THE DELAGOA BAY REVIEW

05/02/2010

O DICIONÁRIO MOÇAMBICANÊS DE VÍTOR LINDEGAARD

por ABM (Alcoentre, 5 de Fevereiro de 2010)

O exmo. e caro Carlos Gil mandou uma mensagem tipo APB (all points bulletin) alertando para o trabalho, publicado num blogue na internet chamado Moçambicanismos, pelo Sr. Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard, que ali se descreve como tradutor e professor, 51 anos, residente na bela e explosiva cidade de Chimoio (não sei o nome antigo, JPT, ajuda!) desde 2006 (diz que esteve em Moçambique entre 1997 e 1999).

O trabalho que eu vi não é só um trabalho de amor: está excelentemente organizado e até tem método na loucura, ou seja, o autor descreve uma metodologia algo rigorosa para chegar ao que ele considera termos moçambicanos.

Um exemplo, desavergonhadamente copiado:

baneane n. m. 1. Hist. comerciante indiano das costas africanas do Índico; 2. por extensão, comerciante indiano
O dicionário Porto Editora regista a palavra, só no plural [?]. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende regista as variantes baniã e baniane. Ambas as obras dizem que a palavra vem do sânscrito, segundo Moçambicanismos, através do gujarati vaniyan, plural de vaniya, e, segundo o dicionário Porto Editora, através do hindu baniyan. A palavra banian também existe em inglês e o Concise Oxford concorda com a origem gujarati da palavra, de vaniyo “homem de casta de comerciantes”.

E mais um:

maningue adj. e adv. Fam. muito
Maningue é um dos moçambicanismos mais famosos, se não mesmo o mais famoso. O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam ambos a palavra. A palavra maningue é comum a várias línguas locais, como assinalam Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, dando o exemplo de manyingui na línguas tsonga. Mas sei que a palavra é também usada em ndau, por exemplo. Segundo estes autores, as palavras de línguas bantas de que deriva o maningue do português moçambicano vêm, por sua vez, do inglês many, “muito”. Todos os dicionários consideram maningue um advérbio, e o dicionário Porto Editora considera também que a palavra pode ser um pronome. Presumo que esta classificação de “pronome” corresponda à minha ingénua classificação de “adjectivo”(igual, aliás, à que propõem Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos) em frases como “estava lá maningue malta” ou “estavam lá maningues pessoas”.

E um que me surpreendeu:

monhé, muenhé adj. e n. indiano (de várias línguas do Norte do país e suaíli, monye e mweneye, “senhor”)
Eis uma palavra de origem moçambicana que se instalou no português europeu. Tal como em Portugal, o termo tem muitas vezes uma conotação pejorativa, o que não deixa de ser curioso dada a sua origem num tratamento de respeito.

Mas isto são apenas pérolas do espólio.

Para meu choque, esta jóia da cultura internética “só” teve quatro mil visitantes em três anos, o que é absolutamente injusto face ao que ali está, que é um tesouro daquela miscelânia linguística que se foi construindo pelas pessoas ao longo das décadas e dos séculos, desde que o Sr. Vasco da Gama e os seus seguidores ocuparam aquele pequeno porta-aviões de apoio às viagens para as Índias que se chama Ilha de Moçambique, há 515 anos (e cuja fortaleza aparece lá em cima).

Abusando a linguagem do dicionário, exorto os exmos leitores a darem uma vista de olhos a este trabalho ímpar de Vítor Lindegaard, dizendo que aquilo está maningue nice. Mesmo.

6 comentários »

  1. O blog e’ de facto uma delicia! Aproveito ainda para informar que o Vitor tem um outro blog igualmente interessante, chamado, Travessa do Fala So. Vale a pena visitar e comentar e dar alento a este bloguista. Aqui fica o link:

    http://llindegaard.blogspot.com/

    Comentar por AL — 05/02/2010 @ 3:16 am

  2. aquele trabalho é uma jóia! dos tais links a preservar prioritariamente numa e-pandemia qualquer. gabo-lhe o cuidado e o amor postos!

    adiantando-me ao jpt, Chimoio é a ex-Vila Pery, terra dos meus amigos os manos Gouvêa Lemos (Tareca, ZP e Antº Maria, mais dois que não conheço)

    Comentar por cg — 05/02/2010 @ 6:21 am

  3. É uma pérola, concordo. E dobro o agradecimento ao Carlos Gil que nos mandou a deixa.

    Uma pequena nota: sobre o “monhé” (conhecia-lhe a origem). Não é assim tão surpreendente a transição semântica do “respeito” para o “desprezo”. Mal comparado vê o “ó chéfe” popular português, atribuído sistematicamente a quem não é “chefe” de nada.

    Comentar por jpt — 05/02/2010 @ 8:58 am

  4. Insisto (sim, eu sei que é picardia): para mais em tempos de google e google earth, é completamente inútil colocar Vila Pery para denominar Chimoio. Podia deixar passar, mero sorriso à ironia alheia. Mas posso achar bacoco – quem era de Vila Pery (ou da Escola Agrária) sabe perfeitamente que agora se chama Chimoio, quem não era não se perde por isso. Saudações

    Comentar por jpt — 05/02/2010 @ 9:01 am

  5. Estou com dores de monhé.
    🙂

    Comentar por candida — 05/02/2010 @ 6:53 pm

  6. Tudo muito interessante, linguisticamente.
    Parabéns a quem tem este trabalho, e obrigado ficamos todos mais ricos.(em sabedoria).
    Obrigado……………

    Comentar por jaime — 06/02/2010 @ 11:17 am


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