THE DELAGOA BAY REVIEW

13/01/2010

Guernica, 1939, e o Continente

Filed under: António Botelho de Melo, História — ABM @ 7:52 pm

http://www.youtube.com/v/I_65LYLzvvI&hl=en_US&fs=1&

por ABM (Cascais, 13 de Janeiro de 2010)

Um dos pequenos suplícios do meu quotidiano é ter que ir às compras ao supermercado. Não pelo acto em si. Mas porque nestes dias, nem sei bem porquê, quem faz as compras é a Patroa. Eu apenas relego-me à função de segui-la pelos corredores e conduzir o carrinho das compras.

Ao contrário de mim, para quem a compra da comida para a casa é uma função em que misturo a máxima eficiência com uma pesquisa rápida de preços, sempre com o objectivo de me despachar dali para fora, para a Patroa as compras são um ritual digamos que mais analítico e reflexivo, mais intemporal, com outros parâmetros, como a qualidade, o que é que diz mesmo o rótulo, que novos produtos é que há, e vai por uma misteriosa lista mental do que ela quer – e não pela forma como os produtos estão dispostos na loja.

Por outras palavras, é uma valentíssima seca.

Quando eu era mufana em Lourenço Marques, não sei porquê, era o pai BM que fazia a maior parte das compras da casa. Como o filho-em-residência (os 3 irmãos estavam todos a estudar na África do Sul e as 3 irmãs, misteriosamente, não participavam no exercício) o pai BM às sextas-feiras fazia-me saltar da cama às 5 da manhã e eu fazia mais ou menos as mesmas funções de hoje, só que o pai BM era, por comparação, de uma velocidade fulminante a fazer as compras, e no Mercado Municipal na baixa (agora designado Mercado Central, por razões obscuras) claro, não havia carrinhos. O pai BM levava um daqueles cestos enormes de palha na mão e eu dois. No princípio das compras aquilo era fácil, mas lá para o fim, quando os cestos já estavam cheios de fruta, legumes, hortaliças, etc, seguir o pai BM naqueles passos rápidos no meio do que me parecia a maior confusão, exigia, para um puto com 8-11 anos de idade, folgo olímpico e a precisão de um kamikaze. Mas era rápido. E eu adorava o ritual, a algazarra e aquele fulgurante despertar da cidade.

Bem, de volta ao presente.

Como a loja que habitualmente frequento é o gigantesco supermercado Continente no Cascais Shopping, pois temos lá um cartãozinho que dá um desconto qualquer, isso significa que não é fora do habitual este processo das compras levar mais do que hora e meia.

O problema que eu tenho (deve ser trauma da infância) é que por aí à volta de 45 minutos depois de entrar, fico positivamente saturado de estar ali. Não sei se é a iluminação, a música, o ambiente, o ritual, há ali qualquer coisa na experiência que não resulta para mim.

Para me tentar distrair, o que tento sempre fazer é escapulir-me desta parte dos deveres conjugais e discretamente deslocar-me para a secção dos livros (tem lá uma, não muito má) a ver o que por ali anda. E habitualmente consigo enfiar um livro entre uns pacotes de esparguete e um saco de tomates, para ler em casa. A patroa, sublimemente generosa, aceita a paz resultante em troco desse subornozito.

Mas nem sempre corre bem. O raio do lugar é tão grande que depois tenho que recorrer à modernice ridícula de telefonar à Patroa no telefone celular, para saber onde é que ela anda. Por essa altura devia estar entre os desodorizantes e os detergentes da casa, mas não é certo, pois, como disse, ela não segue o plano da loja.

Pois este fim de semana aconteceu a mesma coisa e o meu troféu da expedição ao supermercado foi 1939, um livrinho fascinante e pequenino de um professor de História da Universidade de Exeter chamado Richard Overy, magnificamente traduzido por uma sra chamada Patrícia Oliveira (Dom Quixote, 2009).

De certa forma, o livro é um preciosismo, na medida em que Overy, que tem obra considerável no tema da I e II Guerras Mundiais, dedica-se aqui unicamente ao contexto e aos eventos que imediatamente precederam, há 70 anos, o despoletar da Segunda Guerra Mundial, com a agressão militar à Polónia por parte do exército alemão. Polónia, que tinha sido “esculpida” escassos vinte anos antes com partes da Alemanha e da Rússia, e que Hitler achava que era o quintalinho que os alemães tinham que ter, para além de Danzig, uma espécie de Jerusalém de Leste, que era uma dor de cabeça desde o momento em que o esquema foi inventado.

Os factores que mais me impressionaram do relato do prof Overy foram 1) a ilusão colectiva (aferida a posteriori, claro) em relação às reais intenções de Adolf Hitler quanto à Polónia, sendo ele a figura incontornável na altura; 2) o nível de bullying que Hitler utilizava na gestão da sua política externa, que atingiu níveis inacreditáveis – estamos a falar de primeiro-ministros, embaixadores e ministros dos negócios estrangeiros; 3) que por um fio a guerra, que já era tida como perfeitamente inevitável, não começou não na madrugada de 1 de Setembro de 1939 (uma sexta-feira) mas cinco dias antes, a 26 de Agosto. Por causa de um embróglio diplomático, Hitler cancelou a invasão na noite de 25 de Agosto.

Hitler e a sua equipa utilizaram um novo modo de fazer a guerra, a que chamavam blitzkrieg, que consistia em, por um curto período, aplicar a máxima pressão militar sobre o oponente, utilizando então novas tecnologias tais como tanques e bombardeamentos aéreos maciços – tecnicamente chamados de saturação.

No vídeo acima, que uma querida amiga me indicou, está um interessante tratamento por Lena Gieseke do quadro Guernica, de Picasso, alusivo a um bombardeamento alemão de uma vila basca (de onde vem o nome da obra) em Abril de 1937, que de certa forma, não tendo sido o primeiro bombardeamento aéreo, é considerado o primeiro bombardeamento de saturação de uma cidade na Europa e teve um enorme impacto na opinião pública de então, não só porque assinalou a dimensão da agressividade dos regimes fascistas na Europa dos anos 30, como deixou antever como poderia ser uma guerra futura.

Que foi, começando com Londres, Dresden e acabando em Hiroshima e Nagasaki.

Cito a mensagem que recebi: “Lena Gieseke, uma artista nova-iorquina, que domina as mais modernas técnicas de infografia digital, decidiu propor uma versão 3D da célebre obra e colocá-la na net sob a forma de um vídeo. O resultado permite-nos visualizar detalhes que de outro modo nos passariam despercebidos. Esta técnica inovadora revela-se um instrumento poderoso para compreender melhor a forma de trabalhar do pintor e até o modo como funcionava a sua imaginação.”

Excelente leitura. Vou tentar lembrar-me disto tudo da próxima vez que fôr ao supermercado fazer as compras.

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1 Comentário »

  1. Não tens, pois, nenhuma razão de te queixares das idas às compras ….

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    Comentar por jpt — 14/01/2010 @ 8:39 am


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