THE DELAGOA BAY REVIEW

22/11/2009

A Relva do Campeonato Mundial

Filed under: Desporto, Futebol — ABM @ 10:15 am

Green_Grass and Blue_Skies(se eu fosse vaca isto seria a visão do paraíso)

por ABM (Alcoentre, domingo, 22 de Novembro de 2009)

Como a Senhora Baronesa e o JPT acharam uplifting falar de retretes e saneamento, hoje abordo o igualmente importante tópico da relva.

Quando a semana passada a equipa nacional de futebol de Moçambique derrotou a Tunísia por um golo a zero, o mais que os tunisinos sabiam repetir depois do jogo é que estava muito calor nesse dia e que o relvado artificial do Estádio da Machava estava tão quente que os seus pés quase que derretiam com o calor. Memoravelmente, o holandês que treinava os Mambas limitou-se a dizer que os meninos haviam dormido uns diazitos sem ar-condicionado lá em casa.

Não percebo nada de relvados, muito menos de relvados de futebol. Quando era miúdo lembro-me vagamente de, mesmo antes de a Frelimo ter marchado para Lourenço Marques e decretado a independência e uma revolução, o último grito na cidade, cujos campos de futebol eram todos de…areia, foi plantarem relva. Aquilo ficou tudo lindo como nunca. Mas com o fim do colonialismo, a relva, como o camarão e a carne de porco, fugiu. Quando visitei Maputo após nove anos de “socialismo revolucionário” em 1984, as prioridades eram outras e os clubes mal sobreviviam à sombra de parcas esmolas que os seus patrocinadores estatizados logravam dar. A piscina do Desportivo mal sobrevivia com uns donativos de cloro da companhia das águas – mas quase nunca havia cloro, nem sequer para a água da rede pública. A relva, essa morreu e foi para o céu. Hoje, vinte e cinco anos mais tarde, nem os estádios sobreviveram. O belo estádio dos CFM na Machava – onde foi declarada a independência do país e filmada uma memorável cena do filme “Muhamad Ali”, está sub-aproveitado e preterido em favor de um estranho “estádio nacional” que é, tanto quanto entendi, um donativo dos novos grandes amigos, os chineses. O campo de jogos do Xipamanine, onde o pai BM ajudou a fazer história com o Nova Aliança, desapareceu pura e simplesmente. Os antigos campos de futebol do Sporting (agora Maxaquene) e do Desportivo aparentemente foram vendidos para se fazerem prédios no local, o que dá um novo contorno ao termo “negociatas imobiliárias”. Presumo que os seus departamentos de futebol vão passar a treinar na rua ou algures nas Mahotas. Boa sorte aos futuros Eusébios.

A relva é uma coisa bonita e confortável quando alguém que não nós tem que tomar conta dela. Quando eu era miúdo, o pai BM, que obviamente não se sabia aproveitar dos benefícios laborais do sistema imperial-colonial, indigitou-me para tratar da relva que tínhamos no quintal. Aquilo era um inferno. A relva crescia quando queria, morria quando queria, quando crescia demais lá tinha que eu ir com uma daquelas maquinetas manuais para cima e para baixo para que aquela porcaria parecesse normal. Uma vez por ano, eu tinha que andar de traseiro para o ar uma manhã inteira a plantar os bocadinhos do “tapete” de relva (termo aqui perfeitamente alegórico) onde a dita cuja não pegava. Ainda por cima a terra na Polana é aquela terra encarnada que se vê na Ponta Vermelha, muito bonita mas acho que aquilo está para a relva como a areia do deserto para os esquimós. Isto para não falar das ervas e bicaharada que por lá cresciam. Enfim.

Mas, voltando ao futebol, ou, melhor, à relva do futebol, eu pensava que esta coisa da relva do futebol era assunto pacífico. Contratava-se uns jardineiros e a coisa compunha-se. Isto até ler hoje que não era bem assim. No caso do mundial de futebol, ainda mais estranho é. Assim, descobri que há uma espécie de Polícia da relva da Fifa que, depois de uma recente inspecção dos campos de futebol todos onde se vai disputar aquele campeonato, decretou que a África do Sul tinha que mudar a relva em todos os seus estádios, pois a que lá está é feia e desagradável de se jogar por cima.

Os sul-africanos usam nos relvados que são os seus campos de futebol um tipo de relva chamado kikuyu grass. Aguenta melhor o tempo quente e a falta de água. A Fifa agora diz que eles têm que usar european rye grass, que é mais verdinha, aguenta levar mais pancada dos jogadores e é mais bonita de se ver na televisão. É verdinha como a que está na fotografia acima. Só que isto implica arrancar a relva que está lá e plantar a tal relva rye european, que funciona bem nos climas muito mais temperados e húmidos da Europa mas que não se dá mesmo na África do Sul, a não ser que se gaste uma nota forte em água, adubos e jardineiros.

O mais curioso é que já se fizeram avanços enormes na tecnologia das relvas artificiais e quer a Uefa quer a Fifa já aprovaram padrões para relvados artificiais e inclusivé já os aprovou para competições internacionais. Poupam rios de água e trabalho e dinheiro e os especialistas indicam que não tem qualquer impacto na qualidade do jogo.

Mas não neste caso, parece. Os sul-africanos vão plantar a rye european a tempo do Mundial e, quando aquilo tudo acabar, vão ter que arrancar tudo outra vez e plantar de novo a kikuyu grass.

Haja santa paciência.

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6 comentários »

  1. Ha algum politico portugues na FIFA? E’ que se houver, esta tudo explicado: ele tem um primo que fornece a relva, um outro que administra uma fabrica de adubos e um compadre que tem uma empresa de manutencao de jardins. Para nao falar da afilhada que casou com um tipo porreiro que instala sistemas de rega, mais o filho do vizinho que lhe pagou….
    De resto, nao percebo a indignacao do Economist com os relvados de futebol sem fazer uma mencao que seja aos imensos e inumeros campos de golfe que proliferam por toda a Africa do Sul e que tanta contestacao tem levantado junto de ecologistas. Ou sera que o jornalista que escreveu o artigo tambem e portugues e por acaso ate tem um primo que ….

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    Comentar por AL — 22/11/2009 @ 12:56 pm

  2. Qual a razão de preveres um político português nesse meio. O negócio do relvado, o negócio do relvado artificial, o negócio do esférico redondo que rola no relvado verde, tem muita gente de muita nacionalidade interessada. Abaixo referi a “french conection”, ela própria nada só nesta matéria.

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    Comentar por jpt — 22/11/2009 @ 1:09 pm

  3. Sim, tens razao JPT, mas apeteceu-me fazer um humor parvo, facil e imediato. E a simbiose da politica com a bola em Portugal e tao obvia que nao resisti…

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    Comentar por AL — 22/11/2009 @ 1:14 pm

  4. É de minha opinião que a relva afecta o jogo. essa coisa do relvado sintético ser igual para mim (que vejo muito futebol e já joguei em sintecticos) para mim nao existe, a bola não escorrega no sintético e os pitôns prendem, causa lesões graves.

    E o dinheiro das transferencias? e dos bilhetes? e os apoios que a FIFA (dinheiros esses angariados maioritariamente na europa) vai dar para esse relvado? a divisao do dinheiro gerado pelo futebol começa assim, ganham-se biliões e gastam-se milhões, também nao é por aí.

    o Sporting já chegou a trocar de relvado 3 vezes em 3 meses, foi irrelevante comparando com a compra do grimi por 4 milhões ou mesmo do pedro silva por meio milhão, jogador esse que ficou no banco da académica sendo rejeitado, foi para o brasil e vem como a grande solução do sporting. enfim…

    o que importa aqui com a história desses relvados é promover a perfeição dum jogo que move “toda a gente” do mundo. se houver queixas da parte de 3 ou 4 países chave da europa neste mundial, outras tantas no proximo poderemos ver o declínio e do maior desporto do século e da perda de credibilidade da FIFA que geram muito emprego e dinâmica em muitas economias, compete aos “senhores” zelar pelo futebol. esse dinheiro é gasto mas vai para quem precisa se formos comparar o dinheiro que o quaresma gasta em ténis.

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    Comentar por Francisco Espinha — 22/11/2009 @ 1:48 pm

  5. “O campo de jogos do Xipamanine…”

    refere-se o ABM ao campo do Mahafil, na rua dos Irmãos Roby? já não existe? palavra que não me recorda assim de repente outro campo na zona do Xipamanine…

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    Comentar por cg — 22/11/2009 @ 6:51 pm

  6. FE

    A questão aqui não é só custo directo, é o exemplo que dá ao mundo em termos ecológicos. O artigo do Economist refere melhorias consideráveis nesta nova relva artificial e diz que a incidência de incidentes não é diferente nos relvados artificiais. Pessoalmente, prefiro também a relva. Mas só para ver.

    CG

    Não, não é o campo do Mahafil se bem que eu acho que esse foi à vida mas trocado por outro. Havia mesmo no centro do Xipamanine um campo de areia onde o Nova Aliança costumava treinar em 1972-74. Eu fui lá muitas vezes porque o pai BM e o Mesquita treinavam lá quase todos os dias. Esse desapareceu, acho que ocupado por casas e palhotas. Um crime. Aquela zona não tem espaços públicos suficientes para os miúdos e os adultos praticarem desportos.

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    Comentar por ABM — 23/11/2009 @ 9:57 am


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