THE DELAGOA BAY REVIEW

05/01/2010

White Trash

Filed under: África do Sul, Politicamente Correcto, Racismo — ABM @ 2:50 am
Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

por ABM (Cascais, 4 de Janeiro de 2010)

Ora hoje começa a semana, o ano e a década.

O estatuto de membro do Maschamba tem as suas (poucas) benesses. Assim, generosamente, o JPT enriqueceu a minha mais do que dúbia colecção bibliográfica, oferecendo-me a semana passada um livrinho de fotografias tiradas por Roger Ballen, aparentemente mais uma celebridade de quem, na minha usual e algo indiferente ignorância, nunca tinha ouvido falar. “Afenal”, ele até tem um canto na internet e uma fundação (uma fundação?).

Para além da arte, da qualidade e do estilo, Ballen, que supostamente vive na África do Sul há muitos anos, teve a iniciativa de ter saído algumas vezes do seu indubitavelmente requintado atelier em Joanesburgo até à África do Sul “profunda”, para tirar umas fotografiazitas a alguns dos brancos mais feios que eu já vi na minha vida – aquilo a que nos Estados Unidos se chama normalmente white trash.

O livrinho ofertado pelo Senador JPT tem 64 fotografias, a esmagadora maioria delas sobre o supracitado tema (edição Photo Poche Societé da Natahan, 1997), qual delas a mais assustadora – de uma forma mais ou menos simpática, em que se vislumbra a beleza do feio – e que, presume-se, desafia alguns dos conceitos convencionados sobre os cidadãos brancos daquele país vizinho de Moçambique, que para o observador casual invariavelmente parecem ser estupidamente ricos, estupidamente bonitos e estupidamente bem apetrechados com Porsches, BMW’s, barcos a motor para levarem para a Ponta do Ouro, Inhambane e Xai-Xai e casas de sonho.

Os tais que quando vêm a Moçambique dizem, em inglês, desconcertantemente para o local, I am coming to Africa.

Até 2000, apesar da proximidade geográfica e de quatro dos meus irmãos terem estudado em Nelspruit, Sabié e Belfast, antes da independência apenas estive lá uma manhã, em 1968 (só me lembro da secção dos rebuçados e dos chocolates do OK Bazar) e mais uma semana, em 1984, quando, um nadinha mais desperto para a vida, passei lá uma semana antes de visitar Moçambique pela primeira vez depois da Independência.

Dessa segunda vez, já meio americanizado, fazia algumas perguntas indiscretas aos brancos com quem contactei, que manifestamente não estavam lá muito confortáveis com a situação mas que repetidamente me diziam oh, but we love our blacks! Boa sorte, desejei-lhes eu a todos, de todas as cores, e meti-me de volta no avião para Nova Iorque.

Em 2001, temporariamente a residir em Maputo e após ter feito a descoberta de que se se for de carro directo de Maputo pela estrada N4 na direcção Oeste, se vai dar a Pretória e a Joanesburgo, um dia pus-me à estrada para visitar a casa, no centro de Pretória, onde vivera o incontornável Paul Kruger, presidente do Transvaal entre 1880 e 1900, quando se pirou para a Europa via Lourenço Marques, após o exército inglês ter invadido a sua capital.

Curiosamente, Kruger hoje é recordado pelo (para mim, insípido) facto do seu nome adornar o parque animal que fica na fronteira com Moçambique, um estratagema de charme então congeminado pelo verdadeiro fundador do parque há uns cem anos, um pouco como se fez com a Guebuza Square naquele centro comercial indescritível na baixa de Maputo.

Ao entrar de carro em Pretória, prontamente me perdi e andei às voltas até que à direita duma rua vi o que me pareceu um centro comercial numa área que obviamente era um reduto africaner na cidade. Fui lá para comprar uma Coca-Cola e pedir direcções para a casa de Kruger. Ao estacionar o carro no parque, veio um boer, obviamente muito pobre, mas muito sério e profissional, com um vago ar de agente da Pide, pedir-me dinheiro (em Afrikaans) para guardar o carro.

Dentro do centro comercial, que tinha um ar meio delapidado mas limpo, mais brancos pobres a pedir esmola. Ali dentro só se falava afrikaans (para informação do exmo leitor, eu só sei dizer cac, boerewors e dankie em afrikaans). Na caixa à minha frente estava um casal de boers de idade, obviamente reformados e pouco abonados, a fazer as contas para pagar meia dúzia de coisas para comer (não tinham o dinheiro suficiente e um pacote de manteiga teve que ficar para trás).

Claramente, aquilo para mim, que não conhecia lá muito bem a África do Sul, foi, posso dizer agora, um “momento Roger Ballen”.

Aliás, foi mais do que isso. É que em tempos, na universidade Brown e sob a tutela magistral do meu velho e querido professor de ciência política, Newell Maynard Stultz (então casado com uma sul-africana branca) estudei algumas coisas sobre a evolução do sistema político sul-africano – o que se publicava então (e aqui está uma crítica a um dos seus livros).

E um dos elementos fortes do que nos anos 30 e 40 do século passado se passou teve que ver, para além daquela vaga mania de que Deus lhes tinha dado a África do Sul em testamento e do eterno amor-ódio entre os boers e os sul-africanos de extracção britânica, de um quase prodigioso esforço de educação, de urbanização e de apoio, entre os próprios boers, que em parte explica (minha óptica) muitas das barbaridades que mais tarde se tornaram peças fundamentais do apartheid. Pois até aos anos 40, com a excepção da comunidade boer do Cabo, a maioria dos boers era pobre, analfabeta e rural – tal e qual a quase totalidade da população negra naquele país naquela altura. Portanto parte do apartheid tinha por fim descriminar em favor desses boers pobres, rurais e analfabetos.

Contra quem, dou um rebuçado se o exmo. leitor descobrir.

Mas obviamente e naturalmente e ainda assim muitos ficaram pelo caminho, agravado pela mudança de regime e as sucessivas tentativas da Nova África do Sul de reverter décadas de privilégio e de colocar a população negra sul-africana, senão no centro das atenções dos poderes, pelo menos em pé de igualdade – com os ocasionais exageros da praxe.

Um desses episódios de algum exagero ocorreu em Novembro do ano passado, quando o segundo maior banco sul-africano – o Primeiro Banco Nacional – publicou na sua revista interna que a instituição iria disponibilizar bolsas de estudo aos filhos de todos seus empregados cujos rendimentos anuais fossem inferiores a cem mil randes (isso dá 8.333 randes por mês).

Excepto – literalmente – se eles fossem brancos.

Ou seja, na incompreensível complexidade do actual paradigma sul africano, as bolsas eram exclusivamente destinadas aos filhos dos funcionários “pretos”, definidos algures na lei como descendentes de africanos com a pele total ou parcialmente negra, indianos e chineses.

Uns dias depois a história estoirou nas primeiras páginas dos jornais sul-africanos e um sindicato sul africano acusou os seus responsáveis de serem racistas, mas agora contra os brancos.

O banco, pouco habituado a este tipo de controvérsias, lá teve que fazer um rápido passodoble de relações públicas, seguido de uma espécie de marcha-atrás meio repolhuda, com o seu CEO a tentar explicar que aquilo afinal correspondia ao que a actual lei exigia mas que, enfim, eles iam ver se era mesmo assim e se pudessem também dariam uma ajudinha aos filhos brancos dos seus empregados brancos que ganhavam menos que 8333 randes por mês.

Entretanto, algumas pessoas (do que vi maioritariamente brancas e com nomes que me parecem boers) até formaram um grupo no Fêicebúke para destilar o seu veneno.

O ponto da questão aqui volta a ser o do branco sul-africano pobre. Dantes descaradamente protegido e promovido pelo sistema, mas agora, talvez precisamente em memória do que aconteceu antes, deliberadamente descriminado, até ao detalhe de o segundo maior banco do país publicamente adoptar a política de negar bolsas de estudo aos filhos dos empregados brancos que auferem menos, apenas por os seus pais serem brancos.

Acho que, da maneira como as coisas andam, o Senhor Roger Ballen vai ter matéria abundante para as suas fotografias por mais uns anos.

Ademais, o ANC tem o azar de não ter sítio para lhes fazer uns 24/20.

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2 comentários »

  1. Complexo, como processos históricos idênticos.

    “Ai dos vencidos”

    Comovedor, pelo menos para mim, é a posição “activa” dos “democratas”, “amantes das liberdades”, que ontem vociferavam grandes valores, e hoje se remetem a um silêncio sepulcral…

    E são “distintos” seres “bem pensantes”, normalmente donos da verdade, muito cultos, e sobretudo incomensuravelmente coerentes…

    E com uma certa doutrinação, tipo plano inclinado, rumo ao abismo…

    Depois vão-se admirar!

    Ah, nessa altura estarei a fazer tijolo.

    Uff.

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    Comentar por umBhalane — 05/01/2010 @ 11:11 am

  2. A História da vida tem destas coisas, o mal é estarmos no sitio errado no momento errado…………

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    Comentar por jaime — 07/01/2010 @ 11:54 pm


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