THE DELAGOA BAY REVIEW

08/04/2010

O TSUNAMI NO HORIZONTE

Filed under: Economia Portuguesa — ABM @ 4:11 pm



por ABM (Cascais, 8 de Abril de 2010)

Creio que a mensagem fundamental do que se está a passar em Portugal economicamente neste momento é precisamente o contrário do que o pai BM  já me dizia em miúdo: “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. No presente episódio das dificuldades económicas portuguesas, assiste-se a um claro dourar da pílula, ou, se formos generosos, a um fenómeno de “gradualismo socratiano”.

Temporariamente.

Ou seja, parece que vem aí um verdadeiro tsunami e, para nosso bem, é melhor que se encaixe nas nossas cabeças o que é que isso quer dizer.

Em baixo reproduzo, com vénia, um excelente, se algo venenoso, parecer de uma conhecida casa de analistas macroeconómicos, em que escalpelizam o que está a ser feito. Peço desculpa mas o texto vai em inglês.

Mas antes, mais uns dados de contextualização do tal tsunami de que falo, para o exmo leitor mais literária do que economicamente inclinado:

1. Por “classe média portuguesa” entende-se quem ganhe um salário médio mensal de até 700 euros por mês. Não 1400, não 2000. Ser classe média em Portugal é ganhar até 700 euros por mês.
2. Actualmente, 15 por cento dos contribuintes portugueses já pagam 85 por cento dos impostos cobrados em Portugal. Pergunta-se: de onde virão os próximos impostos?
3. Pela primeira vez na história portuguesa, se se contarem na população total com os velhos, os jovens e os reformados, dos cerca de 10 milhões de pessoas que ali vivem, são mais os que não trabalham do que os que trabalham.
4. Generosamente, com a forte e crescente incidência de impostos indirectos e a eliminação quase total de benfícios fiscais, cada vez mais até o desempregado, o reformado e o pobre pagam impostos (imposto automóvel, imposto sobre combustíveis, imposto de valor acrescentado, taxas, emolumentos, impostos sobre o património, sobre juros, sobre “ganhos”, etc).
5. Só nos cinco anos entre 2005 e 2010, cada cidadão português em média, em termos de dívida privada (isto quer dizer excluindo a dívida pública) passou a dever a instituições estrangeiras de 5 para 10 mil euros, um crescimento de cem por cento.
6. Em 2009, o défice entre a despesa feita pelo governo e o dinheiro arrecadado em impostos foi de 9.4 por cento do produto interno nacional
7. A taxa de desemprego, que se cifra actualmente em 10.3%, deverá manter-se nesses parâmetros até 2013, no entanto os subsídios de desemprego começarão a acabar dentro de seis meses, o que augura uma situação em que centenas de mikhares de pessoas não terão nem emprego nem forma clara de sustentarem as suas vidas.
8. Até 2013, as taxas de juro, que neste momento são sustendadas por uma taxa de base artificialmente baixa (1%) apenas poderão mover-se num sentido: para cima.
9. A dívida externa, pública e privada, continuará a subir e atingirá níveis verdadeiramente estratosféricos. Alguns dirão mesmo, aludindo aos presentes problemas da república helénica, que nos veremos “gregos” para lidar com a situação.

O “gradualismo socratiano”, já anunciado para 2010, consiste para já no seguinte: a) “baixar” o défice em 2010 de 9.4 para 8.5 por cento; b) aumentar alguns impostos, subir mais uma vez a idade em que as pessoas se podem reformar, congelar alguns daqueles projectos dos tempos das vacas gordas, timidamente tentar reduzir o número de funcionários públicos e c) privatizar tudo o que puder ser privatizado, ou seja, ir buscar mais dinheiro para tapar o buraco vendendo o património que o governo ainda detém.

Mas como serão 2011, 2012, 2013 e 2014?

E não convém aqui pensar em termos partidários. Se por acaso o novo senhor da casa do PSD, o pródigo Pedro Passos Coelho, substituir o actual primeiro-ministro, o que vai ter que ser feito vai ter que ser feito.

A análise da Casa Roubini Global Economics, feita há um mês, por Arnab Das, Elisa Parisi-Capone, Natalia Gurushina, Katharina Jungen e Jennifer Kapila:

Portugal is among the weakest members on both the external and domestic front. Portugal’s single-A sovereign rating and smaller 2010 borrowing needs shield it from the acute rollover concerns that have escalated the situation in Greece. But Portugal shares many of Greece’s medium-term vulnerabilities. As in Greece, the economy’s negative net savings position is a warning sign of insufficient domestic resources for a sustainable growth pattern. Rather than fiscal overextension, Portugal has suffered primarily from anemic productivity performance since the launch of the EMU, as well as low price competitiveness as shown in the persistent trade and current account deficits. The fact that Portugal’s main trading partner, Spain, faces a prolonged domestic demand retrenchment does not help either. The counterpart to the current account deficit accumulation are large debt levels, especially in the private sector. Including private and public debt, the total debt to GDP ratio reached almost 300% in 2007, among the highest in the eurozone and in line with the ratio in the United States. The current account deficits are mainly financed by cross-border bank borrowing and by a negative net international financing position of about 100% of GDP. By 2008 the stock of external debt has reached 200% of GDP, whereas the IMF projects the external debt to exports ratio to exceed 700% in 2009.

On the positive side, earlier fiscal consolidation efforts put Portugal’s public finances in a better position to weather the Great Recession than many other countries. Over the longer term, Portugal needs to resume the stalled convergence process in living standards with the eurozone average through aggressive structural reforms in the product and labor markets, to head off further competitiveness losses and unsustainable increases in external indebtedness.

Due to a steep deterioration in public finances, the markets have singled out Portugal as the second riskiest EZ country after Greece in early 2010. While Portugal long avoided a build-up of an excessive debt burden a la Italy, the debt-to-GDP ratio shot up drastically as a result of the current crisis. Portugal entered the recession with a debt ratio of 64% in 2007, which the Portuguese government expects to rise above 85% by 2010. Debt primarily increased on the back of large fiscal deficits which ballooned in light of falling tax revenues, the sizeable fiscal stimulus and increased social spending.

In late January 2010, the Portuguese Prime Minister Socrates presented the government’s fiscal consolidation plan, which envisions a reduction of the budget deficit to 3% by 2013, in line with the targets laid out by the European Commission. The government rejects immediate austerity measures in favor of a gradual deficit reduction from 9.3% in 2009 to 8.3% in 2010, with a view toward supporting the still fragile economic recovery. While from 2011 on the speed of fiscal consolidation is set to accelerate, it remains to be seen if financial markets are satisfied with the back-loaded nature of the fiscal plan and its inherent uncertainty, or if instead they will demand immediate spending cuts.

A disappointing government bond issue in early February exposed market doubts, and the issue had to be cut from €500 million to €300 million. Portugal cannot afford to underestimate the severity of the situation. As Greece painfully experienced in recent months, a credible and ambitious fiscal consolidation plan, which includes immediate and more detailed fiscal austerity measures and structural reforms, is essential. This in turn will help to calm financial markets, thereby relieving Portugal of some of the additional pressure resulting from financial markets’ uncertainty, such as the rising cost of debt. Restoring its credibility is crucial, given that Portugal is facing financing needs of €18 billion in 2010. In Q1 2010 alone, Portugal is scheduled to raise €5.5 to €6.5 billion.

While the proposed spending cuts appear feasible, budget and debt ratio targets are likely to remain out of reach given that the fiscal plan is based on the government’s over-optimistic growth forecast. The Portuguese government expects the economy to grow 0.7% in 2010, followed by an acceleration of the momentum in subsequent years, while the European Commission is forecasting economic growth of 0.3%. Economic activity is likely to remain subdued, given substantial structural issues as well as the fiscal consolidation’s unfavorable effect on growth.

Prime Minister Socrates is confident about reaching the envisioned budget targets, often citing the valuable experience he gained during the successful fiscal consolidation of Portugal’s public finances in the last decade. This time around, however, the Socialist government he is leading does not enjoy a majority in parliament, so the fiscal consolidation plan is likely to lack sufficient political support to be implemented in full. The government received a taste of the political difficulties ahead, when the Portuguese opposition parties pushed through a law on higher regional spending in early February 2010. The Law on Regional Finance, which foresees spending hikes equivalent to roughly €400 million over a period of four years, the bill is likely to jeopardize the fiscal consolidation plan’s feasibility. While President Anibal Cavaco Silva can still veto the bill, his position remains unclear for the time being. With financial markets’ extreme sensitivity to “credibility deficits” these days, Portugal’s political parties need to pull on the same rope.. Moreover, while social unrest is likely to rise given the public sector hiring freeze and wage cuts the fiscal plan proposes, it is essential for the government to abstain from watering down the fiscal consolidation plan. In fact, given that the deterioration in the budget deficit was largely structural, there is a pressing need for additional reforms to boost employment and growth.

Fiscal Consolidation Measures in Portugal

* a public sector wage freeze
* a 50% tax on bonuses paid to financial institutions’ top executives in 2010
* the reduction of public work projects
* a 150% public sector employment replacement rate
* the recommencement of a privatization program that was stopped given the difficult market conditions

The rating agencies may well further downgrade Portugal in the light of the unconvincing fiscal consolidation plan and the rising cost of debt. In H2 2009, all three major rating agencies revised Portugal’s sovereign rating outlook to negative, but only S&P actually lowered the country’s credit rating 2009 one notch to A+. Moody’s and Fitch so far have confirmed their respective Aa2 and AA ratings.

Que Deus ajude os portugueses.

9 comentários »

  1. Que Deus olhe mesmo por eles, coitados. È por isso que os aviões para Moçambique vêm cheios. Pessoas à procura de novas oportunidades.

    Então, o bom é estar aqui!

    Comentar por Rita Branquinho — 08/04/2010 @ 8:30 pm

  2. RB mas alguma vez teve duvidas? ABM continua com as tuas diatribes economicas. Eu, analfabeta economica assumida, agradeco.🙂

    Comentar por AL — 08/04/2010 @ 10:04 pm

  3. Também é bom ter coluna vertebral.

    Comentar por umBhalane — 09/04/2010 @ 12:15 am

  4. O problema é que os aviões andam cheios para todo o lado……

    Comentar por Pedro Silveira — 10/04/2010 @ 3:16 am

  5. Também me consta!

    O que é óptimo para as companhias de aviação, TAP incluída.

    Comentar por umBhalane — 10/04/2010 @ 3:34 am

  6. … o excesso de produção e o seu consumo por cada vez menos pessoas rebentará com o capitalismo … é inevitável … o que virá depois? … o holocausto definitivo … uma guerra entre todos …

    Comentar por Vítor — 10/04/2010 @ 9:32 am

  7. AL: Não nunca tive, mesmo no pior desespero de não conseguir fazer as coisas que quero…Mas já me estou a conseguir adaptar á mentalidade! E á paciência necessária e o tempo medido de outra maneira!

    Comentar por Rita Branquinho — 10/04/2010 @ 3:24 pm

  8. ABM o que vale é que o texto está em inglês …

    Comentar por jpt — 12/04/2010 @ 12:43 am

  9. Exmos

    Convém não dramatizar. Os portugueses já passaram por isto várias vezes. Entre mortos e feridos, haverá quem sobreviverá e prosperará. A miséria não é doença, apenas chateia.

    Comentar por ABM — 14/04/2010 @ 2:57 pm


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