THE DELAGOA BAY REVIEW

17/11/2009

Sobre o Preço das Coisas

Filed under: Arte — ABM @ 3:50 am

Andy Warhol-200-One-Dollar-

por ABM (Cascais, 17 de Novembro de 2009)

Aos exmos leitores que não estudaram economia, e num first do Maschamba – e inteiramente grátis e absolutamente sem quaisquer truques – vou em seguida passar uma das mais importantes lições de economia que consegui aprender na vida, que incluiu quatro anos de licenciatura e dois de mestrado em Finanças em boas escolas norte-americanas (tipo das que nunca fecharam em 200 anos), seguido de 25 anos de trabalho em empresas privadas a fazer contas, algumas de cabeça (não destoando da Escola Primária Rebelo da Silva onde aprendi a ler, a escrever e a contar e na Rua dos Aviadores, onde muito do que aprendi não pode aparecer nestas páginas para não incriminar ninguém).

Cuidado que a lição é muito rápida e acho que é por isso que tanta gente pensa que entende mas depois não entende, especialmente em certas partes de Portugal.

Prontos?

Então aqui vai:

O preço de uma coisa é o valor que alguém estiver disposto a pagar por ela.

Todo o capitalismo ocidental, os Descobrimentos, a descoberta da penicilina e acredito que partes da Bíblia e elementos das mais ferozes teorias marxistas, para não falar nas negociações de jogadores de futebol para o Sporting e outros clubes menos importantes que o Sporting (ou seja, nos termos do nosso Estatuto, todos os outros) podem buscar a grande matriz dos seus postulados na frase que acima referi. É o busílis, o ponto de partida e o de chegada para tudo o que tem que ver com a economia onde todos nós, por mais esforçados, beatos ou vigaristas que sejamos, nos inserimos.

E esta semana surgiu um bom exemplo disso.

No mercado de arte contemporânea mundial há dois eventos que marcam o ano e tomam ao pulso em termos de como vai o mundo e quem anda a fazer o quê em termos de compras e vendas. Especialmente em ano de recessão como tem sido 2009.

Um é o leilão do Christie’s e o outro é o leilão do Sotheby’s, ambos na cidade de Nova Iorque.

Que se realizaram a semana passada nos respectivos cantos daquele burgo, ambos atraíndo a habitual panóplia de ricaços, riquérrimos, podres de ricos e outros afins, que inescapavelmente nos recordam quão pobres somos e ainda que a arte é também um produto como a carne do talho, que se vende, neste caso a quem der mais.

Um dos quadros postos à venda, acima reproduzido, data de 1962 , é da autoria de Andy Warhol e chama-se, para quem não adivinhou ainda, “200 notas de um dólar”. É uma pintura feita à mão sobre tela acrílica, de…duzentas notas de um dólar. Verdade, contei-as todas. É grandita, aí do tamanho de um espelho de saloon.

Agora, eu não tenho nem de perto nem de longe o faro artístico do JPT e da nossa Baronesa e de muitos (a maior parte?) dos exmos da comunidade Maschambiana. Para mim um quadro bonito comprado numa quinta feira à noite por 300 Meticais a um miúdo à porta do Piri-Piri em Maputo ainda é um quadro bonito. Aliás tenho um assim. Pode não ser representativo de uma qualquer cosmicidade espiritual ou da fase 4.2 da carreira do pintor que o pintou ou ainda do momento plástico-artístico da pintura mundial na altura em que foi feito. Acho bonito e para mim o argumento mais ou menos esgota-se aí.

Nessa óptica, confesso que aquele quadro de 200 notas de 1 dólar do Senhor Warhol passou-me completamente de lado. Para mim em princípio não valeria um prato de caracóis numa qualquer tasca da Trafaria cheia de moscas.

Por isso fiquei surpreendido de saber que o dito cujo havia sido comprado em 1986 por um casal de coleccionadores que vivia em Londres pela obscena quantia de …. 385 mil dólares.

Isto no tempo em que o dólar ainda valia alguma coisa.

Mas o casal, de apelido Karpidas, pelos vistos estava a ficar velho ou talvez curto na carteira e decidiu leiloar o seu Warhol no leilão da Sotheby’s da semana passada.

O que refiro a seguir está mais ou menos descrito numa curta peça do Economist desta semana, sobre como decorreu o leilão deste quadro.

Mas antes: o exmo. Leitor que tome um segundo e olhe lá para cima e pense quanto pagaria por aquilo, mesmo se lhe saísse o jackpot do Euromilhões.

Ok.

Cito: “o leilão foi aberto por Tobias Meyer, leiloador-mor do Sotheby’s, com um valor de base de 6 milhões de dólares. Imediatamente, Alex Rotter, um especialista do Sotheby’s que representava um cliente ao telefone, logo ofereceu 12 milhões de dólares. O preço escalou em incrementos de um milhão de dólar tão depressa que era difícil seguir de onde vinham as licitações”.

No fim, um cliente anónimo, representado por um tal Senhor Vinciguerra, e que se presume não ser o Senhor Joe Berardo, ganhou a corrida pagando…. 39 milhões de dólares que, mais a comissão da Sotheby’s e impostos, perfez um total de 43.7 milhões de dólares.

Li que em 1986 a compra daquele quadro por 385 mil dólares já fora basicamente um escândalo. O que não pensaram e disseram do casal Karpidas. Pelo menos fora o preço mais alto pago por um Warhol enquanto o artista ainda estava vivo.

“O preço de algo é o preço que alguém está disposto a pagar”.

O que é que esta gente viu no quadro, muito honestamente, muito sinceramente, por mais que eu olhe lá para cima…não sei. Aquilo parece-me ser uma mera, reles, banal pintura de duzentas notas de um dólar.

E a si?

Anúncios

11 comentários »

  1. Espanta-me muito que – ainda para mais com a tua formação académica e a tua experiència profissional – não percebas isto. É óbvio que o dolar se valorizou…. (e muito)

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 9:20 am

  2. Sensibilidade artistica? Moi? Eu sou como o ABM: se gosto, gosto e nao me interessa muito de onde vem ou quem fez. Sou, como ja disse aqui, mais bolos…

    Gostar

    Comentar por AL — 17/11/2009 @ 12:32 pm

  3. JPT

    O dólar americano nunca valeu tão pouco e esteve tão ameaçado como agora. A medida chave é contra o euro. Que outras moedas como o Metical e o Rande estejam tão mal ou pior que o dólar não é consolo. As moedas chaves para comparar são o euro e o yuan e o segundo está a ser há muito mantido artificialmente desvalorizado contra o dólar por razões estratégicas.

    Gostar

    Comentar por ABM — 17/11/2009 @ 6:05 pm

  4. Ó ABM … então, pá…!? 200 notas um dolar passam a 385 mil e depois a 40 e tal milhóes. Se isso não significa a valorização do dolar ….

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 6:35 pm

  5. ou, pelo menos, destes 200 dolares

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 6:35 pm

  6. JPT

    Desculpa não tinha percebido 🙂 . Pensava que te referias ao quadro em si. Confesso que quando falamos de preços para objectos de arte a este nível por vezes me interrogo o que vai na cabeça desta gente.

    Gostar

    Comentar por ABM — 17/11/2009 @ 6:40 pm

  7. Eu que nao percebo nada de economia acho que há uma grande similitude entre o mercado de arte e o outro – é como dizes, as coisas valem o que cada maluco pensa (estou a pensar por exemplo nessas coisas tipo obras do tal Boggs, chamadas acções)

    A mim perguntam-me imenso (sei lá porquê, que não tenho dinheiro para solicitar a um invisual sem-abrigo que entoe umas árias) quanto é que as obras de arte (ou artesanato) moçambicanas “valem”. A minha resposta é sempre: “quanto é que quer gastar” (e então puxo para o artista) ou “quanto é queres gastar” (e então puxo para aquele a quem trato por tu)

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 9:14 pm

  8. O mercado de arte não tem muito que ver com o das acções, pois para estas há toda uma ciência de valorização de acções que tem que ver com a rentabilidade das empresas, os dividendos que pagam, a sua presença e força no mercado, o seu futuro e os correspondentes dividendos esperados. Um mercado mobiliário que funcione mais ou menos bem e com boa regulação (leia-se nada de falcatruas e insider trading etc) e obrigação de informação fidedigna ao mercado, é uma boa opção para investimento. O mercado da arte é outro mundo paralelo e para quem percebe.

    E copmo qualquer mercado, tem as suas pecularidades e regras. Eu acho, por exemplo, que o mercado da pintura de Maputo, por exemplo, é fantástico, exuberante e um tesouro artístico moçambicano. Mas como mercado Maputo é uma merda: tem poucos apreciadores de pintura com dinheiro para as comprar, o que deprime os preços. Pois eu acho que, intrínsecamente, elas valem mais do que se paga por elas. Nesse sentido, é um bom mercado para se comprar e um mercado apertado para se vender. Infelizmente, eu sinto que para um mercado de arte florescer, tem que ter uma combinação fatal de artistas pelintras e ricaços desprendidos das necessidades terrenas de nós outros, todos no mesmo sítio…Londres, Paris e Nova Iorque são bons exemplos disso. O coleccionador/investidor é uma raça muito muito restrita. Conheci alguns ricos parolos que compraram umas coisas, algumas que valorizaram e outras que ficaram ali penduradas… o Sr Joe Berardo é uma excepção na medida em que é as duas coisas e pelos que leio no jornal escolheu bem.

    Gostar

    Comentar por ABM — 17/11/2009 @ 10:02 pm

  9. Bem, eu só falei de Maputo (que como mercado de arte não tem expressão quantitativa e tem características qualitativas muito diversas dos grandes mercados de arte) para ilustrar o meu ponto: é tudo, fundamentalmente, uma enorme abstracção. De quando em vez (há quem lhe chame “ciclos”) apercebo-nos do quão abstracto isso corre, no quotidiano achamos que há uma ciència quase-exacta a regular o rame-rame

    Gostar

    Comentar por jpt — 17/11/2009 @ 11:50 pm

  10. ABM acho que se calhar existem algumas semelhancas entre os dois mercados – o da arte e o das accoes. O primeiro paragrafo do comentario 8, substituindo algumas palavras parece-me que se adapta ao mercado da arte: “… pois para estas [obras de arte] há toda uma ciência de valorização dos artistas, que tem que ver com a rentabilidade das galerias, os criticos que estas retem e que as frequentam, a sua presença e influencia no mercado artistico, o seu futuro e os correspondentes dividendos esperados….”

    Gostar

    Comentar por AL — 18/11/2009 @ 4:31 am

  11. AL, nem mais

    Gostar

    Comentar por jpt — 18/11/2009 @ 5:15 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: