THE DELAGOA BAY REVIEW

28/02/2010

O NUNO, O ZÉ, A CNN E O GOOGLE

por ABM(28 de Fevereiro de 2010)

Isto é apenas uma memória domingueira.

Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.

Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).

Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.

Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.

Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.

Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.

Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.

As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.

E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.

Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.

Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.

Pois afinal nós éramos ricos. Não?

Foi uma festa.

Só que ninguém estava a pagar a conta.

Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.

A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.

Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.

Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.

Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.

Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.

Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.

Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.

Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.

Nós temos o Maschamba.

Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.

Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.

Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.

Um bom domingo a todos.

8 comentários »

  1. Fico impressionada com dois aspectos: primeiro a semelhança entre as histórias de Portugal e do Brasil, afinal estávamos também na idade média da tecnologia nesse período; segundo como as coisas todas mudaram MUITO em 20 anos. Parecia que você contava histórias de 50 anos atrás… impressionante… o tempo passa!

    Comentar por LydiaR — 28/02/2010 @ 2:09 pm

  2. Texto absolutamente fantástico. Qualidade é outra coisa… só que não vale falar da renamo e da frelimo e deixar-nos com água na boca…

    Comentar por espinhoso — 28/02/2010 @ 2:22 pm

  3. Por entre afazeres diversos aqui venho de vez em quando deitar um olho ao que os meus colegas maschambeiros andam a fazer. Ja percebi que vou ter muito que fazer assim que o senhor Keynes e a senhora minha neta exigirem menos do meu tempo. Mas nao quero ABM deixar de dizer: optimo texto! Auto elogio eu sei, mas gostei muito🙂

    Comentar por AL — 28/02/2010 @ 2:44 pm

  4. Uff!! Lê-se de um fôlego. Magistral, como sempre, ABM. E k bem nos faz recordar esta pré-história afinal tão recente, mas k já toda a gente parece ter esquecido. Pelo menos, insistimos (eles) nos mesmos erros – ele são pontes, aeroportos, têgêves… tudo à fartazana, tudo à tripa-forra, enquanto o povo estrebucha à mingua de uma côdea. Não se pode fazer como na França da Maria Antonieta e guilhotiná-los?!!! Retribuo os votos de bom Domingo para os maschambeiros de serviço.

    Comentar por Isabel — 28/02/2010 @ 2:54 pm

  5. D Lydia

    Obrigado e não imagino como seria o Brasil há vinte anos. Mas a nossa geração viu mudanças em vinte anos a uma velocidade estonteante. De facto, ao escrever, tinha que me lembrar repetidamente do que é que não havia então e que hoje um miudo de 13 anos pensa que sempre esteve connosco…

    Sr Espinhoso

    Sei relativamente pouco sobre os detalhes das tricas entre a Renamo e a Frelimo no período que antecedeu o acordo de 4 de Outubro de 1992. Mas do pouco que li deu para formar a nota que deixei: a de que a Renamo perdeu a guerra na negociação de Roma. Mas um dia veremos isso em detalhe e testarei essa tese minha.

    AL

    Esta praça agradece. Mas uma dieta keynesiana-avoenga é uma cambinação fatal! leite com teorias sobre a procura agregada…

    D Isabel

    Agradeço e recordo-lhe que hoje (os maridos d)as Maria Antonietas não se guilhotinam lteralmente. Faz-se isso via o voto. O problema no Portugal presente é que parece que as actuais fábricas políticas são pródigas em produzir versões alternativas da mesma coisa, o que esgota o exercício democrático.

    Comentar por ABM — 28/02/2010 @ 3:53 pm

  6. Muito bem escrito e apreciado. Realmente as coisas eram assim e quando queremos dar um exemplo de dificuldade de comunicação a um adolescente, este não consegue imaginar a vida pré-tvcabo, pré-telemóvel ou pré internet. E, para além do mais, torna-se difícil explicar como faziamos tudo acontecer.
    Obrigada ABM, foi um texto que gostei de ler, como sempre.

    Comentar por Rita Branquinho — 28/02/2010 @ 10:36 pm

  7. Muito bem escrito, eu não elogio todos mas tenho essa vontade: são todos excelentes.

    Obrigada por partilha-los connosco!

    Comentar por Rita Branquinho — 28/02/2010 @ 10:38 pm

  8. Adorei ler a crónica! Está espectacular. Lembro-me, em 1991, de ficar acordado até de manhã para ver o começo de uma anunciada guerra do Golfo. Os herois na RTP: Nuno Rogeiro e Jose Rodrigues dos Santos. Três anos mais tarde tambem instalei um desses pratos no telhado para ver 8 canais de TV. Na altura, achei o máximo, um previligiado. Podia sintonizar o Eurosport…
    Em Agosto de 2008, voltei a Maputo, (25 anos depois de ter partido para Portugal) e foi uma sensação maravilhosa ver o canal SIC Noticias e o transito da A5 que enfrento diariamente) deitadinho numa cama de um quarto do hotel Southern Suns onde antes “estava” o Dragão de Ouro e sua boite.
    Nos ultimos 20 anos, a comunicação evoluiu consideravelmente, e afinal não foi só em Portugal.

    Obrigado ABM, pelos textos.

    Um abraço.

    Comentar por Jorge Ribeiro — 02/03/2010 @ 12:12 am


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