THE DELAGOA BAY REVIEW

09/02/2010

O GRANDE PATRÃO

Filed under: Politica Portuguesa — ABM @ 3:56 am

por ABM (Cascais, 9 de Fevereiro de 2010)

Há uns tempos atrás expressei alguma preocupação com algumas ocorrências visíveis na vida desta república portuguesa.

Nomeadamente, questionei-me, em voz alta, porque é que um juiz em Aveiro, que estava a gerir um processo judicial com o fim de apreender factos que confirmassem as suspeitas de negócios sujos, envolvendo pessoas que à partida deveríamos presumir estarem a agir de forma insuspeita, apanha, através desse trabalho, o que na altura apelidou, num requerimento, de “crime contra o estado de direito”.

Isto a menos de três meses de uma eleição com desfecho imprevisível (apesar de uma oposição reconhecidamente incapaz), no meio de uma crise económica sem precedente recente, e pouco depois de uma longa sequência de passos legais que mais uma vez deixaram no ar o que foi que aconteceu há uns anos atrás com a aprovação pelo governo de um grande centro comercial na margem sul do rio Tejo, chamado Freeport.

No entretanto, entre outros episódios algo rocambolescos, rolam as cabeças do Administrador de uma estação privada, da sua algo sonora mulher, que patrocinava um mordaz noticiário nas sextas-feiras à noite, e do respeitado director de um jornal de Lisboa que pertence à insuspeita Sonae. Surgem notícias de que uma companhia de telefones com sede em Lisboa expressa um súbito interesse “estratégico” pela compra da referida estação. Não aconteceria, mas a inexplicada decisão foi tomada de rescindir com o Administrador e marginalizar a senhora. Lentamente, alguma imprensa vai providenciando detalhes de todas estas operações, evidenciando longos tentáculos e milhões de euros na mesa, o que é curioso dada a clara crise que assola o sector da comunicação social portuguesa.

E, há pouco mais que uma semana, um jornalista que considero credenciado malgré os suados esforços de intoxicação ideológica por parte de um poeta equivocado e já relevado nesta casa, tomou a extraordinária iniciativa de, na primeira voz, basicamente tentar denunciar que havia uma “lista de abate” e que ele era o alvo a seguir. Para variar, o jornal onde esse libelo (um artigo de opinião assinado) era para sair, declinou a sua publicação.

Por coincidência, durante o fim de semana passado, o Sol, um semanário de Lisboa, seguido pelo mais popular Correio da Manhã, dão os detalhes ínfimos do que é que foi que o tal Senhor juíz de Aveiro ouviu e disse, que o levou a achar que estava a assistir ao que só poderei chamar uma conspiração, orquestrada a partir dos mais altos níveis do actual governo, de condicionar a imprensa portuguesa e o presidente de Portugal, em defesa dos seus interesses apercebidos.

Num sábado à noite, dois dos mais altos magistrados do país disseram que afinal estas provas não evidenciavam crime. E mandaram destruir os dados recolhidos – principalmente, registos telefónicos e e-mails.

A particularidade deste ambiente é que todo ele tem apenas um e o mesmo epicentro: a pessoa do actual primeiro-ministro de Portugal. José Sócrates.

Os seus detractores fazem-lhe várias acusações. Que é medíocre, falso, ditatorial, manipulador, apegado ao poder. Que não gosta de uma imprensa livre. No limite, que é criminoso. Por tabela, a mesma acusação pesa sobre os seus associados políticos.

Há algo no entanto que se torna evidente ao observador casual: a forma do exercício do poder depende de facto muito da personalidade daquele que o exerce.

Mas também depende de sobre quem ele é exercido e dos mecanismos (em inglês diria checks and balances) através dos quais é exercido.

E isso neste caso são todos os portugueses que o rodeiam e o sistema que emergiu após o pronunciamento militar feito em Abril de 1974.

Por três razões muito simples.

1. Tirando a perversãozinha operada por Oliveira Salazar durante mais que quarenta anos, o sistema constitucional e político que emergiu em 1974 é na verdade bastante semelhante ao que o precedeu, com raízes que remontam até 1820. Um parlamento é eleito que elege líderes que formam governos, os chefes de Estado (reis e presidentes) exercem um magistério de “moderação” perante os governos que lhes são apresentados. Ora isso significa que, não havendo uma maioria absoluta parlamentar, o exercício do poder é extremamente mitigado pela sua efectiva fragmentação e pela capacidade das oposições de bloquearem os programas. O mais que um presidente – qualquer presidente – pode fazer é pronunciar vagos apelos ao bom senso e ao “sentido de estado” – ou tornar-se ditador. D. Carlos e Sidónio foram assassinados com essa desculpa;

2. Portugal é totalmente viciado na governamentalização e burocratização de todos os aspectos da sua vida. Os portugueses dizem que não gostam mas no fundo gostam, adoram, a “mama” do Estado. Desde a mama das caravelas na Índia, à mama do Brasil, à mama de África e à mais recente mama dos fundos europeus. O negócio é o Estado e o Estado acaba por ser o negócio. Gostam de ver o estado metido em tudo, que o Estado decida tudo, que o Estado autorize tudo, que o Estado legisle tudo. Que o Estado pague tudo. Os resultados desta atitude são que o Estado em tudo está presente, em tudo decide, em tudo legisla, e, mais importante, desta atitude decorre que a quem gere o Estado são conferidos os mais extraordinários poderes que dilaceram qualquer hipótese de uma gravitação da vida nacional para as mãos dos cidadãos e das empresas e organizações que não são do Estado. Que por sua vez e por falta de melhor, optam por viver à sua sombra. Como corolário desta afirmação, aqui estamos em 2010 com um Estado que devassa e avassala e que está arruinado e ameaça arruinar, dando em troca aeroportos que não vai haver dinheiro para pagar, caminhos de ferro que não vão ser usados, auto-estradas que se calhar não são precisas agora, subsídios com dinheiro que não há, reformas que se calhar não foram merecidas e que de qualquer maneira não vão dar para a maioria dos que as recebem, viverem decentemente;

3. Decorrente do ponto anterior, existe a gestão de uma imensidão de entidades públicas, privadas e semi-públicas que são do Estado. Por razões ideológicas de sinal perfeitamente oposto, fez-se isso nos 35 anos antes de 1974 e nos 35 anos que se seguiram, o que diz muito. Inclusivé muitas das privatizações que se fizeram foram feitas a entidades escolhidas a dedo, com compadrios ou participações indirectas do Estado ou, como é o caso com, por exemplo, a PT, que, com umas mistificantes 500 golden shares, lhe conferem efectivamente o poder de fazer o que se quer quando se trata do governante. A companhia aérea portuguesa já custou centenas e centenas de milhões de euros aos contribuintes e a sangria continua. A RTP custa centenas de milhões de euros aos contribuintes mas ninguém protesta. Economicamente, Portugal sempre conviveu muito mal com o capitalismo liberal e a resposta sempre foi com mais intervenção estatal.

E quem manda nisso tudo?

Manda quem manda no Estado.

E é precisamente este o Portugal que o Sr. Sócrates, um seu filho pródigo, formado nas catacumbas de um PS que disputa o poder há 35 anos seguidos, herdou quando o Sr José Barroso arranjou um emprego melhor em Bruxelas e o Sr. Santana Lopes….nem sei bem o que Santana Lopes fez.

Sócrates herdou este Portugal com todos os instrumentos, todos os mecanismos, todos os vícios, todas as atitudes, todas as expectativas, todos os compadrios que vinham de trás. Ele é o patrão da TAP, da Caixa Geral, da EDP, da RTP, da Carris, ele é o adjudicador de todas as grandes obras de regime, o supremo legislador, o grande Decisor.

O Grande Patrão.

E as pessoas no fundo gostaram. O exmo leitor não se lembra? Estavam todas fartas de vários anos de falinhas mansas do Sr. Guterres mas principalmente da sua indesculpável indecisão. Este Sócrates decidia. Este sabia que tinha que decidir. E assim fez. O socialismo socratiano foi sempre, tem sido, uma vigorosa marcha em frente, mesmo que em direcção ao abismo, acompanhada de enorme aparato mediático, com nomes geniais como “programa de estabilidade e crescimento”, “novas oportunidades”, “plano tecnológico”, os ministros feitos vendedores de emplastros milagrosos em tempo nobre de televisão.

Em 2005, recorde.se, Portugal já estava em declínio há dez anos seguidos e com défices já considerados inaceitáveis. Cortou Sócrates as despesas? Não. Aumentou-as e subiu ainda mais os impostos, no que foi ajudado pela equipa de Paulo Macedo nos impostos. O povo, esse embebedava-se com dívidas e mais dívidas e o habitual mesmismo.

A seguir, em 2008, o mundo abanou devido à estupidez americana e o que fez Sócrates? Aumentou ainda mais as despesas e manteve os impostos. Havia eleições. O pais aproximou-se de uma situação insustentável. Mas não faz mal: os outros também estavam mal e por isso estava tudo bem.

Não havia oposição. Sentido o caos total no principal partido da oposição, o PSD, as hostes dividiram-se para um lado e para o outro. Na eleição de 27 de Setembro, o PP recebeu uns votos do lado direito e do outro lado apareceu, emparedado pelo inamovível PCP, mais uma esquerda chique, uma coisa chamada Bloco de Esquerda, dez por cento do voto nacional mas nem uma câmara municipal trinta dias mais tarde. Milagrosamente, certamente fruto da sua impenitente generosidade para com os funcionários públicos e toda a demagogia na face de tempos muito incertos, o partido socratiano ganhou a eleição mas perdeu a maioria absoluta no parlamento.

Ou melhor, havia alguma oposição. Mais ou menos. A oposição aparecia avulsamente em artigos de jornais, em programas de televisão, em debates, através de pessoas quase improváveis, como Medina Carreira, Rebelo de Sousa, Moura Guedes e Mário Crespo e uma pequena legião de jornalistas que tentavam seguir histórias como a tal do centro comercial Freeport, contra a mais fantástica resistência que já se viu ao apuramento da verdade, a justiça portuguesa quase a arrebentar pelas costuras devido às pressões. A atenção centrava-se em Sócrates himself.

Ora o Grande Patrão, o grande decisor que sabia agir, agiu tal e qual como o sistema era e lhe permitia. Ele não gostava de ser criticado desta forma na imprensa. E assim, munido de todos os instrumentos que o sistema lhe disponibiliza e dos poderes que o cargo lhe confere, ele não reconhece legitimidade a esse tipo de oposição e pelos vistos manifestou-se disposto a eliminá-la administrativa e discretamente.

Só se reparou porque, de imprevisto,no meio do verão,  um juiz em Aveiro que estava a investigar uns vulgares crimes de corrupção começou a escutar uma sequência de conversas telefónicas que indicaram os vastos e subterrâneos tentáculos do poder em Portugal.

De quem é a responsabilidade disto tudo?

Para mim esta questão não se coloca.

Sócrates está feito para Portugal como Portugal está feito para ele.

São duas faces da mesma moeda.

8 comentários »

  1. faltou referir “o síndrome Vale e Azevedo”:
    apoia-se quem nos minta mais convictamente; quando a verdade se nos esfrega na cara, impedindo-nos de vozeirar, assobia-se para o lado e procura-se um novo… líder
    bem, talvez o cognome do desvario seja injustamente moderno: os sintomas já eram cultivados com esmero ainda o avô dele não tinha nascido.

    a Justiça? não tarda perde a maiúscula. é um lobby multidisciplinar, e o bibe preto perde mensalmente altura da bainha. não tarda e vê-se-lhe o rabo…
    😦

    post scriptum: boa reflexão

    Comentar por cg — 09/02/2010 @ 4:25 am

  2. CG

    Oh yes.

    Comentar por ABM — 09/02/2010 @ 5:02 am

  3. Depois de dez anos de vida na Finlândia, que também é uma república, as comparações são inevitáveis. Portugal tem realmente propensão para se deixar subjugar pelos poderes instituídos e os portugueses, na generalidade, gostam de ser mandados com mão de ferro. Sempre perdoaram quem os mal tratou.
    Lembro-me de um certo programa que perguntava ao nosso povo quem era o maior personagem da nossa história. E quem houveram de escolher? Em terra de tanto poeta e grandes mentes o vil povo escolheu… Salazar!
    E com Sócrates vai passar-se o mesmo! Depois de destruir o pouco que resta e entregar as gerações futuras ao fardo de uma dívida pública sem paralelo na nossa história, o mesmo povinho miserável que o mantém no lugar ainda lhe vai cantar hossanas e dizer que, depois de Salazar, foi o maior português…
    Não há vergonha que deite nisto um ponto final!

    Comentar por Leonel Auxiliar — 09/02/2010 @ 2:31 pm

  4. Boa ABM! Mais uma vez, análise ‘5 estrelas’! Portugal no seu melhor ou a “República das Bananas”. Mas, lá diz o ditado ‘cada povo tem o líder q merece’ (ou qualquer coisa no género). Puseram-no lá… agora comam-no com batatas!!! E, entretanto, ‘o rei vai nu’. Amen!

    Comentar por Isabel — 09/02/2010 @ 3:21 pm

  5. Não quero concordar contigo. Para além das características da sociedade portuguesa (“defeitos” ou “qualidades”, se se lhe quiser) Socrates é apenas um medíocre epifenomeno. A única questão que me surge é quantos posts colocaremos nós no ma-schamba até ele ser apeado e esquecido.

    Comentar por jpt — 09/02/2010 @ 4:42 pm

  6. Sr Leonel Auxiliar,

    Não consigo começar a imaginar o que é ter dez anos de Finlândia debaixo do papo e olhar a realidade portuguesa. Sei relativamente pouco sobre esse país mas …deve dar um filme. Ou um livro.

    JPT

    Até ontem eu via o “epifenómeno” Sócrates assim. Mas como se reflecte no texto que está acima, numa “epifania” ontem à noite mudei de opinião. Achei por demais evidências de que há todo um contexto estrutural, histórico, social, cultural e económico que permite que estes epifenómenos surjam.

    Começa com o “epifenómeno” D. Sebastião, o ponto mais baixo de 900 anos de Portugal, e vem para a frente.

    Ou seja, a oportunidade faz o ladrão.

    Comentar por ABM — 09/02/2010 @ 6:12 pm

    • como disse, esperançoso, “eu quero discordar”. Só isso. Tudo isso. Valha-nos Deus Nosso Senhor

      Comentar por jpt — 09/02/2010 @ 8:29 pm

  7. 🙂

    Just talking…

    Comentar por ABM — 09/02/2010 @ 8:53 pm


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