THE DELAGOA BAY REVIEW

29/01/2010

MAPUTO A NADAR

O Mercado Central em Maputo, 27 de Janeiro de 2010

por ABM (Alcoentre, 28 de Janeiro de 2010)

O JPT anda tão ocupado entre livros e blogues e a docência e a dolce vita da Sommerschield, que não deve ter reparado que depois de uma valente carga de água, a baixa de Maputo, um pouco como acontece com Veneza nas marés vivas, inundou mais uma vez ontem. Mas as minhas fontes secretas de informação discretamente tiraram as fotos que se seguem, captadas ontem na baixa da capital moçambicana e enviadas para o centro de operações ribatejano do Maschamba.

O que é curioso é que a cidade de Maputo, um invulgar aglomerado urbano especialmente se se tiver em conta que as cidades criadas pelos portugueses são invariavelmente um intragável e quase medieval emaranhado de casas e ruas, e que tem um traçado considerado moderno e bem conseguido, tem apenas um, incontornável, indesculpável, inexplicável calcanhar de Aquiles: a baixa.

Porquê?

As razões do problema são fáceis de explicar. Como o erro ocorreu é mais difícil explicar, pois acho que dava para perceber o que iria acontecer.

Antes de Maputo ser o que era, a Lourenço Marques original era uma língua de praia que quando a maré subia ficava uma espécie de ilha onde hoje de situam os terrenos entre a Praça 25 de Junho e a estação dos caminhos de ferro.

Eventualmente, essa “ilha” foi ligada aos terrenos confinantes, aterrando a depressão que a separava dos então chamados Altos do Maé (que nem suspeito quem tivesse sido) e logo por cima foi construída a actual Avenida 25 de Setembro.

Só que alguém se enganou e deixou ali ficar uma depressão em relação aos terrenos (sobre os quais já se tinha construído) onde hoje ficam as ruas do Bagamoyo e Consiglieri Pedroso.

O resultado? Quando chove muito, a zona entre o Hotel Tivoli e o Mercado Central inundam, sem apelo nem agravo. É por essa razão que a actual sede do Millennium-BIM, começada a construir ainda antes de 1974 para ser a sede do então BCCI, e que tem quatro andares por baixo do piso térreo, tem uma estranha configuração no seu piso térreo. Literalmente, são barreiras dissimuladas para impedir que, numa cheia, as águas entrem para dentro do edifício. Mas já aconteceu.

Já houve vários esforços feitos para tentar resolver o problema, o mais recente dos quais durante a memorável vereação do Dr. Eneias Comiche, mas em última instância a área de recolha das águas que para ali fluem – praticamente metade da cidade de Maputo cimento – é demasiado grande para que a baixa aguente um tal embate.

Portanto, para quem está na baixa, a solução para já e estar atento aos boletins meteorológicos e mexer-se depressa na eventualidade de uma chuva torrencial.

E ter um barco a remos.

Detalhe da Avenida 25 de Setembro (para os menos informados, novo nome da velha Avenida da República)

Mais uma perspectiva da baixa inudada no dia 27 de Janeiro de 2010

14 comentários »

  1. 1. Enquanto estavas tu, retirado a repousos na tua herdade ribatejana, dedicado a espúrias leituras e inflamadas retóricas – para isso colectando informes das tuas múltiplas fontes -, percorria eu vias alagadas, transportando os entes queridos ao volante de um nada sommerschieldiano Kia Pride, basto esburacado. Após o que me dediquei à secagem própria e alheia. Repudio pois a invectiva inicial, que me coloca na torre de marfim nunca alagável.

    2. Continuando este infinito trabalho semiológico in-blog confirmo a minha gargalhada com a típica legenda da segunda fotografia. Certo é que o atavismo toponímico é característico da cultura portuguesa, essa onde 255 anos depois do terramoto de Lisboa ainda se chama Terreiro do Paço à Praça do Comércio [mas onde, e até, surpreendentemente, nenhum ultramontanismo resmunga as inúmeras alterações na toponímia urbana geradas pelo 5 de Outubro de 1910] ou onde até os transportes públicos estatais intitulam de “Areeiro” (que eu não sei quando foi) à Praça Francisco Sá Carneiro (grande e visionário vulto da democracia portuguesa, falecido em trágicas circunstâncias, quiçá assassinado), sita em Lisboa. Mas isso de considerar necessário recordar o velho nome da Av. 25 de Setembro (ainda para mais com enormes fotografias que a identificam para os hipotéticos leitores que não a visitem há 35 anos) é uma pérola (típica, diga-se) semiológica.

    (não deixando de me lembrar que o recorrente vínculo, que é significante, à toponímia colonial – que atribui sistematicamente uma “natureza”, ou seja uma justeza, aos velhos nomes urbanos – esquece, sistematicamente, que essa toponímia colonial foi bastantes vezes alterada, como o recurso às fontes sobre a história da cidade demonstra. Também por isso vou mexer neste teu texto e incluí-lo na categoria “maputografia”)

    Comentar por jpt — 29/01/2010 @ 8:57 am

  2. Não…e sim.

    Sim…e não.

    Hum!

    Comentar por umBhalane — 29/01/2010 @ 12:00 pm

  3. Não consigo imaginar a baixa neste estado!!Espero que não tenham havido grandes prejuízos!

    Comentar por vera belo marques — 29/01/2010 @ 2:05 pm

  4. Pois a minha filha já não é de Nelspruit. E eu já não devo ter estudado em White River.

    Comentar por marta reprezas — 29/01/2010 @ 3:22 pm

  5. JPT

    Por respeito aos leitores que como eu viveram em LM antes de ser Maputo e nunca lá mais meteram os pés (exemplo: Isabela) incluo a toponímia anterior onde aplicável. Sabes muito bem que não tenho pruridos nenhuns quanto a isso. Aliás, antes da república em 1910 a via dava pelo nome de Avenida Dom Carlos (pois) mas concordarás que relevar isso aqui já é querer dialogar com os mortos. Que é o que parece que tenho andado a fazer ultimamente.

    Comentar por ABM — 29/01/2010 @ 11:54 pm

  6. O respeito é muito bonito … Os meus pruridos (como referes) sobre a questão estão num velhíssimo texto que não se adequará exactamente a este caso mas reflecte um pouco a minha sensação. A toponímia antiga como indicativa, descritiva, topológia, é respeito orientador. Quando não é descritiva é mais do que isso – concordarás?

    Exemplo: em Portugal há quem se recuse a dizer Ponte 25 de Abril e refere-a como Salazar. Não é para descrever, é uma “afirmação”, um statement (como se diz em português). Não são pruridos referir isso, é respeitar a intenção dos locutores.

    Sobre a questão explicito que não lhe chamo Ponte 25 de Abril, nome manifestamente infeliz pois dotado de um a posteriori parvo. Se lhe tivessem chamado 5 de Outubro talvez não me custasse (ou Humberto Delgado, ou Norton de Matos, ou Fernão Lopes, ou Afonso Henriques ou outra qualquer invocação) Chamei-lhe sempre, e sem desrespeito pela data que trouxe paz e democracia ao meu país, “ponte sobre o Tejo” – manifesta apropriação pois pontes há várias. Isto até a minha filha lhe ter chamado Ponte Vermelha (sem conteúdos marxistas revolucionários), tendo eu desde então aderido a esse nome.

    Também chamo Areeiro (onde era a cervejaria Munique de boa memória, e onde se apanhava o 19 para os Olivais, ou a recolha até às 2 horas da manhá para Cabo Ruivo) – e nada me move contra o Dr. Francisco Sá Carneiro e sua memória (apenas contra o infausto busto com que poluíram a Praça e a sua memória), figura grada da democracia e, segundo inúmeras comissões parlamentares, assassinado por mãos (algo) desconhecidas. E acrescento, nada me move, bem pelo contrário, contra a figura do Marquês de Pombal, vulto fundamental da história portuguesa. Mas continuo a chamar Terreiro do Paço (aquele local em lisboa onde há obras pelo menos desde que emigrei, em 1997) à intitulada Praça do Comércio – ainda que neste caso deva atribuir tal resistência toponímica a uma recusa ideológica, a uma verdadeira resistència, contra os terramotos (e tsunamis?) que obrigam a modificações urbanístico-topológicas.

    Em adenda, mero exemplo recorrente: “a Pinheiro Chagas!”, “qual?”, digo eu, “a Pinheiro Chagas …!”, “não sei qual é”, insisto, até enfadado, “não sei qual era”, “claro que sabe, era o faltava, a Pinheiro Chagas”, ou outra qualquer. Conversas havidas tantas vezes. Que são significantes, por mais que este tipo de olhar (que interroga não apenas respeitosamente a denominação das ruas e terras) possa parecer abstruso ou “prurento”.

    Bom fim-de-semana

    Comentar por jpt — 30/01/2010 @ 10:06 am

  7. Parabens Antonio!

    Comentar por clo b melo — 30/01/2010 @ 3:38 pm

  8. JPT

    Se é “reaccionarismo” é-o de forma balofa, pois não é por aí que se ganha ou faz a guerra. Da minha experiência, há muito boa gente que nunca visitou Moçambique desde que viveu em Maputo e que não sabe nem quer saber das mudanças toponímicas ocorridas – e que continuam. Pois são-lhes totalmente irrelevantes. Quando muito (e pensa nisto) o reaccionarismo, muitas vezes se o há, é de quem se habituou à actual toponímia e não entende, e não se compadece, com estas manifestações e vê nelas uma teoria de conspiração. Pois no diálogo na internet, aparecem pessoas vindas de todos os cantos e com todos os tipos de passado e de atitude. E parece que há gente que se perturba com o facto de que Maputo foi Lourenço Marques. Ora não há decreto, intenção nem mania que oblitere a história da cidade. Os portugueses há cem anos ficavama irritados com chamar-se delagoa bay à cidade e decretaram o nome ilegal…mas ficou na sua história.

    Depois, depende de com quem se fala e em que contexto, e não há regras fixas, mas basicamente se falas com pessoal do antigamente, usas os termos anteriores, se falas com pessoal que conhece Maputo hoje, usas os nomes actuais.

    Isto se te queres fazer entendido.

    No meu caso, tipicamente se me refiro à cidade antes de 1976, chamo-lhe LM, se depois, chamo-lhe Maputo. Mas se estou com a falar com pessoas que vivem em Moçambique hoje isso não faz sentido.

    Não te esqueças que nós temos lagros anos de vivência em Maputo e isso ajudou muito nesta questão toponímica.

    Curiosamente, no caso das ruas é um bocado pior pois eu não me lembro da maior parte dos nomes antigos das ruas, com a excepção de meia dúzia de nomes só conheci os nomes actuais. Por exemplo, não faço ideia de qual era o nome antigo da Kim Il Sung. E meia volta não sei explicar a algumas pessoas que aí viveram há muitos anos a que rua me estou a referir pois eu não sei o nome antigo e eles não sabem o nome actual.

    Por outro lado, as memórias têm estruturas emocionais e cores subjacentes associadas aos nomes que, para quem as tem, não faz qualquer sentido andar a actualizar nomes em defesa da actualidade toponímica ou para ser politicamente correcto. Imagina o casal que deu o primeiro beijo num jardim do Parque José Cabral. Não faria sentido estarem a recordar-se disso e referirem-se ao doce primeiro beijo num solarento sábado à tarde em 1970 no … Parque dos Continuadores. Pois não? seria ridículo.

    Um factor adicional: eu colecciono postais antigos de Lourenço Marques. Onde frequentemente são referidas ruas (como a tal de Dom Carlos, que é hoje a 25 de Setembro) que não foi fácil perceber a que se referia. Tenho vários postais de uma tal Avenida da Rainha que ainda hoje não sei a que corresponde. Não tenho um mapa toponímico de 1910…

    Agora que há pessoas tipo “cassete Cunhal” a quem lhes irrita isto tudo por outras razões, há. Que lhes sirva bem.

    Comentar por ABM — 30/01/2010 @ 3:55 pm

  9. 2 histórias a este respeito. Uma familiar, menos interessante aos prezados leitores – nos idos de 1960s jantavam os meus pais no decurso de um congresso internacional com um senhor francês, de origem russa (na altura dizia-se “russo branco”, ainda). Alguém lhe perguntou onde tinha nascido e ele respondeu “Sampetesburgo” e ripostaram-lhe “Leninegrado”, ao que ele respondeu: “não, infelizmente sou o velho suficiente para ter nascido em Sampetesburgo”.

    Outra, porventura apócrifa mas que me repetida tantas vezes que a aceito como verídica, até porque condizente com a personalidade em causa. O lendário director do Museu de História Natural de Maputo, dr. Augusto Cabral era sobrinho do comandante Cabral em cuja homenagem tinha sido chamada a capital do Niassa Vila Cabral. Após a independència Vila Cabral mudou-se o nome de Vila Cabral para o actual Lichinga. Certo dia, pouco tempo depois, Samora Machel encontrou Augusto Cabral e disse-lhe “então, estás chateado por termos mudado o nome?” ao que ele, no seu estilo (sempre carregado de “pás”, dizem que era o único que chamava “pá” ao presidente, coisa que nele era mais forte do que ele próprio), respondeu “Não, está tudo bem. … Desde que não me obriguem a chamar-me Augusto Lichinga”.

    Quanto ao resto, se estou a falar em registo histórico, também chamo LM ao Maputo pré-independÈncia, ou outros nomes (ainda que alguns se me escapem, pois não os tenho na memória fresca). Mas penso que terás entendido (ainda que se discordado) a minha “boca”. Já vi que comentaste o velho texto (que o leste). PEssoalmente, a doca dos Olivais significa muito mais do que a Expo-98. Se encontrar os velhos amigos e quiser falar das excursões feitas à doca (para aprendermos ilegalmente a guiar, para fumar uns charros, etc e tal) nao vou dizer “lembras-te daquela vez quando fomos à Expo?” (isto para falar de algo que ocorreu para aí em 81 ou 83). E se hoje mostrar uma foto da actual Expo-98 também não me parece necessário dizer (antigamente aqui era a Doca dos Olivais). Mas se algum dos olivalenses dos multiplos grupos Facebook dos Olivais mostrar umas fotos actuais e meter essa legenda não me ofendo, compreendo a saudade de quando éramos novos. (posso mandar uma boca, claro).

    Se isso for num texto contra a urbanização da zona ribeirinha de Lisboa, em defesa da administração portuária de Lisboa, do predomínio do contentor ou da construção civil sob os seus auspícios (veja-se o caixote já de 2000 em pleno Cais do Sodré) a coisa fiará mais fino. E aí sim utilizarei a “cassete do Cunhal” (grande memória …)

    Já agora, e como bem sabe, eu moro numa rua com um nome de um monarca portuguès. Náo me caem os parentes anti-colonialistas na lama por isso.

    Comentar por jpt — 30/01/2010 @ 5:18 pm

  10. Não imaginava que Maputo ficasse assim qdo chove muito.

    Ainda consegue ser pior (mais água por m2) que Luanda, e é dificil, acredite.

    Isto quantos dias demora a regularizar, em média?

    Comentar por Miguel A. — 30/01/2010 @ 5:40 pm

  11. JPT

    Excelentes analogias que fazes.

    Sr Miguel A

    Tive o privilégio de viver em Luanda. Chove mais e mais copiosamente em Luanda quando os deuses se zangam…e já levei com umas de que não me esqueço. Mas a topografia da cidade de Luanda é diferente, não tem os longos declives que tem Maputo e aquela inexplicável depressão exactamente no centro da rua principal da baixa da cidade. A única solução para Maputo que não passe por subir a cota dessa parte (seria muito caro) era literalmente abrir um dois gigantescos canais subterrâneos desde a Karl Marx e a Samora Machel (JPT – não sei os nomes antigos…) até à baía. E ligar a esses canais captações de águas pluviais que desçam pelas ruas que vêm da Polana e do Alto-Maé.

    Comentar por ABM — 30/01/2010 @ 8:11 pm

  12. ó diabo, vou já tentar encontrar os nomes antigos da KM e da SM …

    Há ainda um factor toponímico fantástico em Maputo: os serviços da USAID funcionam na esquina da Mao-Tse-Tung e da Kim-Il-Sung. Acho uma maravilha. [até há pouco na esquina fronteira funcionava uma loja da Camillo Alves, agora em obras e presumo que trespasse – o que era uma pérola no meio do pacote]

    Comentar por jpt — 30/01/2010 @ 8:32 pm

  13. http://digitalnoindico.blogspot.com/2010/01/maputo-imagens-30-minutos-de-chuva.html Mais fotos sobre as chuvadas em Maputo, mostradas por confrade bloguista (algumas também referidas no http://espumadamente.blogspot.com/2010/01/africa-terra-bruta-que-ate-papaia-lhe.html#comments , o blog Espumadamente, nome bem apropriado para o tema)

    Comentar por jpt — 30/01/2010 @ 8:55 pm

  14. Sim, Luanda acaba por ser mais inclinada, abruptamente, do Kinaxixi e adjacentes até à baia, permitindo a saída das águas para esta.

    Mas depois, o que fica é desolador; então para os lados da Boavista, quem sai de Luanda para o porto, enfim…

    Quanto às ruas que menciona, curiosamente tb só as conheço pelo nome actual…

    Mas em Luanda, penso que tal como em Maputo, nem chove muito, quando comparadas com as ‘provincias’.

    Aí sim, é de bradar aos céus, literalmente.

    Comentar por Miguel A. — 31/01/2010 @ 9:02 pm


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