THE DELAGOA BAY REVIEW

10/01/2010

THE BEST OF ISABELA FIGUEIREDO

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of The Delagoa Bay Review. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Delagoabaianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no Diário de Notícias sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pretos pequeninos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá e, no meu microcosmo, o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura fascista e colonial passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente, destaco, se se estiver a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Montes. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até bem pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique. Foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci e pelos vistos ainda bem. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse então novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente o delírio de que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

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65 comentários »

  1. Não os levemos tanto a peito e desculpemos-lhes a ignorância. A crítica post-colonial já começa a ter barbas, conquanto nunca seja por demais continuar a investigar as práticas e os saberes coloniais.
    Estranha-se é que a Câncio, sempre tão atenta e informada, tão post-modernista e fracturante, venha agora demonstrar delumbramento por uma crónica impressionista de vivências e emoções coloniais, escrita num registo e estilo que ela tão critica e despreza, por exemplo, em autoras como Margarida Rebelo Pinto.

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    Comentar por Rui M. P. — 10/01/2010 @ 11:25 am

  2. Post interessante ABM! Pela magoa que o invade e pelos argumentos expostos. Vivemos infelizmente num pais onde nao se atendem feridas e estas ficam assim cruas e desprotegidas; sangram ao primeiro toque que se lhes faca. E um tema recorrente aqui na maschamba e nem vou agora entrar por ai.

    Nao li o livro da Isabela e muito menos o comentario da Fernanda Cancio, pois nao leio jornais portugueses. Estou farta de parvoices e nao quero perder tempo. Mas tenho que dizer que me pareces algo injusto com a tal de Isabela. Fui ver o blog dela e gostei! Confesso que a imagem de abertura me pregou um susto. Aquela cabeca de cao, o corpo da mulher, a profusao de flores…. achei tudo altamente perturbador! Mas comecei a ler as entradas e gostei. Mais ainda, li uma entrada sobre o pai dela, onde ela diz de outra forma o que tu aqui dizes. Aqui fica o que ela escreveu:

    QUOTE

    Nem sequer posso dizer que o meu pai nao gostasse dos negros. Gostava deles, sim. Como inferiores. Mas era uma atitude paternalista. Era algo como, eu posso civiliza-los. Eles podem aprender comigo, e depois tambem serao electricistas e montarao as suas proprias empresas e deixarao de viver nas palhotas… Era efectivamente uma atitude civilizadora, colonial. O meu pai nunca foi um homem mau, e a sua brutalidade nao continha perversidade. A zanga passava-lhe muito rapidamente. O meu pai foi um ser humano como os restantes seres humanos. Se a ocasiao se proporcionasse, dava uma facada no matrimonio. Imagino que se tivesse dinheiro ate pudesse manter uma amante com casa posta, como os outros. Uma amante com casa posta era a coisa mais comum nos anos sessenta. Ouvi muitas conversas de mulheres sobre o assunto. Foi um portugues exactamente como os outros portugueses e um colono exactamente como os outros colonos. Nao tinha nenhum comportamento especial, diferente. O meu pai nao era o Kurtz de O Coracao das Trevas, lamentavelmente – ate poderia dar jeito a alguem que ele fosse assim, mas nao era. Era racista como os outros que eram racistas, e eram muitos, eu diria quase todos, na Metropole e no Ultramar. Tal como hoje. Conhecem muitos portugueses que nao sejam racistas e xenofobos? Eu conheco poucos. Os portugueses de hoje sabem o que podem dizer em publico, mas la em casa, ao jantar, podem ser racistas a vontade, que ninguem esta a ouvir. Podem malhar nos imigrantes brasileiros e de leste. Podem desejar a pena de morte para os gangues da Quinta da Princesa e o resta da pretalhada que por ai anda. O meu pai foi melhor do que esses.
    UNQUOTE

    A mim parece-me um retrato muito bonito de um homem e de uma epoca e diz no fundo aquilo que tu dizes aqui no teu post. Agucou-me a curiosidade e acho que vou arranjar o livro. La porque a Cancio gostou nao quer dizer que sejam mau…. 🙂

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    Comentar por AL — 10/01/2010 @ 12:23 pm

  3. Sr Rui MP

    De facto impressoinaram-me mais os comentários desportivos e de bancada da Sra Câncio que a instrospecção terapéutica da D Isabela sobre raça, sobre o pai dela e o seu misterioso complexo sobre não viver a boa vida da Sommerschield.

    Sra Baronesa

    Claro que sou injusto na minha quase total insensibilidade para o registo de sofrimento desta senhora, que, se genuíno, é a meu ver um tanto deslocado da norma, o que posso encarar até certo ponto.

    O que não posso encarar é ela generalizar os tiques do pai para toda a população branca de Lourenço Marques nos anos 60 e 70. E a Câncio dizer que se podia matar impunemente um negro na rua sem ter que enfrentar a justiça. Isto é fulanizar um sistema reconhecidamente injusto e indiscriminadamente caracterizar e criminalizar toda uma população sem qualquer conhecimento de causa.

    Ou melhor, ela “acha” que sabe.

    Aliás o “colonialismo” originou aqui em Portugal. De certeza que não foram meia dúzia de gatos pingados que o inventaram lá. Onde estava o pai da Fernanda Câncio quando o Salazar decidiu perpetuá-lo e dizer que a África era “nossa”? onde estava ele mais tarde quando aqui se decidiu que afinal aquilo era tudo uma porcaria e deixaram mais do que um milhão de pessoas “portuguesas” à sua sorte e às mãos de ditaduras de bandos de guerrilheiros marxistas-leninistas? isto para não falar das dezenas de milhões de africanos a quem eu acho que se devia muito mais do que um mero arrear da bandeira? como se compara isso tudo com o sofrimento de uma menina de 12 anos em Lourenço Marques cujo pai electricista remediado achava que os negros eram inferiores? não compara.

    Isto de uma ex-miúda de 12 anos e que viveu no Alto-Maé (ou lá onde foi) filha de um electricista ficou em Moçambique dez anos depois da independência e que morreu em 2001. E que decidiu fazer uma espécie de ajuste de contas com o pai depois dele morrer. A Isabela que se meta hoje num avião é vá a Maputo e vai ficar chocada de constatar como tanta coisa não mudou. Ah, se as coisas fossem tão simples assim.

    Por acaso visitei ontem à noite o simpatico blogue de uma senhora que escreveu aqui ontem e em que se fazia referência a uma outra “entrevista” de Isabela ao Público há uma semana, que li, bem como os 117 comentários ali registados por leitores. É a mesma coisa, menos os comentários desportivos da Sra Câncio.

    Um dia não longe morremos todos e ninguém se vai lembrar de nada disto. Eu tenho um filho que não sabe onde África fica e que nunca há-de saber mais de que teve um pai que nasceu lá.

    Se calhar é melhor assim.

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    Comentar por ABM — 10/01/2010 @ 4:09 pm

  4. Sr Rui MP

    Só agora reparei. Permita-me elogiar o seu blogue “Companhia de Moçambique”, que para além de elegante e graficamente apelativo, é de temática que acho muito interessante e extremamente bem escrito. Só peca pela dificuldade em andar lá dentro, pois para se saber os temas tem que se andar à pesca, um índice temático fazia milagres em vez de apenas as datas em que fez as inserções.

    Pelas datas, vejo que tem andado de férias. Vá escrevendo mais umas coisas!

    Vou ver se consigo congeminar as coisas para estar referido na lista do “rol d’elos” do Maschamba.

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    Comentar por ABM — 10/01/2010 @ 4:39 pm

  5. eu apetecia-me escrever “f…-se, grande texto!” mas como ainda palmilho as minhas catases pessoais não o faço!

    por falar em catarses, li o livro de I. Figueiredo e só lá mesmo para o “texto 25″_colecção de posts do blogue_ é que me reconciliei com ele, que até lá – e mesmo depois, mesmo depois – andei com uma coceira danada, indeciso entre mandá-lo à merda e aplaudir a coragem (da catarse edipiana pública).

    muito do que ABM aqui salienta como incongruências da bloguista/autora senti-as. a injustiça da análise social. a impossibilidade mnemónica de o relato ser fiel ao vivido e estanque a considerações e deduções posteriores, “cá” e sob speedada ideológica.

    mais: revi-me em muita “merda”, infelizmente. cometi alguns desses erros, começando pelo pecado da e-vaidade editorial. na(lguma) insensibilidade crítica com a cega injustiça das dinâmicas da história para com duas gerações. sim, fi-lo e, podesse, eu rasgava páginas.

    mas não posso. o que não me castra de ser crítico em relação a quem usa, orgulhosamente (!!!) a mesma bengala branca de atrofia intelectual.

    Cadernos de Memórias Coloniais não é um “mau livro” mas não gostei dele a ponto de o recomendar ou de arrumá-lo nas prateleiras mais acessíveis da estante. é um ‘documento’, bem além do seu literal. mais um no longo retrato do (penoso. porque não dizê-lo?) pós-colonial

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    Comentar por cg — 10/01/2010 @ 5:40 pm

  6. Grande artigo e uma profunda critica ao tempo da burguesia colonial em Mocambique.
    Um grande abraco
    Ana Maria Ferreira

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    Comentar por ana maria ferreira — 10/01/2010 @ 7:29 pm

  7. ABM:

    Já encontrei aqui, no Ma-Shamba, textos que vão ao encontro de tudo o que a Isabela diz. Não li o livro, mas tenho-lhe lido os blogues. Esses textos foram escritos pelo JPT.
    Quanto ao facto dela “armadilhar” o blogue daquela forma, é uma tarefa inútil mas compreensível. O que a levou a fazer isso foi vê-los reproduzidos em sítios de extrema-direita. Sinceramente, a atitude dela não me choca.
    Já a imagem que ela tem no “Novo Mundo”, um transexual grávido choca-me. Mas é esse o propósito dela estar ali. Para chocar!

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    Comentar por sabine — 10/01/2010 @ 7:34 pm

  8. Quanto à Câncio, não tenho grande simpatia por ela e concordo com a sua análise daque naco de prosa.

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    Comentar por sabine — 10/01/2010 @ 7:37 pm

  9. Nao disputo a genese da mente colonial, nem sequer as injusticas que foram cometidas. Pelo contrario, tenho-as reconhecido aqui.
    O importante, acho eu, e’ que duas dores nao se anulam, acumulam-se. E pontos de vista diferentes neste caso nao competem ; complementam-se.
    E eu acho que o que falta realmente sobre o tema sao os retratos humanos e acho tambem que coisas como as escritas pela Isabela tem muito valor por causa disso mesmo. Sao retratos humanos, da gente comum que la viveu e que representou uma epoca e uma atitude comum a todos. E que nao sentem necessidade de pedir desculpa por serem quem sao, nem que pedir desculpas por acontecimentos que nao controlaram. E que foram injusticados e sofreram as consequencias de cobardias politicas.
    Podem dizer que o pai dela nao representa uma geracao, mas eu confesso que quando li o pequeno retrato que ela fez dele, me lembrei de diversas pessoas que conheci ao longo da minha vida. Reconheco o retrato! E, tanto quanto sei, nao se arroga ela de qualquer pretensao de tipologia sociologica.
    Livros ha do Mia e do Borges Coelho que tambem disso falam e, como diz a Sabine, na propria maschamba surgem ocasionalmente argumentos semelhantes.
    A escrita pode nao ser do gabarito de camoes. Nao sei que ainda nao li e estou a falar um pouco de cor, mas para mim o seu valor nao esta na forma mas sim no conteudo.
    Se se matavam pretos impunemente no tempo do colonialismo? Eu acredito que sim, da mesma forma que se matam hoje tambem e tambem impunemente. Nao podemos (nem devemos) esquecer-nos do chibalo e do chamboco. Mas querer culpar quem la viveu pelos erros de um regime e’, no minimo, absurdo e deve ser combatido. Mas tais factos nao devem tao pouco ser abafados em nome de uma proteccao que nao tem razao alguma de ser.
    Vou comprar o livro e vou ler, com toda a certeza. E vou seguir o blog pois gostei mesmo muito dele.
    Quando a Fernando Cancio nao me pronuncio; nunca li nada dela, nao sei quem e’ e nao tenho qualquer opiniao…

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    Comentar por AL — 10/01/2010 @ 9:33 pm

  10. há diversas formas de tirar o retrato, e “o verdadeiro artista” fá-lo sem filtros pessoais ou recurso a laboratórios de formatação. seja esta qual for. um click sem retoques

    as sociedade ainda são racistas. e xenófobas. infelizmente; além de ser de bom tom acrescentá-lo é mesmo lamento_que não há uma única raça ou uma única cultura sob qualquer dos nossos telhados identitários – globalização obligue.

    o colonialismo utiliza poderes económicos, militares e sociais para subjugar outro país/povo, além suas fronteiras. se se pode decorrer que a xenofobia está-lhe intrínseca, apimente-se com difªs raciais e arde-nos a língua ao recordar, invocá-lo, tratá-lo em cima da prancheta e sob lupa que se deseja com afinação de rigor. tarefa nada fácil para quem foi personagem, mesmo que involuntariamente embrulhada no grande manto dos acasos humanos.

    saio dos lugares-comuns.

    entro no livro, nas memórias pessoais de Isabela Figueiredo. aqui vou divergir do que vos li: eu li uma memória colonial subalternizada pela necessidade pessoal (quase íntima, são páginas de estremecimento…) de se reconciliar com a figura paternal, com os conflitos de personalidade, e por decorrência familiares, com um pai autoritário. o décor colonial surge quase (dele) desculpabilizador, e nesse afã é pintado em várias demãos que se sentem agressivas, um rancor colectivo que se justifica(rá) por um lamento individual: o estereotipo social que seu pai representou na sociedade colonial(também o meu, cara Isabela…) como almofada de pecados e pecadilhos (dele) pessoais.

    li, senti, ecos derivados dum olhar quarenta-anos-de-conhecimento depois a retratar memórias necessariamente difusas além daquelas individuais do seu crescer. repassadas de visões de injustiças, sim, mas vagas duma visão além das quatro paredes da sua casa _mesmo sendo na Matola_ ou dos muros da escola: a realidade colonial nos anos 70’s não era igual à dos 60’s ou dos 50’s, e afirmando-o, como faço, baseio-me no conhecimento livresco da mais antiga conjugada com a própria da mais recente, anos que vivi e vi, e hoje analiso e rotulo nem exclusivamente sob o conhecimento histórico nem sob o empírico. tento que nenhum contrafaça o outro e prejudique a chapa original

    I.F. deixou acontecê-lo. ela, eu, – quantos de nós, é natural!…, sabemos mais hoje sobre a verdadeira história colonial que sabíamos então. sobre ela e sobre tudo, que acumulamos conhecimentos. o hoje suspeitar que a ameaça de pandemia da “Gripe A” foi exagerada, não me faz arrepender de ter exercido o meu direito a ser vacinado logo que pude. igualmente, o saber-histórico acerca dos prazos, do chibalo, do uso do chamboco, não me poderá levar a afirmar que nos 70’s eram uso.

    detesto “lavagens históricas” (e outras…) mas dou-me mal com o exagero. há páginas no livro onde senti o incómodo de achar que não olhava um quadro fiel, porque distorcido por razões pessoais de ajuste, meritórias por si mas que senti injustas no global. treze anos é uma idade cândida e tornou-se desagradável “lê-los” sob o olhar implacável, duro, violento, dos cinquenta’s informados da Autora. são duas pessoas/personagens distintas e esta, assim, magoa e ofenderá a outra, como primeiro lesado as memórias e, segundo, inocente, o livro e a verdade dumas memórias.

    independentemente disto tudo apreciei, e muito, a sua mensagem de amor a um Pai.

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    Comentar por cg — 10/01/2010 @ 11:54 pm

  11. ABM, continuas a gerar comentarios excelentes 🙂

    CG, como ja nos vem habituando… 🙂

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    Comentar por AL — 11/01/2010 @ 12:13 am

  12. Realmente acho que ambas as faces, a descrita por ti Carlos, e a outra da Isabela que não li, pertencem à mesma moeda, paga com o colonialismo. (Não só português). Pelo que li aqui e no Blog dela, parece que o livro se concentra em só uma dessas faces, passando assim uma imagem que não é completa, sobre como se (sobre)viveu nas colónias.
    Os erros efectuados por Salazar e a sua pandilha, anos depois, mal sabiam eles, eram uma Utopia completa. Ou ignorância pura, sobre a política e vida real dos que lá viviam.
    Quem sabe um dia ainda leremos um livro, que de forma equilibrada mostre os dois lados dessa mesma moeda. Sem proteger ou apontar o dedo às várias posições políticas que marcaram as gerações passadas, a nossa infância e adolescência.Uma História que seja humanamente descrita. Para que não se tenha que comprar dois, três livros, para entender a História por completo.
    Onde se possa entender que se havia injustiça, racismo e ódios políticos, também haviam amizades entre várias raças e níveis sociais, que em muitos casos se mantêm vivas até hoje.
    Seja nas ex-colónias ou ex-metrópole, à “posteriori” todos são doutores de anàlise. Embebidos por histórias dos tempos de água ráz. Esquecendo-nos que do passado só poderemos tirar as lições, que melhorem o presente da (in)justiça social, que nos bate à nossa porta, e muitas vezes fingimos não ver. Sacudindo a poeira que nos vai transformando numa espécie de aposentados da Coragem Cívil e ideais de igualdade de ontem, nos acomodados de hoje.

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    Comentar por A.Lemos — 11/01/2010 @ 12:26 pm

  13. Tive conhecimento desta matéria em 27/12/2009, no Moçambique para Todos.

    Ignorei por completo.

    Face aos muitos e diversos comentários, e tomamdo como base:

    “Eu vivi sozinha durante dez anos, sem pais. Andei por vários sítios, estive num colégio, andei ao Deus dará. Ele voltou quando eu tinha 22 anos e julgava que eu tinha 12.”

    A autura saíu de Moçambique com 12 anos, refugiada dos acontecimentos de Outubro ou Setembro – as matanças.

    Com uma experiênvia e saber acumulados de realce.

    Frente a “génios” de tal envergadura, o que se pode fazer?

    O caixote de lixo da história tem muito lugar, para obras idênticas.

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    Comentar por umBhalane — 11/01/2010 @ 5:00 pm

  14. ABM continuo a dizer que nao ha posts como os teus para gerar comentarios interessantes. 🙂
    Mas acho que nos estamos a perder um pouco e a perder perspectiva. O livro nao e’, nem pretende ser, um manual de historia ou um retrato fiel do que se passou. Sao memorias e, como tal, filtradas e enviesadas pelo olhar de quem as viu. Mais ainda, e’ um livro intimista (parece-me a mim embora ainda nao o tenha lido) e, portanto, nao faz qualquer apelo a objectividade. Se nas analises posteriores que do livro se fizeram, alguem houve que extrapolou “verdades” historicas, a autora nao deve ser responsabilizada por isso e o livro nao deve igualmente por isso ser denegrido.
    Eu sinto que ha necessidade de se abordar mais vezes e com mais frequencia este tema e que nao ha um retrato unico que nao seja formado por miriades de mini-retratos das experiencias dos que la viveram. Ate porque os ditos colonos portugueses nao eram uma massa amorfa e compacta. A vida dos colonos urbanos a trabalharem em servicos, por exemplo, tera certamente sido muito diferente da do cantineiro no mato. E mesmo entre cantineiros haveria diferencas marcantes, consoante a localizacao da cantina e tendo em conta a dificuldade ou facilidade do acesso. Se eu pudesse, iria criar uma especie de arquivo ou de biblioteca onde iria recolher as memorias de “retornados” e tambem dos que la ficaram no pos independencia e dos soldados que la lutaram e o mais possivel de testemunhos da epoca. De la’ e de ca’. Nao sendo ninguem e nao mandando nada, so posso convidar as pessoas a escreverem as suas memorias e a doa-las a bibliotecas ou a torre do tombo ou assim. Ainda que por nada mais fosse este livro ja valia pelas reaccoes que tem provocado e porque finalmente me parece que se comeca a falar dessa epoca com um outro olhar e um outro discurso parece-me comecar a surgir. Mais que nao fosse pela coragem em agitar as aguas a autora esta, em minha opiniao, de parabens.

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    Comentar por AL — 11/01/2010 @ 5:28 pm

  15. Magnífico post, muitos Parabéns.

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    Comentar por Cristina — 11/01/2010 @ 6:33 pm

  16. AL: se o post do ABM aqui “gera comentários interessantes”, tenho a dizer que, por fora, fervilha quase tanto: a minha cx de correio parece um pisca-pisca por causa desta cena, e eu uma barata tonta a dar-lhe avio. ou tentar
    pelo que acabei de saber, o post – e comentários – já estão linkados lá pelo Facebook, algures
    quanto à F. Câncio tá armada em nariz empinado, censurar os comentários quer no Jugular quer no artigo no DN…

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    Comentar por cg — 11/01/2010 @ 6:42 pm

  17. CG mas nao fica contente com isso? Nao acha que ha necessidade de se comecarem a abordar estes assuntos de muitas perspectivas? Eu fico contente por ver isto a acontecer e confesso que so’ espero que a autora do livro nao sofra represalias por polemicas que nao desejou. Eu continuo a dizer que o blog dela e’ muito bom e que gostei muito de tudo o que li ate agora. Talvez porque seja mais desapaixonada destas questoes… quem sabe? Quanto si, responda a essa gente! A sua experiencia e’ tao ou mais valida que os comentarios de nos que sempre estivemos longe e tendemos a embrulhar o sofrimento dos outros em teorias mais ou menos ideologicas. E’ o aspecto humano que eu acho importante e importante que se perceba. E mais uma vez e’ por isso que eu acho este livro importante! 🙂

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    Comentar por AL — 11/01/2010 @ 6:51 pm

  18. claro que sim, AL! claro que sim!

    vou “contar-lhe” uma pequena história, que faz linha com a sua interrogação de se não será tempo de se começarem a abordar o tema e o trauma de cara e peito abertos. embora ‘pica-se’ o ponto aqui e ali, eu “nasci para a net” em 2004, fins de 2003. onde? nos Grupos MSN, já finados, nas “comunidades” de ex-residentes em Moçambique. um mundo. adianto que um dos Grupos – e havia dezenas… – tinha mais de mil participantes inscritos, fora os “olheiros” que só liam sem intervir. um mundo de paixões, de sentimentos de carência, de conflitos íntimos e olhares doridos. o jpt terá uma ideia, que ainda lá andou pontualmente a cuscar.
    embora a troca de mensagens fosse generalista as que atingiam recordes quer de participação quer de empenhamento emocional, zangas até, etc, batiam pelo mesmo diapasão: a descolonização. trinta anos depois ainda era/é difícil abordá-la não emocionalmente. difícil? não: impossível. fora vivida pessoalmente, não se tratava duma notícia de jornal ou um livro na berra. o relacionamento tornava-se por vezes difícil a quem não alinhasse pelo coro, coro esse que não conseguia separar o injusto do justo, a verdade da ficção, e analisar historicamente: havia pessoas, e não poucas, que sublimaram o trauma décadas mas naquele momento interviam emocionalmente e era como uma cascata onde o íntimo emergia além de mera espuma à superfície.
    acho que uma análise sociológica daquele micro-cosmos deveria ter sido feita. sei que o Antº Sopa era participante inscrito embora nunca lá tenha visto uma mensagem sua.
    foi positivo. pessoalmente, eu cresci. aprendi muito. emocionei-me muita vez e também irritei-me algumas. foi positivo para todos. àquele Grupo maior eu chamava-lhe “o Rossio”, pela multidão que encontrei e fez-me lembrar o Rossio que conheci em 76 quando cheguei a Lisboa. foi positivo para todos que, lá, na troca de opiniões, de memórias, nos sorriso aos bons momentos e nas lágrimas aos outros, fizemos uma catarse colectiva. as individuais vão-se fazendo, mas aquela geral e pública foi importante.

    fim de ramal. espero ter contribuído. os Grupos MSN acabaram e cada foi à sua vida. outros espaços, blogs, Myspace, Sonico, Facebook, ou o regresso à condição de olheiro. mas, lá e por lá, todos saímos neriquecidos quer do conhecimento comum da História quer do específico dos “retornados”.

    recupero uma expressão, que salvo erro é minha: somos a última geração de laurentinos. morrendo nós acabou. a net deu-nos o quadro e o caderno onde (nos) escrevermos. a Isabela Figueiredo não tem de temer nada. tem é de continuar a escrever, seja no blogue seja contribuindo para a desflorestação. igualmente não deve temer a crítica

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    Comentar por cg — 11/01/2010 @ 7:38 pm

  19. […] isto “foi chão que deu milho” …). Vem isto a propósito do ditirambo do ABM “The best of maschamba” e respectivos comentários. Onde há muita coisa com que discordo. E que me apetece aqui realçar […]

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    Pingback por The Best of ma-schamba? | ma-schamba — 12/01/2010 @ 4:02 am

  20. RMP bem-vindo – é sempre uma honra sabê-lo por cá (e isto sem desprimor por nenhum dos blogo-companheiros destas catacumbas). Penso que o tom do livro (que adivinho das citações, e do que me lembro do blog) dá jeito a Fernanda Câncio para o tradicional rosário de críticas à “direita”. Daí essa apetència pelo livro.

    ABM o RMP e a sua Companhia de Moçambique foram ligados e muito referidos, de bas en haut, pelo ma-schamba. Depois entrou em pousio e o elo foi caindo. Entretanto reanimou, em regime lento mas ainda assim menos lento do que a reabilitação constante do rol d’elos aqui do estaminé. Há que o repor, claro.

    AL não concordo com isso dos jornais portugueses só serem parvoíces. São na generalidade muito fracos. Mas gosto do “i”. E o jornal “sporting” é excelente. Quanto ao assunto do texto, tu fazes uma citação que mete o dedo na ferida, e me faz lembrar por que é que deixei de ler o blog em causa. A autora tem uma retórica que, para além do estilo que me vai desagradando, assenta em generalizações – o pai é “Portugal”, “os portugueses são” (ou “eram”). Pode ter piada o desassombro, pode ter interesse a voz ao invés do tradicional “tão bons que nós éramos”, mas na prática assenta na mesma estreiteza de interesse(s).

    Depois há outra coisa que dizes que me inquieta: “Mas querer culpar quem la viveu pelos erros de um regime e’, no minimo, absurdo e deve ser combatido.”. Mas entáo o que é um regime? Há um regime, segue-se o grand canyon e depois os indivíduos que lá vivem? Há que explorar o assunto

    Sabine, tem razão, alguma, no que nota. Daí que o seu primeiro comentário me provocou um texto sobre o assunto (ligado no comentário 19). Já quanto à historieta dos Direitos de Autor afixados na porta do blog acho (tal como as janelas negando a cópia, invectivando o plágio) uma parvoíce.

    CG discordo muito das críticas que fazes à Cancio, e disse-o em texto. Mas muito concordo (a priori) na crítica que fazes ao livro, na insistência que fazes na multiplicidade de contextos coloniais, até na sua distinção epocal. Lembro que quando referi criticamente o blog da autora lhe chamei de “escrita abrasiva”, que me é desagradável, e ela aqui surgiu criticando a crítica. Mas era exactamente esse tom generalizador maximalista que me irritava no blog. Vamos lá a ver, irei ler o livro para poder confirmar ou não a desconfiança (ou a lembrança) da pobreza do seu olhar. Mas insisto (referi-mo ao meu texto, ligado no 19), ela nao tem obrigação de dar um registo fiel do colonialismo … E concordo com o que dizes, a IF nao tem que temer a crítica (aliás imagino que dela gostará)

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    Comentar por jpt — 12/01/2010 @ 11:06 am

  21. Quer uma quer outra não merecem qualquer atenção.
    A escritora-maravilha dorme com duas cadelas das verdadeiras na cama.
    A jornalista maravilha também gostava.
    Aos doze anos conseguir ver aquilo tudo nem a Maya.
    Eu nessa altura tinha 30 anos e vi outras coisas.
    O seu post é exemplar e vou copiá-lo.

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    Comentar por fado alexandrino — 12/01/2010 @ 11:35 am

  22. ah, só depois do meu comentário a um outro post aqui li este. e fiquei elucidada:

    – que o senhor critica livros que não leu

    – que o senhor critica blogs que nunca seguiu

    – que o senhor critica fernanda câncio só porque sim que tem a ver o facto de ela nao ter vindo das colónias para a apreciação de um livro recentemente editado? quem não é africano não pode dar a sua opinião sobre livros de autores que lá viveram? algo me escapa)

    – que (e, desculpe, vou confessar-lhe que me desatei a rir) a isabela ter 12 anos à data da vinda de moçambique não lhe dá direito a ter memórias que necessite exteriorizar e partilhar, mas os seus altíssimos 15 anos à data da mesmíssima vinda confere-lhe tal legitimidade e função.

    – que, para si (corrija-me se estiver enganada) todas as memórias que branqueiem os preconceitos racistas existentes, seja na sociedade moçambicana, seja na portuguesa em geral, são óptimas e de louvar. mas se alguém há, desgraçado, que se lembra de ouvir o seu Pai – e quantos outros – chamar nomes aos ‘pretos’ e destratá-los, convém que enterre tais memórias e delas não dê conta. (é exactamente isto que irrita isabela figueiredo, como bem se percebe a partir da entrevista que deu a alexandra lucas coelho no Ipsilon).

    – que a sua argumentação baseia-se numa falácia total – não se devem chamar memórias a memórias. todas as memórias devem apenas pretender ser tratados históricos, objectivos e rigorosos (tal como as suas memórias, imagino, para si serão). ora, caro senhor, a isabela nunca afirmou nem desejou elaborar um ensaio de carácter histórico. muito simplesmente, fez aquilo que se calhar muitos dos ‘retornados’ não fizeram: olhar para trás, vivenciar emocional e intelectualmente o seu passado, reflectir sobre ele, tentar exorcizá-lo, para poder, de corpo inteiro, entender-se melhor a si mesma.

    quanto à acusação de que ela aproveita o facto de o Pai estar morto para o criticar sem direito a resposta (como já encontrei noutras caixas de comentários), é tão ofensivo, per si, que nem merece resposta. e revela um total desconhecimento da isabela.

    lá está: nada como, como eu, seguir os blogs dela desde 2006, e ter lido agora este seu livro, para o saber sem contestação.

    tal como o senhor, se o/s ler, entenderá que a isabela partilha desta sua opinião:

    «Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.»

    é a minha sugestão final – leia, e depois critique 🙂

    abraço.

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    Comentar por sem-se-ver — 12/01/2010 @ 10:15 pm

  23. Um dos pontos importantes aqui levantados é do Carlos Gil. São “memórias” (tendencialmente literárias?) de uma jovem mas construídas pela mulher de quarenta ou cinquenta anos. Isso não ilegitima mas impede, até pela dimensão aparentemente de “manifesto” sociopolítico ou ajuste de contas psicanalítico, que deste livro se tirem as conclusões sobre o cariz sociológico do que é lembrado. Pode ilustrar mas nunca iluminar – era isso que sentia quando ia ao Mundo Perfeito, um tom desabrido que me desagradava pois redundando no panfletarismo. Mas vamos a ver …

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    Comentar por jpt — 12/01/2010 @ 11:15 pm

  24. Nunca li o tal livro nem segui o blog. No entanto cansa ver tanta gente bater nos “retornados” e ficarem ofendidos quando nos defendemos. Afinal, nem todos eram como o pai da Isabela. O meu pai, por exemplo, era enfermeiro e quero ver alguem dizer que ele andava atrás dos pretos para dar umas injecções e sacar alguns escudos. Não, nem todos eram iguais e penso que é precisamente isso que o ABM quer dizer. Racismo existe em todo o mundo, não é exclusivo dos retornados, ou será que foram estes que importaram o racismo que agora existe por cá?
    Quanto ao que a Isabela fez, de olhar para trás, Deus meu, é o que muitos têm feito todos estes anos, mas para muitos, de uma maneira positiva e não por ter um pai que chamou nomes ao preto…
    Um abraço,

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    Comentar por Jorge Ribeiro — 13/01/2010 @ 12:49 am

  25. «ah, só depois do meu comentário a um outro post aqui li este. e fiquei elucidada.»

    elucidada: srª invisível, portanto 🙂

    (registo que não me respondeu, na realidade, a nada)

    (salvo considerar que ‘ajustes de contas não constituem as melhores bases para “memórias”, pois, obviamente, tingem-nas e poluem-nas’, o que, deixe que me diga, me confunde totalmente. não consigo mesmo entender por que é que ajustes de contas não sejam as melhores bases para memórias. primo levi, suspeito, não concordaria nada consigo…)

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    Comentar por sem-se-ver — 13/01/2010 @ 1:20 am

  26. Exma Sra Sem se Ver

    Olá outra vez.

    Aprecio os seus esforços para me questionar a sanidade e a lógica, senão a inteligência. E talvez fazer-me passar um pouco de parvo, o que lhe sugiro que não sou, mesmo quando gostar de pensar que sou.

    Ora vamos lá, na ordem que me foi servida.

    Se ler outra vez e mais atentamente o texto que escrevi, faço referência a um texto da Sra Fernanda Câncio no DN – que faz a propaganda do livro da Isabela. Também havia lido uma entrevista da Isabela no Público uns dias antes, com mais uns 117 comentários desportivos sobre o tema. Portanto a minha “crítica” ao livro não é a minha crítica ao livro, quando muito é a critíca à crítica que a Fernanda Câncio fez ao livro.

    Similarmente, se ler novamente o que eu escrevi, a “crítica” ao blogue cinge-se unicamente à imagem à entrada, a tal do corpo de mulher de cuecas com cabeça de cão numa estufa e com a particularidade de se chamar “Mundo Perfeito”. Ora a meu ver, com aquela imagem e aquele título, e no contexto em que abordo o tema – que é a perfeita casualidade com que se “pintam” inteiras realidades como se de facto se tratassem – permito-me a liberdade de extrapolar para o que esta senhora pode postular. Neste caso, sobre a Lourenço Marques entre (digamos) 1964 e 1974.

    Portanto é sua a interpretação da crítica ao blogue da Isabela. Quando muito, critico contextuadamente a janela de entrada.

    Pode não achar piada, mas não baralhe as coisas.

    Quanto à Fernanda Câncio, que de outro modo escreve bem e parece ser excelente pessoa (que se adivinho já deve estar completamente careca de aturar as bocas do Sócrates) sugiro que leia o que ela escreveu e a que eu especificamente referi no que escrevi. Ela editorializa e profere julgamentos de valor sobre assuntos sobre os quais eu não lhe reconheço qualquer competência, que mais não seja que com base no que ela ali afirma. Ora se ela não é de lá, onde é que ela foi buscar a barbaridade de brancos atropelarem negros na rua impunemente?

    E repare que estas afirmações dela não são proferidas inocentemente, são feitas num contexto em que – como está escarrapachado no início do seu texto “promotor” da leitura do livrinho da Isabela – a Fernanda mais uma vez profere julgamentos de valor sobre os brancos e os portugueses que lá viviam. Nomeadamente, que eram racistas inveterados. E que agora o escondem, dos outros e de si próprios. Assim, pergunto-lhe eu a si: quem é a Fernanda Câncio para fazer este tipo de afirmações?

    A Fernanda Câncio pode e deve escrever sobre o que bem lhe apetecer. Até livros sobre os rituais da cópula entre os pinguins na Antártida. Mas se o fizer, se não despir os seus preconceitos e não fizer o trabalho de casa, pode correr o risco de dizer algo que não bate com os factos ou as opiniões de outros. Quem publica deve estar preparado para estes escrutínios.
    E ela publicou aquela peça.

    E eu posso escrutinar.

    Quanto à idade, pode-se rir à vontade mas sugiro que não se ria. Há uma diferença abissal entre ter-se 11 e 15 anos em 1974. Especialmente os meus 15. Especialmente se aos 11 se vive traumatizada pelo pai e fechada em casa nos arredores de Lourenço Marques como aparentemente a Isabela diz que foi a sua vida. E como bem devia saber, e mais uma vez, a minha crítica não é dirigida a nada disso. É, mais uma vez e pecando por me repetir, porque a menina de 12 anos faz julgamentos de valor sobre toda uma sociedade sobre a qual – um pouco como a amiga Cância – não lhe reconheço idoneidade nem capacidade para o fazer naquela altura. O que eu acho que aconteceu foi que mais tarde reflectiu sobre o que viu e “achou” o que achou. Ela própria, pelo que disse, o admite. Sobre o pai, aí não me pronuncio.

    Claro que a visão alternativa disto tudo seria que a peça de Fernanda Câncio não vale um chavo furado. Acho que dá para perceber. Que a Isabela escreveu um magistral tratado sobre o assunto e que eu – como não li, coitado – estou equivocado. Mas quem leu e me escreveu diz que é um testemunho (ênfase em um) pessoal, parcial e falacioso.

    No que concerne à sua referência ao branqueamento do racismo que existia e existe na sociedade portuguesa e em Moçambique, é assunto demasiado complexo para lhe dar resposta em duas linhas e isto é um fórum de comentários, não de tratados. Mas se é sua sugestão é que o meu texto se insere numa tal tentativa, desengane-se leia-o novamente. Vivi e vivo muitíssimo mais do que a média das pessoas esta questão para lhe oferecer resposta que me satisfaça. E o ponto da questão aqui não sou eu, é aquele período entre 1964-1975 que constitui a base do que a Isabela (ou a Fernanda) escolheu focar. E o racismo, geralmente, não tinha só os contornos simplistas que são evocados. Era muitíssimo mais complicado do que isso, próprio duma sociedade colonial em enorme evolução, cujo epicentro, em Moçambique, era Lourenço Marques, em que, ao contrário da “metrópole”, viviam brancos e negros ao lado uns dos outros. Daí a premência dessa coisa do “racismo”.

    No que concerne o título de memórias, não me faça (para variar, a mim) rir. A Isabela pode bem chamar o que quiser ao que escrever. Eu chamei The Best of Maschamba ao texto que escrevi (só quem não perceber a piada é que não sabe) e a seguir vem o meu correligionário JPT, questionar o título e o conteúdo. Ele deve ter pensado “este gajo tem cá uma lata!”. Faz parte. Mas bastará dizer que – exceptuando a parte relativa ao pai, que para mim é um tabú só dela, partilhado com quem ler o seu livro- se calhar o texto dela não resistirá incólume ao teste do tempo e a uma confrontação com as restantes eventuais, tituladas, “memórias” dos que lá estiveram. Já referi duas vezes (sendo esta a terceira) que me apercebo da dimensão psico-terapéutica deste exercício da Isabela. Só duvido que desse epipasmo tenha resultado obra de referência do psicossomático cultural colonial. Do da casa dela, talvez.

    Mas pode ser que os críticos e amigos tenham apenas vendido gato por lebre.

    Concordo consigo, e penitencio-me também, pela abordagem feita em relaçao ao pai da Isabela. É totalmente desolador e desmerecido para ambos. Infelizmente, há a percepção generalizada (é a minha, e como diz sem eu ler o livro nem ver o blogue…) de que essa relação foi crucial na génese desta obra. E nesta balofaria que de vez a internet se pode tornar de vez em quando, algumas pessoas são inclementes.

    Concordo consigo que se calhar adoraria conhecer a Isabela. Devo conhecer dez pessoas que a conhecem bem. Provavelmente, o que pode estar a acontecer é que o esforço de publicitar a sua obra foi inadequadamente gerido. Mas se calhar por causa da propaganda vai vender mais umas cópias. E isso no fundo é que interessa.

    Mande sempre.

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    Comentar por ABM — 13/01/2010 @ 2:11 am

  27. ABM por causa deste teu comentário fui ler outra vez o “perfil” que a Fernanda Càncio escreveu da Isabela Figueiredo, e cujo conteúdo conclusivo tanto te irritou. Ora essa leitura reafirmou a minha impressão da primeira visita: é óbvio que a “edição”, a recolecção de frases e ideias, e sua montagem, implica uma autoria. E como tal o “perfil” é um texto de Fernanda Cancio. Mas o que nele está explícito são as ideias da IF, todas as conclusões ou caracterizações sobre o sistema colonial em Moçambique que surgem estão assentes em citações e derivações do texto da IF. Diria que é muito pouco relevante estar a discutir a FC, seu papel ou conhecimento, pois está a ecoar (divulgar, publicitar) o trabalho publicado. Não se trata de valer ou não um tostão furado, trata-se de não ser realmente autónomo nas considerações feitas sobre o fenómeno (claro que a mera opção sobre o livro e autora já denota uma consideração, mas isso é outro registo).

    Secundariamente, eu não acho que tens uma lata porque gozaste com a hipótese de um “best of”. Apenas, em abono da verdade, tive que referir que até-eu, para mal dos meus pecados, cedi às ânsias da e-vaidade (c. gil dixit) e intentei um livreco do género.

    Finalmente – porventura o texto nao resistirá ao tempo. E será cotejado com outros que abordem os mesmos contextos. Isso sim será interessante. Para mim tem aí um outro interesse, o de entender por que é que este livro tem tanto apelo público: a editora, pequena mas com contactos literários; o facto de vir de um blog de prestígio; e o facto de incidir sobre a temática “racismo” colonial; o facto de ter pretensões literárias. É um pacote de itens que produz um determinado tipo de eco, de atenções, que outros livros não teráo tido – estou-me a lembrar de umas interessantissimas memorias (muitissimo bem escritas mas sem pretensões literárias), as do Adelino Serras Pires, um documento fantastico sobre o mundo colono. Mas não fazem parte do “campo literário” e também não vèm do “lado negro do colonialismo” o que implica outro tipo de eco. Mas aí já estamos a falar do fenómeno da recepção das obras, não tanto delas mesmo.

    D. Invisível – “ajuste de contas” pode significar muita coisa e ficaremos a falar de palavras. Mas nao sao mesmo um bom ponto de partida literário. Se Primo Levi (que é um gigante) o fez literariamente muitos outros sossobraram no intento (Wiesel, por exemplo, que é um grande narrador ficou-se pelo Nobel da Paz). Mas, se bem me lembro ou por outra, se bem compreendi, Levi não fez um “ajuste de contas”, fez bem mais do que isso. Ou, talvez o tenha feito, um “ajuste de contas” com o ser humano. Nesse sentido da expressão sim, há muito boa literatura de “ajuste de contas”.

    Mas não me parece que tenha sido nesse sentido que se estava a utilizar a expressão.

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    Comentar por jpt — 13/01/2010 @ 7:26 am

  28. abm,
    qt a f cancio, jpt respondeu por mim.

    qt a isabela nao ter idoneidade nem competência para fazer juizos de valor sobre a terra onde nasceu e que era sua, sustentada nas sus memórias… espero que não fosse bem isto que queria dizer… a mesma crítica lhe podia dirigir a si – já pensou nisso? – e aos seus 15 anos quando saiu de lá. (confesse, doeu-lhe um bocadinho eu pressupôr que o senhor não tem idoneidade nem competência para fazer juízos de valor sobre moçambique, nao foi? pois. percebe o meu ponto? espero que sim)

    continuamos a divergir, e seriamente, sobre uma questão de fundo: abm pensa, segundo me parece, que os livros de memórias são ou género menor ou específico – memórias que tratem para além da vida estritamente pessoal e abarquem posições sobre assuntos de carácter geral, políticos, sociais, etc, ao não consituirem documentos nem rigor histórico exigível a uma publicação historiográfica, não têm qualquer legitimidade. sinceramente, pasmo perante isto. um livro de memórias é isso mesmo: memórias, portanto, pessoais. eu, que não sou africana, creio que muitos se reverão nas memórias da isabela sobre a sociedade moçambicana, muitos outros não. à partida, e daquilo que leu (muito pouco, uma peça e uma entrevista), abm não se revê. encantados da vida, certo? não era suposto que aquele retrato tivesse que ser o seu – porque é o da isabela. e de outros cujas vivências lhe possam ser próximas. :- )

    – pode conhecê-la facilmente: apresentação do livro por eduardo pitta na livraria pó dos livros, 5ªf, dia 21, 18h30. está publicitado na angelus novus, a editora, e no blog da isabela, http://novomundoperfeito.blogspot.com/

    (isto supondo que vive perto)

    porque, ao contrário do que diz – e como jpt já salientou antes de mais – este livro tem-se firmado pelo seu próprio valor e, sem dúvida, pela competência, profissionalismo e entusiasmo da editora(zinha, em dimensão) sediada em coimbra. quem dera a todos os autores contarem com o mesmo carinho.

    eu, por mim, continuo a louvar a isabela, não só pelo seu exercício de descoberta de si, mergulhando em memórias por vezes tão doridas e dolorosas, mas pela coragem de as expôr assim, em livro, disponível a todos os ataques, injúrias e ofensas. não foi o seu caso, mas caro abm, continuo a sugerir-lhe que leia o livro – sem o que toda esta conversa continuará ‘coxa’.

    abraço.

    jpt,
    «Mas, se bem me lembro ou por outra, se bem compreendi, Levi não fez um “ajuste de contas”, fez bem mais do que isso. Ou, talvez o tenha feito, um “ajuste de contas” com o ser humano. Nesse sentido da expressão sim, há muito boa literatura de “ajuste de contas”.

    Mas não me parece que tenha sido nesse sentido que se estava a utilizar a expressão.»

    era nesse mesmo sentido que a utilizei. :- )

    abraço.

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    Comentar por sem-se-ver — 13/01/2010 @ 2:20 pm

  29. Sra SSV

    Grato pela atenção.

    Acho que nem o JPT nem a SSV entenderam o que escrevi. Que a jornalista tenha “emprenhado pelos ouvidos” não significa que se transfira duma assentada o emprenhamento para a autora. Fiquemos pelo amigável desacordo. Não é a primeira vez. Não será a última.

    Não atribuo idoneidade à sua amiga por “este” específico tipo de juízo de valor a que me referi. Ou melhor, o que ela possa referir sobre LM anos 60 e 70. Conheço pessoas que o podem fazer mil vezes melhor que ela – e que eu.

    Mas também acho que já estabelecemos vagamente que há aqui uma história pessoal para além do pano de fundo. E sobre isso não sei ponderar. Só lendo. Sem o qual esta conversa permanecerá coxa.

    Pode pensar o que quiser de mim, asseguro-lhe que é para o lado que durmo melhor. Não me conhece nem eu a si. E há sempre os que gostam. E os que não gostam. E os que não querem saber. É a vida.

    A editora Angelus tem um negócio e tem que ter lucro. Espero que o tenha. Nem sei quantos livros saíram nesta edição. Ainda por cima sou parcial a Coimbra, que me acolheu durante três memoráveis anos após a debandada de Moçambique. E neste tema há tanto por explorar, muito mais do que as edições profusamente ilustradas de postais (que colecciono) e fotografias (que vejo) dessa grande cidade que foi Lourenço Marques e que se metamorfoseou para a Maputo de hoje. E do resto de Moçambique.

    O JPT referiu o Sr Adelino Serras Pires, que já escreveu algo sobre a sua vida. Incrível.

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    Comentar por ABM — 13/01/2010 @ 4:30 pm

  30. ABM, eu entendi o que escreveste. E discordei. (que é o que tem graça nisto). Ou seja, muito discordo contigo e muito concordo contigo – neste específico assunto e nos seus envolventes. Para mim, pelo menos para mim, é um diálogo muito … rejuvenescedor.

    Outra coisa que acho é que tenho imensa inveja, venho eu todo pimpão com umas fotos provocatórias ali de Inhambane e só ligam aos teus assuntos. Rais parta a tua verve, que me obscurece.

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    Comentar por jpt — 13/01/2010 @ 5:40 pm

  31. Hear hear 🙂

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    Comentar por Ana Leao — 13/01/2010 @ 5:52 pm

  32. 🙂

    «Pode pensar o que quiser de mim, asseguro-lhe que é para o lado que durmo melhor. Não me conhece nem eu a si. E há sempre os que gostam. E os que não gostam. E os que não querem saber. É a vida.»

    sorri – a isabela subscreveria totalmente estas palavras. e eu também.

    (não sou amiga da isabela, mas sinto-me amiga dela desde que a leio – 2006. :- )

    mas creia-me, sem qualquer ironia, que eu não penso seja o que for de si – pois se nem o conheço!!! (é a primeira vez que visito o vosso blog, embora dele já tivesse conhecimento). discordei de si, foi só.

    (3 anos em coimbra? ainda nos cruzámos! (sou de lá)

    abraço.

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    Comentar por sem-se-ver — 13/01/2010 @ 6:12 pm

  33. Tendo lido o livro de Isabela, como leio tudo o que se refira a retornados, (a mim), achei interessante, embora nada de novo que eu já não tenha lido e ouvido sobre retornados e coloniastas e racistas e fascistas, etc. e quantos nomes mais!

    Alem de um vocabulário que já não ouvia desde o tempo da tropa, a Isabela fez-me lembrar a minha juventude em Angola ao falar do progenitor e seus amigos e a sua atração pelo sexo das pretas.

    Claro que fiquei com inveja de tanta fogosidade. Já um tio da Isabela, nas Caldas da Rainha, era danado para as garotas que trabalhavam na olaria.

    Mas graças a retornados como Isabela, ficam os retornados e todos os portugueses a saber que havia dois tipos de colonialistas: OS BONS (ela) e os MAUS (o pai).

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    Comentar por Retornado de Angola — 13/01/2010 @ 8:29 pm

  34. Há uma certeza absoluta que tenho – para a história ficarão apenas, Portugueses/Portugal.

    Retornadilândia, procurei em tudo o que era sítio, e nada encontrei.

    A ditadura tinha a cabeça, e muitos, muitos, muitos tentáculos em Portugal, e também alguns tentáculos nos territórios sob administração Portuguesa.

    E se fizermos uma análise, virmos claramente visto, a evolução da população de colonos e futuros promitentes colonos (ao tempo), chegar-se-á à singela conclusão que não foi por crescimento orgânico, por pura reprodução, maugrado a boa qualidade das malaguetas do reino – piripiri.

    Origem? Metrópole/Portugal/Lusitânia!!!!

    E fechando para não feder mais, Portugueses que levaram o melhor e o pior, o que tinham, ou deixaram ter…Seus defeitos, mas também suas virtudes.

    E de tudo houve – degredados, soldados, comerciantes, aventureiros, sertanejos, cantineiros, prostitutas e até “gays”, Senhoras, professores, escritores e outros intelectuais, desportistas e muitos operários/lavradores (machambeiros)…

    Gentes que construíram Pátrias onde se fala Português, edificadas por quem lá esteve, e que hoje são ufanamente aproveitadas em nome de lusofonias, palopes, cplp’s, e outras terminologias… por profissionais do “ramo”, em “work shops” e quejandos, à mistura com más consciências, cinismo, negócios pessoais, toda a sorte de oportunismos…

    Já fede, mesmo. E paro.

    PORTUGUESES/PORTUGAL, dirá a História.

    Disse.

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    Comentar por umBhalane — 13/01/2010 @ 9:35 pm

  35. Sra SSV

    “Ah…mas…afinal … tu és… aquela com os olhos.. da Turma B do Liceu Infanta D Maria que…e amiga da….e da… que morava na Solum e que namorou com o…e fez….e que andava…e que o pai…”

    Mundo pequeno este. Aposto também que temos dez amigos em comum.

    Da minha repartida adolescência, tenho as mais excelentes memórias dos dois anos sete meses e um dia que vivi em Coimbra.

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    Comentar por ABM — 13/01/2010 @ 9:36 pm

  36. Sr 1B

    Obrigado.

    Às vezes não nos recordamos disso. Em Portugal. E especialmente nesta atmosfera muito pouco oxigenada a que o JPT chama “a blogosfera”.

    Que vai ser o tema da minha próxima croniqueta.

    Sr Retornado de Angola

    Benvindo e mande sempre.

    Sr Jorge Ribeiro

    Teu pai era um santo e uma instituição da cidade, deu mais injecções do que o sol nasceu.

    Sr Fado Alexandrino

    “fado alexandrino”? o nome surpreende. O que significa?

    Sr CG

    Depois disto procura-se asilo político em Almeirim.

    D Cristina

    Haja alguém!

    Sr A Lemos

    Compreendo o seu raciocínio.

    Sra D Sabine

    Mande sempre.

    Sra D Ana Maria Ferreira

    Grato.

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    Comentar por ABM — 13/01/2010 @ 10:13 pm

  37. eheh.

    pela idade sua, que julgo ser a minha (50, acerto?), nessa altura andava no josé falcão, a ‘fazer’ os 6º e 7º.

    :- )

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    Comentar por sem-se-ver — 13/01/2010 @ 10:51 pm

  38. ABM

    Sempre chamei a isto “bloguismo” – acção (de perorar); Sempre recusei a isto isso da “blogosfera” – local (tendencialmente bafiento).

    1B (+CG, lá em cima)

    Obrigado pelos veros posts que nos dão aqui nas nossas catacumbas

    Mme Invisivel (+ABM) – na volta vs são mas é todos amigos. E depois não me deixam entrar nas festas …

    RdA: grande naco de acção corrosiva. Vénia …

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    Comentar por jpt — 13/01/2010 @ 11:26 pm

  39. Se bem que os agradecimentos finais dos autores do Maschamba anunciam o fecho da discussão, ainda venho humilde e tardiamente opinar sobre o debate.
    A propósito do filme “África Minha”, já antes os ânimos se tinham levantado no Maschamba em torno desta problemática. É bom sinal, confere-nos a diversidade de olhares sobre a questão do(s) colonialismo(s) em África e, em particular, do colonialismo português.
    Até à data abstive-me de comentar sobre a legitimidade/autenticidade ou relevância histórica das supracitadas memórias de uma menina de 12 anos, porque considerei que não possuía elementos suficientes para o fazer. Como não li o livro, apesar de me ter dado ao trabalho de encontrar o suplemento Gente do DN com a recensão de FC, e como só passei os olhos pelo blog da IF fugazmente, ainda pensei em deixar como comentário algo do género:
    “Tive um marido que nasceu em Moçambique e que fugia ao estereótipo do colono. O seu pai falava várias línguas locais e eu entretinha-me a perguntar-lhe como se dizia isto ou aquilo. Creio que foi aí que floresceu o fascínio que sinto por Moçambique. Sem nunca ter pisado solo Moçambicano também eu vivi, ainda que indirectamente, um ideal colonial repleto dos cheiros de África, das belas praias de Tofo e Xai-Xai e de uma vida onde imperava a diversidade e a tolerância.”
    Pois!!!! Esta é a memória que fiquei de tudo o que me foi relatado há 20 anos atrás. Tal como 1B refere, “de tudo houve”… O que me parece relevante é salientar que o colonialismo português existiu. Esse é o facto histórico, Sr. ABM.
    E bom seria que as memórias individuais (que podemos considerar como construções identitárias) e as histórias de vida pudessem contribuir para a reconstituição/identificação/entendimento desse facto histórico. Sejam elas de meninas com 12 anos ou de meninos com 15 anos.
    Por outro lado, se alguns portugueses se constituíram enquanto ‘pessoa’ sob a ordem colonial nos territórios colonizados (como bons ou maus colonos), outros, os da metrópole, também viveram e fomentaram o ideal colonial. Ora juntando esta amálgama de experiências talvez se ilustre e, quiça, ilumine o fenómeno.
    Agradeço a atenção e perdoem-me os autores por comentar quando o debate parece ter acabado. 🙂

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    Comentar por VA — 14/01/2010 @ 2:08 am

  40. Para completar a análise não nos esqueçamos das memórias dos colonizados, como demonstra a recente entrada de JPT.
    Para uma compreensão completa do fenómeno, pois então! 🙂

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    Comentar por VA — 14/01/2010 @ 2:26 am

  41. Sra D SSV

    Tenho 49.9 anos e celebro o 0.1 adicional no dia 30 de Janeiro. Que vou celebrar com um frango grelhado e uma Coca Cola Zero no mato de Alcoentre (cujo presidente da Junta de Freguesia é de Moçambique, acredita?). Isto se entretanto deixar de continuar a cair esta maldita chuva.

    Pois realmente havia ali na nossa discussão um “quelque chose je ne sais pas quoi” daquelas meninas sofisticadas de classe alta de que tanto me falaram do José Falcão quando andava no Infanta D Maria. 🙂 O meu amigo de infância (agora Senhor Dr cirurgião musicólogo empresário da noite e editor) Diogo Cabrita e a irmã, que andaram lá, contaram-me alguns desses detalhes sórdidos.

    Mas no Infanta D Maria tínhamos a famosa Rita Xavier que vivia no Palácio de Sub-Ripas e bebia chá com o dedo mindinho virado para o ar, e a incomparável Madalena Raposo, que eram uma espécie de Moranguinhas com Açúcar versão chique Coimbra anos 70, que olhavam com curiosa desconfiança para nós, aves raras e meio rebeldes, importadas de África.

    Sra D VA

    Enquanto a memória (muito residual) do meu velho PC conseguir ir descarregando esta página, que do meu lado já parece um lençol virtual e leva 3 minutos a carregar, vamos andando. Aqui o freguês é Rei – no seu caso, Rainha.

    Se houvesse fecho com chave de ouro, se me posso atrever dizer sem levar uma pantufada dos nossos sociólogos e antropólogos residentes, é o seu breve mas certeiro texto aqui mesmo acima.

    Ou melhor, o que diz.

    Eu sinto que esta – a minha geração – tem um desafio. É a última que viu e sentiu na pele e em vida, de bom e de mau, o que daqui a poucas décadas será um registo histórico provavelmente incompreensível, como será hoje entender o que era ser, ou ter, escravos há 120 anos no Brasil. Ou entender o que foi a peste de 1348 em Portugal e na Europa. Ou como era ser-se judeu na Europa no século XVII, ou escravo na Roma de César. Ou ser-se mulher no século XIX.

    É um registo que considero importante. E que ainda permanece por ser feito. Todos os dias leio fragmentos do puzzle que simplesmente não encaixam. Também eu vi lá do pior e do melhor que um ser humano pode ver.

    No mínimo, fará parte da História de Moçambique e da de Portugal.

    Li nestes dias muito sobre isso, e deu-me que pensar. Para mim, isso valeu.

    E a conversa não acabou, provavelmente.

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    Comentar por ABM — 14/01/2010 @ 4:05 am

  42. gargalhada!!

    bem, se quer que lhe diga, esse retrato das josé falconianas é mais devido às queques do dona maria!! contudo dou de barato: menina sofisticada, moi? até que soube bem 😉

    dessas conterrâneas que fala, nada posso dizer, não faço ideia quem são. mas sabe, abm, para vocês foi um horror que não se deseja a ninguém – serem forçados a abandonar o vosso país, naquelas condições e contra a vossa mais funda vontade, para, pior, virem viver para um que, além de nada vos dizer, era em tudo o contraste absoluto com áfrica. sem dúvida. mas para nós também não foi fácil lidar com aquela maciça vinda de tantas centenas de milhares. foi um período muito complicado de parte a parte. e, no fundo, com muito ainda a resolver de parte a parte (outra utilidade que encontro no livro da isabela, aliás). feridas houve, muitas permaneceram. mas, no conjunto, acho que nos portámos todos – vós e nós – muito bem. noutros países não teria corrido – e não correu – assim.

    abraço.

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    Comentar por sem-se-ver — 14/01/2010 @ 8:24 pm

  43. Ao ler os últimos comentários e relendo o que escrevi, quero só salientar que quando me refiro a “maus e bons colonos” estou a utilizar a expressão no sentido irónico que RdeA lhe conferiu.
    Porque aqui não há bons e maus, entenda-se. 🙂

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    Comentar por VA — 14/01/2010 @ 10:21 pm

  44. Sra D SSV

    Concordo objectiva e subjectivamente com o que refere (para variar). Objectivamente, os que vieram de África e tinham idade, saúde e disposição para isso, fizeram pela vida e parece que em média até acabaram por ser vistos como um contributo para a sociedade daqui, que integraram. Há um estudo mesmo que para aí aponta.

    Subjectivamente, não posso deixar de referir que Coimbra, para onde escolhi ir a dedo (diferente de vir cá parar aos tombos, o que aconteceu com tanta gente) e que acabou para mim por ser um ponto crucial de continuidade mas também de passagem física e espiritual para outros destinos, me tratou bem e foi uma cidade que aguentou bem o nosso “embate”. Certamente no meu grupo demos uma outra cor a um número de coisas em que estávamos envolvidos.

    Ah, tanto havia a dizer também sobre esses tempos de Coimbra.

    Foi nessa fase, separado da família (pais e 7 irmãos) e de todo o ambiente com que cresci, e sem retorno possível, que desenvolvi valores pessoais seminais e que me ajudaram a enfrentar o futuro. Um dia destes farei uma notinha sobre Coimbra – que conheci pela primeira vez num Julho tórrido de 1972, e em que fiquei várias semanas instalado no conforto meio delapidado do Hotel Avenida, em frente ao rio Mondego. A comprar gelados por um Escudo a uma velha senhora sentada ao pé daqueleas geladeiras da Olá, e a ver as lavadeiras a lavar roupa lá em baixo no rio. Meu Deus. (hoje iam todas presas pela ASAE por actividades poluentes e por não pagarem o IVA).

    Sra D VA

    Eu também acho que não havia nem bons nem maus colonos. Havia gente de quem eu gostava e os de quem eu não gostava, o que não é bem a mesma coisa. Mas já havia na minha parte uma vaga percepção de uma ou outra pessoa, mais recentemente chegadas da “Metrópole” e que iam para lá arrotar postas de bacalhau como se os que lá vivam precisavam de lições de moral. A única falta disciplinar que tive na minha vida escolar foi no Liceu António Enes em 1973 por ter respondido a uma professora minha do liceu, acabada de aterrar em LM, que tinha feito à minha frente um comentário estúpido sobre nós os de África. Mandei-a passear e disse-lhe que tinha estado em Portugal e que aquilo era um atraso de vida. Fui para a rua em dois segundos. Quando expliquei ao pai BM o incidente, em vez de me dar um ralhete a mim, ele foi lá e disse duas ou três seguidas à senhora, que de seguida retirou a tal de falta disciplinar. E passou a ter mais juízo naquilo que dizia.

    Pensando retrospectivamente, nem eram, no quotidiano das pessoas que viviam em LM, as relações entre brancos e negros grande ponto de clivagem, o tema de conversa do povão, que politicamente parece que vivia na Lua. Aquilo parecia-me sim, uma grande salada russa, estratificada sim em termos mais ou menos raciais na hierarquia social e económica – a maior parte dos “brancos” tinha instrução e um nível de vida bom, a maior parte da população negra não, mas mesmo isso estava a evoluir rapidamente. Certamente no desporto o mérito estava desassociado da raça ou estauto social e económico. A grandes valores como o Sr Coluna, o Eusébio, o Matateu, o Ricardo Chibanga, o Mussá tembe e tantos outros, batia-se continência. E que não eram brancos. É preciso ver que nesses anos o PIB da economia de Moçambique crescia a um ritmo alucinante e sustentado de 8% ao ano – dez anos seguidos. A única comparação que pode ser feita nestes termos é com a Coreia do Sul nos anos 70 e 80 e com a China mais recentemente.

    E um post-scrip que pode achar interessante.

    O seu comentário fez-me tomar consciência simples mas creio que muito relevante, de algo que gostava de partilhar consigo e com o resto desta congregação e que passa quase despercebido nesta conversa toda.

    É que ninguém em Moçambique que era branco, ou português de de origem, e que lá crescera ou que para lá fora viver, se via, se sentia, ou sequer lhe ocorreria, chamar-se “colono” – termo que se usara até aos anos 20. Até aos 15 anos em Lourenço Marques (e eu já na altura era um total apaixonado pela história da cidade e a sua arquitectura – quantas pessoas conhece que aos 12 anos compraram a colecção completa de álbuns de Moçambique do Santos Rufino?) as únicas duas situações específicas em que vi o termo “colono” ser utilizado foram a Associação dos Velhos Colonos, que se reportava (minha óptica) a uma quase fase mítica do passado Moçambicano, e aos “colonos” do Colonato do Limpopo, o mirabulante e vasto projecto social e agrícola do Eng. Trigo de Morais em Gaza, centrado no que é hoje a cidade do Chókwé (anteriormente designada Vila Trigo de Morais) em que trouxeram algumas dezenas de famílias de agricultores pobres e analfabetos do continente português e dos Açores, juntamente com igual número de famílias negras locais, para desenvolver ali a actividade agrícola. Estes eram os únicos “colonos” para mim. Ainda hoje se for ao Chókwé falar com os velhos da terra (eu fi-lo mais que uma vez, foi fascinante) lhe dirão isso.

    Muito curiosamente, os “colonos” eram essas famílias de agricultores que lá viviam. E, mais curioso ainda, o termo aplicava-se indiscriminadamente de o “colono” ser branco ou preto.

    Coisas do Eng. Trigo de Morais, presumo.

    O uso do termo “colono”, tal como é feito hoje, simplesmente não existia. E quando em 1975 fui viver para Coimbra e alguém me chamasse “colonialista” arriscava-se a levar um murro na cara. Tal como, creio, se se chamasse “fascista” a um qualquer cidadão.

    Pois, como sabe, quando o sol despontou na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, desapareceram misteriosamente dez milhões de fascistas e apareceram na rua dez milhões de democratas, anti-fascistas, europeístas por defeito, de cravo ao peito.

    E, muito especialmente, anti-colonialistas.

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    Comentar por ABM — 15/01/2010 @ 4:39 am

  45. Caro Sr. ABM
    Quero que saiba que compreendo perfeitamente o seu ponto vista, apesar de muito discordar dele. Sobretudo no que toca às ferramentas de análise e à formulação de argumentos para compreender a situação colonial.
    É perfeitamente natural que não se falasse em colonos, assim como é natural que quem lá nasceu não se sentisse como tal. O conceito só começou a ser utilizado aquando da descolonização exactamente porque a parte colonizada respondeu (intelectual e politicamente) ao sistema colonial. Não me cabe aqui tecer considerações se a adopção da ideologia marxista foi boa ou má (o bons e os maus só existem nos filmes de cowboys – excepto os do Clint :)), mas gostaria de salientar que o fenómeno de “devolução do olhar” do outrora colonizado alterou a forma de se pensar o processo colonial.
    Aliás, impunha-se que o chamado “ocidente” colonizador se pensasse a si próprio como opressor, tentando assim sarar as feridas causadas pela ânsia de expansão do ideal de modernidade.
    Caro Sr. ABM, eu percebo que não se sentisse colono quando viveu em Moçambique, mas como designar todos aqueles que viveram sob uma estrutura política, social e económica que se rege por esse ideal?
    Obrigado.

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    Comentar por VA — 15/01/2010 @ 1:33 pm

  46. Perdão, todos aqueles que promoveram ou perpetuaram (ainda que inconscientemente) um ideal estruturado num sistema político, social e económico de características expansionistas?

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    Comentar por VA — 15/01/2010 @ 1:45 pm

  47. Conquistadores, apenas conquistadores, só isso.

    Todos saídos em “caravelas” desde os tempos de 1415, ou já teria sido antes?

    E o vai-e-vem foi constante .

    Só que “uns” foram apanhados – e para rimar – “retornados” – e os que escaparam “felizardos”, a grande, grande, grande maioria, a tal que ovacionava Salazar, Caetano, e evocava Henrique, O Navegador – e não só no Estádio de Alvalade.

    De repente, acordaram, ao frondoso abrigo dos tanques do MFA.

    Passou a haver uns, e os outros.

    Ilusão.

    Eramos TODOS.

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    Comentar por umBhalane — 15/01/2010 @ 3:20 pm

  48. Essa neo-escriba que arrotou um sem número de asneiras, recalcamentos e frustrações de meia idade, é a típica fulana que viveu meia dúzia de anos em Lourenço Marques, ou melhor, na Matola. Com tudo o que isso significa. Maguérre-filha de outro maguérre comedor de tombazanas e caracóis de tasca de subúrbio, é facilmente topável à légua. Faz o pleno de tudo o que sabemos dos neófitos que sendo pés rapados em Portugal, assim que desembarcavam no Gago Coutinho (L.M.), pensavam logo em arranjar criados que pudessem esbofetear, Conhecíamos esses pelos “malhangas”, os “maés” ou simplesmente – e muito a propósito, neste caso -, pelos “matolas”. Era gentuça do pior.
    Havia-os de várias cepas. Os tropas galonados que iam para as comissões e que bastante forretas, não saíam da messe para pouparem mais uns cobres. Jornais nas janelas faziam as vezes das desnecessárias cortinas. Cinema? Só no Clube Militar. Criadagem? Claro, tal e qual como hoje todos têm “nos Maputo, pá…”. Quando chegavam ccom as suas sopeiras, estas ainda andavam de batas e chancas nos primeiros tempos, para logo depois começarem a integrar-se na civilização local – aleluia! – um ano depois já andavam de hot pants, t-shirts, sandálias e tiravam o buço!
    Lembra-se da gajada que chegava de Lisboa e ia logo ocupar os postos directivos em qualquer departamento do Estado ou das empresas lá instaladas? Podiam ser uns atrasados mentais, mas como vinham da Metrópole, passavam logo à frente dos naturais, mesmo que muitíssimo mais preparados, competentes e sobretudo, infinitamente menos racistas e aptos para lidar com os “nativos”.

    Maguérres como o paizinho da escriba a soldo dos do costume, havia-os, claro. Sempre os mesmos “camisola interior à varanda na Malhangalene”, bebericadores de Sovim ao garrafão e hábeis achincalhadores do mainato. Aqui, na metrópole, eram o que se sabia: a ralé mais reles que por mero acaso não foi limpar retretes para Paris.
    Nasci no Hospital Central – na av. 31 de Janeiro – em 1959 e sou de 5ª geração nascida em África, em L.M e não retornei a coisa alguma. Vim com os meus pais e irmãos – lá ficaram mais um ano, os meus avós e bisavós, tios e primos -, para evitar as habilidades dos 7 de Setembro que os canalhas Almeidas-qualquer-coisa -de lá e de cá – nos preparavam, enquanto traziam fortunas e a familória para Lisboa. A Câncio não passa de uma ignorante politicamente bem posicionada. Tem qualidades, isso é inegável. No entanto, está inquinada de preconceitos. Saberá indicar no mapa a cidade de Lourenço Marques? Duvido.

    Conheço LM de cor e salteado e quando estou com gente recém chegada de lá, pergunto-lhes por sítios – ruas, jardins, casas, etc – que eles não conhecem, ou das quais se espantam por eu me lembrar tão bem. Vou ao Google Earth frequentemente e faço os bem conhecidos trajectos: da minha primeira casa na Princesa Patrícia 1208 r/c para a escola primária Moreira de Almeida, calcorreando a Massano de Amorim e passando à rua de Nevala. Recordo os ensaios do canto coral, às 4ª feiras à noite na sala paroquial da igreja de sto. António da Polana (era peq. cantor da Polana). Recordo muito bem, os trajectos que passei a fazer uns anos mais tarde, quando saía da “nova” casa, na R. J. Serrão 40 (à Princesa Patrícia), a caminho da Escola Preparatória General Machado e ainda depois, no secundário, para a Escola Industrial, na 24 de Julho. O café Cortiço, onde todos os dias comprava duas arrufadas a “uma quinhenta”, para o lanche das 10 da manhã. O Djambo, na Biaixa, onde adorava comer bolas de Berlim com jam de morango. Os páezinhos quentes da Pigalle e as sandes de carne assada da Fábrica da Cerveja. A livraria da Coop, perto da Praça 7 de Março, onde passava horas infindas com o meu irmão, lendo. Descer as barreiras a correr, para irmos à Praia do Dragão. A Casa de Ferro no Jardim Vasco da Gama (ainda existe). A Modelândia onde eu e o meu irmão comprávamos os kits da Airfix. A Fortaleza, onde andávamos a brincar em grande correria, a “fazer de conta” de batalhas imaginárias.
    E fico-me por aqui. Nada, nada esqueci, porque na verdade, jamais abandonei aquela terra.

    Quanto à gorducha e raivosa escriba e em mera chalaça, podemos até depreender a relutância que os progenitores tinham em em deixá-la brincar com os meninos pretos. É que esse tipo de brincadeiras traziam netinhos antes do tempo.

    Para ela, um sonoro Famba ti Cuza!

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 16/01/2010 @ 9:40 pm

  49. participei no debate mas depois silenciei.

    assisto, com um arrepio (de fascínio?) ao levantar duma cidade. da memória “ofendida” duma cidade. com picos de excessos (truz, truz, truz no meu peito) que é conversa emocional, não é daquelas onde se faz shhh! quando alguém tosse. é a nossa cidade, porra! somos nós!

    é igualmente a cidade de IF – chame-se(-lhe) Matola é indiferente. acredito que IF irá escrever outro livro, agora já apaziguada com o que lhe mais doía. e, todos!, iremos lê-lo e encontramo-nos. aposto nisto

    (obrigado, colectivo do Ma-schamba. não é baboseira dizê-lo)

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    Comentar por cg — 16/01/2010 @ 10:00 pm

  50. Ma-Shama, agora estou mais frio. Ando com uma vontade enorme de dec+dicar um post à fulaninha no meu blogue, o Estado Sentido. Mas como a coisa parece-me flato correctês para amealhar uns cobres na FNAC, ainda não dei o gosto ao dedo.
    Espero não ter abusado da sua paciência, mas a entrevista que a dita fulana deu a um jornal, deixou-me irritadíssimo. Dava-lhe um bom bofetão na cara!

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 16/01/2010 @ 10:18 pm

  51. …e os rissóis na Teresinha… e as fatias de bolo no pavilhão das “tias”… o pôr-do-sol no jardim do liceu… o básket e o hóquei às quartas e sábados… o amendoim torrado, ou doce, medido em tampas de latas de graxa… o gelo doce, nas cantinas… subir o Caracol como se fôssemos o Toy ou o Pascoal… as matinés 2 pelo preço de 1 no S.Miguel… os bailes nos clubes, e os partys… uma tarde sonolenta no areal da Costa do Sol… as verbenas e os conjuntos musicais… o sabor inesquecível da tchintchiva… o cheiro bom da montra da casa dos cafés, no quarteirão do Scala, e depois atravessar a rua e comprar a Salut les Copains… mais tarde a Rock & Folk… o Música-Bar… a boite da Monumental e os primeiros slows…

    e… e…

    somos filhos da época, além de ocasionais filhos-da-mãe. aquela socialmente foi especial em todo o mundo, e podemos gabar-nos de tê-la vivido em cenário único, e perdido de belo. sob uma cúpula socialmente injusta e que historicamente tinha de dar o berro, como deu, mas com dignidade que não ofende a memória. acho que maioritariamente podemos afirmá-lo

    e saudades de nós mesmos, novos, rabinos e felizes. lá ou em Quelhas. porque não?

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    Comentar por cg — 16/01/2010 @ 11:06 pm

  52. Pois… o Caracol! O que infernizávamos o meu pai, para subir aquilo a toda “a mecha” no Carocha da família, para chegados lá acima, começarmos a pedinchar uma cassata nos Gelados Italianos na Massano de Amorim. E os pirolitos (caramelos) de várias cores, os barquilhos estaladiços que comíamos na rua e que eram vendidos por homens que carregavam latões. Os rissóis dos Irmãos Unidos (R. Consiglieri Pedroso), a natação nos Velhos Colonos, o canto coral em Sto. Anttónio da Polana, as peras goiabas que comíamos nas árvores do quintal, as abacates aos pontapés por todo o lado, as maçarocas assadas em plena rua, o amendoim com piri-piri, as vendedoras de tchintchiva e de mulála, as idas ao bazar para comprarmos especiarias…
    O telefone lá de casa, o 29292 e o da minha avó, o 8236.
    A nossa foto com o Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze (se quiser, pode ver aqui, em http://estadosentido.blogs.sapo.pt/262395.html )

    Os fins de semana em casa dos meus avós na Namaacha, a fuga anual ao reles 5 de Outubro – que agora lá terei de suportar durante 10 meses de rasqueirice institucional -, indo todos para a Inhaca. Enfim… desejo tudo do melhor para Moçambique. Apenas o melhor. Gosto do país e daquela gente que sempre me tratou tão bem. Jamais os esquecerei.

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 16/01/2010 @ 11:35 pm

  53. porque o sentido é diferente, uma correção à #49. no seu final:

    “…iremos lê-lo e encontrarmo-nos.”

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    Comentar por cg — 17/01/2010 @ 12:01 am

  54. sr nuno castelo-branco,

    como está? pelo que escreveu, não me parece particularmente bem.

    1º, não me parece bem que ofenda a pessoa e a memória de um senhor – o pai de Isabela -, sobre quem descarrega uma série de impropérios e insultos de todo em todo despropositados – salvo por uma carga, infelizmente bem evidente, de petulância social face a classes que, notoriamente, o senhor considerava e ainda continua a considerar inferiores à sua. fá-lo, repito, sem ter privado com o senhor em causa e, pasme-se, a partir de uma entrevista (!) da autora do livro, livro que não leu bem como não é leitor do blog da referida autora.

    2º – não me parece bem que uma diferença de 3 anos de idade – presumida por mim a partir dos dados que forneceu – com IF lhe dê direito a achincalhar, em expressão ofensiva (tom geral do seu comentário), a experiência de ‘uma meia dúzia de anos’ vivida em lourenço marques (nitidamente é daqueles que nunca conseguiu escrever nem sequer pronunciar maputo, acerto?), ou, pior diz o senhor, na matola, por uma rapariga moçambicana como o senhor. imagino que a sua ‘meia dúzia de anos mais 1/3’ em que viveu lá lhe confira um estatuto diferente do de IF?

    3º – não me parece bem que partilhe connosco todas essas suas tão pormenorizadas lembranças de lourenço marques como uma espécie de comparação com as de IB, pois (imagino que seja esse o seu retorcido raciocínio), por ter ela vivido na Matola (como sabe?), não poderá ter memórias do seu país de origem, que amava e que tanto lhe doeu abandonar, como o senhor tem. que bizarro.

    4º – não me parece bem que assuma que «Nada, nada esqueci, porque na verdade, jamais abandonei aquela terra» como se fora uma contraposição a IF até porque, aliás, o que ela bem demonstra com este livro é que nada, nada esqueceu, porque na verdade, jamais abandonou aquela terra.

    5º – não me parece nada bem o machismo e marialvismo (e a cobardia) bem patentes na exclamação final, de promessas de bofetões na cara. ficou-lhe, esta, particularmente mal. estava ainda ‘a quente’? é sempre assim que costuma resolver os seus diferendos com mulheres quando está a quente?

    6º – é homem a sério? está já publicitada a apresentação do livro em vários locais. e que tal se fosse CIVILIZADAMENTE – se conseguir – expôr as suas críticas a IB numa delas? trocar impressões como GENTE ADULTA E NÃO COMO GENTE DESQUALIFICADA CEGA PELO ÓDIO? a IB, filha de electricista, tenho a certezinha, saberá fazê-lo. e o senhor?

    mas por favor: vá calminho, sim? porque é no confronto CIVILIZADO entre diferentes pontos de vista, perspectivas, abordagens pessoais e sociais, que a história do colonialismo e da descolonização poderão ser feitas. (as reacções, como a sua, que este livro está a despertar, bem demonstram como temos longo caminho a percorrer nesse capítulo).

    de outra maneira, senhor nuno castelo-branco, lamento informá-lo mas a impressão que deixou a quem não o conhece, como eu, é que faz parte daquela «ralé mais reles que por mero acaso não foi limpar retretes para Paris».

    com tantos pergaminhos que exibe na família, não quero crer que seja o caso. mas cuidado: as palavras colam-se-nos à pele…

    e ah! no entretanto, se arranjar um tempito extra para se informar melhor, lendo, sobre a obra, talvez entenda que, duma vez por todas, aquele é um livro de memórias, pessoais, e, como fernanda câncio intitulou e outros comentadores – que já leram o livro, lá está – salientaram, uma carta de amor a um pai racista.

    um pai que era, como a própria IF afirma e por várias vezes, muito melhor pessoa do que muitos dos moçambicanos que lá viviam e que de lá vieram.

    olhando para o seu comentário (ainda estou a quente, também eu 🙂 , percebo-a ainda melhor.

    (quanto ao resto, e como poderá confirmar em comentário meu acima, todo o meu respeito pela vossa terrível experiência de vida que vos forçou a abandonar o vosso país).

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    Comentar por sem-se-ver — 17/01/2010 @ 12:15 am

  55. (nota extra: como, não percebo porquê porque não susbscrevi tal opção, me continuam a chegar à caixa de email os comentários a este post, lá os vou seguindo com natural curiosidade. daí regressar amiúde a este espaço, como foi o presente caso).

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    Comentar por sem-se-ver — 17/01/2010 @ 12:22 am

  56. Caro sr. sem-se-ver

    Já estou menos irritado e realmente, é raro tornar-me malcriado. Se o fui, sem qualquer problema imputo o facto a certas coisas que tenho lido, da autoria da dita senhora. Especialmente uma entrevista surgida a 24 de Dezembro. Enfim, cada um tem as suas experiências e as da dita senhora não foram as melhores. Diz a certo momento que me recuso a escrever o nome de Maputo. Note que saí de Moçambique no dia 30 de Agosto de 74, quando o meu pai já há meses previa o que aconteceria, dadas as informações que recolheu e o painel de dirigentes em Lisboa, de pouca ou escassa fiabilidade. Seria grotesco referir-me à cidade em que vivi, como Maputo. Se bem conhece o local -foi Lourenço Marques até 1975, hoje Maputo, não tenho qualquer prurido em pronunciar o nome -, certos absurdos de periferia eram bastante raros no centro. Digam o que bem entenderem, mas era assim mesmo. Não dou importância alguma a convenções “de classe”, conceito bastante discutível. Mas se insultei, paciência. Apenas utilizei os termos correntes lá da terra e por sinal, um bastante conhecido – o maguérre, palavra indígena que definia um certo tipo de europeu – dado pelos próprios negros, aos brancos mais atrevidos e agressivos. Não utilizo a palavra nativo, porque na minha família, todos o somos: nativos de 5 gerações.
    Na realidade, o discurso da autora faz o pleno dos lugares comuns pós-descolonização e “aggiornam-se” perfeitamente à conveniência, na excelsa e cómoda linha oficialista do sr. A. Santos.
    Não fiz qualquer contraponto da minha lembrança à vida que a autora lá teve. Onde leu isso? Falei por mim, até porque ainda hoje lá tenho dois tios – uma tia avó bem negra, por sinal – e primos e acredite se quiser, por vezes falo-lhes de locais que lhes passam completamente despercebidos e que com surpresa reencontram. Não tenciono deixar de recordar, por obrigação ou complexo de culpas que não tenho. Não pago pela escravatura durante o império romano. Não pago pelas violências durante a Expansão. Não pago pela secular ausência de direitos sonegados às mulheres. Não pago pelas responsabilidades dos pretensos descolonizadores, em geral bem instalados e completamente indiferentes à situação em que aquelas gentes vivem. Sou apenas responsável pelo que faço ou fiz. Não acredito nem aceito o princípio abusivo das “culpas colectivas”. É mesmo assim.

    1. Diz que ofendi a memória do pai da senhora? Se alguém o fez, foi a própria autora, porque nem sequer podemos ter a certeza da absoluta veracidade dos pontos obscuros de personalidade que esta aponta ao progenitor, dado o largo esquema de fantasia que a generalização – na entrevista, pelo menos -, implica. Talvez se trate de uma romanceada biografia, bastante imaginativa e desejosa de catarse.
    Não pretendo que compreenda o meu súbito explodir, nem tenho qualquer direito em exigi-lo. Mas também não espere que pressurosamente dê o meu calado assentimento às enormidades que já tive a ocasião de ler e que por sinal, ouvi pela primeira vez no dia 1 de Setembro de 1974, em Lisboa. A ignorância metropolitana em relação ao Ultramar, era total, inacreditável, desprezível. A começar pelas autoridades civis que ditavam as novas regras de conduta internacional, fruto da sua alegada experiência nos boulevards parisienses et ailleurs.

    A experiência pessoal da autora é privada, só a ela diz respeito e ao seu círculo se reduz. É pouco, há que reconhecê-lo. Não se trata de um livro de memórias de um africanista, ou de uma velha senhora que nasceu e viveu durante décadas numa África para sempre desaparecida. Também A autora não tem a experiência de vida que Karen Blixen relatou e que impressionaria o mundo inteiro. Do contrário, não me convence.
    Note bem que no meu amontoado de palavras, ressalvava muito bem a situação dos neófitos que iam “fazer pela vida” em Moçambique. Uns comportavam-se melhor do que outros, tal como seria de esperar. A expressão “lavar retretes para Paris”, aprendia-a por sinal, com uma recém chegada família que se tornou amiga dos meus pais (no final da década de 60). Gente simples, educada e humana. Adaptaram-se rapidamente e foram perfeitamente capazes de lidar com a realidade. Com uma vida dificílima em Portugal, recusaram-se contudo, a ir “lavar retretes para Paris”. Fizeram bem e desde já lhe digo, que jamais ousaram levantar a mão contra um serviçal. Bem pelo contrário. De pouco lhes serviu a estadia em Moçambique. Pelo menos, materialmente. No entanto, creia que ainda hoje encaram a experiência como única e que repetiriam se pudessem voltar atrás. Boa gente.
    Agora, creia que não posso consentir ficar arrolado a uma prepotente minoria à qual o pai da dita senhora pertencia. Pelo menos é o que a própria diz e que todos lemos, se quisermos.
    Noutro aspecto, o da adequação política que firma a legitimidade, parece-me que todas as estorietas de cordel saídas da imaginação de sapiências regimentais de Lisboa, não passam disso mesmo: estorietas de legitimização de um poder que se conhece e contra o qual, aliás, não movo um dedo. Já passaram mais de 30 anos, as lendas acabam quando a verdade surge todos os dias, através de dados oficiais, da brutal realidade do noticiário de regimes despóticos e monstruosamente corruptos e incompetentes. Não me interessa minimamente. Pois façam o que quiserem, enquanto puderem.
    Moçambique parece finalmente, entrar no caminho da calma e de um certo progresso que bem merece. Quantos aos sátrapas de Lisboa, voltemos ao nosso Camões e à lei da morte que tudo liberta. A indiferença deve ser a norma.

    2. Petulância social? Nenhuma. Nem sequer casa própria tínhamos, fique sabendo. Sabe o que isso quer dizer, com certeza. Pois em Portugal, pensava-se que todos éramos milionários e vivíamos à grande e à francesa. Viu-se… Ao fim de quase cem anos em África, sem tios e tias solteironas que legassem heranças, sem património fundiário ou imobiliário de qualquer espécie. Pensa que isso me preocupa? Absolutamente nada e neste aspecto, estou como os palestinianos, prussianos, os silésios ou os pomeranianos. O aspecto material não é o mais relevante.
    No que respeita aos insultos, quem se sentiu insultado pelo que inicialmente li, fui eu próprio, já há umas semanas e em casa dos meus pais. Eu e a família inteira. Saiba o senhor que a minha bisavó já nasceu em Lourenço Marques, assim como os seus filhos, netos e bisnetos. Da parte da minha mãe, o mesmo. Como vê, encarávamos as coisas de uma certa perspectiva e não gostávamos de muito do que víamos, especialmente quando após o 25 de Abril, aqueles “forasteiros” que demonstravam até à data todo o tipo de preconceitos, subitamente se transformaram nos paladinos da “justiça e liberdade”. Como se tal fosse possível!?

    A publicitária reportagem deu para uma longa conversa de Domingo e as conclusões não diferiram muito daquelas que pode imaginar.
    Já agora seria conveniente dizer se viveu em Moçambique? Sabe como os recém chegados se comportavam? Conhecia as condições gerais da província nos essenciais aspectos da organização de serviços, desde o saneamento, saúde pública, transportes, educação, abastecimento público, etc? Quer comparar os dados actuais com os de 1974? Não é assunto que vem ao caso, mas se se der ao trabalho de pesquisar o nível de exploração que hoje se verifica nas principais cidades – Maputo, por exemplo -, não poderá deixar de se surpreender. Talvez conheça a realidade bem actual da opressão, prepotência, agressão física e generalizada carência em que aquela gente vive e em todos os aspectos essenciais à vida numa sociedade urbana. Nem hospitais, escolas arruinadas, infraestruturas que apenas agora começam a recuperar, etc.
    3. Não odeio a dita senhora. Se nem sequer faço ideia de quem seja… Nunca a vi. Reagi a uma entrevista, como em toda a net li comentários bem piores daqueles que mais acima deixei.
    Apenas me parece que entre nós, travaríamos um diálogo de surdos, pois a ficcionista convenceu-se que o seu aborrecido, anacrónico e absurdo micro-cosmos neo-realista, era o todo. Não era, pelo menos para a minha geração do meio urbano. Não era.
    4. A minha experiência de vida em Moçambique não foi de forma alguma terrível, pois os meus pais jamais foram gente violenta ou preconceituosa e a prova disso mesmo, consiste no afável relacionamento que hoje têm com autoridades locais. Nesse aspecto, creio que involuntariamente já estávamos – quase todos – impregnados da publicidade que “a situação” fazia ao Portugal de Minho a Timor, com o consequente reflexo no considerar todos os membros das mais diversas etnias como portugueses, etc. Abra os livros de leitura da instrução primária que à época tínhamos e perceberá o que quero dizer. Uma falácia? Talvez. No entanto, a propaganda estava bem executada e éramos preparados para conviver com todos, fossem eles negros, chineses, indianos, paquistaneses, goeses, mulatos, brancos. Coisa que não impediu o regime sucessor de ter cometido todo o tipo de iniquidades e de atropelos ao direito das gentes, principalmente aos que serviram as forças armadas: o abandono foi total e a retirada da nacionalidade portuguesa, vergonhosa e unilateral, contra todo o direito e decência, condenando milhares ao extermínio puro e simples. Um crime que apesar de ser bem escondido, não deixa de o ser: crime. Essa é a verdade difícil e incontornável que nem a militante senhora dona F. Câncio – pessoa com muitas características positivas, desde já anoto – poderá negar, apesar do seu dispensável e inútil pendor para o politicamente correcto do nosso tempo. As modas passam ao sabor dos dias.

    Num aspecto, não posso concordar. A questão dos “pontos de vista”. Não existe qualquer possibilidade de diálogo, pois os “pontos de vista” implicam a análise de uma situação geral e não a experiência da zona da Matola, Polana, Sommerschield, Maxaquene, etc. Uma conversa teria inevitavelmente, de ser focada na experiência de cada um e talvez em generalidades como o sabor dos camarões, do milho assado na rua, etc. Se tivéssemos vivido na mesma zona, tal seria perfeitamente exequível e mesmo assim, muitos aspectos difeririam consoante o temperamento dos nossos respectivos ambientes familiares. Não lhe parece?
    Experimente generalizar a situação vivida hoje num bairro como a Quinta do Mocho, tranplantando-a para Portugal inteiro, ou mesmo, para a dimensão de uma cidade tão diversificada como Lisboa. Pois isso mesmo fez a autora, referindo-se à Matola. Como se no centro da capital a situação fosse essa! Ridículo. Já na época sabíamos perfeitamente o que se passava na zona da refinaria e noutros bairros periféricos. A própria entidade OPV (Organização Provincial de Voluntários) tinha em má nota a situação e intervinha sempre que que necessário. Era o essencial aspecto da intervenção social, coisa que desapareceu após a independência.
    Era desagradável e comentava-se com aspereza a rudeza de certos comportamentos totalmente impróprios. A DGS chegou a intervir duramente contra brancos, essa é a verdade. Não convinha ao regime.

    Quem procedeu a generalizações, foi a autora e não a minha anónima – assim continuará – e insignificante pessoa. Aliás, tendo a senhora vivido reclusa tão longe da cidade – pelo que transparece -, fraca experiência teve da mesma, ainda por cima sendo tão jovem. Em que escola andou? Quem eram as colegas e amigas? Não me diga que nunca teve colegas pretinhas, mulatas ou goesas?! Conheceu algum Patel, algum Cheng, algum Lombé, algum Ahmed? É que a realidade em L-M. era outra.

    5. Diz o sem-se-ver que o livro é um grito de amor pelo pai. Que seja, faz muito bem e está no seu direito. Até certo ponto, poderá até ser uma ficção no que respeita ao círculo exterior à sua família. Os mortos não falam. O que não pode de forma alguma ousar, é apor ao resto de uma sociedade urbana que presumivelmente jamais terá conhecido, os disparates que ouvia em casa, ou pior ainda, via o progenitor executar com mão pesada, sobre os infelizes que o rodeavam.

    6. Agora, um mea culpa que aqui exprimo sem hesitar. Excedi-me na patética questão das bofetadas. Foi um exagero, é verdade. Jamais levanto a mão, seja a quem for, disso pode estar certo. Considere a infelicidade como uma bravata, uma parvoíce.
    Nem o caso tem importância para tal. Já li bem pior.

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 17/01/2010 @ 2:51 am

  57. S-S-V vou tentar perceber como é que o sistema está a enviar notificações sem que tal tenha sido solicitado. Inepto nestas coisas duvido que consiga resolver algo mas tentarei. Desculpe o incómodo (porventura o sistema, inteligente, adivinha potenciais leitores e não os quer deixar partir …)

    E sobre os comentários do NCB (que associo ao tom habitual do CG – nem tanto aqui mas no blogo-companheirismo de anos; e também, e em particular, ao do ABM): independentemente dos efeitos e dos pormenores (pormaiores) o que me parece que deles se pode (deve) retirar é a consciência (vivida) da multiplicidade existente no seio da população de origem portuguesa (mesmo que mesclada), e que as práticas sociais eram diversas exactamente segundo essa diversidade. Nao se tratará exactamente de “preconceito de classe” ou mera desvalorização alheia como V. parece reconhecer. É mais um reconhecimento da diversidade interna da sociedade colona (ou, se se preferir, de parte da sociedade colonial). Penso que é nessse sentido que aqui (no blog, não tanto nesta caixa de comentários) temos falado da recolecção de memórias coloniais; penso que é nesse sentido que se pode reconhecer a justeza de reacções como as do ABM (e do NCB), invectivando um texto que é (será … eu não o li) redutor de uma sociedade. Mais, a autora tem todo o direito de o produzir, mas muito dos comentários e reacções que provoca tem a ver com a sua recepção (“jornais de referència”, blogs e intelectuais afamados, etc.), um efeito que provoca não tanto um efeito de interrogação sobre o passado mas, dado o peso envolvido, de simplificação do passado, de homogeneização.

    ABM, AL: o que a mim me espanta é a falta de fair-play da Angelus Novus. Eu aqui em Maputo dificilmente poderei aceder nos próximos meses ao livrito. O ABM já dispendeu 15 euricos. A AL decerto que o virá a fazer. Mas o ma-schamba, na sua relativamente modesta dimensão, está a bater marcas (aka “records”) de audiências e comentários a propósito do livro. E nem uma singela oferta de um exemplar … Que arrogância

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    Comentar por jpt — 17/01/2010 @ 3:19 am

  58. sr nuno castelo-branco,

    srª. srª sem-se-ver :- )

    gostei muito desta sua resposta.

    e do tom dela. e do ‘mea culpa’ final. aceites a justificação e o implícito pedido de desculpas.

    assim, é possível entendermo-nos.

    por pontos:

    1. não sou de lá.

    2. generalizar a experiência da quinta do mocho a toda a lisboa ou a todo o país seria, no contexto de um livro de memórias, legítimo.

    3. tal legitimidade lha concedo a si, no sentido inverso – aquilo que afirma ser a vida em lourenço marques a todo o território moçambicano. historica ou sociologicamente abusiva, tal generalização? com certeza ou, ao inverso, de todo – se fosse o seu livro de memórias.

    4. considera que é impossível haver troca de pontos de vista sobre um país porque se viveu em locais diferents dele? que estranho. se assim fosse, nem eu poderia estar a falar consigo de portugal – porque o sr é moçambicano e eu sou portuguesa, ou porque o sr é um moçambicano que reside em lisboa (?… suposição minha) e eu sou uma portuguesa oriunda de coimbra. estranha posição, convirá. :- )

    5. «Abra os livros de leitura da instrução primária que à época tínhamos» – foram os meus, tenho a mesma idade que o senhor. e, tal como o senhor, sei qual a mensagem colonialista neles contida. ou, talvez, até melhor do que o senhor – porque o senhor vivia numa colónia, na posição de colonialista, enquanto nós viviámos na metrópole, não vivendo directamente essa condição.

    6. éramos menos racistas do que vós? pelo contrário, creio que éramos mais, exactamente porque nos faltava o contacto diário com pessoas de outras raças (para além do eusébio e poucos mais).

    7. contudo, sr nuno castelo-branco, vocês também o eram – com ou sem manifestações verbais ou de violência física sobre as pessoas de outras raças que, pela essência e por força do regime colonial, eram por vós – latu sensu, claro, falo da organização política de moçambique – dominadas.

    o que pretendo dizer, basicamente, é isto – o racismo existia, tivesse que cambiantes tivesse. tal como ainda hoje existe em portugal, tenha ele que cambiantes tenha. pessoalmente, dou graças a deus nunca ter vivido nas colónias (antes de mais pelo que exprimi no final do meu comentário anterior) – porque, não sendo racista, sei que pertenço a um país que o é; porque, se fosse moçambicana, essa consciência da injustiça extrema de um regime colonialista presente no país que fosse o meu, me incomodaria ainda mais.

    e, sem nunca ter falado com IF a propósito, estou certa que são ambas estas ‘coisas’ que a incomodam a ela. além do, por ela dito, ‘pacto de silêncio’ entre moçambicanos sobre a realidade do racismo no vosso país.

    ora, o que é facto é que vejo poucos ‘retornados’ (desculpe, a expressão é péssima, injusta e desajustada, porque vocês não retornaram a nada, bem sei) a assumirem que viviam num regime colonial e, enquanto tal, sustentado numa pirâmide político-social de estrutura racista.

    como vejo muitos poucos portugueses a reconhecerem que são racistas.

    ora somos, enquanto povo, racistas. o que é quase uma inevitabilidade histórica – durante mais de 5 séculos fomos colonialistas.

    não tomar consciência, ou recusá-la, deste facto, é a melhor forma de fazer com que o racismo exista. e vice-versa: tomar consciência dela é a melhor via para o deixarmos de o ser – e legarmos essa vitória aos nossos filhos.

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    Comentar por sem-se-ver — 17/01/2010 @ 3:31 pm

  59. jpt,

    mas eu não estou nada incomodada por estar a receber por mail os comentários a este post! só não entendo é o porquê. mas deixe estar assim, que está mt bem.

    olhe, não fosse eu uma pelintra, enviaria com todo o gosto um exemplar do livro para si. mas, como sou (hélas!!), tomarei um gesto sem custos – contactarei a angelus novus a perguntar como é que o jpt pode fazer para o adquirir e/ou se eles não prevêem colocá-lo à venda em maputo.

    a todos um bom domingo.

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    Comentar por sem-se-ver — 17/01/2010 @ 3:40 pm

  60. SSV: grato lhe ficarei pelo contacto com a Angelus Novus. E para que não se (eles) diga(m) que é dar pérolas a porcos (livro ao jpt) lembro que já aqui [http://ma-schamba.com/antropologia/o-homem-livre-de-filipe-verde/] lhes fiz publicidade (mais do que merecida) a uma edição.
    Já agora – caso alguém da Mabuko, Minerva, Sopress, Escolar Editora, Imprensa Universitária, Paulinas (ou restantes livrarias maputenses) por aqui ande: seria interessante mandar vir estes livros, o primeiro (o do post) vendará alguns exemplares, o segundo a gente faz vender no meio universitário, com toda a certeza

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    Comentar por jpt — 17/01/2010 @ 5:31 pm

  61. JPT

    A editora Angelus Novos tem que vender livros, não oferecê-los.

    Se aqui esta obra custa 15 euros, boa sorte em Maputo.

    Mas não precisas mendigar. Eu ofereço-te a minha.

    Com notas a lápis e dedicatória.

    Sr Nuno

    Gostei de ler as suas memórias, versão entrucada em comentários. Edite-as, por favor.

    CG

    Meu Deus, os rissóis de camarão da pastelaria Teresinha….

    Sra SSV

    A Isabela pôs cá fora um produto. Sujeita-se ao escrutínio de quem está cá fora. Quer lambuzante, quer demolidor. Ela que se habitue. Esta sua defesa, que é uma defesa de uma pessoa por interposta pessoa, é no mínimo curiosa. Fale-nos do produto. Do livro. Não era o que queria? é o que eu estou a tentar fazer.

    Fale do livro.

    E já agora de Coimbra.

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    Comentar por ABM — 17/01/2010 @ 11:38 pm

  62. ABM claro que a editora não tem nada que oferecer livros aos bloguistas. Mas espero que os venha a distribuir para as livreiras moçambicanas …

    SSV fui investigar o que acusou sobre a recepção de comentários – parece-me que o sistema envia automaticamente notificações a todos os comentadores. Ainda não percebi como se retira essa opção global mas vou tirá-la da recepção de avisos sobre comentários aqui.

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    Comentar por jpt — 18/01/2010 @ 1:10 am

  63. Boa noite, sem-se-ver

    Também gostei da sua réplica e assim, vamos por pontos. Vou ser um chato.

    1. Sei perfeitamente, como o JPT aponta, que a situação que nós os brancos vivíamos em LM, não era de forma alguma extensível ao resto do território. Que isto fique claro. O que procuro sempre sublinhar, é uma realidade que vivi, muito diferente daquela que os metropolitanos imaginam, porque o situacionismo a que se habituaram, tornou conveniente o mundo da fantasia. Convém aos donos do regime.

    2. Em conformidade com o que acima disse, não posso concordar com a generalização de Quintas do Mocho a Lisboa ou ao país inteiro, a menos que passemos para a ficção e sigamos uma espécie de guião de um certo filme, velho de há umas duas décadas e meia. Passava-se numa Manhattan transformada em prisão global e cercada de muros. Uma coisa é a ficção ser assumida e tal é aceitável. Outra bem diferente, será passá-la por verdade.
    3. Respondi ao seu ponto 3., na resposta 1. Se me atrevesse a escrever um livro de memórias – não o faço por manifesta vergonha que a falta de talento impõe -, relataria as minhas experiências, no meu meio e se possível, aquilo que rigorosamente tinha visto em Lourenço Marques e nas viagens que fiz com os meus familiares e amigos. Nada mais.
    O que a IF fez, consiste num erro fatal que a desacredita completamente. Imagine se ninguém se insurgisse ou replicasse? Dentro de 100 anos, teríamos uma visão histórica totalmente falsa, fazendo lembrar a “re-invenção da história ” tentada pelos regimes de modelo soviético que aliás, a Frelimo ingloriamente tentou. Mas isso é passado.

    4. Não disse isso. O que afirmei, foi a impossibilidade de troca de “pontos de vista” quanto a uma situação geral que a Sra. Dª IF não podia conhecer. Ela própria o afirma sem disso dar conta. Fala em semi-clausura, em afastamento total com a vida normal das outras crianças e jovens e reduz a sua mundivisão ao problemático ambiente familiar. Como pode imaginar, a vida da imensa maioria da miudagem era bem diferente e andávamos à solta, calcorreando as ruas, praticando desporto, fazendo asneiras, indo à praia. e à mercê de uma sexualidade inimaginável aqui, entre os metropolitanos. Sei do que falo. Tive muito mais liberdade de movimentos em LM, que aquela que vim encontrar em Lisboa, disso pode estar certa. Esta cidade era maior, as pessoas não gostavam de nós – aos 15 anos, na vermelha António Arroio, escutava frequentemente o clássico “vai para a tua terra, seu porco de merda, seu fascista!”. Para cúmulo, passámos a viver a léguas uns dos outros, como muito bem disse o dr. Mário Soares, que tem sempre o cuidado de sublinhar o plano gizado em 1974-75: “tivemos o cuidado de não colocar essa gente toda numa zona, porque seria um perigo para a democracia”.
    Atenda ao facto de LM não ser uma cidade exígua, muito pelo contrário. Mas era o ambiente que bem conhecíamos e assim, andarmos a pé ou de machimbombo, sozinhos ou com amigos, era normal.
    A sem-se-ver entende perfeitamente o que quis dizer.

    Pelo que parece, embora toda a cidade conhecesse as realidades sociais nas zonas suburbanas, pelos vistos, a Sra. Dª IF não fazia, nem ainda faz a mínima ideia, do que era aquele outro mundo que viu muito de longe. Isto, porque as condicionantes impostas pela personalidade do pai, assim fizeram acontecer. Não se pode é permitir que fiquem sem resposta, barbaridades – ou melhor, canalhices verbais – como aquelas que tenho lido Há quem julgue que pode afirmar com ligeireza, que LM era uma cidade onde o impune atropelamento dos pretos era normal. Não era. Aqui, a Fernanda Câncio falhou rotundamente e nem sequer pode agora invocar o seu total desconhecimento de uma terra que não conheceu, nem conhece. Cedeu ao conhecido populismo que se vier de um certo sector, tem pretensões a passar por aceitável norma. Além de uma desonestidade, consiste numa refinada patetice.

    4. Quanto à questão dos livros de leitura da escola primária, não posso ter a certeza se eram os mesmos, dadas as diferenças que víamos noutros aspectos que não eram de somenos importância: até a moeda, o Escudo, era diferente daquela que circulava na Metrópole, facto que desagradava aos nossos pais. Quantas vezes ouvi-os criticar acerbamente este absurdo!
    Quanto à posição de colonialista, francamente… Explicite qual é o seu conceito do termo, pois se o transplantar para a realidade dos anos 60 e 70, torna-se completamente anacrónica. Eu era um colonialista, sendo de 5ª geração? Nem a minha avó o era, quanto mais eu!? Só poderei entender essa hábil e ad eternum extensão do conceito, se a sem-se-ver estiver a utilizar um critério racista. Então, os negros de 2ª e 3ª geração que hoje estão em Portugal, serão em reflexo, colonialistas, principalmente aqueles que tiverem melhores condições de vida, empregos e habilitações que os seus vizinhos brancos? Não bate certo, de forma alguma. O conceito de colono, não é tão lato quanto isso.
    Se a sem-se-ver falar hoje com ingleses da zona londrina, verificará com surpresa, que muitos deles dizem estar a ser colonizados em massa por gente que chega sem cessar. É um discurso perigoso e que faz o jogo dos radicais.
    No seu ponto 7, tece considerações acerca do sentimento de injustiça extrema que a incomodaria. Tendo lá nascido e vivido, acredita mesmo ter essa consciência? É que nós sabíamos muito bem – convinha, é certo – o que se passava na África independente, nos Katangas, Zaires, Ugandas, Guiné-Conacri, ou Biafras. Desde já lhe chamo a atenção para o indesmentível facto de em LM se falar abertamente contra a situação inacreditável que víamos na África do Sul, por exemplo. Em Fevereiro de 1974, tive uma acerba troca de palavras com gente boer, em casa de uns amigos de Joanesburgo. Tinha eu 14 anos. Ficaram aflitos, pois estávamos no estrangeiro e eles consideravam a nossa situação como “debochada”, embora muitos dos seus e suas turistas fossem maleáveis assim que passavam a nossa fronteira. Esqueciam o Apartheid de forma ostensiva. Era vê-los nas ruas, bares da Rua Araújo – que eu, malandrinho de 12, 13 e 14 anos já espreitava “por acaso” -, acompanhados por rapazes ou raparigas bem escurinhos.

    Mais adiante, aventa um imaginativo pacto de silêncio. Inacreditável. Pensa que tal coisa alguma vez existiu? Nós nem sequer sentimos a necessidade de nos organizarmos como clubes, partidos, grandes grupos de pressão! Ou imagina a celebração de pactos de silêncio, vestidos de togas brancas, aventais bordados, com estrelas e compassos, mascarilhas e rituais iniciáticos? Isso são excentricidades mais próprias da gente do actual regime.

    Não pode sequer comparar o nosso grau de liberdade de expressão, com aquele que se vivia na Metrópole e isso independentemente das características do regime da 2ª república. O cerceamento da liberdade de expressão é aqui tradicional e como muito bem sabe, o sistema que foi implantado em 1910, era absolutamente avesso à publicidade bastante cómoda e legitimizadora que hoje se faz. Existia uma censura férrea, os jornais da oposição eram atacados e destruídos. Sovavam-se jornalistas, cercearam-se de uma forma sem precedentes, os cadernos eleitorais. A sem-se-ver sabe exactamente aquilo que estou a querer dizer e a 2ª República surgiu dos excessos da 1ª. Ainda hoje, o “pacto de silêncio” que menciona é uma constante na sociedade metropolitana. Ou tem qualquer tipo de ilusões acerca da cáfila de patifes grã-cruzes que já ocuparam – e muitos ainda ocupam – os mais elevados cargos do Estado? Negociatas escabrosas que fazem empalidecer as lendas e narrativas tecidas à volta dos “colonos” – o tal conceito racista que inadvertidamente utiliza – que todos conhecem e calam. Calam porquê? Já experimentou interrogar-se acerca das razões para esse muro de silêncio? A resposta poderá encontrar-se algures entre o complexo político e o mais chão aspecto da submissão ou melhor, da dependência de milhões perante o Estado. Portugal é grosso modo, um país completamente tiranizado por um Estado omnipotente e nisso, a Direita colabora e de forma ostensiva e natural, apenas fazendo valer a sua diferença em questões sem importância alguma, como as de índole privada. Quanto à patética, risível e incompetente Esquerda, já vivia de mitos durante a Monarquia – dê uma vista de olhos no discurso do Partido Progressista -, embarcou alegremente no pacovismo sanguinolento do sr. Afonso Costa et compagnons de crime e aferrou-se a oitocentismos de várias cambiantes, durante a 2ª República, de Salazar. O que hoje temos é uma consequência de um longo processo de afirmação do poder estatal que encontra a primeira raiz bem visível – embora já profunda e decorrente da centralização lisboeta durante os Descobrimentos – com o senhor Pombal, um dos “deuses” primeiros da ignorância arrogante e institucionalizada. Se Pombal imaginasse que seria comparado a uma espécie de proto-Robespierre…

    Termina dizendo que somos racistas. Pois bem. Então o que me terá a dizer acerca do que se passa em Angola, Cabinda, Moçambique e na Guiné-Bissau – para falarmos de PALOP -, para nem sequer mencionarmos a guerra civil que durante décadas devastou angolanos e moçambicanos? É que tais episódios também têm contornos claramente tribais. Mesmo em Moçambique, onde a população é bastante diversificada, existem profundas clivagens e a sem-se-ver provavelmente ficaria siderada com aquilo que escutaria. Chame-lhe tribalismo, se assim o entender, mas esse é precisamente um dos termos politicamente correctos para um racismo bastante virulento.

    Portugal racista, violento, xenófobo… enquanto isso, a língua portuguesa vai medrando em quase todos os territórios que colonizou e muito por insistência das novas autoridades instaladas pelas independências. Estranho.

    A sobrevivência do “portuguis” nas comunidades cristãs de Malaca (que perdemos em 1641!). A insistência do ensino do português no antigo Estado da Índia, residual, é certo, mas fruto do interesse das novas gerações. A persistência do crioulo português no Ceilão, em Solor, Flores, no Casamansa, nos cristãos tailandeses. É, somos uma gente horrível, apesar de tudo isso. Para a actual “situação”, a nossa língua apenas serve para grandes tiradas dos senhores do regime, citando Fernando Pessoa – que aliás os odiaria de morte – e pouco mais. Conversa para “negócios” dos amigos e apaniguados dos srs. Cavacos, Soares, das trupes BPN, Emaudios, Sonaes, etc, etc. O Estado não ajuda o ensino da nossa língua, deixando ao abandono um património precioso, no exacto momento em que o eixo do mundo parece deslocar-se para a nossa antiga zona de influência cultural, a Ásia. Sem o incentivo de Gulbenkians e Fundações Oriente, o ensino do português dependeria exclusivamente do interesse localizado de terceiros e claro está, da aparente emergência do Brasil que bem pouco faz para o seu ensino. Neste campo, até parasita o pouco que as instituições portuguesas fazem – Instituto Camões -, nomeadamente na China, onde já é a segunda língua europeia na Univ. de Pequim, a seguir ao inglês. Já se deu conta?

    Vamos então, para finalizar, aos outros, os bonzinhos e liberais:

    A libérrima Holanda. 400 anos de presença férrea na Insulíndia, hoje rep. Indonésia. A língua dos batavos perdeu-se quase totalmente, existindo umas dúzias de termos, em contraste com centos de palavras do português dos séculos XVI e XVII. O holandês não pesa nem existe no cômputo das grandes línguas europeias.
    Os japoneses chegam a Java em 1942 e como primeiro acto da Nova Ordem, procedem à abolição do uso de grilhetas nas pernas dos serviçais nativos das plantações dos senhores holandeses.
    O caso boer.
    O eclipse do holandês no Suriname. A forte extrema-direita holandesa, presente no Parlamento e em tremendo contraste com o que se passa em S. Bento, onde não possui um único assento!

    A Itália, fraca colonialista que ao contrário do nosso longo período ultramarino, se manteve pouquíssimo tempo em África. A guerra feroz da conquista da Abissínia, o tratamento pesado dado aos líbios e somalis. O que hoje se vê à hora do telejornal numa Calábria a ferro e fogo. Já viu coisas semelhantes em Portugal?

    A Alemanha, que foi expulsa do seu Ultramar em 1918.
    Que tipo de racismo ali vislumbra? Como explica aquilo que se passou nos anos 10, 20, 30 e 40? Como explica o espancamento de polacos, portugueses, turcos e negros, precisamente nos territórios “libertados do fascismo” em 1945, exactamente na antiga RDA? Compare o grau do dito racismo com o que aqui existe. É melhor? Pior? Deixo ao seu critério.

    Os EUA. Os Estados do Sul – hoje – e do Centro. A eleição de Obama, derrotado nos Estados do Sul, tradicionalmente do P. Democrata mas que jamais votariam “no preto”.
    O discurso exacerbadamente racista da Nation of Islam e dos radicais cristãos negros. Sabe o que eles dizem acerca da existência dos brancos? Sem comentários.

    A Rússia, que jamais teve oficialmente colónias em África. Digo oficialmente, porque na prática, os anos 60, 70 e 80 mostraram outra forma de descarado colonialismo de extorsão pura e simples, onde Moçambique consistiu numa das principais coutadas, também habilidosamente aproveitada pelos libérrimos suecos e dinamarqueses.
    Sabe qual é hoje a situação dos estudantes negros nas universidades russas? Onde foi parar o discurso “internacionalista” do sovietismo? Fale com um “russo ou ucraniano perto de si” e questione-os acerca daquilo que pensam dos negros.

    O Zimbabué, ex-Rodésia. Como classifica a sem-se-ver o tipo de regime do sr. Mugabe. Genocida? Racista, Tribalista? Libertador? Estou curioso por conhecer a sua opinião acerca daquilo que o regime de Harare oficializa a respeito dos brancos como gente.

    E o Ruanda, onde 1 milhão de pretos foram mortos à catanada por outros pretos e em menos de um mês? Não foi racismo. Decerto tal coisa se deveu à pérfida interferência colonial. Pois…

    O Congo/Kinshasa. Sem comentários.

    O regime do sr. José Eduardo dos Santos, o libertador de Angola. Sem comentários.

    Os regimes dos srs. Luís Cabral e logo a seguir, de Nino Vieira. Valas comuns, assassinatos em plena rua. Nada de anormal, porque aconteceu “entre pretos”.

    A ocupação javanesa de Timor-Leste: etnocídio, extorsão. Culminou com a segunda invasão, após o referendo. As mesmas cenas de sempre, com catanadas, pessoas queimadas vivas, pavor total. Nada que incomode, pois os javaneses são “da mesma cor”, logo não são colonialistas e muito menos ainda, racistas. Em suma, não são brancos.

    O Tibete. Bah… who cares, it’s a “chink problem”.

    O Sinkiang chinês… bah, “muslim bastards!”

    O sistema de castas na Índia que remete o Apartheid para coisa pouca.
    Curiosamente, os únicos locais onde a diferença não era extrema, situavam-se nas posições ocupadas pelos arcaicos portugueses até 1961. Pergunte aos muçulmanos do Estado da Índia, a razão pela qual eram – nas palavras dos gen. Vassalo e Silva e Carlos Azeredo -, “fidelíssimos a Portugal”. Porque seria? Esquisito…
    Lembra-se da separação Índia-Paquistão de 1947? O que aconteceu? Racismo? Não…, apenas um “assunto entre monhés”…

    A Espanha dos espampanantes porompompons e olarés da habitual cacofonia que o regime de Lisboa – e o namorado da Fernanda Câncio – tanto gosta de seguir. Sabe como são tratados os trabalhadores oriundos da América do Sul? Sabia que o nome dado aos índios do Peru, Bolívia, Equador (etc) que trabalham em tudo o que é sítio, é CHINCHETA ? Sabe o que é “una chincheta”? É um punaise, um alfinete de escritório. Conhece a razão de tal apodo? Deve-se ao facto de os moderníssimos espanhóis verem os índios como gente de cara achatada, como punaises. Já se deu conta do violento racismo – seja ele contra negros, magrebinos, castelhanos ou andaluzes – que grassa na Catalunha? Ouça os discursos do sr. Carod Rovira, lider de um grupelho que dá pelo original nome de Esquerra Republicana de Catalunia. Le Pen não ora melhor.

    Já ouviu falar no Bloco Flamengo (Bélgica)? O que eles dizem acerca dos valões – brancos – e dos estrangeiros em geral? Experimente pesquisar.

    Cara sem-se-ver,

    o problema não é português e estende-se ao globo inteiro. Lembra-se dos filmes, séries, telenovelas, jornais, revistas, Diários e Memórias que se centram nas desventuras dos judeus? A situação dos palestinianos diz-lhe alguma coisa? E a dos cristãos coptas que perfazem 10% do Egipto e que são uma minoria discretíssima pelas razões que se imaginam?
    Experimente sair à rua em Riade, com um fio ao pescoço, ostentando um crucifixo. Logo sentirá as costas quentes.

    Pois é, a culpa …”é toda de D. Afonso Henriques, do Infante, de Vasco da Gama, de Fernão Mendes Pinto, de Afonso de Albuquerque, de Pedro Teixeira, dos Bandeirantes, de D. João IV e dos Restauradores, do Pde. António Vieira, de Mouzinho, do rei D. Carlos e da rainha Dª Amélia e de tantos, tantos outros”…. Esses, eram umas bestas, enquanto excelentes criaturas, são os senhores “de Esquerda e da Direita liberal de hoje” que querem que entre gente em Portugal para trabalhar clandestinamente e à mercê dos betoneiros que sustentam o sistema que temos. São esses preclaros “democratas de longa data” que dão as directivas ao SEF, que inventam processos infindáveis de legalização e que atiraram os chegados para o favelismo suburbano que liquidará a própria capital portuguesa. Grande democracia, esta.

    Sabe quantos pretos existem no Parlamento? Um, do CDS.

    Por questões próprias da propaganda salazarista, contabilize os que se sentaram na antiga Assembleia da 2ª república. Propaganda é certo. Mas estes, os nossos de hoje, não têm qualquer sentido das realidades e nem sequer, o necessário e mais elementar pudor.

    Questione o Coronel Marcelino da Mata, o homem mais condecorado das antigas Forças Armadas Portuguesas. Ele logo dirá pelo que passou às mãos dos “democratas de longa data”, presuntos émulos do paizinho da Sra. Dª IF. Ele vive em Portugal e teve mais sorte do que dezenas de milhar de soldados abandonados pelos senhores de Abril, a tal “revolução sem sangue” e que apenas deu azo a uns milhões de mortos – pretos, claro – em guerras civis, fome, doenças e outras negligenciáveis misérias. Nada de importante – “estórias de pretos”, como dizia o pai da Sra. Dª IF – , com certeza. Pesquise na net.

    Bem vinda ao inefável mundo do luso-masoquismo.
    Os outros agradecem e já agora, quando estiver ao pé de estrangeiros, diga o pior possível do seu país. Ficar-lhe-ão eternamente gratos por se inferiorizar.

    Eu sou euro-africano e português. Com toda a naturalidade, não cedo nem um milímetro. Devo ser um anormal.

    Cumprimentos,

    Nuno

    Nuno

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 18/01/2010 @ 1:11 am

  64. Caro JPT,

    Como acima longamente aborreci a cara sem-se-ver, não vou ocupar muito espaço. No que se refere às minhas memórias “entruncadas em comentário” (LOL!), repito o que disse à sem-se-ver:

    Não tenho descaramento para me atrever a um empreendimento dessa monta. Falta-me o necessário talento e o que vejo nos escaparates FNAC e assisto na TV em programas como “conversas entre escritores”, afasta-me de tal aleivosia. Sei enxergar-me.

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    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 18/01/2010 @ 1:18 am

  65. Estou basicamente de acordo com quem disse “a Cancio gostou, então não presta…”.

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    Comentar por João Melo de Sampaio — 09/05/2013 @ 4:42 pm


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