THE DELAGOA BAY REVIEW

16/01/2010

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

15 comentários »

  1. Eu tenho ca para mim ABM que esta coisa nunca se vai conseguir tirar a limpo de uma vez por todas, pelo que receio ser a tua esperanca va…

    Comentar por AL — 16/01/2010 @ 10:31 am

  2. E eu acho que elevaste a crítica literária (in-blog) a píncaros nunca antes alcançados …

    Comentar por jpt — 16/01/2010 @ 11:39 am

  3. Estou embasbacado!

    Gabo-lhe a paciência, e a fibra, mas também só havia esse caminho “decente”, não é?

    De boa massa, têmpera.

    As fotos ABM são autoria da Dulce? Lol…

    Comentar por umBhalane — 16/01/2010 @ 8:30 pm

  4. Este post parece-me inane e de má fé. Não li ainda o livro, conheço alguns dos textos e li o tão repelido “perfil” da Fernanda Câncio. É óbvio que mesmo sem ter lido o livro o autor do post sabe ao que vai. Parece-me que qualquer livro dissecado do mesmo modo nos pareceria ridículo. Estranho, a partir dos textos que já li, que cause tanto desconforto. Parece-me que tem uma parte pessoalíssima dominante (que interessa ou não) e uma parte de memórias que tenta contextualizar uma experiência que poucos de nós conhecem mas que nos foi tangencial a todos, em maior ou menor grau. Creio que já todos sabemos que não houve colonialismos “bonzinhos” ou “amigos”. Creio que todos sabemos o enorme preço que alguns continuaram a pagar, mais tempo que outros. Creio que também é sabido que por mais que na época “se fizesse assim”, nada impede que esse tempo seja revisitado e revisto. E onde possível, rectificado. O que é que é tão chocante no que ela escreve? Que o lado mais chocante do colonialismo foi feito por alguém? Por pessoas que falavam a mesma língua que nós? Por pessoas que o faziam até “em nosso nome”? Serão verdades que podemos saber em abstracto mas que recusamos personalizar? Talvez por isso o regime que originou tudo isto não tenha tido culpados. É pena porque a minha única relativização dos colonialismos da época é que de facto alguns deixaram para trás um pouco mais do que outros – e os colonialismos portugueses, incompetentes como tudo o resto, deixaram para trás absolutamente nada. Vão lá ver se quiserem – e isso ainda não está em livro nenhum.

    Comentar por CC — 16/01/2010 @ 8:45 pm

  5. Embora tenha gente que não tem complexos de falar daquela época, 1963-1974, não é concerteza a Isabela que se encontra nessa gente sem complexos.

    E se neste livro não há apenas comercio e banha da cobra, penso que haverá sinceridade, existe concerteza enormes complexos.

    Comentar por retornado de angola — 16/01/2010 @ 10:00 pm

  6. Num comentário a um post anterior e relativo ao mesmo tema, já me irritei e excedi, escusadamente.

    Para quem nunca esteve em África ou lá viveu uns parcos anos e fechada a sete chaves em casa, tudo não passa de ficção, de delírio necessário á catarse. O seu problema pessoal não lhe confere qualquer tipo de arrogante direito em salpicar toda a restante comunidade.
    É tão absurdo comparar – ainda hoje – a realidade de um lugar como a Matola com Lourenço Marques, como exercer o mesmo tipo de generalização entre a Quinta do Mocho e Lisboa. Disparatado abuso, principalmente quando provem de alguém que à data era uma recatada impúbere que conhecia o mundo às cavalitas do pai. O mundo que teria uns tantos centos de metros quadrados.

    Ninguém tem a culpa de o pai da autora ter sido – nas suas próprias palavras – absurdamente violento, preconceituoso, primário e disfuncional. Houve quem se ofendesse por noutro comentário ter usado a palavra “maguérre”, um termo local com que os negros apodavam os brancos de certo calibre. Aqui em Lisboa, chama-se bimbos e no Porto, azeiteiros. Não é defeito, mas feitio, como se diz.
    O problema da senhora é pessoal, a raiar o neo-realismo doutras épocas. No entanto, insere-se no “espírito do tempo” que passa. É o apelo às carpideiras, sempre prontas a atirar mãos de areia à cabeça e ao conveniente descascar de cebolas.

    Cada um é responsável por aquilo que fez ou faz. Não temos que arcar com culpas que se perdem na noite dos tempos, desde o Viriato, os visigodos, os mouros ou o Albuquerque, os, srs. Hitler ou Estaline. Não temos de ter complexos de culpa – o malfadado politicamente correcto -, como se geneticamente fossem susceptíveis de herança!

    Temos de atender ao que hoje se passa e a situação em certos países não é agradável. As independências ocorreram há duas gerações e não se vislumbram grandes vantagens. Essa é a triste realidade e os números da ONU são flagrantes, esmagadores. Ironia das ironias, nem sequer atingem hoje os níveis de desenvolvimento dos anos 50. Essa é a realidade que a todos deve preocupar e que sinceramente, desejaria ver Moçambique ultrapassar.

    Finalizando, o tal “á memória do pai”, acaba por ser uma ciclópica lápida sobre a sua decência como ser humano. Bela ode de amor filial, não há qualquer dúvida…
    Mas que se fique por aí, não pretendendo fazer-nos embarcar na sua jangada de conveniências. Trate-se através de outros testemunhos, entrevistando – se puder – milhares de pessoas que ali nasceram e são filhas de consecutivas gerações de naturais.

    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 17/01/2010 @ 3:24 am

  7. CC eu discordo do seu “Parece-me que qualquer livro dissecado do mesmo modo nos pareceria ridículo”. Náo vou tomar a defesa do ABM (ele não precisa, um texto de blog também não) mas permita-me realçar o agudo tom semiológico que ele entoa: “regresso” de quê. Isto não tem a ver com a autora, tem a ver com a edição, com o substrato ideológico que está ali. A autora tem um tom pessoal, um objectivo pessoalissimo? Ok, tudo bem. Mas a produção, disseminação e recepção do seu texto ultrapassa-a. E é evidente que esta afirmação – que provavelmente lhe é exógena – do seu “regresso” é um dado matricial sobre aqueles que a acolhem (e divulgam). Ou seja, o corrosivo ABM (e nao se tratará de máfé mas sim de corrosão, permita-me a discordância) entrou como “faca em manteiga”: se o tom do livro é assumidamente pessoal então não há regresso; se o tom pretende ser analítico, sobre um “social” então haverá um “regresso” (o da sua comunidade de origem) mas então terá que ser analisado, lido, criticado segundo outros parametros. Honestamente, e repito o meu anterior comentário, é um píncaro de análise literária.

    Depois há o seu propósito que os “colonialismos portugueses” foram “incompetentes” e nada deixaram para trás. A incompetência do colonialismo português (e a sua mediocridade face aos outros) foi um argumento recorrente, de origem anglófona e de extracção marxista – foi uma forma de combater o serôdio colonialismo português mas foi também produzido num àmbito racista (por um lado de supremacia nórdica sobre os latinos, por outro lado, e paradoxalmente, desvalorizando as menores barreiras raciais face a contextos anglófonos vizinhos, de bom colonialismo: Rodésia e Africa do Sul). Sei (presumo) que nao é isso que quer dizer ou apoiar, mas esse (hoje já nao tanto) recorrente argumento é não só historicamente descabido mas é um “false friend” – aparenta ser anti-colonialista e anti-racista mas provém de um discurso racista e defensor de um arquétipo colonial (e, esse sim, bem mais seròdio do que o portuguès). Sobre o não deixar nada!? Nao me parece que valha a pena discutir, é uma irrealidade histórica (nao uma falsidade, mas sim uma irrealidade): o que é deixar algo? Ou por outras, se o colonialismo era uma violencia desmedida (pois o era) como louvar os colonialismos que deixaram muito (ou algo) – ou seja que foram eficientes – em detrimento dos que nada deixaram (que pouco colonizaram). Não discurto a versão material do seu (também recorrente) argumento (que muitos virao dizer falso porque se fez isto ou aquilo), discuto sim a ilógica total desse argumento.

    Comentar por jpt — 17/01/2010 @ 3:41 am

  8. Exactamente, JPT.

    A conversinha de café de esquina, a propósito de “nada se ter feito” em África, é facilmente desmontável pelos próprios números disponibilizados pela ONU. Os rotineiros carpidores de mágoas alheias, que se dêem ao trabalho de visitar cidades africanas, de Nouakchot a Gaberones, de Lagos a Cartum ou a Dar-es-Salam, passando por Kinshasa. Compare-as com a Lourenço Marques ou a Beira. Consulte os dados referentes à situação das infraestruturas existentes em 1974 e tudo o que se refere à sanidade, escolas, índices de produção de alimentos, mercados, etc. Houve alguma epidemia que tenha provocado mortandade em Moçambique? Não. Houve alguma fome devastadora como certas outras que por lá grassaram durante décadas? Não. Apenas ficávamos atrás da África do Sul, Rodésia e de Angola. Batíamos os Congos, os Senegais, Camarões, Tanzânias Ugandas e todo o fictício rebotalho ex-franco-britânico mais a norte. Sem comparação qualquer! E podemos continuar indefinidamente. Uma brutal taxa de crescimento económico, portos aeroportos, hospitais perfeitamente equipados e abertos a todos, centros e postos médicos urbanos e rurais, etc, etc. No Portugal moderno e europeu fala-se “maningue” e com “tsutsuma”, vomitando-se todo o tipo de parvoeiras bem convenientes aos nababos que ainda tripudiam a bel-prazer.
    Informem-se, visitem, comparem e falem depois.

    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 17/01/2010 @ 4:00 am

  9. JPT,
    Gostei do seu comentário e percebo bem as nuances que me aponta. Relativamente à primeira parte, do “regresso”, também concordo que haverá uma falta de lógica na proposta… As pessoas que conheço com o mesmo tipo de história fazem esta confusão com frequência, e falam de regressos a sítios de onde nunca vieram – talvez por isso não me tenha parecido um elemento tão chocante. Depois há o outro lado – por mais que os portugueses em África se sentissem “locais”, é evidente que pertenciam a uma matriz, ainda que longínqua, que lhes ofereceria sempre uma possibilidade de “retorno” ( a metrópole). Chamar “regresso” à história da autora não é muito diferente de ter nomeado todos os portugueses que voltaram como “retornados” – muitos não o eram de todo. É interessante que isto seja mencionado porque pode suscitar algum tipo de reflexão (muito necessária) que ainda não foi feito precisamente sobre este tipo de questão. Mas aqui concordo consigo de novo – tudo isto começa já a extravasar o âmbito do livro, e não seria a pedra de toque sobre a qual fundamentaria toda a minha avaliação do mesmo.

    Relativamente ao outro ponto de discussão – estou obviamente a par dos perigos ideológicos de que me rodeio. É uma discussão impossível porque parte sempre de um ponto fundamental que é o de todos os colonialismos terem sido fundamentalmente negativos para os colonizados. É muito difícil assumir algum pragmatismo aqui relativamente ao que ao menos algum desse colonialismo deixou – estruturas, quadros educados, democracia, etc…. Mas depois de ver várias ex-colónias portuguesas, e também britânicas e francesas (colonialismos esses que não me merecem rigorosamente mais simpatia nenhuma) é impossível não constatar que houve quem tivesse feito muito, muito mais. Para um país onde há sempre a conversa de esquina sim, mas do “nós fizemos lá muito, a vida era boa, tinham de tudo”, etc, etc -, basta ir lá. Se fizeram assim tanto, infelizmente não durou nada. Curiosamente, noutros países vê-se o que foi feito.

    Comentar por CC — 17/01/2010 @ 10:15 am

  10. Tenho duas coisas a dizer a triste Isabela, entendo que ela pense o excelentissimo Senhor seu Pai como a pior pessoa do mundo, possiveis traumas de infancia e Deus sabe o que este lhe podera ter feito, o que ela nao pode afirmar ‘e que todos eram como ele obiviamente que nao, haveria bons e maus e tambem muito bons, como em todo o lado, em qualquer epoca, situacao ou continente.

    A segunda coisa que tenho para dizer ‘e que ela nao fique mais triste assim, deve de visitar Mocambique para ver que realmente o Povo Mocambicano hoje em dia vive em muito “melhores condicoes”; escravos da fome e da pobreza, atirados aos corredores dos hospitais sem socorro possivel no “fantastico” sistema de saude existente, educados no “excelente” sistema de educacao debaixo do cajueiro ou em escola doadas mas ja sem carteiras ou janelas para melhor ventilacao, perseguidos pela colera, malaria, SIDA, tifoide e nao vale a pena listar mais, geracoes novas sem esperanca, sem futuro, sem oportunidade.

    O Marxismo libertou-os dos “terriveis” Portugueses o que eu quero que a Isabela me diga ‘e quem os vai libertar dos males que os assolam hoje? O meu conselho ‘e que ela volte e os liberte destes males, tenho toda a certeza que o Pai dela ficria muito orgulhoso.

    Comentar por Mario Rebelo — 17/01/2010 @ 11:33 am

  11. Caro CC

    Seria interessante consultar alguns testemunhos de dirigentes como Nyerere ou ou Fidel Castro, após a primeira visita a Moçambique e Angola. Não esperavam o que viram. Nyerere chegou a dizer a um embaraçado Machel, que …vê-se que os portugueses gostavam desta terra e que achavam que era a sua”. Viu as cidades – que a Tanzânia jamais teve -, visitou os hospitais – que hoje são ruínas -, viu as escolas e todas as infraestruturas. Um país pronto para funcionar. No caso do sr. Fidel, a situação era outra, pois tratava-se de um conquistador que saqueou o que bem entendeu. O hospital central de Luanda foi pura e simplesmente despojado do equipamento que passou para os porões dos cargueiros que partiram para Havana. Nem vale a pena falarmos no resto, pois o roubo foi total, como despojo de guerra, de “internacionalismo”. Nisto, seguiram apenas a cartilha do exército vermelho na Europa de 1944-45. Tudo normal.
    Já agora, explicite melhor os termos comparativos entre o “nada” português e o “muito” franco-ítali-britânico. Que países? Refere-se à África do Sul? Ao Togo? Ao Mali, Ao Congo belga? À Rodésia, Costa do Marfim, Guiné-Conacri? Refere-se o CC a qual África? À do Magrebe, onde existiam países como Marrocos, com uma história antiga e que foram independentes durante muitos séculos, para há pouco mais de um século ser ocupado pela França? Refere-se ao Egipto, habituado a sucessivos amontoados de civilizações milenares e que acabou como Estado tutelado pela Inglaterra? Quer comparar Moçambique e Angola com outras antigas possessões. Pois bem, faça-o, mas diga com quais. Noutro comentário disse e reafirmo, que apenas estávamos atrás da África do Sul e da Rodésia. É a verdade. Apesar disso, nem sequer pode comparar a realidade da convivência inter-étnica que se vivia no espaço português, com a instituição apartheid sul-africana. Enquanto no sul dos EUA existia a situação que Luther King denunciava a meio da década de 60, em L-M. não existiam nem bancos de jardim, nem casas de banho públicas, nem machimbombos, nem escolas só “para brancos” ou “só para pretos”. Andam por aí uns patetas a apontar fotografias de praias onde poucos negros se viam, argumentando com o “estás a ver?”, como se tal coisa prove seja o que for. mais lhe digo que por experiência pessoal, os meus amigos Mateus, Augusto ou Acácio, acompanhavam-e nas idas à praia, mas passavam a maior parte do tempo resguardados do sol, sob as árvores. detestavam a torreira que nós tanto procurávamos. Apenas se aproximavam do vasto areal quando o sol declinava e então começava a melhor parte da tarde, co a gritaria que pode imaginar, todos dentro da sopa quente que era o mar da baía de L-M. Bem sei que é apenas um apontamento quase anedótico, mas as coisas eram mesmo assim. Com quem pensa que convivia no recreio da escola e partilhava os jogos e a ginástica no pátio do liceu? Com filhos de supostos SS ? Ridículo. Quem afirme tal coisa, mente descarada e manhosamente. Há que ser mais claro, porque senão, caímos apenas no habitual “diz-se e consta” do jargão regimental que tanto conforta a má consciência dos lusakistas e afins que estiveram de serviço em 74-75.

    Atacados violentamente pela etérea entidade ONU – ela própria um poço de escabrosa incompetência no que a África se refere -, hoje é com uma certa ironia que deparamos com os dados oficiais da dita organização que mesmo reconhecidamente manipulados em detrimento de Portugal, espelham bem um flagrante contraste com o que se passa, 35 anos volvidos, nas ex-“colónias”. Usemos os números da ONU, mesmo que estes não dessem qualquer relevo às avassaladores estatísticas do crescimento económico e à profusão de redes de serviço que chegavam longe, ao mato.
    Duas gerações volvidas, cabe-nos perguntar sem complexos, o que fizeram do “nada” que se lhes deixou? Como explicam a fome generalizada, a criminalidade, a falta de escolas, de água nos hospitais que já não o são há muito? Compare o número de mainatos dos nefandos tempos do colonialismo, com os magotes que hoje existem na independente Maputo. Como encararão hoje as autoridades locais, o facto de terem dois criados de dentro, uma tombazana para os meninos e três moleques de recados? Vivem com eles, partilham as suas mesas e quartos? Não. Podem até gabar-se que no campo serviçal, bateram aos pontos os tímidos “tugas” de outros tempos.
    O tempo não para e embora seja um exercício abusivo especular acerca de um Moçambique ou Angola que não tivessem passado pela catástrofe de 74-95, não é muito difícil extrapolar os dados existentes à data do fim da presença portuguesa.
    A Lisboa que encontrei em 1974, era infinitamente inferior em comodidades modernas, àquelas que conhecia em L-M. Bem sei que co-existiam várias sociedades e que a desigualdade era flagrante. Mas se quiser regressar à Europa da época – e de hoje -, então o exercício comparativo torna-se muito aliciante.

    Comentar por Nuno Castelo-Branco — 17/01/2010 @ 12:13 pm

  12. ah!

    jpt,
    mas que PENA eu ter continuado a visitar o vosso blog unicamente de regresso ao post no qual comentei pela primeira vez , dado que no mail continuo a receber notificações de novos comentários.

    porque, vejo agora, o nível do vosso blog está muito abaixo dos limites da decência, se vos permitis um post como este e, pior, muito pior, dão palmadinhas ao seu autor por ter outorgado um alto nível de crítica literária (AHAHAHAHAH) ao vosso espaço.

    abm,
    vejo que me enganei redondamente sobre si. pensei que, da nossa conversa anterior, algo o tinha feito reflectir sobre a sua primeira reacção a propósito de um livro que nunca leu. nada disso: o que verifico é um post pleno de má-fé, ridículo na sua pretensão de ter graça, infantil no tipo de ataque escolhido, revelador de uma pessoa feia e sem princípios.

    perdi o meu tempo consigo. aliás, penso que perdi o meu tempo com todos vós. o que constato, seja a partir desta nódoa de post (que envergonharia qualquer blog que se pautasse pela mais básica decência e honestidade intelectual) seja pelas reacções a ele, é que me encontro perante um leque de frustrados, de saudosistas do colonialismo mais serôdio que foi o nosso, de indivíduos que se continuam a considerar superiores aos negros e a todo e qualquer regime em áfrica que não seja dominado por brancos, e que, desculpem que me diga, se tivessem tratado tão bem os vossos conterrâneos (a sério que os consideravam assim? porque, quanto mais leio aqui, mais me parece evidente que não) de cor, estes não vos teriam expulso à catanada.

    abm, cresça – e apareça. se tinha ficado mal impressionada consigo por, numa resposta a mim no outro post, quando falavamos de coimbra, ter explicitamente referido duas senhoras de coimbra, nomes aqui escarrapachados, em termos deselegantes (para não dizer mais) (este sujeito não é digno de confiança, pensei), agora agravou-se a minha má impressão sobre si.

    nunca cá tinha vindo antes, e nunca cá voltarei.

    definitivamente, este blog não merece o meu tempo.

    Comentar por sem-se-ver — 17/01/2010 @ 7:51 pm

  13. NCB já há muito no ma-schamba que aqui discuti sobre a política educativa colonial e a actual (num registo leve). Discordo muito de si quanto ao argumento da bondade e generalidade do sistema educativa colonial e do seu desaparecimento posterior. É uma falácia: a) ao tempo colonial abrangia apenas uma pequena percentagem da população; b) era bífido, uma percentagem ínfima da população de origem africana (eufemismo, claro) partilhava do sistema “portuguès”, uma pequena percentagem tinha acesso a um sistema de educação que dava uma grosseira terceira classe, mas muito grosseira, normalmente a cargo das missões; a maioria a nada acedia. Convém referir a enorme ausÈncia de quadros formados aquando da indepdendència (o “nao deixamos nada” acima comentado tem muita justeza quando falamos de recursos humanos formados, não tanto no referente a infraestruturas viárias, urbanas ou até económicas) – tudo isto terá a ver com o modelo salazarista de educação e com a falta de interesse de formar quadros africanoss concorrenciais. Mas é uma verdade que não pode ser escamoteada. Mais, o sistema de educação nacional (apenas falo de Moçambique, nao tenho nada de relevante para falar em STP, Angola e Guiné-Bissau) foi uma realidade imediata, muito afectado pela guerra civil, mas recuperado depois. Tem muitas fragilidades, com toda a certeza, mas tem incidència verdadeiramente nacional e é uma realidade incomparavel com o sistema colonial.
    A comparação com o sistema de saúde também nao me parece nada feliz: foi muito abaixo o sistema sanitário após a independència, em particular devido á partida de quadros. Que foram sendo substituídos por estrangeiros (nao havia médicos moçambicanos, havia alguns enfermeiros mas insuficientes) mas também muito afectado pela guerra. No entanto foi uma prioridade e, no seio das grandes dificuldades, há e houve um sistema de saude de incidència nacional. Não me parece que a tábua rasa, elogiosa do outrora, aguente a avaliação histórica.

    Quanto ao trabalho doméstico que vitupera na actualidade. É uma velha crítica que me parece descabida, no fundo ecoa tempos em que ele simbolizava relações de exploração (era um pobre símbolo “metropolitano”). Nao me parece que haja nada de indigno nessa actividade nem no facto de ser empregue – corresponderá a um determinado momento de utilização de mao-de-obra. Nao sendo eu comunista nada me move contra mecanismos de estratificação social (desde que não totalmente imobilistas) – nesse sentido qual o problema de que haja trabalho doméstico, desde que regulado em termos de direitos laborais? Porque não poderá haver agora esse trabalho?

    Finalmente as colónias africanas dos países europeus eram diversas quanto ao seu desenvolvimento infraestrurual: em particular devido à existència de colonias de povoamento e outras que não o eram. Normalmente falamos muito das cidades das colónias europeias (explodidas no parque infraestrural nas duas últimas décadas, no colonialismo tardio), que correspondem ao verdadeiro esforço colonial portugues. Mas não sáo unicas na africa colonial (se-lo-ao em caracteristicas, mas nao em projecto histórico). Repito, assim a correr, tem razao quando nega pertinencia a uma comparação entre as colonias portuguesas e as outras. É uma homogeneização simples demais. Mas o “campeonato colonial” e nossa medalha de bronze também não me parece argumentável.

    SSV lamento a sua afinal desilusão. Continuarei a tentar perceber por que é que o sistema lhe envia notificações não solicitadas e tentarei resolver o assunto. E, queira crer, continuo ciente que entender os mecanismos de reprodução e disseminação dos discursos são ideologicamente marcados – como este texto do ABM demonstra à exaustão. Quanto a nomes citados nao estou a ver de que fala, nao me lembro de o ter feito. Falei de livros e suas leituras, nada mais. Cumprimentos

    Comentar por jpt — 17/01/2010 @ 8:37 pm

  14. SST que fique claro que não me revejo minimamente na sua canelada “vós miseráveis colonos que habitais neste blog”. Mas é mesmo assim, um tipo escreve e os outros interpretam. Às vezes descobrindo-nos o que ignoramos sobre nós próprios, outras vezes nem tanto. Neste seu caso parece-me (espero bem que) nem tanto.

    Comentar por jpt — 17/01/2010 @ 8:43 pm

  15. Senhora sem-se-ver se a estupidez fosse musica voce era uma orquestra sinfonica…ah ah ah nunca li tanto disparate junto a nao ser claro no tal de cadernos da estupidez na nossa isabelinha

    Comentar por Mario Rebelo — 18/01/2010 @ 3:56 pm


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