THE DELAGOA BAY REVIEW

12/11/2009

E Agora Para Algo Completamente Diferente

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 6:40 am

galo de ferro

por ABM (Cascais, 12 de Novembro de 2009)

Para além de uma profundíssima actividade intelectual, este vosso escriba também faz algumas coisas menos gloriosas, tais como aspirar o chão da casa, limpar o quarto de banho, ler correspondência, fazer as compras no supermercado, regar as flores, levar o lixo ao contentor, etc.

Hoje foi a vez do quarto de banho. Não sendo de ascendência germânca, orgulho-me da metodologia que sigo, que se prima para eficiência e rapidez.

Só que hoje, algo me surpreendeu.

Foi o seguinte.

Quando o meu pai morreu, uma das coisas que fiz foi fazer um raid na despensa dele. O pai BM, que conseguia ser mais forreta e eficiente que eu, era do tipo de pessoa que se visse por exemplo pasta de dentes em saldo, comprava dez pacotes e metia na despensa. Depois estava dois anos seguidos a orgulhar-se, em reuniões de família, que tinha comprado pasta de dentes a x cêntimos a bisnaga. Para o exmo Leitor ter uma ideia do que aquilo era, ele infelizmente já se foi há oito anos e eu ainda estou a usar a última garrafa de champô que ele tinha lá em casa.

De entre as coisas que trouxe de casa dele há oito anos, vinha o que me pareceu ser um desodorizante daqueles de meter debaixo dos braços, daqueles de spray (em português AO: de esguicho de espargir…?).

Poucas vezes o usei, pois era uma espécie de arma de recurso para quando se acabava o desodorizante que eu costumava usar. E quando o usava, não era bem que aquilo tresandasse a perfume – que claro, tresandava. Era mais que tinha um odor um pouco forte demais a flores e eu não ia lá muito com aquilo. Mas não sou pessoa para me vergar facilmente perante um mero detalhe desses. Não vou deitar fora algo perfeitamente bom só porque não acho piada ao perfume. Servia perfeitamente, o pai BM tinha pago aquilo e o resto era conversa.

Só que hoje, durante as minhas limpezas no quarto de banho, dei de caras com o frasco, que estava em cima da mesa do lavatório, e resolvi por piada ler o que raio era mesmo aquilo.

Era, descobri, spray para eliminar o mau cheiro do quarto de banho.

Portanto, intermitentemente, durante oito anos, andei a usar spray de eliminar o mau cheiro do quarto de banho debaixo dos braços.

Hum. Pensando retrospectivamente, bem me parecia.

Melhor que isso só pode ter sido o episódio ocorrido quando os BM desembaracaram nos EUA em Outubro de 1977. Antes da mãe BM chegar de avião dias mais tarde, eu e o pai BM fomos na primeira expedição a um supermercado americano, que na altura nos pareceu ser o maior, o melhor, o mais barato e o mais diversificado supermercado existente na face do planeta. Era o Paraíso. Andámos lá perdidos às voltas a ver aquilo tudo, a maior parte do qual positivamente não percebíamos o que era. Enchemos um carrinho com algumas coisas para comer e trouxemos para casa, arrumando tudo na pequena despensa que havia no apartamento que alugámos por cima de uma lavandaria chamada State Street Laundry. Aquilo não era bem a Sommerschield mas na altura parecia-nos o máximo dos máximos, pois foi a primeira vez que tinhamos uma casa “nossa” desde a debandada descolonizante primeiro de Moçambique e depois de Portugal e que havia sido iniciada três anos antes, sem fim previsível.

Nessa noite o pai BM, cujos dotes gastronómicos são mais ou menos os de um sargento da recruta irritado e em tempo de guerra, preparou um excelente prato de esparguete com uma magnífica dose de almôndegas regadas com um molho de tomate, daqueles que vêm enlatados (na América então tudo era enlatado, parecia, e baratíssimo).

Aliás as latas eram tão baratas que ele comprou umas cinco latas, que vinham com aqueles rótulos com fotos coloridas das almôndegas que faziam crecser a água na boca.

Comemos aquilo mais umas vezes, até que um dia descobrimos que aquilo era ração para cães. Nesse dia, em vez de choque, rimos às gargalhadas e passámos a ficar fascinados com como os cães americanos eram tão mais bem tratados que as pessoas noutros países (o nosso pastor alemão em Moçambique comia, sempre, farinha com bofe).

Desde então, parece-me que este tipo de engano era relativamente comum entre os recém-imigrados nos Estados Unidos.

Advertisements

14 comentários »

  1. eheheheheh 🙂 🙂 🙂

    e, já agora, não o caso desta mas há algumas já por aí, adoro este começar de crónicas com local e data, desde a primeira assim veêm-me sempre à cabeça os “bilhetes de Colares” de ‘A.B. Kotter’, a sua visão das exóticas gentes lusas e seus estranhos hábitos, a hesitarem entre a condecendência e a incompreensão. igualmente o fascínio. sei lá porquê vêm-me sempre à cabeça quando leio as “crónicas de ABM, Cascais, ou Alcoentre, tantos de tal”. 🙂

    (já tenho o mail do Roger, tenho-me esquecido de o mandar)

    Gostar

    Comentar por cg — 12/11/2009 @ 7:44 am

  2. Gostei.

    Divertido, simples, bom retrato.

    Gostar

    Comentar por umBhalane — 12/11/2009 @ 10:18 am

  3. Adoro! Um momento Monty Python na maschamba. LINDO! 🙂 🙂 🙂

    Gostar

    Comentar por AL — 12/11/2009 @ 11:23 am

  4. Maravilhosa crônica!
    Nem precisa comparar a comida dos cães estadunidenses com a dos cães moçambicanos. Em Moçambique, os empregados viviam à base de carapau e mingau feito com um farelo de milho. Todos os dias a mesma comida!

    Gostar

    Comentar por Manoel Carlos — 12/11/2009 @ 1:51 pm

  5. ahahahahaha, espectáculo.

    isso faz-me trazer aqui o que ainda há poucos dias me aconteceu, quando fiz parte da barba com espuma (fixador?) para o cabelo

    Gostar

    Comentar por — 12/11/2009 @ 2:23 pm

  6. Cara, já ri tanto… rsrs… adoro os números 04, 08 e 09. E o 08 está cá… rsrs… ah, roubei algumas peças suas e coloquei no meu blog, mas não se preocupe porque dei os créditos. Senti paz por cá, em sua casa. Estava precisando. Obrigada.
    Beijos.

    Gostar

    Comentar por Cris Moreno — 13/11/2009 @ 6:36 am

  7. – E o Sr. é de Moçambique?

    – Sou, sim Senhor.

    – Ah, então conhece o Sr. Siva?

    – ????????????????????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!E donde é que ele é?

    – Parece-me que é de Lourenço Marques…

    – AH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Fazermos o quê?

    Gostar

    Comentar por umBhalane — 13/11/2009 @ 2:31 pm

  8. Tome lá uma história para a troca:

    http://oitoecoisa.blogspot.com/2009/02/quando-as-galinhas-ainda-tinham-dentes.html

    Gostar

    Comentar por mms — 17/11/2009 @ 4:49 am

  9. Que candura …

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 10:55 am

  10. não acho propriamente “cândido”, mas ‘tá(-se) bem.

    Gostar

    Comentar por mms — 17/11/2009 @ 11:53 am

  11. não? eu achei (e porventura a mana mais velha também)

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 11:55 am

  12. D MMS

    Li e e reli pois não tinha percebido à primeira. O seu desconhecimento espelha um pouco o contexto em que muitos de nós crescemos, especialmente no que toca a alguns aspectos da sexualidade. Em minha casa não se falava de sexualidade para além de umas super-tangentes-indirectas-sublimadas. Apesar de ter várias irmãs, aquilo era mais ambiente de equipa de futebol do que gente. Ou seja, falava-se muito de futebol e pouco do resto.

    Recordo-me (por sua culpa) da primeira vez que ouvi falar numa miuda ter o período. Estudava no Liceu António Enes em LM no 3º ano do liceu e tinha para aí uns 13 anos de idade. A minha classe era mista e tinha várias colegas. Um dia, no meio de uma aula – e recordo que naqueles tempos havia disciplina nas aulas, não o regabofe que me parece permear os sistemas actuais de ensino – uma colega minha chamada Deusa (esta nem inventada) de repente parece sentir-se mal, levanta-se, vai a correr ter com a professora, segreda-lhe ago no ouvido rapidamente e logo a seguir sai quase a correr da sala, deixando, enquanto saía, um rasto de pingos de sangue no chão, deixando as coisas dela na carteira. Fiquei em quase estado de choque pois até esse dia sangue só vira quando me feria, o que aliás já acontecera várias vezes.

    O episódio foi tópico de conversa e pelo fim da tarde (eu tinha aulas à tarde) eu já tinha um doutoramento honoris causa sobre o período das mulheres e até já tinha uma razão adicional para me sentir sortudo de não ter nascido uma…

    Quando mais tarde falei nisso às minhas irmãs, descobri que anos antes tinha havido um grande debate entre o sector feminino da equipa de futebol doméstica sobre o uso de tampões (que eu já vira lé em casa mas que me pareciam pensos esquisitos). Havia uns que se metem estilo paninho em cima da dita cuja e outros, que aprecem uns tubinhos, que se metem dentro da cuja dita tipo rolha. Aparentemente a mãe BM, católica praticante, achava que os de rolha faziam não sei o quê que era contra as Sagradas Escrituras. Fui perguntar à mãe BM onde é que estava nas SE a dizer alguma coisa sobre o período e os tampões Tampax. Ela mudou de cor e disse que esse não era assunto para discutir. “Porquê”, perguntei. Porque era um assunto de mulheres. Ah. Pois.

    Gostar

    Comentar por ABM — 17/11/2009 @ 6:26 pm

  13. Caro ABM

    Agradeço-lhe a resposta. Gostei de ler mais uma das suas histórias. Compreendo melhor do que possa imaginar o que é viver num regime familiar do tipo ‘equipa de futebol’, se bem que no meu caso a vantagem esteja claramente do lado feminino, o que só torna mais curioso a minha ingenuidade perante o assunto-que-não-tem-nome.

    (e agora vou ali ver se portugal se qualifica para o mundial)

    abraço.

    p.s. JPT, a so-called mana mais velha não achou o episódio nada ‘cândido’: há uma semana que lhe(s) andava a gastar as reservas de ‘fina & segura’.

    Gostar

    Comentar por mms — 18/11/2009 @ 10:34 pm

  14. Vera,

    Hoje, em compensação, as televisões portuguesas passam alegremente anúncios durante o dia para a ejaculação prematura e à noite para a impotência. Hum.

    Gostar

    Comentar por ABM — 20/11/2009 @ 4:23 am


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: