THE DELAGOA BAY REVIEW

09/01/2010

As Guerras do Cunza Cunza*

Filed under: Europa-África, Politica Portuguesa, Sociedade portuguesa — ABM @ 12:04 am

around and around

por ABM (Cascais, 8 de Janeiro de 2010)

O exmo leitor que desculpe a imagem, só queria ver se andava mesmo à roda.

Enquanto serenamente lia os meus e-mails ao fim desta manhã, a estação de rádio lisboeta TSF transmitia ao vivo do parlamento português a gritaria que pelos vistos antecedeu a votação (e posterior aprovação, a crer nas notícias) de um diploma que, a ser ratificado pelo presidente da República, extende, com uma aparente interdição à adopção, o casamento civil a pessoas do mesmo sexo.

A interdição à adopção por estas pessoas é, parece-me um preciosismo algo insípido senão inconstitucional por via do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que, na actual conjuntura manda mais que o que quer que seja que os parlamentos da União Europeia legislem. Mas, hipoteticamente, se então se levar até às últimas consequências esse raciocínio, o Estado deveria também tomar providências para confiscar os filhos a qualquer pai ou mãe que pratiquem aquilo com alguém da mesma persuasão sexual.

Decorre, não é?

A parte que achei mais piada foi aquela em que, aludindo a uma sugestão creio que de um senhor qualquer do PSD, que o tal de casamento civil não fosse chamado “casamento civil”, um outro senhor qualquer do PS perguntou, alarmado, que anotação se inseriria então, quanto ao estado civil, nos bilhetes de identidade dos, presume-se, felizes usufrutuários (e usufrutuárias) desta medida.

Recordo que as actuais opções são: solteiro (SOLT), casado (CAS), divorciado (DIV) e víuvo(VIU).

Atenta, a Patroa postula que os gays são todos gajos porreiros mas um tanto destravados e concorda que o nome deve ser reservado para a Heteromaioria e sugere o termo “contrato de união”.

Sendo que nesse caso a abreviatura a aparecer no BI seria, naturalmente … “CU”.

Como os exmos leitores podem ver, enquanto se afunda alegre e suavemente numa lama de dívidas e de insustentabilidades, o desemprego já a 10.3% e a agravar-se, o país dos lusos enfrenta decisões traumatizantes como esta: qual a abreviação a pôr no BI para isto do casamento das pessoas do etc e tal.

Também a crer nas notícias, o carnaval ainda vai durar uns tempos até que o assunto esteja resolvido.

Confesso que o que me chocou mais (num contexto em que já quase nada me choca, claro) foi quando há alguns anos passou-se uma fascinante legislação a regular uma coisa fantasmaglórica chamada “união de facto”. Essa, sim, um verdadeiro atentado ao casamento civil, mas na altura poucos sequer comentaram. E está na lei.

Boa sorte a todos.

Interessante coincidência foi ter-me hoje apercebido, via a BBC World Television há bocado, e que confirmei, de que, na nação africana do Uganda, a conversa vai precisamente na direcção contrária: para além de legislação draconiana contra quaisquer vislumbres de homosexualidade na população, os legisladores ali queriam afinar ainda mais a coisa para incluir, entre outros embelezamentos que incluiam a pena de morte para certos actos de violência lá tidos como parte do que lá consideram “homosexualidade”, os seguintes:

– a proibição e criminalização da discussão da homosexualidade em público.

– a proibição e criminalização do aluguer de casas ou apartamentos a casais do mesmo sexo (presumo que espreitando à noite pela janela para ver se os ditos andam a fazer aquilo).

Precise-se que, nos termos do código civil local, qualquer manifestação de homosexualidade neste momento já é ilegal e punível por lei, nalguns casos com a pena de prisão perpétua.

Segundo a notícia que li, pressionados pelos EUA e pela União Europeia, que acham aquilo um bocadinho exagerado, os políticos ugandeses, que afinal são todos uns gajos porreiraços e boa gente, estão a pensar atenuar vagamente a coisa um nadinha apenas, para calar os doadores que no fundo os sustentam, passando tudo o que é morte por fuzilamento para uma mais amigável pena de prisão perpétua.

Como aquilo é mais ou menos uma ditadura, quem vai decidir tudo no fim é o presidente, o Senhor Museveni, que já teve o seu país nas notícias por melhores assuntos que perseguir os seus cidadãos que fazem aquilo. uns com os outros.

* descrição do acto sexual na língua ronga, falada no extremo sul de Moçambique.

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2 comentários »

  1. Achei piada ao seu cunza cunza, mas fiquei um pouco tonta, a andar à roda . A sua tão elucidativa imagem ilustra bem o que sinto quando vejo toda a gente, de repente, tão preocupada com a “grave questão”,de “quem cunza com quem”.Pensava eu ser isso do foro íntimo de cada um. E que não seria pertinente ter um papel passado a autorizá-lo , ou para o glorificar. Quero que fique bem explícito que não sou a favor de qualquer discriminação, nem no Uganda nem na Europa.É que sou uma rapariga dos anos sessenta, do tempo em que não era costume pedir licença para “aquilo”…

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    Comentar por joana padrel — 09/01/2010 @ 9:55 pm

  2. Sra D Joana

    Mas o que toda a gente aqui quer é, precisamente, nos casos supracitados, que fique tudo entre portas. “Casar” é por definição dar notícia ao mundo que, entre outras coisas, se “cunza” com o outro (ou a outra) e daí se perturba a moral, os costumes, a religião e a ordem pública.

    E há uma maioria que acha isto tudo da minoria dos homosexuais e das lésbicas no mínimo uma aberração. Acordar-lhe estatuto legal e aceitação moral é simplesmente incompreensível para essa maioria.

    Este é, verdadeiramente, o cerne da questão.

    Noutras circunstâncias, decorre, nunca uma ideia destas passaria em Portugal. Mas na nomenclatura socratiana, já se viu que tudo é possível.

    E o povo português, no fundo no fundo, está-se nas tintas. Se não vão falar mal de alguém por isto, falarão mal por outras razões. Vai ver.

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    Comentar por ABM — 10/01/2010 @ 2:33 am


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