THE DELAGOA BAY REVIEW

02/04/2010

A PRIMEIRA VEZ QUE CONDUZI UM VOLVO

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 2:37 am

por ABM (Alcoentre, 2 de Abril de 2010)

A primeira vez na vida que segurei o volante de um carro em andamento com as minhas mãos foi em 1964. Tinha quase cinco anos. E não foi com o pai BM, pois se eu tocasse no carro dele, mesmo estacionado e com as chaves no bolso dele, a minha vida correria perigo.

O feito aconteceu num domingo com um casal nosso vizinho, os Rocha, que viviam numa ruazinha transversal da Massano de Amorim (hoje Mao-Tsé-Tung? não sei) no curtíssimo periodo entre os BM virem de Boane e se instalarem definitvamente no coração da Polana, onde cresci.

Creio que o Sr Rocha era delegado de propaganda médica em LM, como o Rui Knofly. Eu gostava muito deles e ainda mais da filha, a bela Sandra, mais conhecida lá em casa como a “Sandrinha Bufinha” (não sei as raízes profundas do cognome). Não me recordo nitidamente porque gostava dela, nem me lembro de nada particularmente especial sobre ela, mas algures tenho um fotografia dela num caixote, vestida num daqueles vestidinhos brancos domingueiros com um chapéuzinho branco. E à volta da fotografia, com uma caneta BIC, fiz na altura uns traços e uns desenhos de umas flores.

Suponho que isso era uma espécie de expressão de paixão assolapada, versão de puto de cinco anos.

Um dia, um domingo à tarde, fui com eles passear de carro. Passear de carro ao domingo naqueles tempos da bucólica Lourenço Marques era andar devagar na avenida marginal. Os mais intrépidos (nesse sentido, os Rochas eram-no) iam até à Costa do Sol, que para mim na altura ficava positivamente no Fim do Mundo.

No regresso, Sr e Sra Rocha à frente e eu e a Sandra Bufinha atrás, ele perguntou-me se eu queria conduzir o carro. Eles tinham um carro, um Volvo, igualzinho ao que está em cima. Nunca sendo alguém para fugir aos desafios, disse que claro que queria conduzir o carro. Ele parou, eu sentei-me ao colo dele e lá fomos, durante o que me pareceu uma eternidade, eu com as mãos no volante a “conduzir”, o Sr Rocha a fazer tudo o resto. No Passeio dos Tristes aos domingos em Lourenço Marques a velocidade máxima era para aí 20 quilómetros por hora, por isso suponho que não tenha causado transtornos a ninguém.

Uns anos depois os Rocha desapareceram. Diseram-me que tinham ido viver para a “Metrópole” (que para mim ficava noutra galáxia).

Vi o Sr Rocha e a mulher apenas uma vez depois disso, em 1972, quando pela primeira vez na vida visitei Portugal. Tinha doze anos de idade. Não sei como obtive o telefone deles mas telefonei-lhes e disse-lhes que gostava de os ver. Como eu estava com a equipa de natação de Moçambique e eles nessa noite jantavam numa enorme churrasqueira que ainda existe em Lisboa no fim do Campo Grande junto ao antigo estádio do Sporting, foi aí que os vi, brevemente, à entrada. Quase não os reconheci. A conversa foi fugaz. A Sandrinha Bufinha já só era Sandra e não viera.

Nunca mais os vi.

Mas recordo-os e o meu baptismo de fogo automóvel. Num Volvo.

Lembrei-me disto tudo (e mais) quando hoje li uma noticiazinha que mostra para o bravo novo mundo para onde nos movemos. A Volvo, que era sueca e que já havia sido comprada pelos americanos da Ford, foi esta semana vendida por estes (depois destes quase a lixarem) a uma tal Geely, uma empresa chinesa que faz automóveis aparentemente com a mais duvidosa qualidade. A Volvo custou 1800 milhões de dólares, o que é, para o exmo.. leitor imaginar, menos que metade do que custou ao governo português tapar mais ou menos o buraco do Banco Português de Negócios mas que é até este momento a maior aquisição de uma marca estrangeira por um fabricante automóvel chinês. A Geely, cujo chefe é um tal Sr. Li Shufu, conta obter o enorme conhecimento da Volvo nas áreas de qualidade, segurança, gestão de distribuição mundial e tecnologia, para melhorar a sua produção e tornar-se competitiva a nível mundial.

É curioso como os tempos correm. A Land Rover é indiana. Agora a Volvo é chinesa.

Hum. O que diria a Sandrinha Bufinha disto tudo?

5 comentários »

  1. Mega traque aos chineses……..

    Comentar por Pedro Silveira — 02/04/2010 @ 3:12 am

  2. Regras de mercado.

    A Sandrinha Bufinha não é aquela menina inteligente que…

    Comentar por umBhalane — 02/04/2010 @ 11:21 am

  3. Tambem eu me lembro de fazer o mesmo com o meu pai. Iamos passear de carro e ele sentava-me ao colo e eu punha as maos no volante e la seguiamos nos pela estrada fora. Despertaste muito boas memorias em mim com este post ABM. Agradecida!

    Comentar por AL — 02/04/2010 @ 11:31 am

  4. Parabens ABM, expressou muitas verdades que não são do conhecimento desta “MAGUERRADA”…Assim se escreve a história que a muitos custa ler…

    Comentar por Adérito Rodrigues — 14/10/2010 @ 12:29 am

  5. Sr Rodrigues

    Obrigado, ainda bem que gostou….
    ABM

    Comentar por ABM — 14/10/2010 @ 12:40 am


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