THE DELAGOA BAY REVIEW

05/11/2009

Acabou o Século XX (2)

Filed under: Europa, Globalização — ABM @ 2:51 am

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http://www.youtube.com/v/VDfCsK4hQSQ&hl=en&fs=1&

por ABM (Cascais, 4 de Novembro de 2009)

Quando vi o título da nota do JPT sobre o fim do Século XX, pensei que era sobre um assunto completamente diferente do que ele versou – o desaparecimento do ilustre antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss.

Sendo assim, escrevo abaixo a nota que pensei que iria ler :):

O século XX acaba no dia 1 de Dezembro de 2009.

O (relativo) fenómeno da construção de uns Estados Unidos da Europa, numa versão um pouco mais tribal que a norte-americana, chegou a mais um passo crucial esta semana com a relutante assinatura, pelo presidente da República Checa, dos termos do documento chamado Tratado de Lisboa. Depois da aprovação do Tratado pela Irlanda há poucas semanas, este era o único impedimento formal para que a União Europeia (UE) procedesse com a aplicação dos seus termos, e que constituem uma considerável reforma e evolução no seu funcionamento a todos os níveis e ainda na sua operacionalidade, desde a recente expansão para Leste da sua abrangência territorial.

Segundo um artigo do Times de Londres – e se calhar apropriadamente – o chamado Tratado de Lisboa terá sido uma congeminação de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy para ultrapassar a “muralha eurocéptica” ao nível das urnas, remetida para cima de um inteiramente pródigo, sorridente e receptivo José Sócrates (corria então a presidência portuguesa da UE, que durou seis meses, portanto ao conteúdo franco-alemão adicionou-se o rótulo português, importante e inútil simbologia para o povão português, que como de costume estava completamente a Leste do paraíso – conquanto chovam subsídios europeus, claro).

Isto porque havia a total consciência de que, apesar do seu peso e importância em termos estatísticos, e num mundo cada vez mais balcanizado em enormes blocos continentais, a Europa não sucedia em focalizar e tornar efectivo esse seu capital económico, moral, cultural, diplomático e militar nos principais teatros de conflito e negociação mundiais. E que o tempo não estava do lado dos europeus em termos de tornar essa união mais evidente junto dos seus interlocutores. O texto do Tratado pretende tornar esse protagonismo potencial em algo mais palpável.

Pela primeira vez, por exemplo, são criadas as figuras de Presidente da UE e uma espécie de ministro dos Negócios Estrangeiros da União.

Naturalmente, já anda tudo à estalada sobre quem serão os elegíveis.

Talvez mais importante a longo prazo, fica aprovada uma Carta de Direitos Humanos que se aplica a todos e cada residente na União.

Se bem que inúmeros atributos permaneçam antes que se possa vislumbrar uma entidade integrada ao mesmo nível que os EUA – em matérias óbvias como a adopção de uma língua franca, a harmonização social, fiscal, militar, em matérias de saúde e de justiça, a versão da UE que emergirá às zero horas do dia 1 de Dezembro próximo representa um marco que assinala o fim de um século de guerras, morte e mudanças sem precedente no continente europeu.

No início do século passado a Europa era caracterizada por “impérios” internacionais, multi-nacionais e multi-étnicos mais ou menos estanques que estendiam os seus tentáculos por quase todo o mundo, talvez com a excepção – sob o chapéu da Doutrina Monroe – da América Latina.

Das rivalidades intestinas, disparidades, inconsistências e conflitos latentes no espaço Europeu resultou a (então) Grande Guerra de 1914-1918, provocada por um assassínio e uma estúpida sequência de eventos, que, não sendo uma resolução definitiva dessas questões, como se viu vinte e um anos mais tarde com o oportunismo fratricida da máquina Nacional-Socialista alemã, teve as poderosas consequências de a) proporcionar o ensaio para uma nova forma, mais transparente e mais participada, de conduzir as relações internacionais, b) estabelecer alguns princípios morais e doutrinas que deveriam nortear a conduta dos Estados – de que a génese das ideias que levariam às descolonizações se seguiriam anos mais tarde, c) acordar, ainda que muito efemeramente, o colosso norte-americano para o mundo, e d) criar as condições para o aparecimento e consolidação do comunismo soviético, esse verdadeiro cancro do século XX.

Mas não havia projecto político, económico e social europeu, nem mesmo depois da derrota Nazi em Maio de 1945, do Plano Marshall (que Salazar, eternamente desconfiado e displicente em relação aos americanos, rejeitou) e da criação, com o patrocínio milionário dos Estados Unidos, do pacto de que resultou a criação da NATO. Em muitos aspectos, parecia que quanto mais as coisas mudavam, mais elas ficavam na mesma. Era business as usual.

A mudança veio através de um mais ou menos obscuro acordo, celebrado em 1951, para facilitar as trocas de aço e carvão entre alguns países na região central da Europa não ocupada pelos soviéticos. Subjacente estava o propósito de apoiar a integração europeia e reduzir ou tornar impraticável o recurso à guerra para a resolução de conflitos na Europa.
Daí atè à criação da Comunidade Económica Europeia em 1967 foi um grande passo, com os habituais passodobles entre britânicos e franceses. Portugal e Espanha entraram para a CEE em 1 de Julho de 1986.

O passo seguinte resultou do colapso do comunismo na Europa e na União Soviética, simbolizado pelo início do derrube, na noite de 9 de Novembro de 1989, do muro de Berlim, que a) abriu as possibilidades de uma reunião da família Europeia numa comunidade alargada, b) quase imediatamente reabriu e de forma diabolicamente sangrenta o dossier Balcãs – curiosamente, quase os mesmos ódios que estavam na origem da I Guerra Mundial e c) sinalizou o crescente questionar do então já caro e algo extemporâneo patrocínio, pelos Estados Unidos, da cobertura estratégica da segurança militar europeia contra o antigo império soviético pelas forças armadas dos EUA. Apesar de alguns desentendimentos (por exemplo, os americanos insistiam na dependência europeia do sistema GPS, que era propriedade de e controlada pelos EUA), os americanos favoreciam a consolidação da Europa e ainda mais que os Europeus se organizassem e pagassem a sua própria defesa – algo impraticável no contexto da infinita complexidade e pulverização dos processos de decião europeia.

Nestes termos, a conclusão lógica de um século de conflitos dilacerantes e mudanças radicais na Europa era, obviamente, a consolidação de uma união entre as nações da Europa. Algo que, após o Tratado de Maastrich e a implementação do Euro em 2002 ficou a um fio de distância.

O Tratado de Lisboa cobre esse fio e desse modo encerra finalmente um processo que começou em 1914 e que cobriu quase todo o século XX.

Que assim se encerra, concluída mais ou menos a “birra” de Vaclav Klaus com a sua assinatura (ver acima como ele o faz, irritado e reclamando até ao fim) providenciando a ratificação do Tratado de Lisboa (a razão para a recusa era que ele gostava de manter o seu país livre e soberano e ainda a sua exigência – que foi satisfeita – de uma isenção especial, para o seu país, da obrigação, nos termos da Carta Europeia de Direitos, de pagar indemnizações a cidadãos suecos cujos bens terão sido arrestados e nacionalizados na sequência da II Guerra Mundial.

O Século XXI será um século de consolidação, um novo capítulo e, com sorte, com uma minimização de conflitos.

Sendo que nesse tópico sou como aquele jogador do Sporting que um dia disse: “prognósticos, prognósticos, só depois do jogo”.

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