THE DELAGOA BAY REVIEW

19/12/2009

O Viriato Moçambicano

Filed under: Antropologia, História Moçambique — ABM @ 11:18 pm

VIRIATO

por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Confesso uma curiosidade pela arqueologia, pela paleoantropologia e pela geologia. Que para mim funcionam um pouco como o prelúdio possível para a História.

Não será surpresa, então, o interesse com que li o artigo publicado ontem no sítio Scientific American, e que relata o trabalho e algumas conclusões – publicado no mesmo dia na revista Science – do pesquisador Júlio Mercater, da Universidade canadiana de Calgary, sediada em Alberta.

Algures na província de Niassa, no Noroeste de Moçambique, o Senhor Mercader analisou uma gruta em 2005 (a Gruta Ngalue, segundo outro artigo) na qual descobriu e analisou uma série de algumas dezenas de pedras que, segundo as suas análises, têm quatro particularidades: foram encontradas bem dentro da gruta (ou seja, manipuladas por homens), foram usadas para amassar cereais, têm vários vestígios desses cereais (que em inglês incluem “sorghum”, que não sei o que é em português), e, muito mais interessante, análises atómicas indicam que aquilo está ali há….cento e cinco mil anos.

A confirmarem-se, as ramificações desta descoberta são extremamente significativas, quer para o estudo do que se passou no território que hoje constitui parcela de Moçambique, quer para o estudo da Humanidade.

No caso de Moçambique, pouco se sabe sobre a presença humana neste território a partir de há dois mil e tal anos atrás. Num raro e interessante trabalho da autoria de António Rita Ferreira chamado “Moçambique pré-colonial” já em 1975 e sob o patrocínio da Frelimo (antes de ele se fartar da “revolução” e ter rumado Portugal, onde é meu vizinho mais ou menos eremita aqui em Cascais, com quase 90 anos de idade), e que encontrei num canto dum relativamente obscuro sítio brasileiro, as datas mais antigas ali referidas são dessa relativamente recente era.

Mas, a confirmar-se, o achado é da maior importância para o estudo da Humanidade, pois hoje é mais ou menos consensual que um dos passos mais críticos para a evolução da espécie humana neste planeta foi quando se começaram a processar, consumir, guardar e mais tarde cultivar, cereais. E os dados previamente mais recentes sobre esta actividade humana no planeta situam essa “descoberta” no local Ohalo II, situado na região do que é hoje Israel e datam de há “apenas” 23 mil anos.

Ou seja, a pesquisa de Mercater implica um recuo de 80 mil anos no despoletar de um importante processo pelos nossos antepassados humanos (que, neste caso, um pouco sorridentemente, chamo do “Viriato Moçambicano”, decalcando de uma igualmente misteriosa personagem da história ibérica, indecentemente apropriado em tempos por alguns historiadores portugueses, com base numa interpretação fantasmaglórica de alguns relatos dos colonizadores romanos).

Poderá ter alguma lógica adicional, se se tiver em conta que todos os dados apontam para a evidência de que todos os seres humanos descendem de famílias que saíram de África e que terão eventualmente migrado para o actual Médio Oriente e depois para o resto do mundo.

Claro que, como é típico nestas ocasiões, já há gente que, sem saber muito mais sobre o assunto para além do que foi publicado, expressou as suas dúvidas e suspeitas de que o bom Senhor Mercater deve estar enganado ou a sonhar. Dois dos que têm dúvidas são Lyn Wadley da Universidade do Witwatersrand e Loren Cordain, da Universidade Estatal do Colorado.

Imagino que se seguirão muito mais estudos e esforços para testar e validar aquilo que o arqueologista canadiano diz ter encontrado em Moçambique.

Entretanto, não faço a mínima ideia de onde fica esta gruta no Niassa. Mas, situando-se em território moçambicano, seria muito boa ideia mesmo alguém que manda, assegurar que a área seja protegida e que os especialistas possam nela fazer as suas pesquisas em paz e sossego.

Pesquisas que se poderão revelar importantes para o estudo da evolução da Humanidade e um melhor entendimento do que aconteceu no passado africano e moçambicano.

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8 comentários »

  1. “Sorghum” é, em português, sorgo.
    É normalmente apontado como o 5º cereal mais importante no mundo (embora nunca tenha visto explicitado o critério dessa importância) e é originário de África.
    No entanto, pouco é por lá cultivado, desde a introdução no continente do milho e da mandioca (trazidos das Américas) e do arroz (vindo da Ásia).

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    Comentar por Paulo Granjo — 20/12/2009 @ 2:02 am

  2. Em Moçambique o nome para o sorgo é “mapira” e é um cereal muito comum.

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    Comentar por Vasco Galante — 20/12/2009 @ 5:43 pm

  3. Muito grato ao PG e VG

    Depois de ler os comentários fui ver na internet e confesso que acho que nunca comi isto, o que me deixa algo perplexo. Depreendo que faça parte normal da dieta de muitos moçambicanos.

    Também li que o sorgo está na mira como uma potencial fonte para o biodiesel.

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    Comentar por ABM — 20/12/2009 @ 8:21 pm

  4. fui perguntar à Paula “Webina”, a minha mulher e que é muito mais sabida das ruralidades moçambicanas que eu, pois nasceu e viveu até ao fim da adolescência no Gurué, acerca da mapira que a mim o nome só me luzia mas continuava ceguinho.
    pelo que me explica são grãos pequeninos e com eles fazia-se farinha, a shima, e também aguardente. também que se davam aos pássaros, tipo alpista. lembra-se da sua cultura, portanto não só expontânea.
    acrescenta, como curiosidade, que os mufanas apreciavam muito o pau onde as sementinhas se formavam para fazer carrinhos. porquê? disso não sabe pois nunca fez nenhum. talvez tivesse especial elasticidade para trabalhá-lo. pauzinhos que eram entre si atados com micói, ‘fios’ que se tiravam do tronco das árvores, não da primeira ‘capa’ do tronco mas sim da sua segunda. qual árvore? não sabe, mas deduz que o nome micói terá alguma ligação com o da árvore

    é o que vale ter “uma gaja do mato” em casa! 🙂

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    Comentar por cg — 20/12/2009 @ 9:34 pm

  5. Mapira, espécie gramínea (cereal da família dos sorgos, como o Sorghum vulgare ou o Sorghum bicolor arundicaeum (mapira brava)) é o sorgo, como diz V.G. – cereal esférico com cerca de 2 a 3 mm, cor bege, creme clara, embora a tivesse visto matizada com riscas arroxeadas (o que muito me espantou, ainda muana (miúdo), porque o meu mundo era circunscrito ao Delta do Baixo Zambeze, entre Chinde, Luabo e Mopeia.

    O tamanho da mapira varia com a quantidade das chuvas, qualidade dos solos, e “sabedoria” do seu cultivo, isto é, das boas práticas de machambar (agricultar).

    Na minha zona, terras Sena de Bauaze, é muito comum, sendo cultura anual rotativa, com o milho, e também uma outra gramínea, a mexoeira – Pennisetum tyhoides , de que falarei mais adiante.

    E os miúdos, filhos dos agricultores, ficam de dia a espantar a passarada, que é mais do que muita, e em pouco tempo “depena” um campo – seja ele de mapira ou mexoeira (eu também, muana como eles, lá fiquei inúmeras vezes nas férias, a cavaquear em Sena, e a brincar…ao sol abrasador, sentado em cima de um morro da formiga branca, muchém – ponto alto para observação dos “assaltantes”).

    A mapira, petisco preferido da rolas – feito à medida – que se empoleiram no topo das plantas, tipo canas, com o cimo ornamentado pelos bagos a amadurecer, e a bambolear ao sabor do vento, ou flectindo ao peso da ave, é muito utilizada na alimentação, a tradicional chima, espécie de puré, a intervalar com as chimas de milho, mexoeira, mandioca,…

    A farinha é considerada “mais fina” do que a de milho, e faz parte da alimentação básica das populações, a par da mexoeira, milho, mandioca, batata doce, arroz mais raro (na zona), e alguns tipos de feijão, como por exemplo o Nhemba.

    Já a mexoeira tem entre 1 a 2 mm, máximo, é de cor castanha carregada, e a farinha é mais acastanhada, e pesada, densa. Frutifica de forma muito diferente da mapira – é uma espiga única em redor da cana mãe – a mexoeira é o petisco preferido dos pássaros, no geral, devido ao pequeno tamanho dos grãos.

    Para se fazer a farinha diária, os cereais secos são previamente demolhados (talvez 1 dia?), escorridos e pilados para lhes extrair a casca. O miolo assim obtido é posto a secar ao sol, e posteriormente esmagado manualmente, entre duas lousa de pedra.

    Aquando da introdução das moagens, as mulheres ficaram muito mais libertas, o que deu azo a batucadas e danças festivas.
    O fardo diário de fazer farinha para a família é pesado, e requer muito tempo.

    As cascas obtidas com a operação acima descrita, eram empilhadas, “o bagaço”, e ia assim fermentando lentamente. É deste subproduto que se fazem as várias bebidas tradicionais – nipa (bebida destilada tipo aguardente, cachaça, com odor intenso), cabanga (bebida tipo água-pé, mais leve), …, complementadas com sumo da cana sacarina, caju, açúcar, água, etc…

    Quanto ao ter comido, e provado (nipa), todos estes tipos de alimentação, no meu caso específico, foi uma coisa muito natural – eu sempre fui um muana muzungo do mato, e ainda por cima, branco de 2ª classe.

    Fazer o quê?

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    Comentar por umBhalane — 21/12/2009 @ 5:13 pm

  6. CG, Sr 1B

    Já deu para perceber nesta minha nota que eu fui menino de cidade, pese o facto de quase o todo o meu imaginário moçambicano fosse para o mato. Ou seja, corpo num lado e alma no outro. De certa maneira, não me apercebi na altura do duplo privilégio – ou duplo “handicap”.

    Da próxima vez que o destino me leve a Moçambique, farei a romaria da mapira e ver ao que isto sabe.

    Muito obrigado a ambos. Fiquei 0.001% mais moçambicano, o que, nos dias que correm, pode parecer pouco mas é-me pessoalmente reconfortante.

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    Comentar por ABM — 22/12/2009 @ 2:44 am

  7. Encontrei este blog por causa do sorgo, mapira em moçambique.

    Esta planta é a mais referênciada na biblia, no novo e antigo testamento e tem grandes propriedades depurativas e de limpeza do organismo.
    É muito bom para o figado!

    Por casualidade, também passei por moçambique 91-93 e ficou-me marcada a sua cultura e suas gentes!

    abraços
    carlos

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    Comentar por carlos — 21/03/2010 @ 4:15 pm

  8. Sr Carlos

    Fique por cá e junte-se à festa…

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    Comentar por ABM — 07/04/2010 @ 11:58 pm


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