THE DELAGOA BAY REVIEW

27/11/2009

Gabriel Teixeira, Francisco e Nuno Craveiro Lopes e Moçambique

1956 Craveiro Lopes e Gabriel Teixeira(Na foto acima, Francisco Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa, de farda branca e óculos. De fato e chapéu à civil à direita na foto está Gabriel Teixeira, então Governador Geral de Moçambique. Numa visita ao Parque Nacional da Gorongosa, integrada numa visita de Estado à Província e à União Sul Africana, Julho e Agosto de 1956)

por ABM (Cascais, 26 de Novembro de 2009)

Parte da beleza de escrever num meio destes é que há pessoas de boa vontade que lêem alguns escritos e não só comentam e discutem, o que é interessante, mas nalguns casos dão outros contributos.

Numa crónica que preparei ontem sobre Gabriel Teixeira, um dos problemas que tive foi que, apesar de uma longa pesquisa na internet, não consegui encontrar uma -uma só que fosse – fotografia do distinto oficial e governante de Moçambique português. Felizmente, lá longe por detrás dos coqueiros e dos leões e búfalos da Serra da Gorongosa, o meu muito caro Dr. Vasco Galante  teve a iniciativa de enviar a foto acima, onde se pode ver o então governador Gabriel Teixeira. Muito grato e obrigado. Ajudou a compor a história de mais maneiras do que pensa. Continue a ler e vai ver como.

A “aparição” de Craveiro Lopes na fotografia acima apresentada motiva-me a mencionar algumas peças de trívia moçambicana que o tempo quase que apagou e que fazem parte do fabrico do Moçambique actual.

Francisco Craveiro Lopes foi presidente de Portugal entre Carmona e Américo Tomás. A sua presidência foi no mínimo penosa, por várias razões. São legendárias as suas ambivalências em relação a Salazar e aos destinos por que o seu país navegava. No fim, Salazar mandou-lhe uma simples nota indicando que a União Nacional (que era ele) seleccionara o mais dócil e ultra Américo Tomás para “concorrer” para a eleição de 1958 – a famosa eleição em que concorreu o General Humberto Delgado.

Tudo indica que Craveiro Lopes era um homem bom e decente, com um distinto currículo. O seu pai fora um general e governador da Índia e formou-se no Colégio Militar. Antes dele houve mais. Mais importante, foi um homem que se apercebeu, por mais suavemente que fosse, que algo corria mal na sua república, o que era mais do que se pode dizer de muito boa gente na altura. Foi o único presidente que activamente conspirou contra o regime que Salazar impora aos portugueses. Foi por isso alvo das maiores infâmias por parte dos correlegionários do regime. A ligação acima dá alguns detalhes e testemunhos sobre o que isso foi.

O que pouca gente sabe é que a primeira vez que Craveiro Lopes apareceu no cenário nacional foi pelo que fez em Moçambique, quando, em plena I Guerra Mundial, esteve na fronteira entre o Norte de Moçambique e o então Tanganica alemão, na qualidade de Aspirante de Cavalaria e distinguiu-se no combate aos alemães em 1915 e 1916, nomeadamente em Newala e Quionga. Após voltar à Europa em 1917 para se casar e tirar um curso de aviador, voltou a Moçambique em 1918 por algum tempo.

Craveiro Lopes teve quatro filhos, tudo boa gente mas aqui mencionarei apenas o seu filho Nuno, que viveu durante muitos anos em Moçambique e que, para além de opositor ao regime, foi um arquitecto que deixou obra interessante quer em Portugal quer em Moçambique, para onde veio viver em 1952 e trabalhar como responsável pelo Gabinete de Urbanização e Obras Públicas. A igreja de Santo António da Polana e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus no Chibuto são de sua autoria.

Igreja sto ant Polana

Aliás há uma história interessante sobre Nuno Craveiro Lopes e a Igreja de Santo António da Polana. No seu projecto original, aquela horrível casa onde viviam (vivem?) os padres, e que foi erguida mesmo ao lado do ainda hoje arrojado edifício, ficava muito mais longe. Mas os senhores padres não se viam a andar a pé para entrar no templo e mandaram “encostar” a casa à igreja e fazer um túnel de acesso entre os dois edifícios para não molharem a batina, o que enfureceu o arquitecto (ele deve ter desmaiado quando fizeram o ainda mais arrepiante “salão de festas” por detrás, um armazém, basicamente, onde fui inúmeras vezes ao cinema – por cinco escudos via o filme e ainda comia uma bola de Berlim e bebia uma Coca-Cola).

Outro incidente igualmente grave foi que, no projecto original da igreja em si, tal como concebido por Craveiro Lopes, o altar-mor ficava não onde está hoje mas no centro da igreja, directamente debaixo da cúpula do espremedor de limão, onde o efeito da luz ao meio dia era mágico. E o chão da igreja era para ser feito em mármore branco. Ou seja, nas cerimónias os crentes ficariam sentados todos em círculo à volta do altar-mor, iluminado pelos vitrais coloridos de cima, o que é conceptualmente muito mais belo e dinâmico que a chachada que acabou por ser imposta no fim.

LM Igreja S A da Polana

Mas os srs. padres no fim mais uma vez deram a volta. Até hoje, aquilo ficou organizado em estilo teatro, o altar-mor encostado à parede e o povão crente sentado de frente.

Altar mor da Igreja st ant Polana

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11 comentários »

  1. Ao pesquisar música RAP de Moçambique, vim aqui para ao teu BLOG.
    Em boa hora, porque vim a saber que a Igreja de Santo António da Polana, andou sempre em alterações.
    Vivi 15 anos em Lourenço Marques, (hoje Maputo), e passava todos os dias ao lado desse templo, diga-se magnifico, e nunca entrei.
    O que aqui li sobre o Craveiro Lopes, pai e filho, tocou-me, pois sempre fui grande admirador. Em especial a D. Berta, em cujo Jardim com o nome dela, eu passei tantos e bons momentos.
    Evidentemente, que tenho MOÇAMBIQUE no coração.
    Os “Homens e Mulheres” de Moçambique, ensinaram-me algo de bom e marcante, que não esqueço.
    Obrigado amigo

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    Comentar por Manuel Natálio — 01/12/2009 @ 1:10 pm

  2. Obrigada pelo esclarecimento.
    Os meus sobrinhos foram batizados nessa igreija
    Bjs

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    Comentar por Nita — 07/12/2009 @ 8:29 pm

  3. Sr Natálio

    Hum, pesquisa música rap e vem ter à Igreja de Santo António…deve ser a mão de Deus a operar aqui.

    D Nita

    Eu fiz a primeira comunhão ali….é um templo muito sui generis de facto.

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    Comentar por ABM — 08/12/2009 @ 10:55 am

  4. Obrigado por me recordar de maneira tão carinhosa, o meu avô e pai, por quem tenho imensa consideração e orgulho.

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    Comentar por Nuno Craveiro Lopes — 20/03/2010 @ 8:19 pm

  5. eu estou encanta pois estão falando de minha familia, que so agora estou entrando neste saite. o meu neto esta morando em lisboa, estou programando para ir conhecer minha historia e de minha familia o ano que vem.

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    Comentar por arlete — 21/03/2010 @ 4:51 pm

  6. Sr Nuno Craveiro Lopes

    Agradeço a sua simpática mensagem. Acredite, o orgulho é seu. E nosso também.

    D Arlete

    Vai ver que terá muito que ver e de se orgulhar.

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    Comentar por ABM — 08/04/2010 @ 1:11 am

  7. Interessante!obrigada,bjs

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    Comentar por ana paula milagre — 05/01/2011 @ 11:36 am

  8. estou contente e tenho saudades desta santa terra esteve lá de 1965 ate 1976 ainda hoje podia lá estar se na altura não tivesse filhos pequenos o meu marido travalhava A teixeira gostava de ter notiseas delá

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    Comentar por Margarida mota — 28/08/2011 @ 3:46 pm

  9. Se não estou em erro, do lado dto da foto, fardado, com óculos, é o Major Pinto da França. Em caso afirmativo, esclarece-se que uma das suas filhas (Helena) se casou com o filho Nuno (arquiteto) do P. C. Lopes e tiveram três filhos (conhecidos de muitos que visitam este Blog)

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    Comentar por RM — 08/10/2013 @ 5:48 pm

  10. Sou neta do Gabriel Teixeira, que ainda tem um filho, José Luis Vieira de Castro Teixeira que vive em Carcavelos. Dei-lhe o link, para ele entrar em contacto consigo. Ele tem muitas coisas sobre esse tempo e sobre o Gabriel Teixeira que foi um grande homem, de grande integridade, un grande governador.

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    Comentar por carolina mafalda — 11/10/2013 @ 4:13 pm

    • Boa noite Carolina, ficar-lhe-ia eternamente grato se falasse com o seu tio, seria uma honra ter algumas fotos e informação sobre o vosso famailiar e ex-Governador-Geral de Moçambique. O meu contacto é bcaluanda@gmail.com e estou à disposição. ABM

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      Comentar por ABM — 14/10/2013 @ 8:06 pm


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