THE DELAGOA BAY REVIEW

24/10/2009

Viva Nelspruit

Filed under: África do Sul — ABM @ 3:22 am

formuleone

por ABM –

Eu sempre tive alguma dificuldade em explicar aos meus irmãos moçambicanos a ligeira confusão na minha cabeça quando, acho que em 1976, num rasgo de fervor revolucionário e acto de exorcização dos fantasmas coloniais – ou talvez apenas para mostrar ao mundo quem é que mandava ali agora – Samora Machel mandou mudar o nome da capital de Lourenço Marques para Maputo.  Acho que disse que esse tal de LM era nome de colonialista imperialista e isso tinha, depois de 500 anos, acabado. Os residentes prévios interrogavam-se onde é que ele fora buscar o nome, os fabricantes de mapas apressaram-se a confirmar se era mesmo assim para alterar a topografia oficial. Toda a gente achou fantástico.

Eu hoje não ligo ao assunto. Mas na altura confesso que achei estranho quando eu dizia para mim próprio em voz baixa “eu sou filho do Maputo”. Aquilo soava mesmo maningue estranho. E durante algum tempo dançava com os dois termos. A quem era dos tempos eu dizia LM, quando era outras pessoas eu dizia Maputo. Quando anos mais tarde visitei Maputo pela primeira vez desde que saira para ir estudar em Coimbra, em fins de Novembro de 1984, a cidade já uma sombra ferida do que fora há menos de dez anos, digna e limpa mas morta e à beira de um ataque de nervos, cheia de regras esquisitas como as de não poder andar nos passeios em frente a uma série de edifícios e de tirar fotografias na via pública. As pessoas falavam baixo comigo para não se ouvir o que diziam.

Quando no fim dos anos 90 regressei para lá viver e trabalhar, o efeito dissipou-se e a cidade foi-se metamorfoseando para o que é hoje: Maputo, capital de Moçambique moçambicano. Mas ainda vi muita gente na cidade que quase se ofendia quando aparecia o ocasional portuga mais distraído que chamava à LM à cidade – como se houvesse ali algum resquício de atitude “colonial” ou saudosismo – ou falta de respeito.

O mais provável é que velhos hábitos, como chamar os nomes às coisas que se conhecem, custam a mudar. No fundo no fundo as pessoas não gostam de mudança. Nem mesmo os moçambicanos. É provavelmente por isso que há nomes que nunca foram tocados, como 2M, Zambi, Costa do Sol, Sommerschield, Polana, Laurentina Piri-Piri, etc. São patrimónios colectivos, referências que transvazam em muito a intenção original, símbolos mais de familiaridade quotidiana do que expressões culturais que “dizem” algo. Ninguém se lembrou de mudar o nome a Ressano Garcia (o portuga que fez a Avenida da Liberdade em Lisboa). mas ninguém se lembraria de o mudar hoje, creio. É apenas mais uma toponímia, moçambicanizada.

Esta propensidade não é exclusiva dos marxistas (se bem que estes adoram fazê-lo), dos moçambicanos e muito menos dos africanos. Os portugueses fartaram-se de o fazer depois da sua “revolução” em 1974. Tudo o que era Salazar e Caetano levou uma imediata e valente machadada. Os recantos mais patéticos do pequeno Portugal encheram-se de “Avenidas 25 de Abril”, “Rua General Humberto Delgado”, “Praça da Liberdade”, etc. Mas não sei bem porquê os portugueses não mudaram o nome às cidades, nem aos aeroportos (excepto o do Porto quando o Sá Carneiro foi assassinado) . A minha quinta ribatejana fica perto de Alcoentre, uma pequena vila que mantém o mesmo nome sem qualquer alteração desde a colonização árabe, há mais do que mil anos. Mas em Alcoentre a maior revolução que houve em 50 anos foi a colocação de um semáforo no cruzamento principal da vila (informalmente descrito como “os quatro ventos”), onde a brigada do reumático senta-se em dias de sol, como lagartos, a ver os carros a passar.

Na vizinha África do Sul, cujas zonas urbanas eram a coutada exclusiva da civilização branca naquele país (protegidas pelas pass laws do apartheid) e tal como no resto de África, a toponímia era tipicamente boer-anglo-saxónica. Logo após a passagem do testemunho em 1994, houve pressões no sentido de “africanizar” os nomes. Durante uns anos, andou tudo à estalada sobre o assunto, os brancos a dizer que aquilo era tudo só para chatear branco, os negros para mostarem que aquela merda já não era o que era.

Mas eis que agora o governo do Senhor Zuma passou um decreto a mudar as coisas. Para quem não leu, copio em seguida os novos nomes das cidades sul-africanas, cortesia da Lusa, lembrando que a partir de agora quem for fazer compras de fim de semana a Nelspruit já não vai a Nelspruit: vai a “Mbombela”.

Talvez agora, por apenas uns dias, os meus amigos moçambicanos que fazem as romarias a Nelspruit vão entender um pouco melhor a confusão que senti quando Lourenço Marques passou a chamar-se Maputo.

E boas compras em … “Mbombela”!

PS – o Fórmula 1 mantém o nome.

______

Lusa – 21 de Outubro de 2009 :

Nelspruit, a cidade mais próxima da fronteira de Ressano Garcia com Moçambique, e Machadodorp, uma vila baptizada no séc. XIX com o nome de um português, são algumas das cidades e vilas sul-africanas que mudaram de nome por decreto.Outras localidades da mesma província (Mpumalanga), que foram re-baptizadas por decreto assinado pela ministra das Artes e Cultura, Lulu Xingwana, são Belfast, agora chamada eMakhazeni, e Waterval Boven, re-baptizada Emgwenya.

Nelpsruit, conhecida por muitos moçambicanos que desde sempre ali se deslocam para fazer compras ou para consultas médicas, passou a chamar-se Mbombela, enquanto Machadodorp, que tinha o nome do engenheiro português Joaquim Machado, que realizou o levantamento topográfico da zona antes da construção da linha de caminhos-de-ferro para Moçambique, em 1894, tem o nome oficial de eNtokozewni.


Desde que assumiu o poder, em 1994, que o Congresso Nacional Africano, apoiado pelos Governos provinciais e nacional, alterou centenas de nomes da toponímia sul-africana, desde estradas e aeroportos a edifícios públicos de natureza vária, apesar dos protestos, em muitos dos casos, de organizações e associações cívicas de afrikaners e sul-africanos brancos de outras origens, que acusam o partido no poder de pretender eliminar por completo a sua herança histórica.

Algumas cidades importantes cujos nomes foram já alterados são Port Elizabeth (para Nelson Mandela Bay), Bloemfontein (para Mangaung), e Durban (para eThekwini), enquanto outras, como a capital, Pretória, mantêm o nome antigo apenas como referência do centro da cidade apesar da municipalidade ter sido re-baptizada (Tshwane no caso de Pretória).

Em todos os casos as autoridades permitem que as cidades e vilas mantenham o nome anterior durante um período transitório de cerca de três anos.

(fim)

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12 comentários »

  1. Este blog anda muito religioso. Nomear é fazer (No princípio era o Verbo, ou qualquer coisa assim) …

    Colocas o dedo numa curiosidade, nunca percebi porque nunca foi mudado o nome de Ressano Garcia.

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    Comentar por jpt — 24/10/2009 @ 3:35 am

  2. Tudo muda tudo se transforma. Ate nos mudamos. Tudo e relativo.
    Temos de deixar de ser saudosistas. O que interessa o nome duma cidade ou duma ponte?
    Hoje temos a ponte 25 de Abril ninguem se interessa do nome anterior.
    Please grow up…………..
    Ana Maria Ferreira
    (uma avo com 70 anos no Canada)

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    Comentar por ana ferreira — 24/10/2009 @ 6:47 pm

  3. Sra D Ana

    Tem razão. Parabéns pelos 70 anos e netos e .. benvinda!

    Assinalei esta questão porque o decreto sul-africano respeitante às mudanças dos nomes das cidades foi anunciado esta semana.

    No fundo, o que interessa chamar os nomes pelas coisas e as coisas pelos nomes, não é? a identidade que eles transmitem às vezes só irrita. Quando fui viver para os Estados Unidos, pensei em mudar o meu nome para qualquer coisa como John Fitzpratick Smith Donovan em vez de Manuel Jaquim da Bouças, que em inglês soa um bocado esquisito. E que se lixasse a família, o passado português e o africano. Mas acabei por não o fazer. Também já não me lembro porquê. Adiante.

    Posso perguntar onde está no Canadá (e logo, sem acentos..)?

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    Comentar por ABM — 24/10/2009 @ 7:17 pm

  4. quando me conheci como gente eu já era Maputense (ahahah), assim na lata. Então as mudanças me passaram em branco. Só mais tarde viria a saber quem eram os senhores Karl Marx, Engels, Vladimir Lenine, que aliás continuam resitindo bravamente nas artérias moçambicanas, sendo que Vladimir Lenine e Karl Marx são as principais vias de ligação entre a baixa e os bairros. (me corrijam se estiver errado)
    Adorei o texto. Bom humor para começar bem mais um domingo de sol em S.Paulo de Piratininga. Enquanto isso, em S. Sebastião do Rio de Janeiro a guerra continua solta!
    abraços

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    Comentar por Beto Cadilhe — 25/10/2009 @ 1:30 pm

  5. Tá-se bem.

    O que me preocupa mesmo, mesmo, são nomes como Saldanha Bay (Agoada de Saldanha), Cape Town (Cidade do Cabo), Cape of Good Hope (Cabo da Boa Esperança), KwaZulu-Natal (Natal), e outros…

    Tá-se bem.

    Aprendi com os pérfidos, e cínicos da velha Albion, o seguinte:

    (P.F. deixem-me consultar as regras para os comentários, só um momento p.f.;


    sexo, à vontade.
    então já posso.)

    – Quando estiveres a ser violentado(a), e não puderes fazer nada, ao menos goza a violentação!!!

    Isto, em Português vernáculo, e no masculino, soa muito melhor.

    De resto, tá-se bem!

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    Comentar por umBhalane — 26/10/2009 @ 1:35 am

  6. Sr 1B

    Não leve isto tanto a peito. De facto eu fui muito selectivo na questão. A lista de localidades que mudaram de nome na África do Sul tem páginas e páginas. No caso de Cape Town, está lá uma longa explicação sobre porque é que o nome dessa cidade não mudava de nome. Por outro lado, o actual executivo de Maputo recomeçou esta semana a retirar mais (obscuros) nomes coloniais das ruas(aparentemente há ainda montes deles em Moçambique – estou chocado – chocado- com a novidade) e a dar os nomes dos boys da casa. Acho que o objectivo é fazer umas homenagens baratas e daqui a uns anos quando aquilo estiver tudo limpo as pessoas vão pensar a) que não estiveram lá portugueses e b) que não foram os portugueses que inventaram a cidade.

    Nessa senda, decidi também usar os meus vastos poderes e rebaptizar o acesso à minha casa de campo ribatejana, que ia pelo piroso e bucólico nome de “Casal da Fonte Branca” para um muito mais moçambicano “Travessa Famba Ti Cunza”. Os únicos problemas são a) a tabuleta que está lá ainda com o nome antigo e uma nova custar 30 euros, b) os locals pensam que é o nome de uma flor africana e eu não ter lata de dizer o que significa.

    Mas que é divertido, é.

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    Comentar por ABM — 27/10/2009 @ 12:37 am

  7. Eu acho esta conversa dos nomes engraçada. Nas férias estive em Cacela Velha, Algarve. Têm lá nomes de ruas de poetas árabes do século VIII e X ou assim. Não é costume em Portugal…

    Acho que, tendo dito isto, não vou continuar a conversa sobre nomes em Moçambique. Isto não tem meias medidas. Ou se quer entender o que o acto de nomear quer sociologicamente dizer ou não se quer entender isso, e naturaliza-se a “nossa” história, de molde a que a característica de um local (a sua essência) seja o nome que lhe demos.

    Ora – e o amigo comentador LL não gosta da economia e das outras cièncias sociais, portanto não discordar da minha opção – entrar por esse campo apela não tanto para a discussão das benesses da invenção colonial mas sim para os esconsos saber da modesta ciência social que tentei estudar. E isso não é, decididamente, matéria para o ma-schamba.

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    Comentar por jpt — 27/10/2009 @ 1:42 am

  8. “Travessa Famba Ti Cunza”

    Em Português vernáculo, até nem ficaria mal!

    E os locais iriam entender, se fosse bem explicado, com muito tempo, debaixo de 1 velho sobreiro, e uns copos a acompanhar.

    Preciso é muita pachorra (p’ra rimar).

    A Câmara de Esposende, há breves tempos, mudou o nome de Travª da Agra, para Rua de Timor.

    E os “lavradores” do sítio, encolheram os ombros, como de costume – isso é lá com eles.

    Eu preferiria que R. de Timor, fosse em coisa nova, em coisas progressivas, mantendo-se a Travª da Agra.

    E até sou “estrangeiro”!

    Fazer o quê?

    Muita poeira e pouco andamento – estática.

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    Comentar por umBhalane — 27/10/2009 @ 10:11 am

  9. Hehehehe! Ando muito ocupado para sair da toca e discutir como gostaria algumas coisas que por aqui vou lendo.

    Tenho, no entanto, que me deter um pouco e deixar esta clarificacao dirigida ao JPT:

    1 – Sobre as outras ciencias sociais, nao me leu, tenho a certeza, a tecer consideracoes (ainda…?). Ate porque nao me debrucei e li sobre elas o suficiente para ter uma opiniao sequer mal informada.
    2 – Sobre a economia, nao se trata de nao gostar. Na realidade ate considero uma area de conhecimento relativamente fascinante. So que encontro-lhe mais areas de relacao areas de conhecimento que muito aprecio como a teoria enxadrística ou medicina… ate mesmo a humana que com outras como a Biologia, Quimica ou Psicologia por exemplo, e nao penso que seja acaso.
    2.1 – O que de facto me irrita e quererem (especialmente os “cientistas” da area) a forca encaixar este cucu no ninho das ciencias. Porque o nao e, nem social, nem em nome individual ou sequer limitada. Isto em meu parco entender… Penso que e, isso sim, uma engenharia. Usa conhecimento gerado por outras disciplinas, diversas, variadas e essas sim, cientificas, para postular solucoes para problemas especificos. Gera assim tambem algum conhecimento, so que nao e cientifico.

    Se o JPT quiser para a semana fazer um post para espalhar brasas sobre este tema, escrever algo mais, talvez demais.

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    Comentar por Lowlander — 27/10/2009 @ 4:49 pm

  10. Escreverei e outras gralhas. Ate para a semana.

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    Comentar por Lowlander — 27/10/2009 @ 4:51 pm

  11. LL estava, ironicamente (até porque V. estava fora desta caixa) a torcer as suas palavras, a invocar a sua autoridade por assim dizer). Claro que nunca li nada seu vs as ciencias sociais

    Venha ele, com ou sem gralhas.
    Abraço

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    Comentar por jpt — 28/10/2009 @ 11:19 am

  12. Olá Tó Mané.

    Achei imensa piada a este episódio:
    – sou fã incondicional da internet
    – ao tentar encontrar uma tradução mais ou menos séria à travessa da da tua quinta, (pois vi uma fotos deste fim de semana com a Paula, Carla, Fernado e Serrinha, na dita), cheguei a este blog, e claro ao ABM.
    – O interessante é que eu já tinha passado por aqui através de indicação de um amigo e agora um dos autores tem um rosto.

    Gostei muito e é apenas 1 episódio engraçado que partilho.

    Gaby

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    Comentar por Gabriela Tavares — 23/08/2010 @ 3:57 pm


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