THE DELAGOA BAY REVIEW

24/10/2009

2001: Uma Odisseia no Espaço

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 3:48 am

http://www.youtube.com/v/CDAWszeZtNg&hl=pt-br&fs=1&


por ABM –

Desde criança, e ao contrário dos meus sete irmãos, sempre fui apreciador de música clássica, o que não era coisa fácil pois, para além de estranho e suspeito – estávamos em plena era dos Beatles e de Mick Jagger – em casa o único rádio acessível era um velho Telefunken com caixa de madeira e válvulas (demorava cinco minutos a aquecer) com um som espectacular mas que só apanhava estações em onda média e onda curta.

Habitualmente, o rádio ou estava sintonizado para a Estação A quando o pai BM estava em casa, ou na estação B (a LM Radio, em inglês e que só passava música pop) quando ele saía e as irmãs tomavam conta da casa, ou na Emissora Nacional, de Lisboa, em onda curta aos domingos, à tarde, quando, de entre assobios e trovoadas, mal se ouviam os relatos de futebol emitidos a partir de Portugal e que para mim eram um absoluto mistério (quer Portugal, que eu não percebia o que era nem onde ficava, quer os relatos de futebol, que só mais tarde percebi o que eram ao ver o João de Sousa sentado à beira dos campos de futebol a emitir os relatos locais para as Produções Golo via o Rádio Clube).

telefunkend750gwk_front

Com a retirada estratégica e acelerada da família face a um ambiente visivelmente mais hostil, e como aconteceu com tanta outra coisa, o velho rádio desapareceu misteriosamente, provavelmente despachado para alguém como lastro inútil num futuro que se augurava instável e totalmente imprevisível (e se foi).

Mas eu tinha e mantenho boas memórias desses tempos e por coincidência eventualmente recolhi uma simpática colecção de rádios. Trinta e dois anos mais tarde inquiri junto de uns antiquários nos arredores de Berlim e eis que hoje sou o feliz proprietário de um rádio igualzinho ao que a família BM usava e que funciona ainda melhor que o outro.

Naqueles tempos Maputo não tinha televisão, internet e a alternativa era ouvir discos, privilégio que obviamente o orçamento familiar não extendia aos membros da família com menos de 10 anos de idade como eu.

Mas o Rádio Clube tinha uma estação – a estção D, creio – que passava música clássica. Em frequência modulada – ou FM – que na altura era uma espécie de último grito da tecnologia. O meu pai tinha no quarto dele um então moderno Zenith Transoceanic 7000 (que, inacreditavelmente eu ainda tenho na minha colecção e que funciona perfeitamente) que apanhava emissões em FM. Então o meu grande desafio era de vez em quando surripiar-me para o quarto dele quando ele estava fora e, no maior secretismo, escutar as emissões de música clássica da Estação D. Era um prazer quase único.

zenith_royal_7000_005

Mas onde é que eu ouvi pela primeira vez música clássica? recordo-me vividamente das duas ocasiões em que gostei do que ouvi e onde. Curiosamente as duas foram no mesmo sítio: o actual Teatro África, que nos tempos da outra dama dava pelo nome de Manuel Rodrigues. Aí, em meados dos anos 60, um domingo à tarde a minha mãe levou-me a uma apresentação de ópera, encenada uma uma troupe sul-africana em digressão por ali. Nesse dia ouvi pela primeira vez partes da ópera Carmen, de George Bizet, berradas por uma sul africana (branca) com um vestido vermelho de onde se podiam ver as mais do que óbvias. Neste sentido, era uma espécie de programa duplo.

A segunda vez foi absolutamente mágica e é por isso que o exmo leitor Maschambiano tem no topo desta nota uma inserção do Youtube (esta coisa da internet é indescritível). Foi em 1968 ou 1969. Em cartaz no Manuel Rodrigues estava o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, a legendária criação de Stanley Kubrick e a meu ver o primeiro filme de ficção científica que parecia mais do que um filme de desenhos animados – e um dos grandes filmes de todos os tempos – e que na altura não percebi patavina do que se tratava, confesso. Ora, quem já viu o filme sabe que ele inicia com cenas dos primórdios da raça humana, e salta de seguida para uma nave a ascender no espaço. Nessa cena, é passada integralmente o que mais tarde vim a saber ser a valsa O Danúbio Azul, do austríaco Johan Strauss. Foi absolutamente sublime e uma revelação.

Se o exmo. leitor premir a imagem em cima, verá exactamente o que eu vi há …40 anos: do osso do nosso antepassado atirado ao ar, a nave espacial a dirigir-se para a Lua. Ao som da mais sublime valsa de Strauss.

Nesse dia fiquei convertido.

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4 comentários »

  1. Caro ABM, o Mashamba é para mim uma leitura obrigatória, sempre gostei das opiniôes desassombradas do jpt, mesmo que algumas vezes assuma alguma discordância, o mesmo se passa consigo.
    Gostaria de fazer uma pequena rectificação, o Rádio Clube de Moçambique (RCM) emitia quatro canais principais, excluindo os que emitia nas línguas nativas.
    O programa A, generalista, o B (B Station ou LM Radio) em inglês, o C de música clássica (a primeira estação portuguesa a emitir em FM) e o D, criado no final dos anos sessenta para atender a um público mais jovem e por pressão da então Rádio Mocidade que emitia a partir do então Liceu Salazar, criada pelo Dr. Nogueira e alunos deste Liceu, tive a oportunidade de a ver nascer e crescer, foi um verdadeiro pontapé no marasmo que era a rádio emitida em português.

    PS. Sendo mais velho, também eu estudei na Escola Rebelo da Silva , frequentei o Liceu Salazar e o Almirante Gago Coutinho em Nampula e a ULM, no seu post abaixo, a minha visão aproxima-se mais da de 1B, depois de ter conhecido a realidade do norte de Moçambique

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    Comentar por FJA — 24/10/2009 @ 11:12 pm

  2. Yes boss, corrigido na minha mente. Pois era a estação C. Ainda me lembro de um dia o pai do Rui Abreu (um nadador dos tempos, alguns espero que se lembrem) que morava no Alto Maé, numa festa de anos do Rui em que fui a casa deles, me mostrou e exibiu um magnífico sistema e rádio e som hi-fi que recepcionava a Estação C perfeitamente. Simplesmente spectacular e foi a primeira vez que ouvi FM em alta fidelidade. Era coisa do outro mundo.

    Quanto à Rádio Mocidade, ouvia regularmente e têm um site delicioso na internet em que o Dr. Nogueira pode ser contactado. Uma vez escrevi para lá pois recordei ter entrado nu concurso qualquer daquela estação e ter ganho um disco de 45 rpm com umas excelentes canções de música clássica adaptada à musica moderna. Milagrosamente, ainda tenho esse disco. Quis oferecê-lo ao Dr. Nogueira mas ele simpaticamente agradeceu e mandou-me ir dar uma volta e continuar com ele na gaveta.

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    Comentar por ABM — 25/10/2009 @ 6:05 pm

  3. Caro ABM, belo artigo, como aliás outros mais que aqui tenho lido. Bom, resolvi escrever qualquer coisita porque o filme 2001 odisseia no espaço é realmente fascinante. E em todos os sentidos. para mim é quase bíblico ao ponto de já me ter dado convencer o meu rapaz de 14 anos a vê-lo comigo. Claro que para ele aquilo é uma seca mas eu acho que ele entendeu a essência do filme, a sua filosofia, a beleza da sua banda sonora. Um hino cinematográfico, literário, filosofal que nos faz pensar realmente a sério na essência da humanidade. Uma obra imortal e que me emociona sempre que a vejo e oiço. Deveria ser obrigatório porque ali está “tudo”.

    um abraço

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    Comentar por altino — 27/10/2009 @ 12:44 pm

  4. Caro Sr Altino

    Escrevi a nota acima na esperança que alguém como o senhor existisse no mundo. A sua mensagem confirmou-mo.

    O filme é de arrepiar.

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    Comentar por ABM — 28/10/2009 @ 4:11 am


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