THE DELAGOA BAY REVIEW

30/10/2009

10 de Junho de 1973

Filed under: História Moçambique — ABM @ 4:43 am

19730610gepnilzalm

(por ABM) Cascais, 30 de Outubro de 2009

Mão amiga me arranjou a fotografia acima, que me chamou a atenção porque parecia velha e porque tinha em segundo plano a estátua do enigmático Mouzinho de Albuquerque, nos tempos em que enfeitava a praça em frente do edifício do actual Conselho Municipal de Maputo até pouco antes da declaração de independência de Moçambique em 1975 (agora há lá uma obra de ferro um pouquinho menos…monumental).

No verso da fotografia vinha uma nota: “dia da Raça, 10 de Junho de 1973, desfile dos GEPs, Nilza”.

Em 1973 eu tinha 13 anos e vivia naquela dolce vita própria da idade, completamente alheado do que agora se revela como a Grande, Valorosa e Gloriosa Luta para a Libertação de Moçambique. Bem, para mim, que era um pouquinho menos ciente das coisas que a família Couto, a “guerra” era algo relativamente obscuro que acontecia lá longe no Norte, e é preciso ver que “lá no Norte” em Moçambique, dada a geografia, era mesmo muito, muito longe para quem vivia a mais que dois mil quilómetros ao Sul.

Para além do desporto, jogar ao berlinde e da escola, as maiores recordações que tenho desse ano foi o carnaval no Desportivo (choveu potes), que a canção Popcorn era o maior hit na cidade e ainda aquele dia em que o pai BM decidiu podar as gigantescas mangueiras no quintal da delapidada casa onde vivíamos, algo que levou o dia inteiro e deixou no quintal montanhas de ramos das ditas cujas. E o governador, que diziam que tinha a boca na forma do cu de uma galinha.

Aliás já nem me lembrava que se chamava ao dia 10 de Junho o “Dia da Raça”. Da raça? que raça? Hoje o 10 de Junho tem uma designação um nadinha mais prosaica e abrangente – acho que é “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Supostamente, 1′ de Junho é o dia em que o Luis Vaz morreu em 1580, pouco antes de o octagenário rei-cardeal, infalivelmente, falecer sem deixar descendência, passando a coroa portuguesa, depois de umas negociatas com a local nobreza, para as mãos da monarquia espanhola, iniciando-se assim a “grande noite” que durou até que, sessenta anos mais tarde, o então Duque de Bragança, quiçá mais apreensivo que a sua mulher (que terá proferido o famoso “antes rainha um dia que duquesa toda a vida”) apadrinhou a retoma da regência por nobreza made in Portugal e se seu o título de Dom João IV.

Para sorte do Duque, o rei espanhol andava tão ocupado a tentar não perder a cabeça na Holanda e arredores que em 28 anos nunca teve tempo nem recursos para vir dar uma valente tareia aos seus súbditos rebeldes. Estes entretanto deram o que tinham e não tinham para ter algum apoio dos ingleses e que incluiu efectivamente entregar toda Índia (menos Goa) e o Ceilão, mais uns naviozitos carregados de ouro e de electrodomésticos. Para selar o negócio, até casaram a filha de João, Catarina de Bragança, beata e estéril, a um indescritível Carlos II, que lhe pôs os cornos mais vezes do que há segundos numa hora. No fim, aquilo tudo funcionou mais ou menos e trezentos anos mais tarde fez-se uma curiosa praça em Lisboa no fim da Avenida da Liberdade, apropriadamente baptizada como a dos “Restauradores”, e instaurou-se um feriado. Em Portugal celebra-se esse evento todos os anos a 1 de Dezembro.

Portanto houve um desfile na baixa de Maputo (então LM) com os GEP’s a 10 de Junho de 1973. Como não sei o que eram os GEP’s fui ver. E fiquei surpreendido com o que encontrei aqui, aqui e aqui. Até encontrei um sítio com uma longa lista de emblemas que inclui alguns de Moçambique (do lado português, isto é).

Portanto os GEP’s eram compostos quase integralmente por moçambicanos que, do que depreendo, ou tinham sido da Frelimo ou que a ela se opunham.

Li algures (ok, num livro do Jaime Nogueira Pinto que já referi antes) que em 1974, da força militar que combatia a Frelimo, 60% eram nativos de Moçambique. Pergunta estúpida: o que é que aconteceu a estes militares – de que o que está na foto acima é um deles? ficaram em Moçambique após a independência a prestar contas à Frelimo? vieram para Portugal? têm reforma nossa por prestação de serviços ao Estado português? foram integrados nas forças militares do Moçambique independente? imagino que na fase de transição alguém deve ter pensado nisto tudo. Mas não encontro referência escrita a este tópico.

Certamente um capítulo interessante da história de Moçambique (e de Portugal) sobre a qual seria interessante saber mais.

Entretanto aí fica a fotografia, com a Nilza a dar água a um militar GEP na parada deles no “dia da Raça” – o último que alguma vez se celebrou em Moçambique sob administração portuguesa.

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9 comentários »

  1. O teu texto levanta algumas questões e tem, pelo menos, duas incorrecções, que passo a descrever:
    1 – o dote de Catarina de Bragança não foi de “toda a India”, mas sim de Bombaím, cidade portuária que Portugal então controlava. Porventura com mais algumas “concessões” (que é um eufemismo histórico para in-descrever conquistas) mas fundamentalmente centrada nesta – teria que ir ver nos livros, coisa que agora não posso.

    2 – é historicamente falso que Catarina de Bragança tenha sido “corneada” pelo seu marido, como afirmas. A noção de fidelidade conjugal não se aplicava aos casais reais, e mesmo à grande nobreza, assumindo-se a possibilidade e pertinência dos maridos terem múltiplas companhias sexuais, e inclusive formas compósitas de reconhecimento da bastardia. Quanto às mulheres era diferente, fundamentalmente no relativo à procriação. Mas isso de “cornear” a princesa, no sentido em que lhe damos, é incorrecto.

    3. Há alguma bibliografia sobre as tropas moçambicanas recrutadas pelas forças armadas portuguesas. No fim-de-semana tentarei encontrar as referèncias bibliográficas.

    A sua esmagadora maioria ficou em Moçambique, tal como em Angola (onde o fenómeno é relativamente semelhante). Que eu saiba nao ocorreu o fenómeno angolano onde, os ainda em idade militar, foram massivamente recrutados pelas partes beligerantes. Aqui algumas franjas, em particular tropas especiais, integraram-se na inicial Renamo, outra terá entrado na Frelimo combatente. Mas a maioria foi desmobilizada (ou já tinha sido) inserindo-se sem mais na vida civil. Não houve perseguições.
    Em Moçambique houve um fenómeno algo diferente que foi o da publicitação dos “comprometidos” com o regime colonial nos anos 70, que julgo ter terminado em início de 80s. É sociologicamente um fenómeno muito interessante, mas não cabe numa caixa de comentários – não tem no entanto uma ligação directa com os militares recrutados.

    É interessante saber que em Angola um antigo “tropa especial” chegou a chefe-de-estado-maior do exercito e que em Moçambique pelo menos um antigo tropa especial veio a ser ministro. São dois exemplos-mor, apenas para ilustrar a forma de integração que aconteceu.

    Exemplo lamentavelmente contrário foi o guineense, onde o regime de Luís Cabral procedeu ao massacre generalizado das tropas arregimentadas pelas forças armadas portuguesas. Para depois esse ditador assassino se recolher ao exílio em Portugal, convém não esquecer.

    Aqui os ex-soldados no exercito portugues não tèm nem tiveram no pós-independeència uma identidade comum enquanto tal (o que denota tambem a sua reintegração radical na vida social e a ausência de uma política ou prática estrutural de exclusão ou repressáo). Quanto às reformas ou pensões houve um surto mitológico de que o governo portuguès iria pagar pensoes no final dos anos 90, devido à campanha em Portugal nesse sentido que Paulo Portas fez (alguém se lembrará disso). Foram âs dezenas de milhar os pedidos, e até a mim pelo país fora vinham inquirir (dado que eu como portugues deveria saber sobre o assunto) sobre a possibilidade de receber pensões. Finalmente o governo portugues legislou no sentido de conceder complementos de pensão aos ex-militares portugueses, acabando com as possibilidades dos cidadãos moçambicanos de receberem tais pensões.

    sIsto saíu tudo a correr, sem ir consultar textos. Com toda a certeza muito haverá a melhorar e a complementar. Mas fico por aqui agora

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    Comentar por jpt — 30/10/2009 @ 9:55 am

  2. a) India – escusado serã dizer que nem então nem antes nem depois Portugal dominou “toda a India”
    b) estou à espera que me apareçam aqui a resmungar que estou a fazer a apologia da Frelimo e a escamotear a tenebrosa repressão que aconteceu. Mas nada poderei contra-argumentar. A História não existe, há histórias ao som de cada um. E a gente escolhe os discos (e os youtubes e os mp3) que quer

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    Comentar por jpt — 30/10/2009 @ 10:05 am

  3. Bom dia JPT, madrugaste.

    Vou ser rápido pois tenho que ir à Inspecção periódica da carripana:

    1. sim, foi Bombaim e arredores. Li em tempos um longo livro sobre a posterior e assaz “involuntária” tomada britânica do sub-continente. Mas o início da festa foi a transacção que decorreu da aliança de João IV com um Charles meio abalado pelo exílio e a experiência Cromwelliana;

    2. Li vários livros sobre Carlos II e Catarina. Verdade o real costume. Mas garanto-te que neste caso Catarina se sentiu encornada em toda a linha, ainda por cima duplamente assim pois parecia que Charles “quecava” muito e ainda por cima cada queca que Charles dava saía um belo filho e ela nada. A corte desprezava-a por ser católica, séria e estéril…morreu miserável num convento português em 1705 – mas missão cumprida para Portugal. Nunca foi homenageada. O Bairro de Queens, em Nova Iorque, foi assim baptizado em honra dela. Ainda fui a alguns bailes da “Rainha” no Plaza em Nova Iorque, abrilhantados pelo Sr Duque de Bragança (o Duarte Pio) e… Donal Trump! o mundo dá umas voltas. A ideia era juntar dinheiro para construir uma estátua a Catarina. Mas depois alguns grupos “afro-americanos” progressistas descobriram que ela tinha tido escravos e que era dessa corja esclavagoista dos portugueses e foi tudo ao ar. Foi quando saiu aquele filme horrível (magistralmente feito) do Spielberg sobre um barco português que traficava escravos.

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    Comentar por ABM — 30/10/2009 @ 11:00 am

  4. “um dote irrecusável de dois milhões de cruzados,
    a praça de Tânger em África,
    e a pequena feitoria na ilha de Bombaim, na Índia – que no séc. XVII era um território pobre e pouco previsível vir a ter o imenso desenvolvimento que os ingleses lhe deram.
    Estas possessões portuguesas significavam muito para a Inglaterra, que sempre privilegiou os pontos estratégicos, em termos de comércio e de guerra,
    e que mereceram do conde de Clarendon, conselheiro de Carlos II, mais tarde Lord Chanceller, o seguinte comentário: «podiam razoavelmente avaliar-se em mais do que o dote em dinheiro».

    A quantia do dote foi difícil de conseguir, dado o país atravessar um período de quase penúria. A rainha foi a primeira a vender as suas jóias pessoais, que eram muito valiosas, pois D. Luísa de Gusmão foi provavelmente a rainha portuguesa que mais rico dote trouxe, quando casou. Pertencia à casa Medina Sidónia e era quase um reino dentro do reino de Espanha. Para completar o dote de D. Catarina foi necessário empenhar pratas, jóias e outros tesouros de conventos e igrejas. O Brasil também contribuiu, porque ainda era colónia.
    Nas cláusulas do contrato de casamento o dote seria pago em mais do que uma vez, pois era difícil conseguir o montante combinado. … contrato de casamento, assinado em 23 de Junho de 1661 e que se revestiu de grandes dificuldades, dada a influência do embaixador da Espanha em Inglaterra, que não podia dizer pior do nosso país e do aspecto físico da princesa Catarina.

    Valia-nos o interesse de Luís XIV que apoiou o enlace, tendo oferecido a Carlos II, seu primo, 30.000 pistolas e durante todo o reinado apoiou-o monetariamente, por diversas vezes.”

    http://www.leme.pt/biografias/catarina/

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    Comentar por umBhalane — 30/10/2009 @ 11:43 am

  5. Já vim da inspecção do carro (yupi, passou).

    Sr 1B

    Vejo que para além do resto, partilhamos algum interesse no que os nossos antepassados andavam a fazer. Congratulo-me por isso.

    De facto a personalidade que mais me impressionou em todo este episódio de 1640 e anos seguintes foi Carlos II, cuja biografia dava uma novela brasileira. Para além de mulherengo que bastasse, gastava fortunas incríveis em não sei bem o quê e estava sempre sedento de dinheiro, depois de anos e anos (os anos “republicanos” da Inglaterra) aos caídos a pedir esmola aqui e ali. Quando não estava numa espécie de versão real de uma “rave party” estava à estalada com o Parlamento ou a tentar extrair dinheiro de alguém. Assistiu ao grande incêndio de 1666, que radicalmente alterou a face do centro de Londres para o que essencialmente é hoje. Para Portugal, apesar de na verdade o contributo inglês ter sido relativamente fraco, o mero facto de os espanhóis terem a ameaça um apoio inglês à independência portuguesa foi uma apólice de seguro (caríssima) que resultou. Em 1704 o tratado de Metuen iniciou uma subalternização portuguesa ao poderio inglês que durou quase 250 anos.

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    Comentar por ABM — 30/10/2009 @ 1:26 pm

  6. Eu já cá gosto de “Ingleses” à tupiniquim, churrasco à moda do pré-Brasil.

    Conheço-os, mais ou menos, lá do Luabo – a S.S.E. era de capitais, maioritariamente maiores, britânicos.

    Registo, ressalvo, que o filho do “patrão”, o Peter Doublay era um 7 estrelas, talvez pelo Sangue Português que lhe corria nas veias – Paiva Couceiro?

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    Comentar por umBhalane — 30/10/2009 @ 4:52 pm

  7. Enfim… mais valia termos ficado com a Espanha…

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    Comentar por Ana Leao — 31/10/2009 @ 10:19 am

  8. É ENGRAÇADO… Tambem eu estive neste dia na antigea Praça Mouzinho de Albuquerque a assistir às comemorações do 10 de Junho… e tinha tb 13 anos, pq nascido em Fev de 1960!
    Mas, mais engraçado ainda. No dia seguinte ao desfolhar o NOTICIAS, eis que numa fotografia da 1.ª página este mufana aparecia a emoldurar a multidão. Que emoção e que orgulho (?!)… Claro que guardei o jornal… Por pouco dias. Ainda vou procurar aos arquivos em Lisboa.

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    Comentar por Casimiro Serra — 02/11/2009 @ 5:55 pm

  9. Sr Serra

    Bolas o mundo é pequeno. Então estava lá e foi capa do Notícias. E nascemos com diferença de dias … procure lá essa fotografia para a gente ver. Muito grato pela sua mensagem.

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    Comentar por ABM — 03/11/2009 @ 12:42 am


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