THE DELAGOA BAY REVIEW

11/01/2010

RATUS MORTIS

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 10:25 pm
o rato roeu a rolha da garrafa do rei da rússia

o rato roeu a rolha da garrafa do rei da rússia

por ABM (Cascais, 11 de Janeiro de 2010)

Hum, hoje faz 120 anos que o governo britânico mandou aquele telegramazito a dizer ao governo português para mandar as suas precárias tropas sair das terras de Cecil Rhodes ou arriscava-se a levar umas buzacadas em Lisboa a partir da sua frota no Tejo.

Adiante.

Ontem a partir das dez horas da noite tive uma dupla experiência em Cascais.

A primeira, menos traumatizante para quem tem vivido em certas partes de África, onde os confortos da vida como ter água e electricidade em casa não são tidos como garantidos, foi aquilo que um jovem do atendimento telefónico da empresa Electricidade de Portugal me revelou ao telefone ter sido um “corte geral no fornecimento de electricidade à área de residência”.

Durante cerca de uma hora e meia, no dúbio conforto de um apartamento completamente às escuras, um frio de rachar e chuva copiosa lá fora, lá descortinei umas velas que sobraram do Natal, mais duas velas no candelabro da bisavó que estavam ali para decorar, mais um brinquedo meio estranho do Dr. Micael que, no meio da sua electrónica sofisticação, acendia uma luzinha quando se carregava num botão.

Eventualmente, como um grito civilizacional vindo do nada, a energia voltou, disparando ao mesmo tempo as luzes, frigorífico, televisão, computadores, impressora, telefones, router, etc. Acabaram-se o silêncio e a escuridão.

Mais grave foi, cerca da meia noite, estava eu a rever uma mensagem para um amigo, quando aquela rodinha que está no meio na parte da frente do rato do meu computador, partiu-se. Ou melhor, parti-a.

Em casa ainda uso um velho (quase seis anos já é velho) computador daqueles de caixote que ficam no chão, a que se liga um teclado, um écrã e o rato. Comprei-o ao Fernando Macedo em Moçambique e ele já deu umas voltas pelo mundo, tendo sido reparado duas vezes. O maior elogio que lhe posso fazer é dizer que funciona.

Com a rodinha do rato partida, logo descobri, a setinha que fica no ecrã deixou de mexer.

Ou seja, o computador, que de outro modo funciona normalmente, não fazia rigorosamente nada.

Corajoso, ainda fui buscar uma chave de fendas para ver se os meus dotes de handy man me serviam e dava um geito naquilo.

Só que em cinco minutos desfiz o resto do rato e fiquei com dezanove peçinhas de rato na mão. Sempre generoso comigo próprio, logo que me convenci que de facto aquilo não tinha conserto de qualquer maneira e que o melhor era sofrer o corte de comunicações e passar ao plano B: comprar um rato novo no dia seguinte – hoje.

Assim, ao princípio da tarde de hoje, já banhado, perfumado, vestido e artilhado com dinheiro, máquina fotográfica, carta de condução e acompanhado da minha amiga Dra Dulce Gouveia, que tinha que comprar ração para os seus vinte gatos, dirigimo-nos juntos para o Cascais Shopping, ela para o Continente e a ração e eu para a Worten para comprar um rato novo.

A secção dos ratos informáticos da loja Worten (que um jovem funcionário referiu como a secção dos máuzes) é um verdadeiro microcosmo do mundo actual. Tem ratos de todas as qualidades, formas, feitos, cores e preços. Há ratos com fio, ratos sem fio, ratos ópticos, ratos que fazem coisas que eu não sabia que os ratos faziam, alguns tinham descrições longuíssimas das suas especificações técnicas (naquela letrinha que só se pode ler com um microscópio), outros tinham garantia para toda a vida, outras vinham com um disco compacto e instruções, outros ainda diziam apenas “rato”. Havia ratos por 120 euros e havia ratos por 5 euros. Havia ratos brancos, pretos, amarelos, côr de rosa, dourados, castanhos, azuis.

Depois de uma aturada análise, tomei a decisão e decidi comprar um rato preto com fio, óptico, daqueles que só precisa de ligar à ficha do rato do computador.

Custo: 4.79 euros.

Um rato, portanto, para os pobres.

Voltando a casa depois de despejar a Dulce em casa dela mais os sacos de ração dos seus gatos e um magnífico Atlas de Moçambique que arranjou num alfarrabista, fiz uma espécie de funeral das 19 peças do meu defundo rato e, após pensar nos (poucos) anos de úteis serviços que me prestou, liguei o novo rato.

Funciona bem.

E cá estou outra vez.

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