THE DELAGOA BAY REVIEW

04/04/2010

GUINÉ-BISSAU

Filed under: Portugal-África — ABM @ 2:22 am

por ABM (Alcoentre, 4 de Abril de 2010)

Como é viver num país onde não parece haver “ordem estabelecida”? felizmente não faço uma ideia clara, se bem que testemunhei em pessoa os eventos de 1975 em Portugal continental, o que já deu para uma vida.

Mas o que se vem passando na Guiné estes últimos anos é obra. Numa altura em que já se tornou mais ou menos fora de moda fazer golpes militares, nesse pequeno país que foi um território menor (geograficamente falando) do espólio africano português, continua a tê-los, quase alegremente. Com a agravante dos rumores persistentes de que aquilo pode estar a tornar-se em mais uma plataforma giratória das rotas da cocaína (um pouco como Portugal).

Não conheço a Guiné apesar de ter lido já algumas coisas sobre aquele país e de ter uma amiga em Angola que é de lá. Praticamente indefensável aos preços que Salazar estava disposto a pagar, foi o calcanhar de Aquiles da guerra em três frentes e uma das causas mais directas da discreta rebelião militar que desembocou no pronunciamento militar em Abril de 1974.

Basicamente, queriam que os militares ali fizessem a omelete sem ovos. Nenhum militar que eu conheça gosta de fazer omeletes sem ovos. Na guerra moderna, há coragem mas raramente há milagres.

O percurso desde a independência tem sido penoso e imagino que o custo dessa instabilidade cai directamente sobre a pele dos seus cidadãos.

No mais recente episódio, não se percebe o que o governo português anda a fazer, mas imagino que, fora de cena, estejam a tentar resolver a coisa.

Nem se percebe como é que os militares, os últimos garantes da ordem, são os principais protagonistas da desordem.

O Dr. Amílcar Cabral, uma figura notável dos anos 60 e que lutou por aquela terra (juntamente com Cabo Verde) não ficaria nada satisfeito.

4 comentários »

  1. Em minha modesta opiniao, o que se passa na GB prende-se mais com criminalidade internacional do que com problemas politicos (que os ha). Visitei a GB ha uns anos e, para minha surpresa, adorei o pais e ainda mais as gentes! Iria para la trabalhar e viver na boa e ja! Sem qualquer problema. E digo com surpresa, porque a ideia que eu tinha da GB era a pior possivel – imaginava aquilo um pantano de gente agressiva. Encontrei completamente o contrario e o calor com que fui recebida cativou-me para sempre, acho eu. Adorei a paisagem, tanto a costa entrecortada por tantos canais, como o interior mais luxuriante (o pouco que vi e por onde andei). De resto, la vive-se como na maioria dos paises africanos por onde tenho passado: com as costas viradas para um governo que pouco sentido faz na vida quotidiana dos cidadaos. Quem quer saude vai ao curandeiro, ou visita um parente enfermeiro, ou vai a uma ONG, ou simplesmente ao mercado onde abundam as bancas de medicamentos contrafeitos e por vezes fora de prazo. O dono das bancas tem mais ou menos o mesmo papel que os nossos farmaceuticos e sabe recomendar a pomada X para este prurido ou “experimente la estes comprimidos para a febre”. Se querem educacao, poem os miudos nas madrassas, ou nas escolas das outras igrejas ou missoes ou ate mesmo nas do estado quando as ha. Se querem luz compram um gerador ou fazem uma baixada de um poste publico e tem luz quando a cidade tambem a tem; se querem agua vao ao poco, ou fazem um furo, arranjam uma bomba e um deposito. Ou vao ao rio. Do lixo encarregam-se os abutres. Cultivam as suas tabancas de arroz e caju, negoceiam no mercado informal e esperam que um dia apareca um novo amilcar cabral. No final do mes vao ate ao escritorio da Western Union levantar a remessa que os parentes emigrados enviam todos os meses e com a qual compram sabao, velas, petroleo e aquilo que nao conseguem produzir.
    E apesar disto tudo, quando eu la estive, nao havia miudos da rua, nem ninguem a querer guardar o carro, nem pedintes. Como me dizia um guineense “ainda vamos tendo capacidade para tratar das nossas criancas e dos nossos pobres”. As casas tinham grades, mas guardas eram uma raridade. Dizem-me que hoje muita coisa mudou, mas na minha memoria a GB continua a ser pais lindo de gente maravilhosa!

    Comentar por AL — 04/04/2010 @ 12:09 pm

  2. Estas declarações, lapidares, (“…o Primeiro Ministro Carlos Gomes Júnior disse que o encontro concluiu que os referidos incidentes não passavam de desentendimentos entre militares.”)

    suscitaram-me o comentário seguinte:

    «Os “libertadores”, os “filhos dos libertadores”, os “netos dos libertadores” ainda não se entendem…

    “…o Primeiro Ministro Carlos Gomes Júnior disse que o encontro concluiu que os referidos incidentes não passavam de desentendimentos entre militares.”

    Sim, tem toda a razão.

    Não é nada com a Guiné-Bissau, com os Povos da Guiné-Bissau.

    São meros desentendimentos entre “libertadores”, que nada tem a ver com a Guiné-Bissau.

    Só não sei se os muzungos conseguem de entender.»

    Posted by: umBhalane | 03/04/2010 at 00:18
    in http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2010/04/lider-golpista-pede-desculpas-pelas-amea%C3%A7as-ao-pm.html#comments

    Agora, quando eu erava muana lá na Zambézia, os muanas Senas, diziam:

    – É uma princadera (brincadeira).

    Comentar por umBhalane — 04/04/2010 @ 2:34 pm

  3. Querer ser livre todos querem.
    Saber ser livre nem todos lá chegam. Ou querem chegar. A confusão ajuda a atingir os objectivos que pretendem.

    ABM, como aconteçeu no fim do império colonial Português, quando os militares desistem de combater isso significa que se esfumou a ultima reserva da soberania do Estado.

    Quanto ao que faz o governo Português, talvez fosse melhor o assunto ser resolvido com o Pablo Escobar que controla a area.

    Mas não nos queixemos. Afinal os Guineenses é que tem de resolver o problema. Eles é que sabem o que querem para o País deles.

    Comentar por Pedro Silveira — 06/04/2010 @ 8:11 pm

  4. …o líder militar António Injai, soridente, disse que tudo acabara.

    “A reunião decorreu de melhor forma. Desculpamo-nos uns aos outros. Não há mais problemas. Vamos cada um retomar o seu trabalho”, explicou em crioulo o General Injai.

    “Desculpamo-nos uns aos outros.”

    Afinale?

    Simples.

    Até já.

    Fonte: BBCPara Africa. com

    Comentar por umBhalane — 07/04/2010 @ 12:53 pm


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