THE DELAGOA BAY REVIEW

25/11/2009

Hoje Não É Feriado em Portugal

Filed under: Politica Portuguesa, Sociedade portuguesa — ABM @ 11:04 pm

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por ABM (Cascais, 25 de Novembro de 2009)

Hoje faz 34 anos que, após um perigoso processo que se iniciara com o golpe de Estado em 25 de Abril de 1974, e se prolongara durante um ano e meio e em que no processo se largaram as colónias pelo ar como lastro de areia de um balão que não subia no ar, em que se nacionalizou quase tudo o que interessava e em que o Partido Comunista Português esteve a um fio de trazer a Portugal uma guerra civil sangrenta (que perderia), meia dúzia de militares não afectos a essa organização, lograram, a um custo terrível, evitar essa situação e assegurar o cumprimento do que o eleitorado havia expresso uns meses antes, na eleição para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975.

Esse custo foi uma democracia mitigada por um “Conselho da Revolução” pretoriano que até 1982 tratou a democracia como uma criança e ainda o instalar, em detrimento de uma direita amputada, ressabiada e complexada, de um regime em que um “socialismo” esquerdista (desde então crescentemente burguês e corrupto q.b.) marcou a bitola, que desde 1986 viveu uma prosperidade insuflada por donativos generosos de uma Europa rica que escolheu comprar a paz e tranquilidade no seu flanco ocidental. Isto enquanto as nascentes elites bem conectadas metodicamente iam debicando os subsídios, os contratos de empreitada e o extenso património confiscado aos Mellos, Espíritos Santos e Cia e ainda arranjavam tachos atrás de tachos no perpetuamente crescente quadro do funcionalismo público.

Hoje vive-se mais uma vez uma crise de regime, as instituições desacreditadas e incapazes de buscar as soluções e implementar as reformas que são chave para a viabilidade e prosperidade dos portugueses. Mais uma vez as contas públicas estão perigosamente desiquilibradas. Mais uma vez ninguém se quer sacrificar.

Eu diria que isto não é novo. É quase o regressar aos vícios da paz podre congeminada no início da segunda metade do século XIX, exacerbados mais tarde pelo “revolucionarismo” ingénuo de uma I República com as mãos ensanguentadas pela apologia do assassínio bárbaro do Rei e do Príncipe Real. A burguesia citadina lisboeta a lançar petardos para o ar perante um país expectante de algo em troco de pouco ou nada.

Como quase sempre, em 1974 mudaram-se as moscas e manteve-se o resto, agora entorpecido por algum conforto material, doses maciças de novelas televisivas, os eternos debates sobre o futebol nacional e a ilusão de uma modernidade, simbolizada pela posse do telemóvel, o pópó novo, o apartamento no subúrbio, o curso tirado na Internacional ou na Moderna com duas pancadas e as muitas dívidas por saldar. Até quando?

Curiosamente, celebra-se o 25 de Abril com um feriado – creio que justamente. Mas nada já sobre os eventos do 25 de Novembro, data que a meu ver fechou de forma crucial a parte mais perigosa do ciclo iniciado em 1974.

Eu tive o azar de estar em Coimbra entre Fevereiro de 75 e Setembro de 77 e por isso a tudo assisti, atónito.

Fiquei absolutamente farto de revoluções à portuguesa.

Em que pouco ou nada muda.

Ou em que o pouco que muda, a nada sabe.

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13 comentários »

  1. Estou absolutamente em desacordo com o texto. Com muito do que diz e, em particular, com o final: “Em que pouco ou nada muda. Ou em que o pouco que muda, a nada sabe.”

    Uma coisa é frisar as continuidades, protestar com os defeitos. Outra coisa é enterrar as enormes diferenças sociais, políticas, demográficas, culturais entre o ante-democracia e o pós-democracia.

    E não vou entrar, aqui, na discussão sobre a semântica e a história de “largar as colónias pelos ares”. Temos, já o discutimos aqui, uma enorme diferença de concepção do processo histórico colonial – e como tal da sua conclusão.

    Restrinjo-me então às características internas da sociedade portuguesa.

    (e depois temos uma diferente perspectiva sobre o que possibilitou a constituição do património posteriormente confiscado aos grandes grupos económicos de então, à sua ligação com o poder instituído do Antigo Regime, à sua ligação às formulações económicas coloniais, aos mecanismos de exclusão social e reprodução do subdesenvolvimento económico e social do país. No fundo, não sendo nem historiador nem economista, teremos uma diferente ideia da história económica de Portugal no XX).

    Finalmente sobre feriados e símbolos: de todas as histórias do PREC aquela que mais acarinho, que mais me levaria a propor feriado ou estátua, é indiscutivelmente o dia em que os trabalhadores agrícolas ocuparam a herdade e comeram o cavalo de excelència do senhor João Núncio (julgo não ser uma história apócrifa) – é uma delícia e simboliza bem o pretenso atavismo, mas na prática o real actual de então, da estrutura socioeconómica do Portugal salazarista e colonial.

    Estão os filhos e os netos desses trabalhadores agrícolas enxameando os arrabaldes de Almada, vendo o big brother (alguns estudaram e vèm o professor Marcelo) e a Catarina Furtado? A serem do Benfica e até do Porto, e 20 e tal por cento deles a votarem em José Socrates? Sim, é uma desgraça. Mas não estão onde estavam e como estavam os seus avôs e pais. Deitar essa diferença toda pela borda-fora é incompreender o país que se quer criticar e melhorar.

    E, parece-me, deitar borda-fora o valor democracia. Que é, e foi, também meio, de desenvolvimento. Mas que não fosse.

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    Comentar por jpt — 25/11/2009 @ 11:37 pm

  2. JPT

    Não temos visões assim tão contrastantes, eu apenas tendo talvez a ser um nadinha mais incisivo, talvez por ter vivido em sociedades em que a evolução social e económica seja mais orgânica, mais consequente, menos ideológica e menos no cano de uma espingarda, seja ela literal ou figurativa.

    O tema acima ostensivamente foca-se nos “custos” e não nos benefícios do pronunciamento militar de Abril de 1974 (e do de 25 de Novembro de 75). Eu não acredito que o modelo económico antes de 1974 fosse assim tão moralmente inferior ao que existe hoje que merecesse ser “decapitado”. Portugal era um país subdesenvolvido e embrulhado num modelo que Salazar inventou nos anos 30 e que pouco reformara. Do ponto de vista do capital, hoje apenas se substituiu uma elite nacional por uma estrangeira a quem o capital e os activos foram sendo vendidos aos bocados pelo Estado confiscador. Eu não acredito em governos confiscarem bens a privados sem indemnizar, alegando a necessidade de fazer cirurgia social e de “decapitar” as suas elites suspeitas. A ideia de que a culpa das assimetrias económicas é dos ricos é-me algo estranha. Não é essa a forma de diminuir a pobreza nem de promover o desenvolvimento. É dando oportunidades de avanço a quem não as teve anteriormente Tendo-o analisado, eu não acredito no capitalismo do Estado. Regra geral os governos usam a coisa pública não tanto para promover o “bem comum” mas para atender às suas clientelas políticas e fazer as suas negociatas.

    Portugal em 1974 estava a começar a sair de uma ruralidade balofa imposta por Salazar e 35 anos mais tarde as grandes evoluções foram no encerramento do dossier colonial, na “desertificação” de todo o país para as grandes Lisboa e Porto, no acesso à educação para a maioria da população (com o consequente subida ligeira no nível de vida), nos efeitos das injecções maciças de fundos europeus – de que realço na infra-estrutura – e em alguma modernização e reforma burocrática.

    E em ter consolidado um sistema democrático, em que podemos dizer o que nos vem à cabeça num blogue como este sem receio de grandes consequências (para além das que vêm previstas na Lei, e que são as normais numa democracia).

    Tudo isto são grandes benefícios. Mas não se foi suficientemente longe e recordo que há 10 anos seguidos que o PIB português estagnou e não se vislumbra na actual liderança mais nada que não sejam obras públicas caríssimas e mais impostos. O sector privado, que é quem gera empregos neste mundo, está em estado de choque e sem saber como competir no actual mercado. As exportações caíram 30 por cento e o endividamento público e privado estão a níveis absolutamente estratoesféricos. O desemprego a 10% e em termos absolutos há mais gente neste país que não trabalha do que os que trabalham (e pagam impostos).

    E os agentes eleitos da mudança, que deverão ser em democracia quem aponta o caminho, estão desgastados e desacreditados, e estamos a falar de uma legislatura que foi eleita há um mês e meio. Sem maioras ou acordos de regime, o que deixa adivinhar mais problemas.

    Os pais dos meninos portugueses que estudam agora querem que eles aprendam inglês para poderem procurar emprego “lá fora” caso não hajam oportunidades aqui.

    Daqui por uns anos a única saída é vender o que resta do capital das empresas a estrangeiros e a seguir os terrenos do país, para podermos pagar a comida, o combustível e os Mercedes que se importam.

    Ora isto não é a minha visão de um percurso bem pensado para um país com mais de 900 anos de história e que se pretende soberano.

    A mudança que se impõe é lenta demais.

    E o mundo não está à espera dos portugueses.

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    Comentar por ABM — 26/11/2009 @ 2:44 am

  3. (estou aqui no meio de outras coisas, talvez volte depois …) Só para dizer que não acho o modelo económico pré-1974 “moralmente inferior” ao posterior. Acho-o, acima de tudo, “socialmente inferior”, obstáculo a um desenvolvimento do país, à elevação do nível e qualidade de vida da população, inibidor de uma maior redistribuição. E, já agora, ao final do regime colonial.

    Tem costela moral (valorativa) tudo isto? Tem, mas nem pensar que a ela se restringe

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    Comentar por jpt — 26/11/2009 @ 11:21 am

  4. Só dois apontamentos:
    – Li algures que, à data da revolução, praticamente toda a economia portuguesa estava na mão de umas dez famílias (o jpt já disse o nome de duas delas). O corporativismo impedia a entrada de outros agentes na economia. Ou seja: um Estado organizado para privilegiar exclusivamente uns poucos escolhidos. Sem querer desculpar (de modo algum!) a corrupção de que o país é vítima hoje em dia, os políticos actuais vão ter de se levantar bem mais cedo para atingir este patamar de perversão.
    – O desenvolvimento do interior é um dado muito positivo no novo quadro económico e social. As universidades espalhadas um pouco por todo o país, os hospitais. E o simples facto de já não serem necessárias duas ou três horas para ir do Porto a Braga ou a Viana do Castelo.

    E uma nota de importância muito secundária para o jpt: ouvi contar a história de um cavalo “fascista” que foi abatido para transformar em carne – será o mesmo?
    A pessoa que o contava estava chocada com a ignorância: o cavalo era um pura-raça reprodutor, valiosíssimo apenas por isso. Transformar isso em carne é, parece-me, equivalente a pôr uma tela do Van Gogh a tapar buracos no galinheiro.

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    Comentar por Helena Araujo — 26/11/2009 @ 12:15 pm

  5. HA comer o fantástico cavalo do Senhor João Núncio é uma coisa horrível, sob múltiplos pontos de vista. Pobre animal; fantástico animal.

    Simbolicamente …? Acho o grande momento de todo aquele período. Ou seja, se olhar anacronimente acho uma barbárie, se olhar em termos contextuais acho um manifesto espantoso. Entenda-se que o cavalo não foi transformado em “carne”, que para isso haveria muitos mais animais. Foi um “sacrifício”, uma degustação ritual – comeu-se um sistema socioeconomico. (ou quis-se comer)

    Grosso modo concordo com o que acima disse, ainda que o corporativismo tanto como teoria como enquanto prática, seja algo mais (bastante mais, até) do que um instrumento de enriquecimento de alguns. Mas era uma sociedade enrolhada – paralelamente a um grande crescimento económico, convém nao esquecer, o que complica as contas e torna mais interessantes as questões.

    Quanto ao hoje, é óbvio o desenvolvimento do interior. Mas também a sua desertificação – algo correu estranho. Conviria entender o que aconteceu

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    Comentar por jpt — 26/11/2009 @ 12:32 pm

  6. “O sector privado, que é quem gera empregos neste mundo, está em estado de choque e sem saber como competir no actual mercado.”

    Pois meu caro ABM aqui discordamos frontalmente. Por partes:

    1 – O sector privado antes de tudo o resto (logo entes de criar empregos) existe porque o Estado assim o permite. Os mercados e as suas regras nao sao “organizacoes naturais” sao criacoes bem humanas. Assim sendo, o responsavel pela “criacao de emprego” e sempre o malandro do Estado delegando a tarefa em grande parte no sector privado.

    2 – Esse sector privado esta em “choque e sem saber como competir no actual mercado” precisamente devido ao equivoco fundamental expresso em 1. Quando se pensa a partida (dogmaticamente devo acrescentar) que os mercados e o sector privado sao “fenomenos naturais”, e natural que o corolario logico desta premissa seja que o Estado e um empecilho (porque nao anatural) que so chateia…
    Se estao em “choque” e por culpa de si mesmos (e do Estado, isto e, a sociedade, outro equivoco e esquecer que o Estado representa a sociedade que controla, naturalmente que se deixou embalar nestas tretas da “ciencia economica”) porque se auto-iludiram com as suas proprias tretas sobre “auto-regulacao” e “liberalizacao economica”. Nao se lembra?
    Olhe eu que sou um “classico agente regulador” desde que a minha carreira profissional se iniciou. Desde o inicio que so ouvia falar dessa treta ate que em 2008 tudo rebentou.
    “Light touch aproach” tambem lhe chamam. Leia-se: “O Estado e o bicho papao e so chateia”.

    Os “privados” tem agora a cama que fizeram. 20 ou 30 anos de “auto-regulacao”.
    Apaguem a luz e deitem-se.

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    Comentar por Lowlander — 26/11/2009 @ 12:54 pm

  7. jpt,
    o interior está desertificado? Eu olho para o Norte, a realidade que conheço melhor: Ponte de Lima, Ponte da Barca, Braga, Guimarães, Vila Real, Lamego, Bragança, Mirandela. Se aquela profusão de casas novas é “desertificado”… (e não tem comparação com a paisagem da antiga RDA, essa sim, em terrível processo de desertificação: em lado nenhum do interior português encontro blocos habitacionais inteiramente vazios, ou tantas fábricas abandonadas)
    Mais: o apelo do litoral já não é tão grande. Pelo contrário: há um movimento de regresso ou até de ida para o interior.
    Seria possível reduzir ainda mais o fluxo do interior para o litoral? Não sei.
    O que sei é que o ponto de partida era este: gente que, nos anos 60, emigrava a salto, fugindo à miséria mais absoluta. Rapariguinhas que iam trabalhar para as cidades do litoral em condições de extrema precaridade. Nem chegava a ser uma escolha – era uma fuga.

    Ou será que a desertificação não é nas cidades do interior, mas nas aldeias? Ou seja: algo está a correr muito mal no mundo rural.

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    Comentar por Helena Araujo — 26/11/2009 @ 3:06 pm

  8. É mais do que possível que tenha razão, eu conheço muito mal o norte de Portugal (parte dele nem conheço) e estou fora há muito. E será isso, náo é uma “desertificação” do interior, serão “desertificações” de “interiores”.

    Mas também, quem é quer ser machambeiro? Como protestar com os que também não querem?

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    Comentar por jpt — 26/11/2009 @ 3:19 pm

  9. Quem diz machambeiro pode dizer, para o novo modelo económico, caddie

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    Comentar por jpt — 26/11/2009 @ 3:19 pm

  10. D Helena Araújo

    Todos os seus comentários são pertinentes e já agora quem mencionou dois dos nomes das famílias sonantes fui eu. No que concerne a este tópico, eu sou de opinião que o que Portugal precisava nessa altura era não de decapitar esses grupos mas de, quando muito, se fizesse algum sentido (e provavelmente não) tomar medidas “anti-trust” e fomentar o desenvolvimento de mais cem grupos. Portugal, por exemplo, precisava de dez Antónios Champalimauds, só tinha um e mesmo assim correu com ele (que foi enriquecer e criar empregos no Brasil mas que nos legou uma grande fundação após falecer). Em vez disso correu-se com eles em condições vergonhosas, nacionalizou-se tudo o que interessava e passou-se a fazer uma gestão económica por portaria. Não fossem as remessas dos emigrantes, que durante décadas suportaram os contínuos défices da balança, e depois os donativos europeus e algum investimento estrangeiro, o nível de vida do Portugal democrático seria o da Albânia no início dos anos 90. E mesmo assim uma parte crítica do capital social (ou seja, os donos) das empresas portuguesas actualmente já são estrangeiros. E a tendência é para que essa percentagem aumente, com as consequências para a soberania e a capacidade dos portugueses acumularem riqueza para além do mero “ter emprego”.

    Muita da evolução social observada em Portugal – a boa e a má – teria acontecido nos últimos 35 anos de uma maneira ou outra. As estradas, pontes, urbanização Lisboa e Porto, desertificação do interior, extremo (a meu ver catastrófico) envelhecimento da população e baixíssima natalidade, o gradual desaparecimento do sector agrícola e pesqueiro (exacerbado pelas sucessivas negociatas com a Europa), a reestruturação do acesso à divida externa pelo governo e consequente libertação de fundos domésticos para o consumo privado das pessoas (compra de carros, casas, telemóveis, etc, que aconteceu em meados de 1994) – tudo isto aconteceria de uma maneira ou outra a partir do momento em que se saísse do projecto colonial e se tivesse acesso aos fundos europeus. Não foi uma conquista da “democracia”. Mesmo o acesso à educação superior, com a excepção da máfia da medicina, só foi verdadeiramente massificado nos anos 90. Antes disso encheram os liceus de gente que passava quase sem saber ler(essa parte vi eu). E mesmo assim mal: a maior parte das instituições eram precárias, negociatas de meia dúzia de pessoas, e de dúbio calibre académico.

    Muita gente, creio que por razões puramente ideológicas ou de preconceito, vive em negação da evolução que houve em Portugal nos últimos seis anos da ditadura. Em boa parte foi essa evolução social e económica que também sufocou a ditadura. Ela caiu também de podre.

    Mas as revoluções – qualquer revolução – tem a (irritante) tendência de exacerbar a realidade e de se apropriar, estilo a segunda vinda de Cristo à Terra, da Verdade e da Rectitude. O 25 de Novembro causa desconforto a alguns porque é a prova dos Nove (literalmente, neste caso) que algo de seriamente errado estava a ocorrer na “revolução” iniciada um ano e meio antes.

    Sr LL

    Depreendo que, espero que momentaneamente descridibilize o inescapável postulado de Adam Smith no seu tratado “Sobre a Riqueza das Nações” e penda mais para o (closet homosexual, JPT!) John Maynard Keynes. Os sentimentos que expressou estão muito na moda estes dias. Mas, sem discordar da sua valoração do papel dos governos (em que somos supostos mandar e que são supostos servir os nossos interesses) a minha leitura da actualidade é quiçá algo diferente da sua na medida em que eu acredito que a actual recessão foi precisamente por graves falhas e omissões por parte do papel regulador do governo norte-americano. Que devia ter metido na cadeia os ladrões e corruptos que foram aparecendo e principalmente prevendo que as suas políticas e regulamentação, e a consequente “fuga” dos capitais privados para áreas deficientemente reguladas (sector imobiliário prime, hedge funds e financiamentos corporativos de elevado risco) resultariam – como resultaram – de graves desiquilíbrios e do consequente risco “sistémico” que nos deixou em Setembro do ano passado a um fio de uma catástrofe financeira sem precedente. A isso creio que posso dizer que deve agradecer à dúbia liderança do Senhor George W. Bush, que para efeitos desta conversa na altura era governo, era “Estado”.

    Ou seja, eu concordo 200% consigo que, entre outros, cada vez mais é fundamental, especialmente numa economia de “mercado”, o papel regulador do Estado. Que naturalmente é um pau de dois bicos, mas sempre e cada vez mais essencial.

    Mas eu acho que o aconteceu não foi “culpa” do sector privado, que usa as regras no seu interesse para ganhar dinheiro. O governo americano devia ter antevisto o risco sistémico e tomado medidas correctivas, tal como, por exemplo, as medidas anti-trust tomadas (na altura peregrinamente) contra a Standart Oil e outras oligopolias formadas na economia americana a partir do final do século XIX.

    Creio que neste assunto, no que toca ao papel do Estado, não estou em desacordo. Mas estou ciente que, especialmente em Portugal, o sector privado é o elo fraco na corrente. E um regime sem sector privado, bem ou mal regulado, chama-se “comunismo”. O tal do Muro de Berlim que caíu. Lembra-se como era?

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    Comentar por ABM — 26/11/2009 @ 11:36 pm

  11. Concordo com o teu primeiro parágrafo e saúdo o teu terceiro. O teu segundo levanta-me problemas (náo gosto do “se”, do contrafactual na história – nao me leva a lado nenhum. E, aliás vou dizê-lo apenas por vício teclístico pois esse é um tipo de argumento infalsificável que nao admite refutações, a Albania que também estava “orgulhosamente só” náo se desenvolveu por inércia endógena). Para mais isso da massificação do ensino – com os efeitos perniciosos que apontas – teve uma característica interessante: terá produzido uma percentagem muito significativa de semi-iletrados. Mas que vieram substituir a elevadissima percentagem de iletrados+analfabetos das gerações anteriores.

    Há outra coisa: a tal “democracia” – uso as tuas aspas – para além de outras coisas era uma condição sine qua non para aceder aos tais fundos europeus. Foi por isso uma condição incontornável de desenvolvimento – que não aconteceu, portanto, apesar da democracia ou independentemente dela. Nem teria acontecido. Ou por outra, foram os fundos uma conquista da “democracia”.

    Quanto ao teu quarto parágrafo: eu duvido que houvesse uma “direcção” no golpe de 25 de Abril, para além da instalaçao de um regime democrático (a la Europa, mas pensado na confusao intelectual do Portugal de então) e do final da guerra colonial – eu continuo na minha, foi a guerra colonial que provocou o golpe militar, não qualquer raiz democrática dos “gloriosos capitães de Abril”, que aliás só se começaram a movimentar quando as necessidades da guerra lhe alteraram os privilégios monopolistas de ascensão no oficialato. O que me parece é que as homenagens ao 25 de Novembro são um discurso para hoje – sobre Jaime Neves deixei aí um texto aquando da sua excÊntrica promoção ao generalato. São não tanto uma homenagem ao militar em causa mas sim o avivar de um conjunto de valores “pátrios” que ele simboliza em determinados sectores. Nada me move contra o homem – mas é interessante lembrar que na altura e nos anos subsequentes sempre se louvou o general Ramalho Eanes (de quem fui eleitor, já agora) como o homem do 25 de Novembro. E agora ninguém se lembra de lhe fazer homenagens. Porquê? Porque apesar da sua postura conservadora (e da sua assombrosa rectidão ética) Ramalho Eanes náo “cola” para que esses sectores festejem os valores ultramontanos que os animam.

    Quanto à discussão económica que avanças com LL uma pequena nota. Percebo a ironia mas torço-lhe o nariz. Porque se se quer discutir os modelos de reprodução social, familiares e não só, e a argumentação que os anima é muito fácil ver trincheiras, e atirar pedras (aos armários alheios). Ou, em versão mais doméstica, atirar bocas. A mim, até por deformaçao profissional, interessa-me esta tralha retórica que vem acompanhando a legislação e sua “discussão”. Mas também porque ela espelha o vazio ideológico, discursivo, “democrático” numa sociedade – quando fala disto ou quando fala de uma outra tralha qualquer.

    Como por exemplo, quando um jornalista da televisão publica, pago pelo erário público, diz num jogo de futebol a propósito de um golo ilegal validado ou de um penalty mal marcado: “a beleza do futebol sao os erros” (neste caso dos árbitros). Isto é o grau zero da reflexão e o Estado paga para ser propagandeado, e a sociedade aceita – na realidade a beleza do futebol está na capacidade de induzir erros nos adversários (que é dos jogadores). A argumentação vale zero, a acção que daí decorre é corruptora (ou inibidora do prazer de fruição, estético, ético), as representações ideiais que a população tem são empobrecidas. Reclamar disso é independente do que o velho Keynes fazia na cama, ou com quem.

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    Comentar por jpt — 27/11/2009 @ 1:17 am

  12. Provavelmente já cá não está ninguém, mas arrisco mais um comentário:
    O jpt já disse o fundamental. Gostava apenas de acrescentar que:
    – as remessas de emigrantes já começaram nos anos sessenta, e eram, ainda no tempo da ditadura, muitíssimo importantes quer para o país quer para a população do interior, faminta e a viver em condições miseráveis; convém lembrar ainda que as pessoas estavam proibidas de emigrar – havia a possibilidade de o fazer legalmente, mas era um processo moroso e para poucos);
    – o “se”: se não tivesse havido revolução, quantos anos ainda se teria arrastado a guerra colonial? quantos dos nossos melhores trabalhadores teriam saído a salto do país? quanto tempo duraria ainda até se construir a auto-estrada Porto-Lisboa?
    – a CEE interessou-se por Portugal e deixou-nos entrar tão depressa não por termos uma democracia, mas por estarmos em risco de nos tornarmos uma ditadura do proletariado – em plena Guerra Fria, não convinha permitir um calcanhar de Aquiles a ocidente;
    – a internacionalização da economia não é um fenómeno puramente português, e chama-se globalização; em Portugal, já começou também nos anos sessenta – lembro-me especialmente da Grundig em Braga, na altura um empregador importantíssimo. Aliás: se não me engano, a vaga de desenvolvimento da indústria ligeira que ocorreu nos anos sessenta deveu-se à abertura da economia aos capitais estrangeiros.

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    Comentar por Helena Araújo — 03/12/2009 @ 12:34 pm

  13. Sra D Helena Araújo

    Há sempre gente aqui na loja, acredite. Se não não tinha piada as nossas trocas de opinião 🙂

    No que concerne aos seus pontos:

    1. As remessas de emigrantes tornam-se importantes já no final do século XIX com os portugueses residentes no Brasil. Se para muita gente – nomeadamente no interior – eram um salvar da fome e miséria abjecta, para a economia era crucial porque ajudava de forma singular a cobrir o défice de moeda estrangeira para pagar as importações.

    2. As pessoas emigravam quer a lei o permitisse quer não. Foi assim que o interior de Portugal se desertificou. Vilas inteiras saltaram as fronteiras.

    3. é difícil especular sobre o curso futuro da guerra colonial se o governo de Lisboa não tivesse caído. A Guiné seria efectivamente perdida, Angola, Cabo Verde e São Tomé não, Moçambique muito provavelmente não. Mas estamos a falar militarmente e eu aqui apenas em termos de comprar tempo e margem negocial para se proceder a independências com pés e cabeça. Eu acredito que tal seria uma responsabilidade de Portugal, na face de tudo o que fora feito antes. Mas isto é tudo especulação e hoje não vale muito a pena especular. Apenas me chocou o desportivismo com que populações inteiras foram atiradas aos lobos sem a mínima chance de construir um futuro próspero e sereno.

    4. Não confunda o desenvolvimento português de após os anos 80 com o que aconteceu antes. A maior parte do que foi feito aqui em termos de infra-estrutura foi pago por donativos da CEE e mais tarde a União Europeia. O que foi vendido aos portugueses (que de qualquer maneira nunca foram formalmente consultados) para a adesão ao projecto europeu foi a “vocação europeia” de Portugal. Não foi a meu ver tanto a democracia pois essa fora obtida em 1976 quando entrou em vigor a constituição da actual república. Portugal fora um calcanhar de Aquiles de facto mas apenas até ao ….25 de Novembro de 1975.

    5. Tem razão em relação ao que sucedeu nos anos 60. Acrescento que Portugal deu um salto quando passou a integrar a EFTA. Também à medida que se foram desenvolvendo, Angolae Moçambique começaram também a suportar as suas próprias balanças de pagamentos e os custos das respectivas “guerras”. Inclusivé em 1974 a maioria das tropas nesses teatros de guerra eram compostas por nativos desses territórios. A maioria da migração portuguesa para Angola e Moçambique era por razões económicas.

    Escreva sempre!

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    Comentar por ABM — 03/12/2009 @ 10:24 pm


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