THE DELAGOA BAY REVIEW

17/03/2010

PORTUGUESE NATIONAL PORREIRISMO

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 8:55 pm

por ABM (18 de Março de 2010)

Para além de ter que andar às voltas para arranjar o delapidado telhado do meu repositório de caixotes de livros em Alcoentre City, fui arredado dos meus deveres cívicos maschambianos por um interessante episódio que creio que transmite algo profundo sobre esta curiosa cultura portuguesa que nos imerge.

Em algures perdido na internet, desde Dezembro que mantenho um “blogue”,  primariamente sobre desporto moçambicano, que vou alimentando com o que tenho e mais umas esmolas fotográficas que mãos caridosas me vão enviando. Só que, mercê dos meus rodopios de globetrotter, as coisas que tenho estão algo caoticamente guardadas em caixotes um pouco por toda a parte.

Há poucos dias, ao levar um caixote para a arrecadação do prédio onde levo precária existência em Cascais City, dei com uma série de documentos que aproveitei para rever e seleccionar para colocar no tal de Delagoa Bay. Distraí-me com o tempo e acabei por ficar na tal arrecadação uns 40 minutos. E depois voltei para cima com uma pilha de papéis.

O apartamento de Cascais é um daqueles modernos, chiquérrimos, acabados de fazer e com todos os requintes de malvadez que se possam pensar, sistemas de alarme, de ventilação, videoporteiro, construção térmica da mais recente, antisísmica, elevadores, um bruto parque com piscina, court de ténis, clubhouse (em português diz-se … clubhouse) ligações de telefone, internet, televisão, fichas por todos os lados, tudo novo. A vizinhança é do mais in possível, e tirando os 30% que simplesmente não pagam as quotas do condomínio aparentemente porque não podem prescindir das férias de inverno na neve, é tudo do mais conceituado possível. Famílias brasonadas, novos ricos, carros do melhor. Até os seus cães são de raças catalogadas.

Voltando à história: depois de apanhar uns papéis e fotografias, subi para o meu apartamento. Eram cerca das 5 horas da tarde. Quando cheguei ao meu escritório, pousei os papéis e senti-me um pouco adoentado, de uma forma curiosa. Fiquei cansado, sonolento, com dores nos músculos e alguma dor de cabeça. Expedito, meti-me na cama e quase imediatamente adormeci.

Dormi 25 horas seguidas.

Enquanto estava na cama, a Patroa quase que entrou em pânico, pois alguém dormir de repente 25 horas seguidas sem comer e completamente fora da norma era preocupante, especialmente dado que eu dissera que me sentira mal.

Quando acordei, no dia seguinte às seis horas da tarde (dantes, após me tentarem acordar duas vezes, tinha ameaçado de morte quem me acordasse mais uma vez), tentei rever o que se tinha passado. A minha suspeita foi que algo acontecera quando eu estivera na arrecadação que fica na cave. A Patroa telefonou a uma coisa chamada Protecção Civil e aos Bombeiros de Cascais, para virem ver o que se passava.

Também me queria levar a um hospital para ser observado, o que recusei: estava vivo e não estava para estar sete horas sentado numa sala para aparecer um daqueles médicos estafados eslovaco-ucranianos dizer impacientemente que fosse para outro hospital, onde depois de mais sete horas me mandariam para casa tomar três comprimidos de não sei o quê que levaria mais uma hora de caça a uma farmácia aberta.

Gosto da ideia de que, já que tenho que morrer, ao menos que o faça em paz e nos meus termos.

Mas o que acontecera? Afinal, a cave do meu hipermoderno, chiquérrimo prédio, onde fica a arrecadação, tem extintores, sistemas de detecção de fogos, de detecção da presença excessiva de monóxido de carbono e sistemas automáticos de ventilação.

Só que, descobri depois, há mais que cinco anos que está tudo desligado.

Pura e simplesmente.

E ninguém sabe o que se passa e ninguém é responsável.

Os senhores da Protecção Civil, mediante um aparelhómetro que traziam com eles, fizeram uma medição dos níveis de monóxido de carbono presente na cave onde eu estivera, que indicou a presença desse gás tóxico várias vezes acima do nível considerado perigoso.

Ou seja, eu fora intoxicado com o gás monóxido de carbono.

Enquanto lá estavam, e antes de sair tudo a correr dali, inspeccionaram a cave do prédio e detectaram uma relativamente longa lista de infracções, qualquer delas susceptível de resultar em perigo, dano ou morte.

E aqui entra em acção o portuguese national-porreirismo.

O que é que fizeram estes senhores?

Rigorosamente, nada.

Disseram qualquer coisa como “olhe, sabe, a lei regula estas coisas todas e prescreve pesadas multas para estas infracções e de facto o senhor podia ter morrido aqui em baixo, mas por outro lado estas situações são comuns por todo o país e além disso não fazendo nada dá tempo ao seu condomínio de activar os sistemas e fazer com que sejam tomadas medidas correctivas por parte dos condóminos. E assim não pagam multas e resolve-se tudo na mesma, amigavelmente”.

Ou seja, não faziam nada e isso era na realidade fazer-me um favor.

E foram-se embora.

Ora, como é mais ou menos comum , e é de lei, o prédio tem um condomínio constituído. Como somos todos muito ricos e todos muito ocupados, ninguém quer tomar conta dos seus assuntos e por essa razão pagamos uma pequena fortuna para alguém de fora administrar os assuntos, o que basicamente se tem cingido a cobrar as quotas e tentar (infrutiferamente) cobrar as ditas aos tais 30 por cento de condóminos que nunca pagam nada. O que não é problema pois como somos todos ricos, subimos o valor das quotas e assim cobrimos os custos do prédio, pagando no processo os tais 30% dos que não pagam, mais uma senhora advogada para administrar o prédio (em resumo, para ir atrás deles) mais (este ano) 700 euros para calmamente ir empurrando as sucessivas e aparentemente falhadas acções de pagamento pelos tortuosos corredores dos tribunais aqui do burgo.

Anda-se nisto há anos.

Preocupada com a eminência gorada de uma viuvez e algo escandalizada, a Patroa mandou um e-mail à tal senhora doutora administradora do condomínio a dar conta do sucedido e a urgir a tomada de medidas imediatas para acautelar contra o que se estava a passar na cave.

E o que fez a senhora administradora?

Nada.

Nem se dignou responder a dizer qualquer coisa como “olhe,veja lá, li a mensagem, que chatice”, ou sequer tentar a cortesia de fingir que está preocupada, não tanto comigo, mas com o bem-estar e segurança de quem lhe paga umas massas precisamente para tratar destes assuntos.

Para a maior parte dos meus ilustres, ricos e ocupados vizinhos, neste momento o assunto nem sequer existe. E como as minhas relações com eles são as mais normais e correctas possíveis entre quaisquer vizinhos em Portugal – com uma excepção, metade não sei quem são e quanto à outra metade conheço-lhes todos os defeitos e nenhuma qualidade – o assunto fica no ar.

E o fantástico é que, em resumo, apesar do que aconteceu e do perigo que já se sabe estar ali em baixo, e de ter sido dado conhecimento aos directamente envolvidos e responsáveis, nada se fez, ninguém é responsável, e no fim eu vou ainda ser visto como o vizinho que veio da África e que anda a chatear os outros por causa destas coisas.

Afinal, quem me mandou estar na cave do meu prédio num fim de tarde?

Noutro sítio onde já vivi, um país anglo-saxónico imenso e com um oceano de cada lado cujo nome não vem para o caso, o Sr. da Protecção Civil local interditaria as caves imediatamente, fazia um aviso formal ao condomínio a dar conta do que tinha constatado e avisava que a cave ficaria fechada até se proceder à tomada de medidas para proteger as pessoas. E dava um prazo para se estar em conformidade.

Na bela e civilizadérrima Cascais, nada aconteceu e creio que vou ter que mandar outra mensagem à senhora doutora administradora a dizer qualquer coisa como “olhe, sôtora, desculpe lá qualquer coisa, e já agora, e se não se importa, mas a sra por acaso reparou num imeilezinho….?”.

Alternativamente, sempre posso ir à minha arrecadação com um escafandro de mergulhador.

13 comentários »

  1. Aconteceu o mesmo com os tios de uma amiga minha num predio junto ao Estoril sol, so que os pobres coitados morreram mesmo. O problema foi uma falha na instalacao do aquecimento central que bombeava o monoxido de carbono para dentro do apartamento e nao para fora, como era suposto. Ja la vao cerca de 20 anos e o processo ainda se arrasta em tribunal, tendo sido ja arquivados duas vezes “por nao se conseguir provar dolo” ou razao semelhante. Novos processos para “desarquirvar”. E entretanto la vao os herdeiros pagando processos, despesas, advogados e nada se “apura”. Como ja disse ha dias aqui, se a justica nao funciona, nada funciona e se os sistemas nao mudam, tudo piora. Se isto tivesse acontecido la naquele pais de que falas, estavas agora com grandes perspectivas de ficares ainda mais rico; os senhores da proteccao civil fechariam a cave pois SABEM que senao o fizerem vao ser eles mesmos responsaveis pessoalmente pelos danos que dai advenham; a senhora do condiminio responderia, pelas mesmas razoes dos da proteccao civil e todos cumprem, porque percebem que la a justica funciona e ninguem tem que esperar anos infinitos para que se apurem responsabilidades… Ainda bem que estas bem; evita a cave e… olha, “desenrasca-te” (outro conceito do lexico do nacional porreirismo)🙂

    Comentar por AL — 17/03/2010 @ 9:26 pm

  2. pôxa quase foste desta pa melhor e eu nunca o saberia……tenho k mandar isto pa minha mana tua vizinha, à cautela pa garagem dela.
    bjso

    Comentar por M.Reprezas — 17/03/2010 @ 10:23 pm

  3. Caros co-bloguistas (+caros comentadores residentes + leitores ), acho que deveria este blog colocar um processo por danos morais às entidades tutelares – arriscámo-nos a perder um bloguista em acção (os son(h)os dão os melhores posts)

    [se fossemos um blog político até poderíamos “aventar” – esta é para os mais-bloguistas – uma tentativa de censura]

    Comentar por jpt — 17/03/2010 @ 11:01 pm

  4. JPT

    Nada disso – o que está na moda estes dias é levar duas sessões do parlamento a discutir o assunto nas respectivas linhas ideológicas (daquelas que nunca se cruzam), constituir uma “Comissão de Ínquérito à Presença de Monóxido de Carbono nas Caves dos Prédios” – CIPMCCP – que arrolava tudo e todos mais o Rui Pedro Soares, onde, após duas semanas de andar para a frente e para trás, se concluiria vagamente que 1) o assunto pode ser sério, 2) não está inscrito no PEC, 3) demita-se ministro da tutela das garagens.

    Comentar por ABM — 17/03/2010 @ 11:14 pm

  5. O melhor é contactar a SIC, programa Nós por Cá. Eles vêm concerteza.

    Comentar por Pedro Silveira — 18/03/2010 @ 12:07 am

  6. Ora nem mais. Uma apitadela para o programa Nós por Cá pode fazer milagres. Ainda bem que escapaste Tomané, e não voltes à cave.

    Comentar por Helena Espinha — 18/03/2010 @ 12:30 pm

  7. ABM, o teu dia não tinha chegado porque ainda tens bué de anos para viver. Sei de fonte segura!
    Nesse dia, fomos visitar-vos e estranhamos o teu sono e cansaço. Estavamos longe de saber a razão do problema. Obviamente, estavamos todos preocupados com uma situação fora do normal.
    Afinal sobreviveste a um forte ataque de gas!
    Resultado: ABM – 1 Monóxido de Carbono – 0.

    Ainda bem que tudo acabou em bem.
    Um abraço.

    Comentar por Jorge Ribeiro — 18/03/2010 @ 3:55 pm

  8. Arrepiante!
    Mais uma razão para somar às tantas que me levam a dizer que viver em Portugal é muito perigoso!

    Comentar por Leonel Auxiliar — 18/03/2010 @ 4:45 pm

  9. Leonel,
    Isso depende de onde vive.

    Comentar por Pedro Silveira — 18/03/2010 @ 5:48 pm

  10. Sim, porque nas montanhas do Norte ainda se vai estando seguro, tipo reduto da Astúrias.

    Oxalá a história se repita repetindo, LOL…

    E para o Sr. ABM, o prosseguimento de uma boa recuperação.

    Comentar por umBhalane — 18/03/2010 @ 6:31 pm

  11. Caro ABM,

    Va la! Teve sorte! A actuacao da autoridade competetnte perante um clarissimo caso de “near miss” e escandalosa. Se nao fosse Portugal aconselhava a que recorresse a um tribunal. Mas como os tribunais e procuradores por ai acham mais giro andar a gastar tempo a deixar fugir informacao e fazer escutas indirectas ao primeiro, isto claro, para nao falar que a reputacao da justica e tao boa que os jornais se dao ao luxo de desrespeitar descaradamente ordens do tribunal emitidas por juizes… enfim, quando as prioridades da justica sao tao importantes, o que e que a misera vida de um misero cidadao interessa… adiante…

    Espero que recupere, entretanto, e sem querer fazer demasiado o papel de medico (que nao sou) umas dicas:
    1 – Para comecar, nao ir ao medico depois e um incidente destes e pura tolice a qual voce justifica com desculpas esfarrapadas semi-racistas (nao vai ao hospital porque esta cheio de medicos ucranianos???).
    2 – Intoxicacao por monoxido de carbono causa os seus danos (e eventualmente morte) porque o CO se fixa irreversivelmente com a hemoglobina nos seus globulos vermelhos impedindo o transporte de oxigenio para o cerebro. Voce dormiu 25 horas porque esse e o mecanismo de emergencia do nosso cerebro para se tentar manter vivo quando tem falta de oxigenio, desliga-se temporariamente para reduzir o consumo de oxigenio.
    3 – Voce acordou mas atencao que ainda esta em recuperacao. Como disse acima o CO liga-se irreversivelmente a hemoglobina, assim sendo os globulos vermelhos afectados estao irreversivelmente perdidos a unica forma de recuperar essa capacidade perdida de transporte de oxigenio e eliminar os globulos afectados e produzir novos, esse processo dura tempo. Um globulo vermelho medio mantem-se em circulacao entre 60 a 120 dias.
    4 – Por enquanto, a sua medula ossea estara a fazer horas extraordinarias a produzir furiosamente novos globulos vermelhos.
    5 – Assim sendo voce tem de ajudar este processo: 5.1. – abife-se – alimentacao rica em ferro (carne e uma boa fonte mas ha outras), suplementos ate nem seria ma ideia, mas nao exagere, para facilitar a producao de nova hemoglobina
    5.2. – Tenha em atencao que a sua capacidade de transporte de oxigenio esta reduzida, isto equivale a uma insuficiencia pulmonar, assim sendo, repouso e indicado para nao sobrecarregar o seu sistema cardiovascular. Alem disso nao se esqueca que no curto prazo, enquanto os maus globulos vermelhos nao sao eliminados mas a medula esta furiosamente a produzir novos, o seu sangue sera mais “espesso” que o normal.
    5.3 – Tente manter-se numa localizacao ao nivel do mar, nao faca montanhismo por exemplo. A quantidade de oxigenio disponivel no ar reduz-se dramaticamente a medida que subimos em altitude, nao vale a pena estar a introduzir mais um stress desnecessario ao seu sistema cardiovascular.
    5.4 – Seria boa ideia manter-se longe de cidades ou outros sitios com poluicao atmosferica. Nao se esqueca que a circulacao automovel nas nossas cidades e responsavel por niveis relativamente aumentados de monoxido de carbono. Dizendo isto, nao se esqueca tambem do 5.3

    E acho que e tudo por agora. As melhoras e va ao medico, nao seja pateta!

    Comentar por Lowlander — 19/03/2010 @ 11:47 am

  12. Sr Ll

    Após esperar um tempo, informo que ainda estou vivo. Neste momkento a fazer uma longa lista de testes para ver quanto mais tempo o Maschamba me terá.

    Agradeço o seu útil e lúcido comentário e só me peno por não ter na altura percebido a gravidade da situação.

    Mas certamente ficará como eu boquiaberto por, apesar de ter sido avisada há um mês, a sra administradora do condomínio não só não deu qualquer resposta à informação enviada como rigorosamente nada fez em relação ao assunto até agora.

    Portugal no seu pior.

    Segue-se o próximo capítulo.

    Comentar por ABM — 07/04/2010 @ 11:28 pm

    • Se te fores ainda vamos sacar um bom taco de indemnização …

      Comentar por jpt — 12/04/2010 @ 1:45 am


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