THE DELAGOA BAY REVIEW

15/04/2010

DEUS E O MEU CORREIO ELECTRÓNICO

Filed under: António Botelho de Melo, Religião — ABM @ 8:14 pm



por ABM (15 de Abril de 2010)

Sempre recebi essas mensagens, mas o facto de nos últimos meses ter aumentado a sua frequência, me levou a pensar mais sobre o assunto.

Antes, um pouco de contexto:

Apesar de toda uma educação formal nos bastidores moçambicanos da igreja católica colonial nos anos 60 – a igreja arqui-conservadora dos senhores cardeal Cerejeira e o então bispo Custódio Alvim Pereira, e de a mãe BM ter sido quase toda a sua vida uma católica dedicada, eu não sou religioso.

Nunca fui.

Simplesmente, nunca acreditei que existisse um ou mais deuses no universo. Não acredito que um ou mais deuses tenha passado mensagens transcendentais e códigos de conduta celestiais para que nós, que sobrevivemos precaria e perenemente à superficie da terra, nós, descendentes prolíficos de um punhado de austrolopitecus quaisquer que sobraram em África de uma qualquer série de razias naturais que em tempos ainda não identificados assolaram o planeta, possamos saber o que é isso de viver uma vida decente e moral, que saibamos o que é a diferença entre o certo e o errado.

Para isso, a razão, a moral e o bom senso bastam a maior parte do tempo.

Mais: qualquer pessoa, crente ou não, que leia um bom livro de história, rapida e facilmente constatará que da corporização e codificação das religiões ao longo dos séculos tem resultado tanto bem como mal.

Em nome das respectivas deificações e específicos paradigmas, cometeram-se as maiores carnificinas, as maiores injustiças, entre os seres humanos.

E se calhar evitaram-se males piores.

E também se fez muito bem.

Ao mesmo tempo, obrigo-me, por princípio, e na esperança de alguma reciprocidade, a respeitar quem acredita que existe um ou mais deuses e as mensagens que supostamente constituem a expressão do que essas entidades quererão que seja feito pelos homens que nelas acreditam. Faço-o primariamente pela constatação básica de que, normalmente, as religiões organizadas podem ser formidáveis catalisadores do bem para muita gente boa e moral.

Algo muito fácil para mim, que tive a relativa sorte de crescer e viver em países mais ou menos plurais política e religiosamente.

E, ao nível pessoal, também constato que muito boa gente aguenta-se psicologicamente perante os por vezes pesados desafios da vida por sentir que existe esse apoio que a sua religião presta.

Bom para eles e elas.

Onde a coisa começa a andar mal é quando este ou aquele crente, esta ou aquela religião, começa a sentir que a sua verdade é a única verdade universal, que se aplica a mim, e que quem não está com ela está contra ela.

Essa intolerância, que se expressa das variadíssimas formas, é perigosa e fomentadora de problemas. Muitos. Há quem diga que hoje em dia se vive mais uma confrontação entre essas visões do homem e do divino. Nalgumas,aparentemente ínfimas franjas destas audiências, resolve-se as disputas à bomba e em espectáculos de assassínios em massa, o palco os media cada vez mais interligados e globalizados.

Eu não escondo as minhas convicções, mas também não faço delas propaganda. Não está no centro do meu universo. A maior parte do tempo, estou calado.

E por isso não me surpreende nada quando, ocasionalmente, alguém que eu conheça relativamente bem me aborde sobre assuntos de religião, assunto que, de facto, estudei, ao contrário de muito boa gente, que fala do que não sabe.

Mas no mundo da internet, onde se trocam milhares de mensagens por ano, existe uma forma de propagação da fé que me tem vindo a ser encaminhada, por pessoas que até conheço bem, e que de certa forma me surpreende.

Com a recessão económica, constato que a sua frequência aumentou.

São aquelas longas mensagens, frequentemente apresentações de slides com música “celestial” a acompanhar, em que o autor (não necessariamente o emissor da mensagem, que apenas se associa pelo gesto de a re-enviar) me exorta a ler a palavra do seu deus, a fazer isto ou aquilo, com promessas de vida eterna feliz e a garantia de uma ida súbita para o inferno se eu não re-enviar a mesma dentro de x minutos para toda a gente que está registada no meu (parco) ficheiro de endereços de correio electrónico ou, ainda pior, se eu simplesmente apagar a mensagem.

Ora, por definição, eu sou quase absolutamente imune à evangelização religiosa exógena, venha ela de quem vier e sob que forma vier. E nos meus 50.3 anos de vida, já praticamente vi, li e ouvi tudo, desde a vigorosa proliferação das religiões mais estabelecidas até ao fenómeno da tele-evangelização inovadora, inventada nos Estados Unidos quando eu lá vivia, e que se foi espalhando pelo mundo, incluindo a sua explosão em Portugal nos anos 90 do século passado e em Moçambique a seguir.

Consistente com a minha abordagem ao assunto, não reajo. Não é algo que me concerne particularmente. Nalguns casos leio o que me é enviado, noutros não, e tudo apago. Discreta e respeitosamente.

Ao mesmo tempo, não entendo o fenómeno, que vem acompanhado de outros fenómenos menores de superstição organizada, astrologia, profecias do fim do mundo, etc. Pois não é assim que eu penso e se calhar apenas indica que quem me conhece, não conhece tão bem como possa parecer ao início.

Mas enviar algo deste tipo, que à partida presumo ser um assunto sério para quem envia, com a ligeireza com que por vezes assisto, é algo um pouco desconcertante. Pois, algo paradoxalmente, eu trato este assunto com pouca ligeireza.

Mais: será mesmo possível, hoje em dia, converter ou de alguma forma influenciar alguém, em termos religiosos, enviando uma carrada de mensagens com conteúdos religiosos, profecias, ameaças de inferno, promessas do cumprimento de desejos, etc?

Não creio.

Mas se o exmo. Leitor acredita nestas coisas, peço que re-envie nos próximos dez minutos esta crónica a quinze dos seus melhores amigos senão esteja certo de que as duas piores coisas que lhe possam acontecer na vida (escolha agora) irão acontecer nas próximas 24 horas, sem apelo nem agravo.

1 Comentário »

  1. Quem assim escreve não me parece que não seja religioso. Faz-me lembrar a IURD. Acreditar em alguma coisa é uma questão de fé. Cada um acredita naquilo que acha ser o melhor para si, independentemente da religião que prefesse. Agora o comentário acima ………….fico com a ideia de que quer converter alguem, a qualquer preço, para qualquer seita ou religião. Em Moçambique é normal haver diversas religiões e todas elas sempre conviveram bem. Será o seu artigo separatista? Catolicos, muçulmanos, indus, seguidores de Haga-khan e outros, nunca constou que se dessem mal.

    Comentar por zeparafuso — 16/04/2010 @ 10:41 am


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