THE DELAGOA BAY REVIEW

31/10/2009

O Meu Primeiro Halloween

Filed under: EUA, Europa-África — ABM @ 8:48 pm

lua-de-novembro

por ABM (Cascais, noite de Halloween, 31 de Outubro de 2009)

Quando em 1977 emigrei para os Estados Unidos da América, depois da sequência de eventos que levou ao que então eu me apercebia que iria ser um muito longo exílio de Moçambique (foi), saí da Estação B de Coimbra no dia 20 de Setembro no comboio Foguete com destino a Lisboa, em seguida voei para Ponta Delgada, onde tinha que cumprir algumas formalidades finais do processo de emigração junto do consulado norte-americano e aguardar luz verde para poder voar para a cidade de Boston. No dia 20 de Outubro ao fim da tarde – uma quinta-feira outonal – o voo TAP 312 aterrou no Aeroporto de Logan, repleto de emigrantes portugueses e açorianos, cheios de sacos com roupa, chouriços e agasalhos, provocando o desdenho das fleugmáticas hospedeiras.

Ao contrário da impossibilidade do regresso a Moçambique, algo involuntário mas sugestivo do fim de um capítulo, a ida para os Estados Unidos fora intencional, planeada e benvinda, pois, mais do que tudo, representava a possibilidade de retomar uma normalidade que já começava a parecer mítica. Em Portugal sentira-me um refugiado que não era benvindo nem assistido. Literalmente toda a agente que eu conhecera até então estava asilada, refugiada, pendurada e em parte incerta do planeta. Desenrascava-se e sobrevivia-se, sem qualquer perspectiva de futuro. Apesar do pronunciamento anti-comunista em Novembro de 75, quem fosse mais do que “socialista” era “fascista” e a liberdade adquirida era a liberdade de insultar tudo e todos e de poder ver um filme pornográfico num cinema perto de casa. Nessa altura até Sá Carneiro dizia que era socialista e que queria construir uma sociedade sem classes. Aquilo tudo parecia-me ser uma vasta, longa, chata, incompreensível anedota latina.

Cedo descobri que não gostava de revoluções de partir a loiça, com tropa fandanga na rua, gente rasca bem falante, oportunistas falhados em pontas de pés à busca de cunhas e favores, putas, peregrinos de Fátima em joelhos e revistas aos carros na EN1 à procura de armas, cartazes revolucionários e muito, muito sujo, tudo espapaçado nas paredes e nas ruas, comunistas de Mercedes Benz, frio, escuro e penumbra. Tudo à beira de um ataque de nervos, tudo à procura de algo em troco de nada, o povo, ainda algo macambúzio, expectante quanto às promessas da Nova Ordem, agora democrática, descolonizada, igualitária e “europeia”. Ah as promessas! pois não era que tudo o que havia de mau em Portugal fora culpa da longa noite salazarista.

Aprendi nessa altura especialmente a não gostar daquelas revoluções onde se fala muito e faz-se pouco, aquelas que nos deixavam no meio da rua à noite, à chuva, sós, a segurar na mão enregelada um saco de plástico contendo tudo o que nos pertence e que ainda nos desconfia de ladrões e ideologicamente polutos – o que no meu caso, com 15 anos, era ficção científica.

Nos EUA todos eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia a promessa da inclusão, a garantia da oportunidade – e da estabilidade. Curiosamente, encontrei no ethos norte americano uma cultura de tratamento igual para todos. Lá não havia generais nem doutores nem empresários de sucesso, havia o igualitário you . Valorizava-se o mérito, a honestidade, a pontualidade, a disciplina, o dinheiro. Em média a diferença entre as pessoas era na quantia de dinheiro a que tinham acesso (cash – e em dívidas, o que foi uma novidade para mim). Havia de tudo e tudo me parecia ser barato e acessível sendo apenas necessário trabalhar e ganhar um salário. Havia casas para alugar, supermercados cheios de tudo e empregos para quem quisesse trabalhar. Em Portugal não havia.

Nos EUA de 1977 ninguém sabia que Portugal se havia separado de Espanha em 1640 – e ninguém parecia querer saber. África ficava em Marte, Moçambique em Saturno, e os negros americanos ainda não se rotulavam como african-americans. Eram apenas cidadãos americanos de pele mais escura que eram vergonhosamente discriminados pelos brancos numa espécie de apartheid com paredes invisíveis.

Nos EUA, as revoluções fazem-se todos os dias, entre o café da manhã e a hora de ir para a cama, pelas pessoas. Não havia “ismos”, nem militares a mandar, nem Conselhos da Revolução, nem constituições a dizer que todos tínhamos direito à saúde, paz, pão e habitação. Não havia canções revolucionárias (só para chatear, esta do Zéca Afonso transpira dos tempos que passou em Moçambique) nem slogans na rádio, nem jornais panfletários. Passavam a majestosa abertura de John Williams para o Episódio 3 de Star Wars e os sucessos dos Bee Gees.

Era outro mundo.

Uma semana depois de chegar aos EUA, quando a mãe BM chegou a Boston no mesmo voo dos Açores, já tinhamos arranjado emprego, escolas, carro, casa, mobília, até uma televisão a cores (uma RCA) e uma torradeira daquelas que só os americanos podiam inventar, que fazia 4 torradas ao mesmo tempo. Quando ela entrou no pequeno apartamento que já tínhamos decorado modestamente, ela chorou durante meia hora, pois depois de Moçambique, há dois anos que vivia acampada em quartos de casas de estranhos contrariados sem saber o dia de amanhã.

Na segunda-feira seguinte era dia 31 de Outubro. No liceu local eu re-iniciara os estudos (inacreditavelmente, começara quatro anos antes no Liceu António Enes, depois Liceu Salazar/5 de Outubro em Maputo e em Coimbra no Liceu Infanta Dona Maria – sem chumbar um ano). Aí avisaram-me que este era dia de Halloween e se eu me queria ir juntar aos colegas à tarde para fazer trick or treating . Trique ou triting? do que é que eles estavam a falar? claro que esta, que é a parte principal do Halloween, que hoje, um tanto enigmaticamente, se comemora em Portugal, não se faz, e que consiste em ir de porta a porta pela vizinhança, mascarado de bruxo ou de abóbora, a pedir um trick (uma habilidade, que ninguém fazia) ou treat (um rebuçado ou chocolate). As pessoas preparavam-se de antemão de forma a que nessa noite tenham em casa um caixote cheio de rebuçados e chocolates que dão aos míudos que batem incessantemente à porta. À noite a televisão passava uns velhos filmes estilo “sexta feira, dia 13” com muito sangue, gritaria e facadas no peito, que os miúdos vêm juntos, também aos gritos. Nessa noite cheguei a casa com um enorme saco cheio de treats.

Confesso que na altura achei aquilo tudo completamente estranho. Mas com o tempo a tradição entrou na família, tal como o feriado do Thanksgiving, daqui a três semanas e meia.

Uns anos mais tarde passei a associar a noite de Halloween a um evento bem mais triste, pois foi nessa noite, em 1982, que o meu colega moçambicano, o Rui Abreu, se suicidou na cidade norte-americana de Cleveland, não muito longe de onde eu vivia. A mãe dele, Mercedes, de Tete, faz anos no dia seguinte, 1 de Novembro.

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7 comentários »

  1. Rui Abreu, grande nadador, atleta.

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    Comentar por umBhalane — 31/10/2009 @ 10:29 pm

  2. muito bom!
    como se amanha com o JPT e a Africa de hoje?

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    Comentar por pedro pimentel — 01/11/2009 @ 3:57 am

  3. Esta pergunta de Pedro Pimentel tem “água na tecla”?

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    Comentar por jpt — 01/11/2009 @ 9:24 pm

  4. Sr PP

    Ainda bem que gostou deste pequeno texto.

    Quanto à sua pergunta, a resposta é:

    “sim, talvez”.

    🙂

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    Comentar por ABM — 02/11/2009 @ 1:59 am

  5. Amigo Tomané, gostei, um pouco nostálgico. Mas é sempre bom recordar.

    Abraço

    JS

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    Comentar por jaime — 05/11/2009 @ 12:30 am

  6. JS

    Pequem as aparências,a única coisa de que verdadeiramente tenho sempre nostalgia, é do futuro. De haver e ter um futuro. O resto, são apenas memórias no vento…

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    Comentar por ABM — 05/11/2009 @ 3:23 am

  7. Olá Tomané, sou um patrício teu mais novo mais próximo da tua irmã Paula,fui tb eu nadador do Ferroviário e lembro-me bem de ti no Desportivo assim como da Cló Dulce Gouveia, Graça Simão, do Serrinha e do nosso malogrado Rui, de tantos outros que fizeram parte de um período tão especial e inesquecível. Não só porque quase todos abandonamos África e para trás ficou toda uma mão cheia de oportunidades que não se consumaram.É engraçado que decorridos estes anos todos estas amizades imaginarias ainda perdurem. Deixo-te aqui um forte abraço.

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    Comentar por Fernando Rui Gomes Pinto — 14/11/2009 @ 12:14 am


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