THE DELAGOA BAY REVIEW

01/01/2010

2010 Déjà Vu

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 3:19 pm

Deja Vu

por ABM (Alcoentre, 1 de Janeiro de 2009)

Não sei se é da idade. Ou da expectativa. Ou de um qualquer estado de espírito. Mas apesar de todo o já habitual carnaval de Natal, de fim de ano e desejos de um “bom ano” e as discussões do que foi e do que podia ter sido e ainda do que vai ser, cada vez menos tenho aquele sentimento de que a 1 de Janeiro algo é realmente novo. Não é um “ano novo”. Não é um ciclo novo que se começa. Acordo de manhã com as mesmas memórias, as mesmas expectativas, os mesmos condicionalismos.

O mundo parece-me igual ao que era antes.

Não deveria ser assim. Tanto quanto a idade, o ano solar representa, quer se queira ou não, um ciclo estruturante. Quase tudo gira à volta dele. Pecando por dizer o óbvio, todos os anos o primeiro dia do ano é o dia 1 de Janeiro. Todos os anos assinalamos o dia em que nascemos e todas as restantes “efemérides”, boas e más. O clima, as plantas seguem um ciclo mais ou menos anual. As empresas e outras organizações, os estudantes, os políticos, as estações de televisão, meticulosamente (pensa-se) fazem os seus planos de actividade, que tentam mais ou menos seguir, espécie de fios condutores a que mais ou menos tentam aderir, com os imprevisíveis ajustes de percurso.

O primeiro verdadeiro desafio ao paradigma do ciclo anual ocorreu-me, naturalmente no dia 20 de Fevereiro de 1975, quando “tive” que sair de Moçambique e ir estudar para Coimbra, sem sonhar que tal era uma ida sem regresso. Para já não falar da descoberta algo desconcertante e kafkiana que até então vivera uma infância quase idílica, imersa numa ditadura com décadas de existência dum pequeno país europeu com colónias em África (já de si uma constatação um tanto épica na altura para quem tinha feito 15 anos de idade e nada entendia de organização política, em simultâneo com o que me pareceu um ajustamento a uma velocidade alucinante), o que me pareceu implausível foi a minha mudança de latitude e as suas consequências. Janeiro a Março é o pico da estação quente no Sul de Moçambique. Em Coimbra – e em Portugal – é o inverno.

Ou seja, a celebração do Ano Novo em Moçambique é feita em tempo de muito calor. O carnaval, que na altura era uma ocasião importante, era celebrado em tempo de muito calor. O meu aniversário – no dia 30 de Janeiro – era celebrado no mais puro tropicalismo. O ano escolar começava em Setembro e as férias escolares de Natal eram um período de piscina e de praia. Eu, que praticava a natação, treinava em piscinas ao ar livre. Num ápice, essas datas passaram a ocorrer em tempo frio e escuro, a natureza em regressão, algo muito estranho, difícil de absorver e de ajustar internamente.

Aliás no Sul de Moçambique vivem-se basicamente duas estações, um longo verão húmido e uma estação mais fresca e seca, nada comparável ao clima da Europa ocidental. Sendo, ainda assim, um ciclo. é um muito menos marcante que as quatro estações dos climas mais temperados.

É mais contínuo.

E no meu relógio interno nunca perdi essa continuidade. Pelo que no meu caso os anos não se repetem – vão-se acumulando ao longo de uma (longa) linha temporal.

Isto pode parecer pouco mas a diferença entre uma perspectiva e a outra é enorme. Muita e boa gente de facto vê cada ano como um mini-ciclo com os seus rituais e os seus protocolos estabelecidos. Fazem listas do que querem fazer, dos objectivos a concretizar, celebram todas as datas não no sentido de obviar o distanciar do evento (um nascimento, um casamento, um divórcio, uma morte, etc) mas para mentalmente repeti-lo.

Claro que o que os outros fazem condiciona-nos. Dou um exemplo. Durante muitos anos, trabalhei para empresas cuja ano contabilístico terminava a 31 de Dezembro. Toda a vida dessas empresas girava à volta desse ciclo. Um ano, fui trabalhar em Moçambique para uma empresa cujo ano contabilístico terminava a 30 de Junho. Ou seja, todo o ciclo da actividade girava em redor de um período em que o “ano” começava a 1 de Julho. Para quem já estava habituado, aquilo era normal. Para mim aquilo não fazia muito sentido até porque o país inteiro funcionava no ciclo anual que terminava a 31 de Dezembro. Em termos funcionais, as pessoas que ali trabalhavam não concebiam de ter planos de trabalho e objectivos cujo dia “d” era – para eles, pelo menos – a meio do ano.

A conclusão é simples: é sempre boa altura de começar seja o que for. Sendo que o mais importante querer começar e mudar alguma coisa, na nossa vida e na dos outros.

Senão a vida torna-se um longo déjà vu.

Enfim.

Ainda assim….um bom ano de 2010 para todos os Maschambianos. Paz (?), saúde, sucesso, boas coisas a acontecer, etc.

É sempre boa altura também de ter a oportunidade de poder desejar o melhor àqueles que conhecemos melhor (família e amigos) e aos outros que não conhecemos.

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2 comentários »

  1. Esta leitora agradece, e aqui deixa, também, votos de óptimo 2010 para toda a equipa do Ma-shamba.
    Abraços

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    Comentar por Nicolina Cabrita — 01/01/2010 @ 7:39 pm

  2. D. Nicolina

    Esta parte da equipa agradece e reciproca.

    Gostar

    Comentar por ABM — 01/01/2010 @ 8:18 pm


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