THE DELAGOA BAY REVIEW

07/01/2010

A Goa dos Meus Sonhos

a minha ideia de Goa

a minha ideia de Goa - sem vacas

por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)

Nunca meti os pés na Índia, e muito menos em Goa, o ponto fulcral e crucial da segunda exploração marítima portuguesa no séc. XVI, de que a Ilha de Moçambique era de importância vital mas apenas como ponto de apoio.

Recordo que a primeira fase da exploração lusa das rotas marítimas foi o Norte de África, que correu mais ou menos (às vezes menos bem) até à maior derrota militar de 900 anos de história portuguesa, Alcácer-Quibir, em Agosto de 1578, que só tem comparação na sua dimensão épica com igualmente épica e inenarrável vergonha (mais política e moral que militar) que foi a forma da retirada formal de Portugal de África e de Timor em 1975.

Mas, bons portugueses, quase tudo esquecemos e tudo perdoamos. Quando muito, ruminamos na calada da noite em blogues como este e depois vamos dormir, na enferna convicção da consciência ventilada.

Uma espécie de peido emocional.

Ou, mais prosaicamente, uma catarse num quarto escuro e fechado.

Como alguns dos restantes territórios sob soberania portugues até aos anos 60 e 70 do século findo, Goa era de certa forma mais um anacronismo de uma potência pós-decadente. Já há séculos que para quase nada servia, só dava despesa, Portugal pouco ou nada fazia lá, tinha meia dúzia de gatos pingados na sua guarnição, a paisagem aquele latinismo exótico, doce e delapidado, a economia irrelevante e, mais importante, não havia maneira de evitar o embate de uma Índia independente, orgulhosa e anti-colonial. Nehru fartou-se de avisar e de mandar recados, alguns até simpáticos, mas o Dr. Oliveira Salazar pelos vistos tinha que manter, e manteve, a consistência da sua postura.

A tomada de Goa e restantes territórios da Índia Portuguesa em 1961 não foi coisa assim tão insípida como se possa pensar. Mais tarde soube que em Moçambique, por exemplo, a comunidade de ascendência indiana foi quase decapitada por causa dos eventos na Índia. Muita gente foi encarcerada, maltratada, muitos foram explusos e despojados dos seus bens, ou simplesmente presos e usados como moeda de troca pelos (principalmente) militares portugueses então feitos prisioneiros pelo exército indiano, com até uma mãozinha do omnipresente Jorge Jardim pelo meio. Dos poucos que ficaram atrás, e seus descendentes, as feridas resultantes desse trauma perduraram até hoje.

Alguns goeses viajaram no sentido oposto, para Moçambique, onde tentaram refazer as suas vidas. Conheci alguns. E talvez seja minha mania, mas sempre me ficou a impressão de serem pessoas com uma cultura e profundidade espiritual que contrastava de todo com a elevada quantidade de carapaus de corrida que iam desaguar a Lourenço Marques, vindos da Metrópole, com a mania de que iam ensinar os locais brancos e pretos como é que se comia com o garfo e a faca.

Uma dessas pessoas que me ficou gravada cá dentro foi uma professora de História que tive no segundo ano da Escola Preparatória, a infame Escola General Machado na Polana, para onde eu tinha que marchar todos os dias as sete da manhã com um horripilante colete verde-garrafa estilo militar e basicamente levar porrada nas aulas de educação física do famoso e temeroso professor Trepa Torres. Ela era uma pessoa sublime, cultíssima, uma mulher conhecedora do mundo, uma docente de cinco estrelas. E que era goesa. Claro que na altura eu não fazia a mínima ideia do que era Goa nem onde ficava e muito menos que os indianos na altura já tinha surripiado aquilo a Portugal. Pouco tempo depois, quando saí de Moçambique para estudar em Coimbra, encontrei-a no avião da TAP (um Boeing 747, nada menos) de mala aviada para Portugal, para ela uma segunda fuga. Sorumbaticamente, prestei-lhe os meus respeitos e despedi-me quando desembarcámos em Lisboa. Nunca mais a vi.

Pelo meio, não sabendo bem porquê, sempre tive uma visão quase idílica de Goa e das suas gentes e culturas, em parte espelhando os ecos moçambicanos. Mais tarde apercebi-me de algo ainda mais supreendente, que era a elevada consideração em que aparentemente são tidos na Índia e no Reino Unidos alguns descendentes mais sonantes dos Goeses, cujos nomes são, nalguns casos, de matriz portuguesa. E ainda que, sendo o subcontinente indiano uma enormidade, que Goa, a pequenina Goa dos portugueses em que pouco ou nada se fizera em quinhentos anos, aparecia como a jóia da coroa e o local de passeio das classes mais abastadas da Índia, do seu turismo internacional.

Uma menção especial para Gujarat, mais a Norte, a seguir a Mumbai, a velha Bombaím, dada por João IV como dote da sua filha Catarina de Bragança à Inglaterra de Carlos II em meados do século XVII. Lidei bastante com homens de negócios de lá e seus descendentes, em Angola e Moçambique, e foi sempre um prazer.

Portanto aquilo era o paraíso na terra e a minha imagem do paraíso na terra é mais ou menos o que está na fotografia lá em cima.

Basicamente, portanto, sem as vacas a passear nem os vendedores de quinquilharias que a Senhora Baronesa, com o seu afincado olho antropológico e a máquina digital, descortinou.

Mas enfim. As coisas nunca são exactamente como pensamos, não é?

Pois ponha-se a vaquinha na praia que eu continuarei a pensar que há-de haver por lá aquele cantinho do paraíso que eu sempre suspeitei haver.

A Goa dos meus sonhos.

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27 comentários »

  1. ABM, a Goa dos teus sonhos existe sim; esta la para quem a quiser visitar. Ate eu tive um vislumbre dela.! So que a Goa dos meus sonhos e’, como tu bem dizes, a outra, a que retratei. Nao ha certo nem errado nisto; temos simplesmente sonhos diferentes… 🙂

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    Comentar por AL — 07/01/2010 @ 1:21 am

  2. Sra Baronesa das Índias,

    1. Que inveja que tu foste e eu se calhar nunca irei…
    2. Imagino que há-de haver tantas Goas quanto há gente nesta terra. Apenas parodiei os meus delírios quando confrontados com a visão fotográfica mais terrena das coisas.

    Especialmente a da vaca na praia. 🙂 🙂

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    Comentar por ABM — 07/01/2010 @ 1:28 am

  3. Grande “violão”, grande “avião”.

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    Comentar por umBhalane — 07/01/2010 @ 2:01 am

  4. Essa caravela tem nome?

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    Comentar por Pedro Silveira — 07/01/2010 @ 2:13 am

  5. Socorro!
    JPT, onde andas? 🙂

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    Comentar por V.A. — 07/01/2010 @ 2:46 am

  6. Há um pormenor interessante nesta imagem dos seus sonhos, Sr. ABM.
    Segundo reza a lenda, os vampiros não produzem reflexo nos espelhos, nem possuem sombra. Acreditava-se que o reflexo de uma pessoa num espelho fosse o reflexo da sua alma, a qual, supostamente, os vampiros não possuem.
    Ora nesta imagem idílica, a sombra do ‘avião’ de lábios carnudos está ausente, o que me leva a concluir que a Goa dos seus sonhos passa por uma vaga (?) vampirização da figura feminina. 🙂
    Mas vampira(o)s e (vacas) encontramos em todo o lado, certo? Não é preciso ir a Goa.

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    Comentar por V. A. — 07/01/2010 @ 12:39 pm

  7. D Vera

    Boa tarde. Estou um bocado surpreendido com o enfoque aqui dado à fotografia que apanhei deus sabe onde, pois em parte alguma no meu texto essencialmente histórico-biográfico-idílico – e algo “tongue in cheek”, faço referência à linda menina não indiana que aparece encostada ao coqueiro (obviamente uma jovem modelo escolhida a dedo para ilustrar um catálogo qualquer e que presumivelmente está a ganhar uns dólares honestamente).

    A menina é bonita de ver, mas a maior parte da fotografia é areia da praia branca, mar azul e céu limpo em dia de sol tropical.

    Serve, a meu ver, o requisito “alegórico-idílico” para adornar, com a óbvia boa disposição subjacente, este texto, que é sobre um ideal que invoquei existir no meu imaginário sobre as praias de Goa.

    Mitigar a pobre da menina dos “lábios carnudos (nem tinha reparado neste algo sórdido detalhe) dizendo que ela não projecta a sua sombra (ela está lá) e portanto tem propriedades “vampíricas” pode fazer esquecer o meu ponto, que pareço ter falhado em obviar, que em vez de uma vaca perdida, se podia ver uma linda mulher a passear-se na praia goesa.

    Pois para o quotidiano, real, sem tiques, manias ou ilusões, temos o mágico texto ilustrado da nossa Baronesa, um clic atrás.

    Com a vaquinha.

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    Comentar por ABM — 07/01/2010 @ 4:51 pm

  8. ABM, acho que esta ou este V. A. nao e’ a Vera; as iniciais da Vera costumam vir sem pontos a seguir… Mas posso estar enganada, claro! Quanto ao resto, nao te queixes. Querias o que? Ilustras um texto historico com uma imagem destas e queres que os leitores atentem nas letras? Que comentem a historia? Pois, pois… 🙂

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    Comentar por AL — 07/01/2010 @ 4:59 pm

  9. Sra Baronesa

    Os serviços secretos do Maschamba dizem que é mas isso é secundário. Aqui são todos benvindos e creio que temos orgulho nisso.

    Não me estou a queixar. Apenas a constatar a algo súbita atenção à “aviação civil”, que aprece obliterar o que quer que seja que um tipo esteja a dizer.

    Por mais irrelevante que seja.

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    Comentar por ABM — 07/01/2010 @ 5:17 pm

  10. um aeroporto nice 🙂

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    Comentar por cg — 07/01/2010 @ 8:53 pm

  11. Confirmo.
    A V. A. ou VA é a Vera Azevedo
    A abreviatura foi uma questão prática e porque neste espaço nos nomeamos muitas vezes por siglas.
    É bom que a aviação civil seja agradável em qualquer parte do mundo Sr. ABM : ), mas convenhamos : com um avião sem sombra (pronto! a casca da árvore tem uma nesguita dela – o que torna a menina semi-vampira), não há texto histórico que resista. Mas só a AL é que me compreende ??? : )

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    Comentar por VA ou V.A. — 07/01/2010 @ 11:11 pm

  12. Double 🙂 🙂

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    Comentar por VA ou V.A. — 07/01/2010 @ 11:15 pm

  13. Quanto aos leitores maschambianos nao sei, mas eu tenho dado umas gargalhadas valentes a pala dos comentarios deste post. Ainda que nao fosse por mais nada, ja valeu a pena! Com menina e tudo! 🙂
    E ABM ficas a saber: para a proxima poes la uma caravela! 🙂 🙂 🙂
    Fazes no texto um paralelo que me parece relevante e interessante – que a “descolonizacao” de Goa se assemelhou em quase tudo a que se veio depois a verificar em Africa, apesar de aqui nao haver a desculpa do “vazio politico” e dos “militares de esquerda”. Os goenses foram realmente os primeiros a verem-se rejeitados por uma patria que sentiam como sua, mas onde nunca foram bem recebidos e que nunca os quis. Tambem eu encontrei ainda la pessoas assim como a professora que descreves. Tambem la conheci familias divididas e repartidas pela diaspora, ainda revelando magoas da vida perdida e da traicao sentida. Onde se continua a falar portugues pela teimosia dos que la ficaram e nao por uma politica coordenada de qualquer instituto portugues. Onde existe um ponto de venda de ceramicas Bordalo Pinheiro, azeite e vinhos portugueses, onde as familias ainda falam do “antes” e recordam os dias da invasao. Muitos paralelos e feridas que ainda hoje nao sararam…

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    Comentar por AL — 07/01/2010 @ 11:57 pm

  14. eu acho que a rapariga até ficava ofendida se soubesse que tantos olham, olham… e o olhar só procura ‘sombras’!

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    Comentar por cg — 07/01/2010 @ 11:58 pm

  15. O engracado CG e’ que estes detalhes parecem ter sido estratificados por genero – so nos as meninas notamos a sombra, ou falta dela, bem como o botox da beica… Os meninos ficaram-se por outros detalhes… 🙂 🙂 🙂

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    Comentar por AL — 08/01/2010 @ 12:10 am

  16. tá certo, AL, tá certo… o mundo ainda gira na direcção correcta 😉

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    Comentar por cg — 08/01/2010 @ 1:03 am

  17. AL, a propósito do teu comentário e para dar um ar mais sério a esta questão, lembrei-me do documentário “A Dama de Chandor”.
    Genial, para as questões da preservação de uma identidade que ela (a fantástica velha senhora) sente ameaçada.

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    Comentar por VA — 08/01/2010 @ 2:05 am

  18. Prontos, desisto. Tragam a vaca de volta para a praia.

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    Comentar por ABM — 08/01/2010 @ 3:50 am

  19. Do tremendo esforço que a inocente palmeira fez para acompanhar as curvas “dela”, ninguém refere.

    E também se verifica na sombra!

    Palmeiral injustiça.

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    Comentar por umBhalane — 08/01/2010 @ 10:48 am

  20. Sr 1B

    Sim, a palmeira é estruturante no enquadramento nesta fotografia.

    Ademais, sem ela o avião caía…

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    Comentar por ABM — 08/01/2010 @ 2:20 pm

  21. 🙂 🙂 🙂 🙂

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    Comentar por VA — 08/01/2010 @ 10:28 pm

  22. Pois é, a nossa camisa verde-seco (Gen. Machado), com o emblema azulado no bolso esquerdo, consistia num uniforme por demais quentinho para aquele clima. Mas enfim, pelo menos sabiam onde e o que andávamos a fazer.
    Quanto ao Trepa Torres, era realmente terrível, um chato da pior espécie. Para que precisávamos nós de andar a correr, se o desporto não nos faltava na rua e na praia, na natação nos Velhos Colonos?
    La General Machado, tive uma severa professora de matemática, que se bem lembro, chamava-se Maria Emília e chegou a ser presidente do Conselho Directivo. Recordo-me também das aulas de Educação Musical – que os modernos democratas por aqui aboliram -, no andar superior da Escola. As actividades nas manhãs de sábado, onde me inscrevi em pintura e escultura, exemplos das “inutilidades” do sistema educativo da altura.
    Ainda lá dou umas voltas, pairando a centenas de metros de altura, no Google Earth. Vale a pena.

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 17/01/2010 @ 1:55 pm

    • Eu fui aluno dessa senhora Goesa (cujo filho tb era professor de história…) e da Maria Emília (?) a matemática que pronunciava o 8 (óito) de forma peculiar. O Trepa Torres foi também meu professor… Temível… A Professora de Educação Musical tinha estrabismo e o Prof de Relig e Moral (padre muito especial que falava nas aulas do evolucionismo…)

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      Comentar por Carlos TROCADO FERREIRA — 11/06/2011 @ 4:27 pm

      • Carlos

        Lamentavelmente, não me recordo dos nomes dos meus professores. Apesar de não ser religioso desde uma idade tenra, tanto assim que aos 12 anos já tinha negociado com os meus pais a isenção das aulas de religião e moral (que eram aulas de catolicismo encapotadas na sua maioria), recordo-me que no segundo ano da Escola General Machado, o professor da aula de religião e moral, um padre católico, tinha uma abordagem tão cativante que eu voluntariamente frequentava as suas aulas e não faltava uma. Muitos anos mais tarde, estava eu vivendo em Boston e a estudar para um MBA, para meu choque, encontro-o lá, estava a fazer um pós-doutoramento em teologia. E nessa altura tive a refrescante oportunidade de confirmar a razão porque fizera o que fizera em Lourenço Marques com 13 anos.

        Mas o Prof. Trepa Torres é alguém que não esqueço. Curiosamente, tenho boas recordações dele, apesar do seu estilo um pouco à “recruta” com o pessoal.

        A professora de educação musical na Gen. Machado ensinou-nos “Kumba Ia”, o que, no contexto em que vivíamos, era no mínimo inusitado.

        A professora de história foi uma lição para a vida.

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        Comentar por ABM — 13/06/2011 @ 9:41 pm

  23. Sr NCB

    Vejo que sofremos as mesmas agruras. Nas aulas de educação musical uma professora pôs-nos a cantar (em inglês, que na altura ainda não sabia falar) o velho cântico anti-esclavagista americano “Kumba Yá”.

    E foi na Gen Machado que, pela primeira vez, depois de profunda discussão com a mãe BM sobre a minha religiosidade (que era nenhuma) que fui isento das aulas de Moral e Religião, que até então eram obrigatórias.

    Só que, para chatear, o padre era um excelente professor. E continuei a ir às suas aulas, voluntariamente. Muitos anos mais tarde, encontrei-o um dia em Boston, estava a completar um doutoramento em religião numa universidade local.

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    Comentar por ABM — 18/01/2010 @ 12:14 am

  24. Bom dia, o Trepa Torres também foi meu prof. de Ginástica na General Machado e a Professora de História era a Exmª Srª. D. Maria do Carmo Ribeiro esposa do Director Geral da Educação de Moçambique Exmº Dr.Álvaro Ribeiro. Melhores cumprimentos. Rui Diogo

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    Comentar por Rui Diogo — 13/09/2016 @ 9:19 am

    • Olá Rui – e obrigado pela simpática nota. Será que a Professora Maria do Carmos foi a minha professora? ela era de Goa? grato e saudações moçambicanas, ABM

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      Comentar por ABM — 08/12/2016 @ 2:18 pm


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