THE DELAGOA BAY REVIEW

24/10/2009

O Caminho de Ferro de Lourenço Marques

Filed under: História Moçambique — ABM @ 2:08 am

lm-railroad-1888-2

por ABM –

Esta inserção de hoje é mais fotográfica do que escrita – penso eu.

Na história das relações diplomáticas e de negócio do Portugal pré-colonial em Moçambique, poucos projectos terão tido maior protagonismo e impacto do que a construção da linha de caminho de ferro que ligou a Baía da Lagoa ao hinterland da República Sul Africana, então liderada pelo Oom Paul Kruger, arqui-inimigo das pretensões imperialistas de Cecil Rhodes. A sua construção era uma absoluta obsessão de Kruger, que via na intenção britânica de ligar Pretória (e Joanesburgo) ao mar através da linha férrea que subia a partir da Colónia do Cabo, uma ferramenta imperial para esmagar as repúblicas boer e as submeter. Para além de uma distância muito mais curta para a então pindérica vila de Lourenço Marques (uma verdade até estes dias) havia a vantagem de, sendo esse percurso feito através de território português – apesar de Portugal ser de várias formas uma espécie de coutada do Império Britânico (foi-o até ao momento daquela visitinha que os americanos fizeram a um Salazar em choque em 1942)- o mero facto de ser um estado soberano e fora das garras de Rhodes era mais do que vantagem para os Afrikaners.

A construção da linha foi uma verdadeira aventura. Parou, arrancou, acabou-se o dinheiro, foi nacionalizada, etc.

Mais interessante para mim foi que esta semana adquiri, num muito obscuro antiquário em Nova Iorque, uma peça de memorabilia histórica desses tempos.

De entre a multiplicidade de peripécias em redor do projecto, incluiu-se, naturalmente, a constituição de empresas internacionais para financiar e administrar a concessão da linha, cuja conclusão (porque é que eu não estou surpreendido? ficou empanada do lado português.

O que adquiri, e se segue, é um prospecto, com data de 7 de Março de 1887, a anunciar a subscrição pública de dívida no montante de 400.000 libras estrelinas, sendo os fundos para serem utilizados pela The Delagoa Bay and East African Railway Limited.  Obviamente a colocação das obrigações era para sere feita em Londres e inclui um exaltante (e falso) relatório do famoso Major Machado (Joaquim José Machado, um grande amigalhaço de Kruger, que lhe deu o nome a uma das paragens no seu lado da linha, Machadodorp, há dias rebaptizada de -segurem-se – eNtokozewni!) dizendo que em duas penadas a linha estava feita e os accionistas a regorgitarem-se em lucros.

Na verdade correu tudo mal. Pelo meio meteu-se um americano, desapareceu material, os portugueses nacionalizaram o projecto, a Inglaterra rosnou uma dez vezes seguidas e depois vieram os americanos ameaçar dar uma valente tareia se os portugueses não pagassem (os portugueses pagaram, com indemnização e juros).

Mas em 1 de Julho de 1895 a vida em Lourenço Marques mudou para sempre.

O prospecto inclui um mapa onde se pode ver a república boer ainda separadas das colónias britânicas.

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(Eu estava a ver isso agora e estou-me a rir para mim próprio pois quando eventualmente eu morrer, espero que de velho, e vierem os abutres dos herdeiros à procura de taco e coisas valiosas para venderem, em vez disso vão encontrar destas coisas. Ah ah ah!!)

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