THE DELAGOA BAY REVIEW

28/11/2009

O Verdadeiro Significado de "Trata" e "Sob Consulta"

Filed under: António Botelho de Melo, Sociedade portuguesa — ABM @ 12:37 pm

monopolymonopoly

por ABM (Cascais, 28 de Novembro de 2009)

William Saffire era, nos meus tempos de estudante norte-americano made in Mozambique, leitura obrigatória no The New York Times. Para além de questões da língua inglesa, em que me tornei mais ou menos bilingue e apreciava como um miúdo numa casa cheia de brinquedos, especialmente nos seus contrastes com a língua portuguesa, que eu aprendi como materna (versão de matriz açoriana) tinha uma percepção interessante sobre o que era a América do seu tempo e além disso as suas colunas eram muito bem escritas e divertidas. Fiquei com tanta pena quando parou como quando Alistair Cooke deixou de fazer as suas geniais crónicas faladas que passavam aos fins de semana no BBC World Service em onda curta e que eu ouvi religiosamente até à última, e que se chamavam Letter from America. Algumas ouvia com o rádio de onda curta aos berros no meio do campo em Alcoentre enquanto arranjava o telhado ou tomava conta do jardim aos sábados e domingos à tarde. Bons tempos.

Em parte por causa destes e outros exemplos que fui recolhendo e saboreando ao longo da vida, adquiri uma certa predilecção por utilizações peculiares das palavras e da linguagem, tema que por si só daria para escrever uma coluna semanal o resto da vida. Especialmente em Portugal.

Pois que não é só o que as palavras dizem que interessa. Frequentemente é o que se pretende que elas digam e ainda mais o manto em seu redor.

E neste contexto, há duas que gostava de referir, uma das quais observo há muito tempo, outra que li ontem à noite numa revista de uma empresa imobiliária – a ERA – que com a Remax têm andado a “americanizar” o processo de vendas de casa em Portugal, por uma módica comissãozinha de entre 4 e 6 por cento do valor do imóvel transaccionado.

A primeira é “trata”. Na maior parte dos países, quando se quer vender uma coisa, põe-se um papel à frente a dizer “vende-se”. Aliás em Portugal quando se quer vender uma casa mete-se um cartaz a dizer “vende-se”. Mas não automóveis. No caso de automóveis toda a gente mete um papel que diz “trata”. “Trata”? mas “trata” o quê? obviamente, trata no sentido em que vende.

Só que a palavra “trata” não quer dizer “vende”. Nunca teve esse significado e creio que, em bom rigor, continua a não ter. Já perguntei aos meus concidadãos sobre o assunto – pois não sou de cá – e a melhor desculpa que ouvi foi que, talvez nos tempos idos do dr. Salazar, os tais em que havia Polícia dos Costumes e quando se tinha que pagar uma licença para uso e porte de um isqueiro, alguém teria inventado uma regra qualquer em que, para se colocar um cartaz no carro a dizer que se pretendia vendê-lo, que era necessário afixar ao mesmo um certo montante de – lembram-se? – sêlos fiscais, comprados na tabacaria mais próxima ou na Fazenda.

Só que os selos fiscais, como o papel azul de 25 linhas, já não existem. E nem sei se esta história é verdadeira. E mesmo que seja isto é tudo ridículo. Mas aqui estamos nós todos no último mês de Dezembro de 2009 e o bom povo português, quiçá por reacção pavloviana pré-salazarenta, depois de várias revoluções políticas, sociais e fiscais, continua a “tratar” os seus carros na rua. Com aquele informalismo tipo desenrasca-chuta-prá-frente-que-a-coisa-se-resolve-na-mesma. O eufemismo tornado em arma contra a eventual intervenção do Estado naquilo que é a coisa mais normal e natural em todo o mundo, que é ajudar a despachar um carro que já não se quer.

O outro termo é igualmente enigmático mas por razões diferentes. Ao folhear as ricamente coloridas 40 páginas da publicação “ERA Proprietários – 2ª edição 2009” – que esta empresa imobiliária produz a cores em quantidades industriais e que deixa por todos os lados e mais algum (a que eu tenho obtive na Pastelaria Girassol no Estoril ontem à tarde), constatei que uma percentagem muito significativa dos imóveis que estavam à venda simplesmente não indicavam um preço de venda.

No local do preço limitava-se a colocar o fleugmático termo “sob consulta”.

Se bem entendo, ainda que este termo do “sob consulta” faça quase tanto sentido como “trata”, acho que dá para perceber que isto é um termo meio arrepolhudo lusofónico de dizer ao leitor da revista que por alguma razão etérea (a mísera fotografia a cores com 4.2 x 2.5 cm? as hiperbólicas e sucintas descrições do que constitui o imóvel? o desespero do comprador em tentar encontrar algo decente para comprar?) que se quer saber o preço vai ter que pegar no telefone e ligar para um dos vendedores hipertreinados em técnicas de venda da ERA (à americana, ainda por cima”) para o empregado, depois de exigir o nosso nome e número de telefone (creio que para efeitos da comissãozinha) magnânimamente nos comunicar o preço e imediatamente nos recrutar para a nossa “pesquisa” pedindo detalhes sobre o que é que “realmente” estamos à procura, onde e por que preço.

Só que eu não estou interessado – e nem me ocorre à partida – recrutar os exmos senhores vendedores da ERA para me procurarem uma casa para mim, nem de lhes contar a história da minha vida, nem de lhes dar o meu nome e número de telefone. Com todo o devido respeito, eu quero que a ERA se vá lixar. Aliás, folhear a revista deles enquanto bebo uma Coca-Cola Zero na Pastelaria Girassol e como um bitoque tecnicamente não se qualifica sequer como uma “pesquisa”.

Comprar um imóvel em Portugal nos últimos sete anos, para além de para suprir a necessidade de ter um tecto sobre a cabeça (que milagrosamente eu já tenho) tornou-se um negócio ruinoso, pois paga-se demais à entrada, paga-se demais enquanto se tem o imóvel, e paga-se demais à saída, seja por venda, separação ou morte.

O que me impressiona é que a tal de ERA, que, segundo relata o seu sítio na internet, teve início no profundo estado do Kansas nos anos setenta do século passado e que pelos vistos é uma das poucas exportações de sucesso americanas, e que, segundo a revista, em Portugal tem 200 lojas, 2.000 empregados, 100 mil casas “angariadas”, 4 centros de formação, publica 3 milhões de revistas como a que eu li por ano e teve perto de 62 milhões de pageviews, traduzidos em 204 mil horas de navegação no seu sítio por parte dos compradores (isto é apenas um pouco mais que o Maschamba) – faz isto tudo para depois, no fim deste processo e investimento todo, meter uma tal quantidade de imóveis à venda em que indica como preço “sob consulta”.

Naturalmente que o corolário desta observação, que só pode decorrer, é que deve haver muito boa gente neste mercado que cai no truque e que, apesar do manancial comunicacional desta empresa, gasta o seu tempo e dinheiro a telefonar para os senhores da ERA a contar a história da sua vida e a pedir se fachavôr se não se importa diga lá qual é a porcaria do preço.

Pois que se fossem todos como eu a ERA em dez segundos arrepiava caminho. E devem haver muitos vendedores de imóveis que obviamente não se importam de ver o seu património a ser (a meu ver mal) vendido desta forma, em troca de uma comissão que importa em média 5% do valor por que esse património venha a ser vendido.

Não acredito que lá em Kansas City as coisas sejam assim.

Em Portugal é.

Anúncios

3 comentários »

  1. Se vexa permite, e apesar de muito apreciar os seus escritos, tratar quer dizer também isso: negociar, fazer comércio. De onde, em tempos, também se tenha chamado ao comércio de escravos simplesmente “o trato”.
    http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=trata

    … independentemente do resto do discurso que se segue e que estará certamente mui certo 🙂

    Best

    Gostar

    Comentar por ARL — 28/11/2009 @ 1:23 pm

  2. Tentei uma vez contactar um sob consulta (nao me lembro se da ERA se de outra congenere). Recusei-me a dar o nome, onde morava, o que buscava, etc e disse a quem me atendeu que so queria saber o preco do imovel (como a bendita da menina lhe chamava). Ela foi agressiva e usou tudo quanto aprendeu em tecnicas de venda; eu fui mula e continuei a recusar fornecer qualquer informacao. O mano a mano acabou num empate: ela nao teve a informacao minha que queria e eu fiquei sem saber o preco da casa. Agora que penso bem, ela ganhou, pois quem pagou a chamada fui eu! Ai ai ai

    Gostar

    Comentar por AL — 28/11/2009 @ 1:50 pm

  3. Exmo Sr ARL

    Agradeço a sua atenção e passo a tentar justificar-me. Não fosse o diabo tecê-las, confirmei o significado de “tratar” no meu velho dicionário Lello de 1978 e, apesar de marginalmente o termo poder querer dizer “negociar”, e podendo-se em seguida argumentar que “vender” é “negociar” e logo “tratar” também é “vender”, não só não considero serem sinónimos como também escapa à razão básica por que não se utiliza o termo “vender” na venda de carros por particulares em Portugal. Ou seja “tratar de negócios” pode incluir uma venda mas o reverso não me parece ser curial.

    Mas não vou fazer guerra por causa disso. É apenas uma opinião. E por favor não me chame V.exa….

    Sra Baronesa

    Eu já passei por essa e dez outras nas minhas pesquisas. Eu acho que isto é feito para benefício da imobiliária e dos seus vendedores, nas costas de quem tem a curiosidade de querer saber o custo do produto. Na área de particulares, só vejo isto a acontecer em Portugal.

    Gostar

    Comentar por ABM — 28/11/2009 @ 2:43 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: