THE DELAGOA BAY REVIEW

18/02/2010

THE RAIN IN SPAIN

Filed under: José Sócrates, Politica Portuguesa — ABM @ 12:13 am

por ABM (Cascais, 17 de Fevereiro de 2010)

A genial Audrey Hepburn enganou-se ao cantar que the rain in Spain stays mainly in the plain. A canção é engraçada e na (maior parte da) verdade. Mas a chuva em Espanha também escorre quase sempre para Portugal.

E política e economicamente, sempre foi e cada vez mais é assim. Foi por isso que, por curiosidade, para tentar estabelecer um contraste com o que se passa em Portugal e também para entender a dinâmica da interdependência entre as economias espanhola e portuguesa, fui ler um pouco sobre o que lá se passa.

Os paralelos são evidentes. Mercê de um lastimável atentado terrorista por uns talibãs marroquinos em 2003 (os exmos leitores devem-se recordar disso), ocorrido escassos dias antes duma eleição parlamentar, os eleitores espanhóis votaram para o poder o actual primeiro ministro, o alto e pouco sorridente José Luiz Zapatero. Que é socialista e em vários aspectos uma espécie de versão local de José Sócrates, menos umas minudências como esta entre Sócrates e a imprensa.

Em 2003, recorde-se, Sócrates era pouco mais que ninguém fora do PS. Mas uma série de trambolhões imprevisíveis na política portuguesa criaram-lhe a oportunidade de ser primeiro-ministro. Ferro Rodrigues, o então secretário Geral do PS, deu-lhe uma dor de cabeça por causa da história da Casa Pia e saiu; Durão Barroso recebeu um convite para ser presidente da Comissão Europeia e saíu; Santana Lopes levou com a “bomba atómica” de José Sampaio e eis que, após uma eleição, surgiu a Era do Socialismo Socratiano.

A memória é curta. Pouca gente hoje se recorda que os primeiros anos de Sócrates foram dedicados a – supostamente – controlar o “monstro” que erra o défice público. Desde que Cavaco Silva tinha saído do poder em 1995, as finanças públicas portuguesas estavam a degradar-se à medida que as transferências da União Europeia secavam mas ermaneciam todos os vícios inerentes.

Estrutralmente, quase nada mudou na economia excepto uma maior eficiência na colecta dos impostos pela mão de Paulo Macedo, um quadro do BCP pago a peso de ouro. Para contrariar os índices, não se cortou nas despesas: aumentaram-se as despesas e aumentaram-se muito mais os impostos em quase todas as áreas. Sócrates tentou, em nome de uma série de profssões de fé socialistas, fazer tudo: reformas contra os lobbies da praxe, obras públicas à fartazana, ajuda aos pobres, manutenção do “estado social”, e os programas com nomes sonantes que eram a marca desta era, desde o Magalhães até ao Rendimento Mínimo Garantido. A economia portuguesa continuou estagnada.

Em Espanha a história era algo diferente. Nos anos 90, Aznar, que era um bocadinho mais de direita, criou um gigantesco boom económico que assentou na especulação imobiliária, apoiado pela enorme baixa nas taxas de juro resultantes da adesão daquele país ao euro. Quando eleito em 2003, Zapatero fez um pouco como Sócrates: deixou tudo mais ou menos na mesma, aumentou os impostos, aumentou as despesas sociais e proclamou que o Socialismo era mais justo e mais Humano. A economia espanhola crescia mais robustamente, mas já se viam as rachas no verniz.

Ambos países sofrem de males crónicos e dramáticos: têm excessiva rigidez nas leis laborais e empresariais, têm populações excessivamente envelhecidas, têm aquele pequeno problema de importarem sempre muito mais do que exportam. Têm burocracias irredutíveis.

A Espanha é importante para Portugal pois é o principal exportador de bens e serviços para Portugal, é o principal importador de bens e serviços portugueses e é dos principais investidores em Portugal. Não foi surpresa quando, logo após eleito, e meteram um microfone à frente de Sócrates, ele só soube dizer “Espanha, Espanha, Espanha”.

E ficou por ali, ficou por ali, ficou por ali.

Em fins de Setembro de 2008, na sequência de uma preocupante subida no preço dos combustíveis, seguida pela falência do Lehman Brothers e o quase colapso dos mercados financeiros internacionais, quase todos os países se ressentiram. O pânico fazia-se sentir nas ruas, nas empresas e em casa das pessoas.

Em ambos os países, liderados por forças socialistas, a reacção foi de suster o pânico nos mercados financeiros locais inundando o sistema com milhares de milhões de euros em liquidez e manter e expandir o nível de apoios sociais, na face de um brusco declínio na actividade macroeconómica. Nisso copiaram os ingleses e os americanos, que mostraram o caminho.

Mesmo assim, o embate foi terrível. Rapidamente, a taxa de desemprego subiu para 10% em Portugal e 19% em Espanha. A actividade económica caiu bruscamente bem como as exportações. Em Portugal, o BPP e o BPN basicamente faliram, custando milhares de milhões de euros aos contribuintes (a contabilidade ainda não está feita). O défice do orçamento em 2009 em Portugal é estimado em 9.5% e em Espanha 11.4% do PIB, sem fim à vista. No caso espanhol, a “bolha” de especulação imobiliária (iniciada por Aznar em 1998) estoirou estrondosamente e os seus efeitos ainda não se fizeram sentir em toda a economia, se bem que o que já se sentiu já teve um efeito arrasador.

Numa Europa enfastiada, surgiu o espectro dos PIGS (abreviatura para Portugal, Italy, Spain and Greece) a afundarem-se e a ameaçarem afundar o experimento europeu com eles. A Grécia, com o problema fiscal mais grave, já está a braços com a necessidade imediata de fazer alguma coisa para equilibrar as suas contas. A Irlanda, igualmente afectada, tomou medidas radicais: cortes imediatos em todos os sectores, começando pelos gastos públicos, o que incluiu os sálários dos funcionários governamentais até ai mais alto nível. A pequena Islândia faliu.

Em Portugal, as informações já publicadas em termos do orçamento aprovado este ano indicam que nada se vai fazer de especial. Prevê-se aumentos significativos nos impostos nos próximos 18 meses e um aumento na tensão social, pois todos vão querer comer e não há pão para todos.

No contexto de nada se fazer de significativo na frente doméstica, e aparte da resolução do enorme buraco fiscal, obviamente, a recuperação da economia portuguesa só poderá assentar em mais exportações, em menos importações, em mais investimento estrangeiro em Portugal e, domesticamente, no corte das despesas públicas.

Só que o principal parceiro para que tal supostamente suceda, continua a ser a Espanha, que tem quase exactamente os mesmos problemas que Portugal.

Portanto, por força das circunstâncias, nos próximos um a dois anos iremos ter a oportunidade de aferir os verdadeiros limites dos paradigmas “socialista” ou “capitalista” dos ibéricos: mais governo e mais impostos, ou mais mercado e mais desregulamentação?

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12 comentários »

  1. Mais mão estendida. Vejamos se não será a Alemanha, depois de agarrar o grego pelos fundilhos, a segurar a Ibéria a preços de saldo e com juros latino-americanos de outras décadas. Junte-se ao alemão, o brasileiro e o angolano, e temos Portugal safo por algum tempo. Isto ouvi dizer no café da esquina que do mundo entendo nada…

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    Comentar por MVF — 18/02/2010 @ 5:51 am

  2. E eu a julgar que era um post sobre a candidatura conjunta ao Mundial-2018

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    Comentar por jpt — 18/02/2010 @ 8:05 am

  3. MVF

    Na actual conjuntura, o futuro dos portugueses será:

    1. venda de todos os activos nacionais a estrangeiros;
    2. mão elegantemente estendida em nome da solidariedade europeia, até ver;
    3. uma significativa diminuição no padrão de vida dos portugueses, nalguns casos chocante e fonte de imenso conflito social.
    4.O dinheiro dos ricos vai sair e os mais espertos vão emigrar.
    5. 30 anos de deserto até morrer a gigantesca bolha de reformados criada a partir do 25 de Abril
    6. Depois disso, a ver vamos. Não eu, que já não estarei cá.

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    Comentar por ABM — 18/02/2010 @ 10:46 am

    • Mas a Península organizará ou não o Mundial-2018? Eu penso que, ainda para mais com o quadro que aqui referes, isso será relevante para a economia peninsular. Bastas ligações ferroviárias (de alta potência) entre os novos estádios de futebol construídos (anquilosados que já estão, devido ao extremo uso, os construídos por indicação do então sec Estado ido a ministro José Socrates, esse Pombal transsecular/milenar), incentivos à criação de emprego – estruturante (assentadores de carris) e periódico (stewards futeboleiros) – e divulgação das nossas praias (para as populações dos arrabaldes madrilenos, algo distantes de Torremolinos).

      O resto que aqui encontro, no post e em comentários, é o típico bota-abaixismo daqueles que só sabem criticar enquanto o(s) governo(s) fazem.

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      Comentar por jpt — 18/02/2010 @ 10:54 am

  4. JPT

    Touché. Na verdade acho que os sucessivos governos reflectem os governados.

    Quanto ao Mundial, não sei de nada. Mas a tese de Portugal servir para banhos dos espanholes tem ganho alguns adeptos.

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    Comentar por ABM — 18/02/2010 @ 11:06 am

  5. “e os mais espertos vão emigrar”

    Alguns, também, muito mais espertos, emigram cá dentro.

    Faço-me perceber?

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    Comentar por umBhalane — 18/02/2010 @ 11:24 am

  6. ” e os mais espertos vão emigrar” e “os mais mais espertos emigram cá dentro”.

    Para aonde?

    E emigrar, valerá a pena? Isto não afectará mundialmente?

    È que emigrar ou não emigrar, é sempre a velha questão.

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    Comentar por Rita Branquinho — 18/02/2010 @ 3:45 pm

  7. Emigrar cá dentro é bem bom.

    É preciso é acertar no “País” – PS; PSD, e alguns dos financiadores do grande circo – reservado o direito de admissão, restrito.

    Há exemplos bastantes – convém entrar nas jotas, e prosseguir…sempre…

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    Comentar por umBhalane — 18/02/2010 @ 4:47 pm

  8. Espanha está a viver uma situação realmente dramática. Não sei se estando de fora percebe-se a dimensão real do caos.

    O desencadeamento desta situação foi efectivamente, como diz o ABM, o estouro da bolha imobiliária, mas a questão de fundo é sobre tudo que não se está a criar nada nem a produzir nada.

    Em Espanha construiu-se nums anos de maneira voraz e descontrolada (a especulação chegou a tal ponto que edificou-se mais na Comunidade Valenciana, por exemplo, durante os últimos anos que ao longo de toda a história desse território) e os preços da habitação incharam até ao absurdo. Os pedreiros desempregados são agora legião!

    Por outro lado, Espanha é só um país de serviços: um geriátrico para os europeus do norte e um destino turístico barato.

    Enquanto não sejamos capazes de criar alguma coisa, de investir em educação e pesquisa não vamos sair deste pestilento buraco preto.

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    Comentar por Gemma Nadal — 18/02/2010 @ 10:39 pm

  9. Eu como adoro o bota-abaixismo pergunto: nao se pode fazer um outsource para se ter um governo decente? 🙂

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    Comentar por AL — 19/02/2010 @ 2:24 pm

    • Inacreditável, agora são propostas para substituir o nosso engenheiro por um estrangeiro qualquer … Isto é mesmo o bota-abaixo de quem nada faz e apenas critica, aliás, a oposição.

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      Comentar por jpt — 19/02/2010 @ 2:36 pm

  10. D Gemma

    Apoiado

    AL

    já temos outsourcing que baste para os “boys”

    JPT

    Trocar um marciano por um estrangeiro é um passo na direcção certa

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    Comentar por ABM — 20/02/2010 @ 4:25 am


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