portuguesa, numa classificação qualquer mundial, por alguma razão caíra para 30º lugar. É uma espécie de purgatório (para os não católicos: é um sítio assim entre um Hilton de 5 estrelas e um motel Formula One): apropriadamente, Portugal coloca-se agora entre a Costa Rica e a República do Mali.

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9 comentários »

  1. “Baloes de oxigenio eleitorais de 2009”? Esta mesmo a falar a serio?

    A crise economico/financeira global e os deficites balonados em todo o mundo Ocidental sao ilusoes de optica talvez…?

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    Comentar por Lowlander — 21/10/2009 @ 11:00 am

  2. ABM eu sobre estas coisas da economia, principalmente quando tem números e %, não tujo nem mujo. E ainda menos quando se fala de défices “balonados” (caro LL, que raio é isso?)

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    Comentar por jpt — 21/10/2009 @ 11:19 am

  3. Boa tarde Sr LL,

    A crise mundial só afectou Portugal na medida em que 1) as suas exportações caíram e isso é o elo fraco que se não for resolvido, os portugueses estão feitos – e há pouco que o Estado possa fazer quanto a isso; 2) os consumidores e empresas portugueses endividaram-se até à ponta dos cabelos e os bancos foram-se financiar além-fronteiras e quando os mercados financeiros congelaram, sofreram por tabela essa flutuação temporária na liquidez (que foi pontual e rapidamente resolvida.

    Os únicos dois casos de precaridade no sector financeiro, o BPN e o BPP, são casos de gestão de topo ruinosa ou incompetente, não de fraqueza sistémica. Noutras circunstâncias, os dois deviam falir rápida e alegremente.

    O que me traz ao assunto que acima referi. Estamos em Outubro de 2009 e o que estamos a descobrir é que essencialmente, de uma queda nas exportações, que levou a um aumento do desemprego para uns comportáveis dez por cento (a Espanha durante anos e anos tinha 18 a 20 por cento e não morreu) o governo português aumentou o seu défice em 254% e os números da Segurança Social indicam que os seus cofres estarão vazios em menos que dois anos. Se isto não é insustentável, então o que é? Se o governo dos últimos quatro anos andou a ferro e fogo durante praticamente 3/4 o seu mandato para aumentar as receitas fiscais em vez de reduzir as suas despesas, o que aconteceu em 2009? foi o combate à crise? eu acredito que foi mais efeito eleitoralista que as medidas anti-crise, mas não sabemos bem ainda pois os dados sobre a execução do orçamento não foram totalmente divulgados. O facto é que pela via fiscal criou-se outra crise: o custo de se ser português e de se viver em Portugal acabou de subir agressivamente. O peso do sector público subiu significativamente. O seu efeito multiplicador já se gastou há muito tempo e ameaça as bolsas de toda a gente.

    Talvez por esta via se chegue ao verdadeiro e mitológico socialismo: 1. acabarmos todos a fingir que trabalhamos para o Estado, 2. este a fingir que toma conta de nós, 3. mais uma geração de portugueses que descobre que afinal tem mais oportunidades, vive melhor e ganha mais lá fora.

    Estou curioso de ver como se vai sair do buraco criado em 2009. Os portugueses ficaram sensivelmente mais pobres.

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    Comentar por ABM — 21/10/2009 @ 3:19 pm

  4. Caro JPT,

    “Balonado” vem do verbo balonar, eu balono, tu balonas ele balona, por maioria de razao conjugado no condicional. E natural que nao tenha ouvido falar, e uma emenda recente ao acordo ortografico… 🙂

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    Comentar por Lowlander — 21/10/2009 @ 5:24 pm

  5. Se posso partecipar com a minha modesta opinião aqui vai..
    Sou um cidadão que trabalha para outrém, não posso de maneira alguma fugir aos impostos.
    Então o que vejo, desempregados cada vez mais, muitos deles já não recebem o subsidio, e por sua vez, temos os “ciganos” que nunca pagaram impostos, e usofruem do rendimento minimo.
    Este é mais um exemplo, de que tudo vai mal.
    Há quem diga que temos o que merecemos.” mas bem mereciamos mais um pouquinho”…..

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    Comentar por jaime — 21/10/2009 @ 8:23 pm

  6. Voltando agora com um pouco mais de tempo caro ABM:

    Dizer que a crise mundial “so” afectou Portugal etc. et al e, faco esforco em crer um eufemismo seu…

    Quanto aos especificos das “afectacoes” sera que o ABM esta a sugerir que a reducao nas exportacoes, falencias por falta de liquidez e consequente desemprego e pobreza que sobrecarrega automaticamente o Orcamento de Estado (creio que lhes chama ate “estabilizadores automaticos”) por reduzir receita de impostos e aumentar despesas sociais foram todos ditados pelas eleicoes de 2009?

    Nao me diga que os clientes estrangeiros de Portugal deixaram de comprar por ordem das chefias das campanhas partidarias portuguesas…

    Outra coisa. Eu sei que e bem moda ai por Portugal (e nao so) falar mal do funcionalismo publico, de como e despesista, ineficiente e grosso modo preguicoso…
    Pois eu sou um funcionario publico, no estrangeiro e certo, mas um “deles”. Logo a partida comecamos mal com esse tipo de conversa porque nao gosto no inicio dos debates que muito taxativamente me arrumem numa caixinha sem verem o trabalho que faco.

    Os funcionarios publicos sao trabalhadores como os outros e providenciam servicos e valiosos para a comunidade, por exemplo, eu no meu dia-a-dia passo tempo a fazer vigilancia epidemiologica e em geral atrasar e mitigar a chegada e os efeitos de doencas infecto-contagiosas, os economistas, gente gira uns “cientistas” de primeira ordem no entanto so conseguem computar os custos da minha actividade profissional, ocasionalmente, quando ha problemas a serio, tipo febre aftosa ou olhe, a susencia de um servico nacional de saude nos EUA, la conseguem vislumbrar os custos de la NAO estarmos la mas depois rapidamente recuperam a compostura.
    A verdade e que as sociedades com maior indices de desenvolvimento humano sao tambem sociedades com pesadas cargas tributarias em cima e servicos publicos que ai no rectangulo seriam classificados de “asfixiantes”.

    Lamentavelmente os economistas que temos tem formas muito sui generis de medir economias senao vejamos:

    – se eu pagar a um gajo para me ir ao jardim cavar um buraco e voltar tapa-lo uma vez por semana so para o ver a levantar poeira e suar, estou a contribuir para o PIB, sou um empreendedor, um consumidor.
    – ja se no mesmo jardim eu decidir plantar uma arvore que me de sombra, uma boa vista e um pouco de ar puro sou um desempregado parasita da sociedade.

    E mais nao digo que nao quero ferir susceptibilidades.

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    Comentar por Lowlander — 22/10/2009 @ 11:07 am

  7. Aqui o leigo:
    1. concorda com LL no cuidado a ter com generalizações
    2. discorda com LL na generalização que faz dos “economistas” (ainda que lhe reconheça justeza em muitas afirmações sobre a corporação economista)
    3. discorda com LL da desvalorização (via aspas) que faz do carácter científico das ciências sociais. A Economia é uma ciência sem aspas, mui legítima e capaz ciència social, interpretativa do real. Talvez o problema esteja na sua auto-reclamação (e pacóvia exo-aceitação) de ciência natural, pois matematizável.
    4. concorda (muito) com LL no que considera sobre o funcionalismo público. Náo é mau por essència, é factor de desenvolvimento e índice de desenvolvimento.
    5. Não deixa de resmungar que a luta contra o funcionalismo público é náo só eco de visões sociológicas pouco buriladas e de excitações ideológicas fundamentalistas. É também fruto da frágil administração pública portuguesa: que é uma questão que não depende dos funcionários públicos (por mais atreitos que possam ser a alguma modorra não ajuizada por via de veras classificações e por demais protegidos na segurança no emprego) mas sim da administração, ou seja, da política.
    A este propósito não deixa de referir que o extremo sucesso, malfadado, do Futebol Clube do Porto na indústria futebolística provém do talento da sua administração, projecto e execução, mas também porque o seu treinador náo é escolhido devido à cor partidária, nem tampouco o trinco ou o lateral-direito são titulares devido a serem militantes do partido a ou b.

    6. não percebendo nada, ou seja não conseguindo interpretar os dados económicos, concedo ao LL o facto da crise económica mundial ter afectado o orçamento portuguès (Deficit balonado quer dizer balões de deficit aumentado?). Mas que isso não impede de ver que o estado das finanças públicas está de rastos e que a economia dificilmente rastejará até algum sítio neste estado – ainda para mais com ministros de extracção comunista (à qual agora se chama keynesiana, em atropelo radical) que acham que as grandes obras públicas desenvolvem países e acrescem economias.

    7. Lembro o extraordinário projecto de desenvolvimento nacional que foram os dez estádios de futebol, lançados no primeiro avatar socrático, e da expressa necessidade ou oportunidade de os começar a derrubar. PAra melhor comparação com o efeito indutor das obras públicas em Portugal náo poderia haver melhor – a tropa fandanga socrática não consegue pensar nisso que o arcebispo não deixa.

    8. Em relação aos “ciganos” do Jaime, e às constantes queixas contra o rendimento mínimo garantido devido à fraude dos malandros dos preguiçosos, náo deixo de referir que tal como a economia é justamente ciência também a sociologia o é, e conviria entre-parentesar os delírios do paulinho dos submarinos. A recusa da exclusão social, tanto para evitar a reprodução das assimetrias sociais como por razões humanitárias como por questoes de manutenção do mercado interno, é uma questão civilizacional (corrente na europa, diga-se). Berrar contra ela também dá para desviar a atenção do mais taco que se perde em obras suborçamentadas, em adjudicações directas, em empresas municipais e no olaráolaré que vai na nossa terra.

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    Comentar por jpt — 22/10/2009 @ 11:47 am

  8. Boa noite Sr Lowlander

    Deixe-me tentar de forma sucinta o que perspectivo quanto ao assunto:

    1. Nos impostos, que são a “receita” do governo – Portugal tem, para o seu nível de desenvolvimento e estrutura social e económica, uma estrutura fiscal meio surreal, pesada e que incide nas coisas erradas: paga-se IMT sempre que se troca de casa; paga-se IVA na roupa, pão, leite, equipamentos solares, água, luz, gás; a nossa gasolina e gasóleo são 30% mais caros que em Espanha; os carros que compramos são significativamente mais caros que em países onde se ganha o dobro do que se ganha aqui; apesar do progresso, os nossos custos com burocracia são exagerados. Nos últimos 15 anos a incidência de impostos no mínimo dobrou – ou seja, cresceu uns 100$ – quando a riqueza nacional anda estgnada há uns dez.

    2. Nos gastos do governo: tendo havido muita obra que tornou a vida melhor para muita gente, criou-se uma espécie de mania do “fontismo” (sim, do Fontes Pereira de Melo) quer ao nível central quer ao autárquico, em que se faz já o que se se fizesse uma análise custo-benfício, talvez fosse melhor recorrer a outras alternativas. Mas em três áreas é um desastre: saúde, educação e justiça.

    3. Sobre os funcionários públicos: não sou eu que o digo, são os números que se vão publicando. No agregado, é cara, inflexível e demasiadamente rígida. Esta atitude de se ter emprego garantido para a vida é perigosa pois o exército que nos garante o que eu considero os parâmetros mínimos da civilização e da cidadania (sem a infra-estrutura pública éramos macacos nas árvores) pode-se tornar cara demais, ineficiente demais e ingerível – o “monstro” a que Cavaco Silva se referia há uns anos mas que a meu ver ele foi pródigo em alimentar.

    4. O risco que os portugueses correm é de terem um país chiquérrimo e modernérrimo e os contribuintes não terem dinheiro para andar nele, para o usar. UM BI custar 16 euros, um passaporte 70, estacionar na baixa 10, no aeroporto 5, pagar a portagem para ir à esquina, pagar ao médico público para nos ver. A crescente acentuação na redistribuição da riqueza para ajudar a eliminar as imensas bolsas de miséria que insistem em não desaparecer (nem vão desaparecer, vão-se agravar) já se está a fazer nas costas das gerações futuras, cujos padrões de vida vão sofrer na directa proporção do que se está a gastar hoje.

    5. Mais grave, uma boa parte do dinheiro que se está a gastar com a “crise” é pouco mais do que um paliativo, um ganhar tempo e margem de manobra, pois o emprego só irá subir se as empresas aumentarem o seu volume de negócios. Em política isso importa muito. Em economia não.Se uma empresa não tem clientes ou gere mal os seus custos e despesas, deve fechar sem detrimento de outra que os tem e que sabe cobrir as suas despesas.

    Eu acho que entendo as suas preocupações e aceito que defenda o que se está a passar: é uma opção política que foi tomada. Mas garanto-lhe que não podemos ter mais um ano como este.

    E este vai custar os olhos da cara a todos nós pagar.

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    Comentar por ABM — 23/10/2009 @ 5:20 am

  9. a nós e à Carolina – a não ser que ela, malandra, abandone os pais e emigre. Para África, filha desnaturada

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    Comentar por jpt — 23/10/2009 @ 8:26 am


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