THE DELAGOA BAY REVIEW

14/01/2010

Sobre a Blogosfera, 1

Filed under: Bloguismo — ABM @ 2:45 am

Evolução do Índice da Liberdade 2002-2009, fonte: Freedom House, citada no Economist de 12 de Janeiro de 2010

por ABM (Cascais, 13 de Janeiro de 2010)

Confesso que nunca levei muito a sério isto de pessoas botarem de sua justiça na internet. Achava e acho alguma piada, mas pouco mais. Não sendo lá muito politicamente activo, gosto de história, de Moçambique, e de economia, e lia o Maschamba, sobre o qual agora não posso falar agora muito em termos de elogio senão lá vem o nosso Senador dizer que eu agora faço parte da conspiração maschambiana e que fica mal elogiar a casa.

Hoje há blogues para tudo e sobre tudo, desde sobre cuidar de rosas até sobre culinária regional. E nós aqui gostamos de falar de Portugal e Moçambique e o resto que nos dá na cabeça. Faz parte da riqueza da internet.

Mas há lugares onde a história é bem diferente, onde ter um blogue que fala de assuntos da vida desses lugares é estar na crista do combate por valores bem mais elevados do que o mero exercitar dos musculozinhos dentro da cabeça lá em cima enquanto se beberica um café com leite depois do jantar.

Wael Abbas é um homem que escreve um blogue sobre direitos humanos no Egipto. Com trinta e cinco anos de idade, ele não tem emprego daqueles que dá dinheiro, é solteiro e vive no Cairo em casa dos pais. Do que entendi, as suas únicas posses no mundo são um velho computador num quarto em casa dos pais e o seu blogue, onde ele, mais ou menos como o comum cidadão na maior parte da União Europeia, critica o governo do seu país e denuncia aquelas irregularidades próprias de regimes autoritários – violência, violações dos direitos humanos, abusos das autoridades, nepotismo ao mais alto nível, negociatas, etc.

Ontem e hoje, o serviço internacional da BBC transmitiu e re-transmitiu uma interessante entrevista (no programa Hardtalk) em que a magnífica Zeinad Badawi entrevistou Wael Abbas.

O Egipto faz parte daquela região efervescente a que chamamos o “Médio Oriente”. Desde que Anwar Sadat foi assassinado numa parada em 1979, reputadamente como vingança de ter feito um acordo de paz com Israel, o poder tem sido detido pelo seu vice-presidente, Mubarak.

Em Setembro de 2004 visitei o Egipto por duas semanas, o que incluiu um cruzeiro de uma semana pelo Nilo abaixo num daqueles paquetes delapidados dos tempos da Agatha Christie, cheios de velhotas inglesas reformadas que também se pareciam todas com a Agatha Christie, e umas visitas oportunas aos principais monumentos. Nas visitas programadas aos túmulos, que eram em geral às 4 da manhã por causa do calor, ficava na minha suite a dormir, o ar-condicionado no máximo enquanto as velhotas iam de expedição para os confins do deserto. Portanto a rainha Nefertiti vai ter que esperar até uma futura oportunidade.

Tirando a curiosa beleza da paisagem – invariavelmente sempre a menos de 5 minutos do majestoso rio Nilo – e as particularidades dos inenarráveis e milenares monumentos do antigo Egipto, achei o calor impressionante, a gente muita e muito pobre e o ambiente um pouco…controlado demais.

O Egipto é uma democracia um pouco como era a do Portugal de Salazar e de Caetano. Quase tudo é governo, tem o que o Fernando Lima chama (no contexto moçambicano) um “Partidão” daqueles mesmo grandes, tropas por todos os lados (lá se a tropa e a polícia não dá cabo de nós, dão os radicais islâmicos), cartazes gigantes com aquelas frases feitas de regime, fotos gigantescas do presidente com aqueles rejuvenescedores retoques cor de rosa nos bochechas e nos olhos, dando-lhe aquele ar de movie star made in Bollywood, e até têm um enorme museu sobre a Grande Vitória contra Israel na Guerra dos Seis dias em 1967” – que, se não me engano, perderam, contrariamente ao que dizia, em sete páginas, a revista de bordo da Air Egypt.

Tirando o Cairo, que é enorme e cosmopolita e que tem a sua Burguesia Residente, em média aquilo anda um bocado parado e parece que o negócio é o turismo, as negociatas e o import/export (hum, pensando bem nisso muito parecido com Portugal). Têm mesquitas como Portugal tem igrejas, só que do alto dos minaretes (alguns com inexplicáveis luzes néon que brilham na noite) têm uns gigantes alti-falantes que, não sei quantas vezes por dia fazem umas invocações à oração de tal maneira que acordam um morto. Especialmente a invocação das 4 da manhã.

Mas, apesar de eu não saber ler uma palavra de árabe, percebe-se que a informação ali é mais controlada que o dinheiro no banco. Fica-se com a impressão de que há uma linha oficial de discurso, e tudo o que sai fora disso é mais ou menos visto como hostil ao Estado, a Deus e ao Povo.

É neste contexto que Wael Abbas publica os seus textos num bloguezinho.

Que já chegou ao um milhão de visitantes.

Para além de falar de sexo, de religião e de política, esta numa óptica claramente crítica ao regime do Senhor Mubarak, o Senhor Wael sente que o que diz o seu blogue é, para além de um espaço de sanidade no que parece ser um mundo de loucos, um rasgo de consciência e de respeito pelos direitos do seu povo.

Talvez por isso, segundo ele, tem sido alvo da mais estapafúrdia perseguição por parte dos seus críticos, que incluem praticamente todo o estado egípcio e os seus afins.

O Wael diz que dorme em paz à noite.

Admito. Mas nestas circunstâncias, talvez fosse boa ideia fazê-lo com um olho aberto.

Como ele, há outros em países com contextos bem mais severos, como na China Inc, no Tibete, no Irão, Coreia do Norte, etc, onde escrever num blogue não é o exercício leve que aqui se pode crer que seja.

A todos, presto aqui a minha humilde homenagem.

E desta vez até alimento a vaga esperança de que os meus camaradas Senador e Baronesa assinem por baixo.

Para variar.

Para o exmo leitor ver a cara de Wael e um clip de três minutos da excelente entrevista, prima aqui.

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3 comentários »

  1. Bonito ABM e parabens! Habituamo-nos tao depressa ao que e’ bom, como poder dizer e escrever o que nos apetece sem riscos demais que umas bocas que nos mandem, que nao nos lembramos o suficiente de quem o faz com tantos riscos…

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    Comentar por AL — 14/01/2010 @ 7:49 am

  2. Vénia ao wael abbas. E também ao texto.
    o blog em causa é o الوعي المصري (em árabe, mas com muito youtube).

    E, ABM, vamos a ver se isto fica esclarecido: eu assino por baixo todos os teus textos aqui. Ou dizendo melhor, eu assino ao lado dos teus textos todos – partilhamos um blog. Discordando por vezes, mas gozando muito com a partilha e nisso concordando com o fundamental. À nossa descansada forma (particularmente em comparação com todos os Wael Abbas) é uma forma de liberdade – botarmos a nossa faladura sem ser num castro de fiéis da mesmíssima missa. Apenas numa fogueira da mesma crença

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    Comentar por jpt — 14/01/2010 @ 8:35 am

  3. “O Egipto é uma democracia um pouco como era a do Portugal de Salazar e de Caetano.”

    Num contexto tipicamente africano, mesmo contemporâneo, os Profs. Salazar e Caetano eram/são AUTÊNTICOS, GENUÍNOS, PUROS,…democratas, e do mais avançado que havia/há – em África, claro.

    Agora, como Português, já branco de 1ª classe, ou “quasi”, assimilado q.b., e no contexto deste pequeno jardim à beira mar desabrochado, tenho “piquenas” dúvidas, muito “piquenas”…

    As técnicas é que diferem, salvo as devidas proporções e sofisticações…e decorrência de datas.

    Para não falar da “jardineilândia”, para gáudio dos continentais!

    Também gostei daquela do Tibete, a colónia, ou campo de concentração? da tal RPChina, Inc.

    É bom não esquecer – Tibete não é China, Inc.

    Quanto ao Wael Abbas, honra.

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    Comentar por umBhalane — 14/01/2010 @ 11:41 am


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