THE DELAGOA BAY REVIEW

20/12/2009

O Meu Primeiro Tremor de Terra e o 112

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 5:39 am

por ABM (Cascais, 19 de Dezembro de 2009)

Images_sismos

Às 1:37 horas da madrugada do dia 17 em Cascais City, estava eu a começar a rever as infindáveis gralhas de um mais um dos dos escritos para este blogue, quando, no breve espaço de cinco segundos, me apercebi que o chão por baixo de mim estava a vibrar e de repente a casa toda como que deu um pequeno mas expressivo solavanco para a frente. No meio, ouviu-se um som estranho vindo de toda a estrutura da casa.

De um ápice, estava no quarto a pegar as chaves do carro, a carteira, um casaco, corri à cozinha, apanhei uma maçã, peguei na família, duas mantas, tudo a correr pelas escadas abaixo, para a rua, para dentro do carro, para nos afastarmos para algures longe de algo que nos pudesse cair em cima.

Mas na rua, reinava a maior das calmas.

O bom povo português, pelo menos ali para os meus lados, nem sequer acordara. Fazia um frio de rachar e estava tudo a dormir pacificamente.

No rádio, sintonizei a estação TSF para saber mais informação. Nada. Dava umas dessas músicas pirosas, o locutor debitava as banalidades de uma madrugada sem incidentes.

Peguei no telefone celular e tentei ligar para o serviço nacional de emergência português, o 112.

Dava sinal de impedido.

Na mente, corria uma breve checklist. Não desligara a água. Não desligara o gás. As cadelas ficaram atrás. O seguro da casa tinha cobertura anti-sismos? (tinha). Os meus amigos estavam bem? (sim, soube mais tarde).

Liguei para o 112 durante quase meia hora. Finalmente atendeu um fulano.

“Olá boa noite, houve um tremor de terra”.

“Sim”.

“Prevê-se alguma coisa?”

“Não sabemos”.

“Estamos no meio da rua, toda a família dentro do carro, estão cinco graus na rua. Devemos fazer o quê? ficar aqui, ir para casa?

“Faça como achar melhor, e oiça as notícias para o caso de acontecer alguma coisa”.

“Ah. Obrigado. Mas se houver outro tremor não é preciso o rádio. A gente sente. Boa noite.”

“Boa noite”.

Voltei para casa, li um bocado e fui dormir.

No dia seguinte, vi na televisão que ocorrera um sismo de grau 6.0 na escala de Richter, centrado a 100 kms do Cabo de São Vicente, na ponta do Algarve. Um ministro qualquer bufou para um jornalista que “o sistema nacional de emergência funcionou bem”. O meu ex-colega da natação, Henrique Vicêncio, que trabalha há uma vida na Protecção Civil, proclamou que “foi de facto um tremor”.

Ah. Pois.

Como nada se partiu e ninguém morreu, adiante.

Mas da próxima vez já percebi que ligar para o 112 vale zero.

E que vou escrever a minha própria lista do que fazer no próximo tremor.

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6 comentários »

  1. Depois de ter de decidir, aind durante o tremor de terra, se ia acordar os meus filhos e com a minha mulher fugir para a rua, optei por esperar pelo fim do tremelico.

    Passados 25 minutos do ocorrido, a SIC Noticias anuncia o tremor. 25 minutos! incrivel.

    O site do Instituto Nacional de Meteorologia estava “em manutenção”.

    Mas mais incrivel foi verificar que a Proteccção Civil, que serve para nos elucidar e proteger, não ter feito uma unica declaração ao País a explicar o que fazer nestes casos durante a noite.

    Adoro o meu País, mas devo confessar que desde o meu regresso estou ainda estupfacto com o ouço, leio e com o que vejo. Quando regressei a Portugal abri a televisão no preciso dia em que a Manuel Moura Guedes chamou Bufo ao Bastonário. O que me chocou não foram os mimos que trocaram mas sim não ver os Advogados a exigirem à TVI um pedido de desculpas pelo ensino.

    Como diz o António Feio: “somos uns cromos”

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    Comentar por Pedro Silveira — 22/12/2009 @ 1:29 am

  2. E este foi o meu quarto tremor de terra: 1980 em angra do Heroismo, 1989 em Ponta Delgada, 2008 em Maputo e 2009 em Cascais.

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    Comentar por Pedro Silveira — 22/12/2009 @ 1:30 am

  3. Pedro

    1. Mensagem da minha mulher para si: “Neste país, Pedro, como nos tremores de terra, “you are on your own” – ou, dito no vernacular indígena rapidinho antes que venha o novo acordo ortográfico, “salve-se quem puder”;

    2. Estou parvo com o seu “currículo sismológico”. É preciso muita pontaria mesmo e um tipo mórbido de sorte para chegar onde chegou. Já experimentou o Euromilhões?

    3. Em relação a Portugal, devia haver uma pós-graduação em “cromologia portuguesa”. Há muitos anos, na universidade Brown, onde estudei nos EUA, o professor Onésimo Teotónio Almeida deu uma cadeira com temática parecida, que dava pelo nome de “Fenomenologia da Cultura Portuguesa”. Saí de lá esclarecido e quase deprimido, com a vaga impressão de que isto é como uma Roma do ano 600, em que os bárbaros se esqueceram de invadir.

    4. Presumo que, para si, deva ser duplamente deprimente amar este país e ao mesmo tempo ter que encarar a Cromologia e os Cromólogos.

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    Comentar por ABM — 22/12/2009 @ 2:32 am

  4. 1- Curiosa afirmação que confirmo. Em 1980 demorei 5 horas a chegar a casa e fui sózinho. Nessa altura como em todas as outras a protecção civil estava “indisponível”.

    2- Quem estiver a viver em Cascais está com sorte porque nunca presenciei dois sismos na mesma cidade/cidalela ou local.

    3- Não há rotina diáriamente a encontrar esta espécie. é como os namoros intensos: uma verdadeira aventura a toda a hora.

    4- Para ser sincero e depois de 12 anos de Moçambique eu parto-me a rir com isto tudo. Iguais a nós são aqueles que pensam como nós e não que se pareçem como nós.
    Por isso aplica a técnica que aprendi em Moçambique: deixá-los falar. Nunca falha.

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    Comentar por Pedro Silveira — 23/12/2009 @ 2:04 am

  5. Eles emergem que nem papoilas….

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    Comentar por Pedro Silveira — 23/12/2009 @ 2:06 am

  6. Pedro

    Esboço um sorriso e penso aquela frase moçambicana e angolana: “estamos juntos”.

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    Comentar por ABM — 27/12/2009 @ 7:26 pm


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