THE DELAGOA BAY REVIEW

23/11/2009

A Igreja de Troufa Real

Filed under: Arte, História, Ilha de Moçambique, Religião, Sociedade portuguesa — ABM @ 12:56 pm

11046_181639004722_181630479722_2780687_5308326_n(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)

por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)

Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.

A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.

O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.

A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.

Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.

A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.

Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.

Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.

Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?

O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.

Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.

Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?

Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.

Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).

Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.

Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.

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7 comentários »

  1. Contestar esta (aparentemente estapafúrdia) construção implica abrir a porta à censura arquitectónica. Interessante ver tantos adeptos da liberdade arquitectonica inseridos nesta campanha. É um exemplo dos limites da liberdade, da sua fluidez: eu tenho que aturar um mamarracho no Tejo porque é do Siza (e não tenho capacidade para criticar o Siza) mas não devo aturar um mamarracho em Belém porque é do Troufa Real (tenho capacidade para criticaro o Siza)

    A corporação dos arquitectos é do pior que existe em Portugal – repugnante. E nessa repugnància cabe o pacote premiado, não apenas os “foleiros” para o regime social

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    Comentar por jpt — 24/11/2009 @ 5:21 pm

  2. No mural da miserável página do Facebook dedicada a esta causa (ainda para mais a vida interna da “ordem dos arquitectos” portugueses é mais suja do que um bordel rasca, e tudo isto me cheira aos sanitários do referido bordel) tentei deixar esta mensagem. Mas não entra ….

    “1. Poderei ser esclarecido sobre quem decide que construções podem ser erigidas? Esta pelos vistos não o deverá. Quem decide e sob que critérios? Quem escolhe quem decide e sob que critérios?
    2. Poderei ser esclarecido sobre qual o limite máximo do orçamento que a Igreja Católica pode atribuir à construção de um templo? Pois a acusação dos “milhões que vão ser gastos” implicita uma crítica a tais atitudes.
    3. Poderei ser informado sobre que arquitectos podem ser criticados e quais não podem? Pelos vistos este Troufa Real pode? Mas Lisboa e Portugal está pejada de mamarrachos feitos pela temível corporação, que tudo tem feito e tanto tem ganho na destruição da paisagem urbana e rural portuguesa. E quanto a toda essa prática nada se diz, o primado do olhar do arquitecto, da sua liberdade, é sempre reclamada.
    O problema é a coluna de 100 metros desta parvoíce imbecil? Ou é o arquitecto Troufa Real?
    4. Ou não será a miséria da corporação em causa, parte dela tão indignada agora com isto. E amanhã construindo minarectos tão infectos, apenas mais baixos.”

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    Comentar por jpt — 24/11/2009 @ 5:32 pm

  3. Entrou partida. Mas tive que me fazer “fan” daquela vergonha

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    Comentar por jpt — 24/11/2009 @ 5:33 pm

  4. JPT

    Tudo pontos válidos que fazes. Do meu ponto de vista só me ocorre o termo “mamarracho datado” para qualificar aquilo. O debate e crítica aos monumentos e edifícios é perfeitamente legítimo e “fair game” e ainda mais antes de ser autorizado, pois deve ter em conta uma longa série de factores que são padrão em quase qualquer comunidade, desde o estritamente banal ao mais etéreo. Ficando situado no Alto do Restelo, o meu interesse é meramente, e muito distanciadamente, académico (na base do “longe da vista, longe do coração”). Mas se fosse ao pé da minha casa em Alcoentre se calhar dava dois saltos e chamava a GNR.

    Mas estes processos são muito imprevisíveis e dependem (deveriam depender) de muitos factores. Por exemplo, a Igreja de Santo António da Polana em Maputo (onde fiz toda a catequese) é a meu ver espectacular. Já o que fizeram à velha e original mesquita na baixa acho verdadeiramente lamentável do ponto de vista do que foi feito ao templo original, do que puseram lá e ainda mais à zona envolvente, que não tem igual em mais parte nenhuma em Moçambique inteiro e ficou completamente descaracterizada. Em Lisboa, o Centro Cultural de Belém (perdão, Centro Joe Berardo pago pelo contribuinte português) acho-o grotesco e no íntimo creio que o fizeram assim para ajudar a realçar a beleza do Mosteiro dos Jerónimos ali a cinquenta metros ao lado.

    Claro que para mim o “monstro dos monstros” foi a decisão de não sei quem, em Coimbra nos anos 50, de derrubar quase por completo todo o velho centro medieval onde funcionava a Universidade e fazerem aqueles monstros de betão estilo português suave pós- Art Deco. Quando percebi o que havia sido feito fiquei chocado.

    Um exemplo do banal é o que aconteceu há semanas aqui em cascais. No local onde era o Bairro do Fim do Mundo, ergueu-se uma igreja e centro paroquial muito bonitos e bem inseridos, lindos de se ver quando se passa lá. Aquilo fica na principal via que liga a auto-estrada de Cascais a São João do Estoril. E, como para variar, não tem estacionamento, agora sempre que há uma missa ou cerimónias funerárias, toda a azona e a rua ficam apinhadas de carros e não se pode passar. Ora, se se faz um edifício onde se espera reunir centenas de pessoas, e não se faz um parque de estacionamento, o que posso eu dizer do arquitecto? e de quem aprovou a obra? aliás, quando o Dr. Eneias Comiche a meu ver sabiamente embargou a construção do enorme templo da Igreja dos Milagres (qual mesmo era a igreja?) na Julius Nyerere em Maputo, a razão era que aquela zona não poderia comportar o tráfego que se previa iria para lá.

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    Comentar por ABM — 24/11/2009 @ 6:09 pm

  5. Eu ca so pergunto exasperado: para quando um templo para eu admirar e adorar a vida, obra e mensagem de Gandalf, o Cinzento aka Mithrandir?

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    Comentar por Lowlander — 25/11/2009 @ 11:53 am

  6. Só estes dias passados tenho coragem para falar disso de Coimbra. E mesmo assim fico sem teclas …

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    Comentar por jpt — 26/11/2009 @ 1:36 am

  7. Sr LL

    🙂 🙂 🙂

    E para quando um Museu dos Descobrimentos em Portugal? aqui chora-se baba e ranho sobre isso e não há um. Existe uma cacofonia de coisas espalhadas por toda a parte, a maior parte sem nexo.

    JPT

    Se e quando fores a Coimbra, vai lá ver o que está no cimo da colina. Metade da mais velha univeridade deste país parece o Cascais Shopping.

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    Comentar por ABM — 26/11/2009 @ 2:03 am


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