THE DELAGOA BAY REVIEW

09/03/2010

A NOVA MAPUTO DOS RICOS

Filed under: A nova Maputo dos Ricos, A nova Maputo dos ricos, Maputo — ABM @ 10:59 am

por ABM (9 de Março de 2010)

Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.

As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.

Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).

Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.

Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.

As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?

Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.

Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte

E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.

E em reabilitar e manter o que já existe.

E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.

Mas isto é só uma opinião minha.

14 comentários »

  1. Não sabia nada disto e caem-me os queixos de espanto…

    Comentar por Joana Lopes — 09/03/2010 @ 11:48 am

  2. Dizem os mais velhos da Póvoa de Varzim, que acidade em tempos idos tinha na sua frente marítima um correr de lindas, belas, moradias, de pessoas endinheiradas, claro, o que não constitui nenhum crime, diga-se.

    Crime, crime, é haver tão poucas…ainda.
    E, o ainda é que cá nos vai mantendo.

    Depois apareceram os chicos espertos, mais os patos barvos e fizeram grandes torres nessa mesma frente marítima, e por trás ficaram encurralados, ensombrados, entalados, os pequenos edificios, com resultados só vistos – humidadade permanente – de tal modo que não se consegue secar roupa, fora do Verão.

    Claro que os chicos espertos ficaram com um andar em cada prédio erigido, muito para além da cércea aconselhável.

    Sabemos, e conhecemos, as réplicas deste modo operacional desde o Minho até Timor…perdão até ao Algarve.

    Tenho um familiar, pescador, agora já reformado na casa dos 82 anos, que na altura, 1979, e ainda no activo na faina do dito mar, com quem discutia acaloradamente esse “desenvolvimento” da Póvoa, e para o aferroar, atirava-lhe com o exemplo da sempre rival, Vila do Conde.

    Claro que o Homem, rude, tresmalhava, espumava, tanta a cegueira do seu “amor” à Póvoa…e eu que sempre perdia o duelo, retirando estrategicamente, ouvia-o deleitadamente dizer:

    – Quando vimos do mar, a nossa Póvoa, parece Nova Iorque (New York City)…

    Referindo-se à iluminação das torres construída bem visível, pelos vistos, em alto mar na entrada do porto de pesca da Póvoa de Varzim.

    E assim escrevi sobre “desenvolvimento”, “progresso”, negociatas e parcerias “desenvolvimentistas”, e também promovi a Póvoa de Varzim, uma das New York Citys, deste jardim à beira mar brotado.

    E cada um terá a New York City que merece.

    Comentar por umBhalane — 09/03/2010 @ 12:02 pm

  3. Isto é o que está projectado para a antiga FACIM. Resta saber onde está o poder de compra? E se a zona da baixa tem características para habitação ou só comércio e serviços.

    O acesso ao credito á habitação com as taxas proibitivas em meticais e não havendo grande fuga para que possa ser feito em “divisas” a uma taxa mais baixa, aliado ao facto de que me custa a crer que quem investe esses montantes elevados, regra geral, fa-lo para investimento. As rendas por cá estão altas, sem dúvidas, já há prédios de luxo em construção, daqui a 2 anos prevejo uma oferta a mais, principalmente na habitação de luxo.

    Haverá sempre quem compre para investir? haverá sempre empresas e ONG´s a pagar estas rendas?

    Comentar por Rita Branquinho — 09/03/2010 @ 5:26 pm

  4. Cinicamente, eu diria Rita, enquanto os mocambicanos forem suficientemente pobres e continuarem a morrer de doencas curaveis, hao-de haver ONGs suficientes para arrendarem os tais andares de luxo… Mas, como nao sou cinica, nao digo. Digo antes que, se eu fosse uma sul africana endinheirada era capaz de preferir apostar o meu dinheiro num andar em Maputo, numa torre assim a beira mar, do que numa Joanesburgo ou num Durban com altos niveis de crime… Sempre fica mais perto que o Dubai!
    Fico por aqui que hoje nao estou nos meus melhores dias. Desculpem o azedume😦

    Comentar por AL — 09/03/2010 @ 9:14 pm

  5. Concordo com o comentario das ONG’s e a Associações “salvem os elefantes de 3 patas” e que Moçambique já está viciado na filosofia do “xtôu a pidir”. E na maior cara dura!
    Agora entraram empresas privadas, cujo objectivo é a exploração de alguma riqueza que Moçambique tem, isto tudo contribui para o desenvolvimento imobiliário, o aumento da colónia dos “expats”, do consumo que obrigatoriamente vem do aumento da classe que tem dinheiro para gastar.

    Mas daí até esperar que muitas Joansburguesas, Durbanesas ou como quer que se chamem troquem a Africa do Sul pela baixa de maputo??Por mais “À Dubai” que estja?
    Não. Concorrem em vir para cá as grandes superficies sul africanas que tornarão aquele espaço, eventualmente, num mall gigante – á procura dos 10 milhões de dólares que nós daqui deste lado gastamos mensalmente na Africa do Sul.
    Bom, mas isto dava pano para mangas, poderia escrever sobre este assunto sob várias vertentes. Na verdade aquele trecho da antiga FACIM já foi disputado por diversos grupos poderosos do nosso mercado e teve já diversos projectos. Este grupo investidor que detém o projecto é muito grande, um consórcio, e que garante que o projecto vai até ao Continental.

    Talvez já não o veja na sua plenitude mas que irá mudar a fisionomia de Maputo…

    Comentar por Rita Branquinho — 09/03/2010 @ 10:47 pm

  6. Estas manias de “grandiloquências” ultramarinas, é uma cisma antiquíssima encascada na cachimónia dos militantes, simpatizantes e dirigentes dos movimentos independentistas criados no fim dos anos 50 do éculo passado.

    Esses movimentos, MPLA, FRELIMO e PAIGC, tinham uma máxima que era dizerem aos colonos brancos: deixem-nos que nós sabemos governarmo-nos, sem vocês que são muito atrasados.

    Claro que quando vieram as independências não tiveram problema em declarar que os brancos não faziam falta, porque agora iam fazer uma terra à “nossa maneira”.

    Claro que estes movimentos nunca pediram a opinião ao povo dos respectivos paises, aqueles que nunca vestiram a farda da mocidade portuguesa.

    Comentar por Retornado de Angola — 10/03/2010 @ 7:55 pm

  7. Penso que foi o título dado pelo ABM “Maputo dos Ricos” e com as ilustrações a condizer com megalomanias que “deitou a lenha prá fogueira” e aparecem comentários de todos os géneros. È assim mesmo!

    Comentar por Rita Branquinho — 10/03/2010 @ 11:17 pm

  8. Aquando da Expo-98 os espanhóis fizeram uma primeira acção de comercialização (algo a que os pacóvios chamam marketing) da sua delegação com uma gravura (de época) que representava o rei de Portugal Filipe (acho que) II a desembarcar em Lisboa. Foi um aqui-d’el rei … Estavam bem uns para os outros, os do Filipe III e os do Filipe (não)II.

    Um tipo vem aqui e, como cantava o Brian Ferry, same old scene …

    Quanto à maquete visual, vou ali e já venho.

    Comentar por jpt — 14/03/2010 @ 10:14 pm

  9. Exmos

    É oficial. Cito a peça do MacauHub:

    Terrenos da Facim em Maputo, Moçambique, dão origem a projecto imobiliário [ 2010-03-23 ]

    Maputo, Moçambique, 23 Mar – Um projecto imobiliário avaliado em mais de 1200 milhões de dólares vai ser construído em Maputo nos terrenos anteriormente ocupados pela Feira Internacional de Maputo (Facim), anunciou segunda-feira a Sociedade Gestora de Exposições, Feiras e Congressos (Sogex).

    Falando em nome da Sogex, o ex-presidente Américo Magaia informou que o projecto imobiliário prevê a construção de dois hotéis de cinco e três estrelas, escritórios, residências, galerias comerciais e parque de estacionamento, enquadrados por um “pulmão” verde formado por diferentes espaços de jardim.

    O empreendimento será edificado ao longo de dez anos e em cinco fases por um grupo de investidores moçambicanos congregados numa sociedade designada Constellation, disse Américo Magaia.

    De acordo com a mesma fonte, a Constellation pagou pouco mais de 10,8 milhões de dólares para a aquisição dos terrenos onde será instalado o projecto imobiliário, na baixa da capital moçambicana.

    Com a construção do empreendimento, a Feira Internacional de Maputo será transferida para o distrito de Marracuene, a cerca de 20 quilómetros do centro da capital.

    Américo Magaia foi substituído pelo empresário Kekobad Patel, que assumiu o cargo em representação da Confederação das Associações Económicas (CTA), que detém uma participação de 39 por cento na entidade promotora da Facim. ”

    Sem comentários, para já.

    Comentar por ABM — 24/03/2010 @ 2:28 am

  10. È mesmo oficial, já se conhecem os grupos do consórcio e até o panorama imobiliário de maputo irá começar a mudar.
    Não acredito que seja nada muito rápido de concluir mas irá arrancar muito em breve.
    O mesmo grupo demonstrou capacidade de investimento/empreendimento num outro projecto que esteve muitos anos parado, também no centro da cidade.
    Parece que há investimento em força! È o preço do progresso. E há um velho ditado que poderá acompanhar esta discussão: O Gosto não se discute, eventualmente poder se á lamentar…

    Comentar por Rita Branquinho — 24/03/2010 @ 3:40 pm

  11. Pelo que aqui vi pare que o sentimento é quase geral. o melhor é deixar tudo com está?se se investe é porque se investe. se se investe é porque querem aceder a alguns milhões que moçambique possa ter de interesse. irra que até chateia. assim nem apetece investir. o pior é que aqueles que agora criticam o investimento, quando a obra estiver pronta vão para lá utilizá-la. é sempre assim. em moçambique, em portugal, na itália, na espanha, brasil, méxico, venezuela, angola e em todos os países que a sua hostória deriva dos latinos (os africanos, depois de 500 anos de colonização não conseguem ser separados desta realidade…tiques de latinidade). Depois também li por aqui que o problema da colonização é que atrasou o país. essa desculpa é triste após 36 anos de independência. então em 36 anos não conseguiram recuperar nada e ainda ficaram piores? não digo terem dado o grande salto mas teriam já de mostrar diferença na mudança. isso não se vê. primeiro deveriam (o governo) preocupar-se com a cidadania dos seus co-cidadãos. ensiná-los a terem comportamentos correctos, evitar o pedir por pedir, o ser o coitadinho sempre que se apercebem que existe um estrangeiro por perto (seja ele de onde for menos da china). depois apostar na formação de base técnica e só depois na formação geral e de competências mais elevadas. é assim que se constroi um país que bateu no fundo. depois lutar contra o neo colonialismo. os portugueses ainda têm receio de investir em força em moçambique por isso mesmo mas outros colonizam o país em troca de grandes lucros. veja-se a espanha (eles não constroem centros de saude só pelos lindos olhos dos moçambicanos. há de certeza mto interesse em troca. eles têm a maior frota pesqueira em moçambique) os chineses constroem estradas, pontes e até aeroportos. tiram o quê de moçambique? e os italianos na parte energética? bem…estes não investem? claro que investem e colonizam pois são eles que mandam em moçambique. por isso deixem-se de histórias e aceitem os investimentos ricos…é isso que faz andar a economia, é isso que engrandece os países desde que isso traga melhorias ao país e que seja pago com coisas rwais e não autorizando a fazer-se tudo o que se quer (por exemplo autorizar a china a desbastar as florestas, a sacar os dentes dos rinos ou a pescar por aspiração)

    Comentar por antonio — 28/05/2011 @ 6:32 pm

  12. Afinal esse projeto já saiu do papel ou sao meras palavras vazias sem concretização, alguém sabe me responder ?.

    Comentar por sergio — 29/02/2012 @ 12:26 pm

    • Sérgio, que eu saiba está a andar, primeiro tem que se desmantelar a velha FACIM e tirar aquela porcaria toda dali…..

      Comentar por ABM — 29/02/2012 @ 1:11 pm

  13. Pode-se discutir a estética, a funcionalidade, o mercado-alvo, os interesses ocultos, etc., etc., etc.
    Uma coisa é certa, como está actualmente, ao abandono, é que não serve rigorosamente a ninguém.
    Se existem interessados com capacidade de investimento, sejam bem vindos. Desde que sejam cumpridas as respectivas contrapartidas, e que as mesmas tenham reflexo na melhoria da qualidade de vida do cidadão comum, leia-se: mais espaços verdes, mais emprego, mais pólos de atracção nocturna à beira mar, melhoria do pavimento da avenida marginal e iluminação nocturna, passeios, semáforos, passadeiras, mobiliário urbano, caixotes de lixo, sanitários públicos, etc., etc. Enfim, uma panóplia de carências que afectam especificamente aquela zona, e não só.

    Comentar por Bolívar — 03/07/2012 @ 5:54 pm


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