THE DELAGOA BAY REVIEW

22/12/2009

Aproxima-se o Natal

Filed under: António Botelho de Melo, Sociedade portuguesa — ABM @ 4:56 am

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por ABM (Cascais, 21 de Dezembro de 2009)

Dado o facto de que o Senador JPT está sem comunicações e a Sra Baronesa está neste momento molhando os pézinhos nas tépidas águas índicas que banham Goa, prossigo neste crescente solilóquio internético até que um se ligue e a outra tire o pé da praia.

Eu hoje quero referir um assunto a propósito das festividades natalícias.

O Natal era para o pequeno comércio português – e hoje é-o para as grandes superfícies de que a do Bill Gaitas Português (a Sonae Distribuição) é a maior – ou o sopro que salva o ano ou o chantilly que cobre o gelado.

Quando eu vivia nos EUA, era comum os meus amigos portugueses vociferarem o seu desprezo pelo que consideravam o excessivo comercialismo dos americanos no Natal. O que se tornava particularmente curioso pois a maioria deles nunca meteu lá os pés, pelo que deduzo que papagaiavam o que os intelectuais da praça cuspiam para os antecessores dos blogues – aquelas crónicas infindáveis que povoavam os jornais da praça.

Pois agora os portugueses copiaram tão bem os americanos que já estão quase em posição de lhes dar umas lições. Mesmo em tempo de vacas magras e com potencialmente 25 por cento dos que trabalham a perder emprego, o que se vê é o pessoal a gastar como se o mundo fosse acabar amanhã. Os comércios ajudam, vomitando música com temas natalícios para todos os espaços públicos e privados e mais algum, as autarquias gastam o dinheiro dos nossos impostos a colocar luzinhas e presépios na via pública, para ver se entramos no espírito das coisas.

As estações de televisão, que tiveram um annus horribilis em termos de publicidade (pior mesmo, só os jornais) a partir do fim de Novembro começaram já a passar uma impenitente sucessão de anúncios meio porno-eróticos, meio estapafúrdios, tentando impingir-nos a ideia de que a prenda ideal para quem não fazemos a mínima ideia do que oferecer nesta altura de dar alguma coisa, é dar um perfume com que a Charlize Theron é suposto estar borrifada quando ela entra num palacete qualquer nas vestes mais requintadas mas que caem rapidamente enquanto ela, já nua, caminha para o que, presumimos nós dirty old men que estamos a assistir, seja dar uma valente queca num toyboy qualquer na cama que está no quarto ao lado.

Ou o perfume “um milhão” do Paco Rabão, em que um tipo com ar de playboy meio duvidoso que estala os dedos e (mais uma vez) cai logo no chão a roupa de uma menina qualquer que está ali à mão. Pois , pois.

Ou aquela “marquesa” do Ferré Roché que pede ao Ambrósio que lhe apetecia “algo” e em que o Ambrósio, em vez de lhe dar o algo que todos achamos que apetece à marquesa, lhe dá umas bolinhas de chocolate na caixa mais amaricada que eu já vi na história da televisão e ela rebola-se de contente.

Ou ainda uma de várias marcas de whisky que, sendo bebida (dizem as minúsculérrimas legendas em moderação) com aquele grupo de malta porreira chique da boa, que a celebração é tanto mais divertida.

Pena que eu mal toque em álcool.

No Natal os bancos aproveitam para nos tentar convencer que os Planos de Poupança Reforma, que hoje são um relativo barrete fiscal, apropriado exclusivamente para quem não só não precisa de um mas que ainda tem dinheiro que sobre para fazer um – são coisa a não perder. Obviamente, obedecendo a um plano de ataque previamente preparado pelo departamento de marketing, o meu banco já me ligou esta semana. “Boa tarde sôr dótôr. Vimos saber se o dótôr já fez o seu pêpêérrezinho este ano”.

Se o meu banco não sabe se já eu fiz ou não o meu pêpêérrezinho para este ano, então quem sabe, não é? – pensei. Mas não disse nada.

De resto, as empresas de electrodomésticos, de telemóveis, de televisão por cabo, de cremes para tudo e mais alguma coisa, continuam o seu carnaval. Os anúncios dos cremes de senhoras aumentaram, o que me leva a suspeitar que no Natal isto também vende como rissóis quentes em dia de festa.

Na internet, já comecei a receber alguns emails um pouco elaborados e alusivos à efeméride. Mas, mais interessante, há dias notei (felizmente na caixa de Spam) um aumento na quantidade daqueles emails meio malucos a tentar impingir-nos doses maciças de … Viagra e afins.

Fui pesquisar um pouco e parece que o negócio dos químicos legais todos disparam no Natal e fim de ano.

anuncia pilulas

Sinceramente, não sei bem qual é a relação do Viagra, que é suposto ser um perigoso químico para combater a impotência sexual, e o Natal. Não acredito que seja prenda que se dê a alguém (dentro de uma caixinha de Ferré Roché?) nem supunha que pudesse ser algo que alguém nos tentasse impingir através de emails não solicitados.

Será para a festa de ano novo? possivelmente. Aliás, numa dessas revistas com 400 páginjas de anúncios e que custam três euros e meio para o mercado feminino, que eu li enquanto esperava a minha vez de pagar as compras da comida no hipermercado do Continente de Cascais City há dois dias, vinha um artigo não assinado em que se referia pessoas algures em Portugal, que organizavam “Viagra parties” (cuja descrição poupo aos exmos leitores mas que envolveriam várias pessoas em várias situações em várias posições). Paguei a minha conta do supermercado distraído a pensar no que andavam a ler e fazer as donas de casa e as mulheres trabalhadoras deste país com os seus significant others.

Enfim.

Lá em casa, a árvore de Natal já está luzente e esplendorosa. Temos uma daquelas árvores de plástico, com o ar mais natural deste mundo, que tenho que ir à arrecadação uma vez por ano buscar, desempoeirar e montar, e, também uma vez por ano, desmontar e pôr lá de volta, juntamente com as caixas de berliquoques que se penduram na dita cuja no entretanto. Gosto tanto de empacotar aquela porcaria que já mais do que uma vez pensei em deixar a árvore montada na sala para o ano seguinte. Mas de facto lá para Maio a coisa começa a destoar.

Entretanto a Patroa já puxou do cartão Visa e comprou os presentes para o agregado e cia. Eu nunca compro nada para ninguém, a não ser seja obrigado e tirando o que já anunciei aqui. Para mim, nunca quero nada, pois há muitos anos que já me compenetrei que basicamente já nada quero ou preciso que me possa ser possivelmente oferecido por alguém no Natal. Mesmo no caso de livros, ainda estou, por exemplo, a recuperar da oferta, o ano passado, de um livro sobre como o Anticristo ia tomar conta dos Estados Unidos e levar-nos todos rapidamente para o apocalipse (sendo a solução juntar-me rapidamente a uma seita qualquer e encomendar a alma). Quando mo ofereceu e eu estupidamente fingi um interesse mínimo, o meu amigo ofertante assegurou-me que, de facto, o Obama tinha pinta de Anticristo.

Haja paciência.

Para alguns domésticos o Anticristo é o J. Sócrates. Mas sabem o que diz o velho ditado, não é: “Anticristos da casa não fazem milagres”.

Para a maior parte das pessoas que conheço e de quem objectivamente gosto, a mera ideia de que tenho que andar a fazer listas do que dar a toda a gente confrange-me. Honestamente, nem sei por onde começar.

Mas…hum… deixa-me cá ver…talvez umas garrafinhas de whisky? Ou um perfumezito da Charlize?

Ou uns chocolatitos do Ferré Roché?

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2 comentários »

  1. Realmente, haja paciência! Para as luzinhas, para a cantoria, para os anúncios, para as toneladas de gente a comprar toneladas de prendas … Esta altura do ano está a tornar-se odiosa … Acredite que no fim de Novembro começo já a ficar ‘stressada’. Isto não faz bem ao coração … de ninguém.

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    Comentar por Dakota — 22/12/2009 @ 6:11 pm

  2. Sra D Dakota

    Para mais sobre a “hecatombe natalícia”, leia a minha nota de hoje…

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    Comentar por ABM — 27/12/2009 @ 8:55 pm


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