THE DELAGOA BAY REVIEW

25/10/2009

LM Radio

Filed under: História Moçambique — Etiquetas:, — ABM @ 9:07 pm

rcm-qsl

por ABM  (Alcoentre, domigo, 25 de Outubro de 2009) –

Ao referir a rádio em duas recentes crónicas, e ainda nomes e a psicose de mudar os nomes e o que isso significa e implica, descobri umas coisas interessantes que gostava de explanar aqui.

A primeira é que tenho poucas dúvidas que, pese a ditadura, o colonialismo, a opressão e essa desgraça toda (ainda é muito politicamente incorrecto falar das muitas coisas boas que faziam a vida de muitos dos que ali viveram)  eu creio que da melhor rádio que se fazia em língua portuguesa em qualquer parte do mundo nos anos 60 e 70 era em Moçambique. Constatei isso facilmente quando anos depois comecei a vaguear pelo mundo. Retrospectivamente, podemos dizer que foi uma irónica benesse do sistema. Hoje há teses inteiras sobre o papel da rádio no sistema, na colonização, etc – até tentei descarregar uma há bocado mas como tinha que pagar eu….preferi poupar e permanecer ignorante. É assunto para blogue mas não está nos top 20 da minha atenção cosmológica, confesso.

Eu refiro-me à qualidade do que eu ouvia quando miúdo, nada mais. Hoje já sei que havia lá gente muito boa e que as instalações são excelentes, ainda hoje são espectaculares. Eu se mandasse punha já o pessoal da RM num edificio novo, restaurava o edifico e fazia daquilo um hotel de charme, com useu da rádio e tudo. Os terrenos das antenas de onda curta parece que já foram despachados para um mega-centro comercial, apartamentos, etc. É o progresso, presume-se.

O Rádio Clube de Moçambique tem uma longa e interessante história, que se pode encontrar um pouco por aqui e ali na internet, desde os seus primórdios até ao seu sucedâneo (apesar do corte radical) a actual Rádio Moçambique, que há já algum tempo transmite uma programação meio chôcha na internet, ou melhor, em vez de transmitir para os moçambicanos cá fora e o pessoal que quer coisas moçambicanas, re-transmite alguma da programação local, o que dá um efeito um pouco deslocado. Mas hão-de lá chegar quando perceberem que a rádio pela internet é onde está o negócio.

Talvez mais interessante seja o caso peculiar da LM Radio, que segundo os registos que li trasnmitiu de 1966 ate 12 de Outubro de 1975. Diga-se em bom rigor aquilo quase nada tinha que ver com Moçambique por assim dizer, para além de transmitir de Lourenço Marques para todo o Sul da África e cujo mercado alvo era o segmento jovem do mercado sul-africano. Isto porque a pelos vistos muito mais careta SABC, tão governamentalizada então como hoje, só transmitia uma estranha dieta boer conservadora que pelos vistos as pessoas pagavam para não ouvir. A LM Radio transmitia 24 horas por dia, sete dias por semana, em onda média, o que significa que à noite podia escutar-se com qualidade (in)decente desde Cape Town até à vizinha Joanesburgo. A estação A de Lourenço Marques saia do ar antes da uma hora da manhã e a partir daí só se podia ouvir a estação B, que transmitia em inglês e afrikaans (ou africânder, no AO), com os intervalos de uma senhora a dizer em português (com um daqueles vigorosos fados atrás) a dizer que aquilo estava a transmitir de “aqui Portugal Moçambique”.

Pelas minhas experiências pessoais mais recentes de escutar os testemunhos de toda uma geração de brancos sul-africanos que hoje estão na casa dos 40 aos 60 anos de idade, aquilo era um caso sério de popularidade. No entanto, a única coisa que aquilo tinha de “moçambicano” (na versão antes da independência) era que a sigla da estação traduzia as iniciais da capital moçambicana, que transmitia a partir dessa cidade e que era talvez o segmento de negócio mais rentável do Rádio Clube. O que não era de descurar: Lourenço Marques (para os Maschambianos incautos, re-baptizada hoje de Maputo) era um dos destinos favoritos dos turistas sul-africanos e uma importantíssima fonte de receita e do desenvolvimento da então nascente indústria turísitca moçambicana. Moçambique estava a construir uma marca forte neste negócio de lazer e passeio, sendo os turistas sul-africanos (como hoje) o mercado mais próximo, mais cativo e mais natural para Moçambique. O facto do nome da estação ser o que era, transmitir de onde transmitia, e o seu conteúdo, dava uma certa aura mágica e de prazer nas mentes dos sul-africanos – pois não consigo arranjar outra explicação para a impressão que permaneceu nas memórias de tanta gente, que viam em LM uma espécie de Las Vegas europeia perto das suas fronteiras, radicalmente diferente das suas vidas plácidas nas zonas “brancas” onde viviam em relativo conforto. Ainda hoje todos falam das LM prawns – e eu que vivia lá devo ter comido camarões não mais que meia dúzia de vezes até chegar aos 15 anos…

Naturalmente que, para os revolucionários da Frelimo recentemente chegados de Dar-es-Salaam em 1975, com bazookas e Ak47 e de fato militar verde escuro, imagino que a presença nos estúdios da nascente RM de meia dúzia de jovens locutores sul-africanos a transmitir rock and roll para os meninos e as meninas teenagers da Joanesburgo do famigerado apartheid devia dar um episódio digno de um filme do Cantinflas. Misericórdia e revolucionariamente, o novo Departamento de Trabalho Ideológico da Frelimo, pela pena do seu expoente, Jorge Rebelo, rapidamente  “orientou” que eles se pirassem dali para fora. A última emissão, com uma fleugmática  despedida de Peter da Nóbrega, ocorreu em 12 de Outubro de 1975, já com o caminho preparado para a inauguração de uma estação semelhante em território sul-africano, a Radio Five, que começou a transmitir o mesmo tipo de programação às 5 da manhã do dia seguinte, nas mesmas frequências de onda média anteriormente utilizadas pela defunda LM Radio.

Para minha surpresa – ou talvez não – recentemente um grupo de investidores creio que sul africanos, olhando desta vez para o muito lucrativo segmento de mercado sul africano branco que escutava a velha LM Radio, e que agora tem entre 45 e 65 anos de idade, repescou de alguma forma a marca e a aura anterior. Formou uma nova LM Radio, desta vez significando uma menos abrasiva  Living Memory Radio, (sim porque saudosismo naquelas paragens ainda suscita suspeitas de reaccionarismo colonial racista fascista) que – surpresa – já está a transmitir o que agora são canções antigas, dos anos 60 e 70, a partir de Maputo, em FM na cidade mas trambém através da internet.

Não sei até que ponto este projecto terá sucesso, nem o que quer dizer isto de a estação se basear em Maputo. Maputo já não é Lourenço Marques, a África do Sul já não é o que era. E aparentemente muita da aura associada à velha estação derivava da popularidade dos seus locutores, cujos nomes (John Berks, David Davies, Gary Edwards, Frank Sanders, Robin Alexander, George Wayne, David Gresham e outros) eram bem conhecidos na África do Sul. E que já morreram ou estão noutra.

Mas pode ser que vingue. Pela a minha parte, desejo-lhes muita sorte.

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5 comentários »

  1. Mais uma vez agradeço a notícia e a resenha histórica.
    Um abraço.

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    Comentar por L. — 27/10/2009 @ 3:08 am

  2. De qualquer modo vozes de burro não chegam ao céu…Já está no ar em Maputo 107.4

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    Comentar por rebelion — 26/12/2009 @ 1:47 am

  3. Tambem na Ponta do Ouro na mesma frequencia 107.4 num futuro próximo em Inhambane, Tofo, Vilanculos, Xai-xai

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    Comentar por rebelion — 26/12/2009 @ 1:51 am

  4. Lendo mais detalhadamente a história da LM RADIO vi que o meu primeiro comentário foi despropositado. Peço por isso as minhas desculpas e agradeço a sua excelente resenha histórica. Obrigado

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    Comentar por rebelion — 26/12/2009 @ 11:01 am

  5. Sr Rebellion

    Agradeço a “pedrada” e especialmente a respectiva recolha. E fico satisfeito de ter lido tudo e achado útil ou interessante.

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    Comentar por ABM — 27/12/2009 @ 6:41 pm


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