THE DELAGOA BAY REVIEW

18/02/2010

NAÇÃO DA VALENTE E IMORTAL CUNHA

Filed under: Sociedade portuguesa — ABM @ 1:09 am



por ABM (Cascais, 17 de Fevereiro de 2010)

Para o exmo. leitor que quer ver em que é que os portugueses são mesmo mesmo (mesmo mesmo) muito bons, o semanário Economist de ontem tem um rebuçado para si.

Olhe para o quadro em cima, preparado a partir de dados compilados e trabalhados pela OCDE, com base em dados para 2005, e preste atenção.

A barra azul mostra a (maior probabilidade) que o filho de um pai com uma educação superior tem de, ele também, obter uma educação superior, comparado com as mesmas probabilidades do filho de um pai que não tenha uma educação superior.

A barra amarela mostra a probabilidade (independentemente da educação) que o filho de um pai com educação superior tem de assegurar um emprego com um salário mais elevado, comparado com as mesmas probabilidades no caso do filho de um pai que não tenha uma educação superior.

Conclusão? cito um leitor da revista que viu o mesmo quadro: “o Reino Unido e Portugal são nepotismos oligárquicos onde uma pessoa nem sequer precisa da fachada de um grau académico […] para arranjar um emprego confortável e bem pago”.

E o meu remate: “porque tem um papázinho muito bem educado e muito bem conectado que ajuda a arranjar um empregozinho bom para o filho, independentemente de o filho ser ter uma educação universitária ou não”.

Regra geral isso chamamos em Portugal uma “cunha”, neste caso intergerações.

No que os portugueses são os campeões nesta lista de países.

12 comentários »

  1. o meu pai tem um curso superior, é “senhor engenheiro”

    Comentar por jpt — 18/02/2010 @ 9:34 am

  2. O pai dele também tinha, era “sô doutor juiz”. E o pai da minha mãe “a modos que”, que foi a “senhor coronel”. O pai deste é que se ficou a “senhor capitão”, que se morreu lá pelos Dembos ou Bembos, ao norte de Angola, nas “campanhas de pacificação” (“febres”, rezam as crónicas familiares).

    Enfim, tudo isto (ainda há mais histórias) para … “Arranja-me um emprego
    pode ser na tua empresa
    concerteza
    que eu dava conta do recado
    e para ti era um sossego “

    Comentar por jpt — 18/02/2010 @ 9:39 am

  3. JPT

    Independentemente da estatística “familiar-cunhal”, acho que temos aqui em cima o primeiro esboço de uma grande saga familiar maschambiana. Teu bisavô morrer em Angola é uma pérola e o resto espelha o percurso de muitas das nossas famílias, e se calhar deste país.

    Comentar por ABM — 18/02/2010 @ 10:33 am

  4. Na geração acima ainda houve coisas assim:

    http://ma-schamba.com/cat/historia/trigo-teixeira/

    Bem que me podiam arranjar um emprego. Ou, então, aumentarem-me o ordenado (ou um subsidiozito, já agora)

    Comentar por jpt — 18/02/2010 @ 10:58 am

  5. Só “agora” entendo, consegui, do porquê ser a velha e pérfida Albion, o nosso mais antigo “aliado”!

    Finalmente.

    Comentar por umBhalane — 18/02/2010 @ 11:19 am

  6. Pois o meu paizinho formou-se em Zootecnia quando pequeno como guardador de ovelhas aprendeu a ler e escrever no Ultramar. O paizinho dele assalariado rural levou para o chao aproximadamente aquilo tudo o que deteve em vida, guarda a historia da familia que um antepassado qualquer foi guardador de porcos do “Marques” da vila e que um tio-avo ficou quase rico como soldado da fortuna alem fronteira, voltou a casa com um saco cheio de dinheiro, lamentavelmente, impresso pelo lado Republicano sendo que os fascistas tomaram conta do poder por la pouco depois. Afinal trouxe um saco cheio de nada…
    O lado da maezinha esse sim foi bem melhor, esses ao menos eram arrendavam terra (sem rio, ficavam no fim da linha irrigacao pelo que se regava com as sobras), tinham dinheiro para ter (alguns) animais proprios. Sabia assinar o proprio nome quando morreu.

    Nao quero com isto contradizer ninguem, estou apenas a apresentar o contra-exemplo que confirma regra.
    As desigualdades Britanicas actuais sao fruto amadurecido das sementes botadas por uma senhora agora sim (tarde de mais diria eu), e medica e oficialmente classificada de demente.
    Por ca mandou anos a fio e dizia que a sociedade nao existe. As vezes concordo com ela o que muito me assusta.

    Comentar por Lowlander — 18/02/2010 @ 5:39 pm

  7. Ora quanto a mim, sem paizinho nem mãezinha com formação superior (o pai tem o liceu, o que já é uma façanha para um filho de empregado de escritório e mil outras profissões antes), limito-me a coleccionar cursos superiores e a “vê-los trepar” passados uns meses – aos filhos dos pais com formação superior – apesar de possuirem metade da minha idade e experiência profissional.
    O talho que os pais da minha mãe possuiram não vingou e assim perdi a oportunidade de ser empresária numa qualquer cadeia alimentar tipo TALHO 20. Mas também teria de dividir a quota com os meus primos maternos que são mais que as mães e tontos até à última casa.
    Daí que me resta imigrar para o Luxemburgo com uma bolsa para continuar a estudar e viver para sempre como uma jovem de 20 anos.🙂

    Comentar por VA — 19/02/2010 @ 12:22 am

  8. Correcção.
    Eu até podia imigrar, mas neste contexto o que queria dizer é que vou emigrar (aquele que do ponto de vista do local de origem sai para país outro).
    Desculpem o lapsus linguae.

    Comentar por VA — 20/02/2010 @ 1:03 am

  9. D VA

    Luxemburgo parece bem colocado nas estatísticas e é um sítio muito interessante excepto quando os alemães e os franceses se zangam, pois tendem a ir lá dar cabo daquilo.

    Pessoalmente, já que não posso “emigrar” para Moçambique, a Austália, a Nova Zelândia e os Estados Unidos seriam boas alternativas.

    Se fosse rico, desaparecia no Ribatejo e nunca mais me viam.

    Comentar por ABM — 20/02/2010 @ 3:33 am

  10. Aqui ha umas meses concorri a um concurso publico (?) no qual o meu CV se encaixava. Depois da pre-seleccao e da entrevista, recebi como resposta que outro candidato teria sido seleccionado. Escrevi a perguntar o que, no meu CV, nao se enquadrava, como alias e’ habito no meu ramo, pois nos ajuda em concursos posteriores a “afinar” melhor o CV. A resposta que me deram foi que o meu CV era excelente, mas o criterio decisivo tinha sido que …. “so contratamos pessoas por conhecimento”.
    Num outro exemplo, tambem comigo passado, foi-me garantido o lugar na consultoria, fomos a concurso com o meu CV, ganhamos e pouco antes do inicio da consultoria fui substituida por uma outra candidata (cujo CV tinha sido anteriormente vetado) que “conhecia as pessoas certas”.
    O engracado nestas historias e’ que o nepotismo e’ tao prevalente na nossa sociedade que ja serve como criterio de seleccao e ninguem parece sequer pestanejar em o invocar como tal. Quando tentei saber a razao de ter sido preterida, nao era uma pergunta falaciosa nem era para disputar a seleccao; era tao somente para saber realmente a razao. Isso ajuda, por exemplo, a ver em que ramo mais especifico seria bom fazer mais uma formacao, etc. Saber que o criterio acabou por ser “gente conhecida” nao foi ajuda nenhuma. Saber que nepotismo pode ser o criterio decisivo de seleccao foi assustador😦

    Comentar por AL — 20/02/2010 @ 7:49 pm

  11. Sou um sortudo! Resta-me concluir.
    O velhote era também Sr. Eng. Filho de pais abastados e até estudou na Suiça. Quando me apeteceu empregar-me com um belo tacho no BNU, bastou um telefonema e lá fui eu à entrevista-almoço. Garantido estava o pedaço…
    Quando voltava a casa conheci uma Alemã e casei-me com ela durante três dias após o que descobri que o meu futuro estava exactamente onde devia: ser poeta e, sobretudo, vadio!
    Mas acho que não foi preciso cunha nenhuma para tão comezinha ocupação e depois de uma vida de ruas pelo mundo inteiro, chego agora ao lugar de onde se avista claramente, o destroço em que se tornou a vida de cada um dos que ficaram agarrados aos tachos, que vieram das cunhas e que os amarraram à mediocridade para sempre.
    Não consigo invejar tal gente!
    Pobres desgraçados!

    Comentar por Leonel Auxiliar — 23/02/2010 @ 2:28 am

  12. Exmos

    Não quero, como diriam nossos amigos do outro lado do fosso ortográfico, “botar abaixo” o nepotismo, os “conhecimentos” ou aqueilo que os anglos chamam de networking. Se calhar tenho é pena (inveja?) de não fazer parte desses “networks” todos que a tantos, a julgar pela estatística acima, têm acesso em Portugal pela via urinária parental em vez de, ou se calhar apesar de, currículos académicos e profissionais mais ou menos adequados. O marketing pessoal é livre e depende de cada um, mas quando à partida é tão correlacionado com as capacidades e conhecimentos dos nossos pais e não com aquilo que somos e do que somos capazes, ou se calhar idependentemente disso, bem, então é mesmo beber uma cerveja, comer uma alemã (parafraseando LA) e escrever uns poemas.

    Comentar por ABM — 23/02/2010 @ 7:10 am


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