THE DELAGOA BAY REVIEW

15/04/2010

NÃO ME MATE, EU NÃO SOU O BOER

Filed under: África do Sul, Mundial de Futebol 2010 — ABM @ 8:52 pm

por ABM (15 de Abril de 2010)

Em tempos, era comum para os meus amigos moçambicanos que viajavam até Johannesburgo nos seus carros, ao passarem a fronteira em Ressano Garcia, mudarem as suas matrículas de fundo preto e letras em branco, por uma espécie de matrículas inventadas mas com as cores características das matrículas da província de Gauteng.

Isto porque havia a percepção de que os moçambicanos eram alvos preferidos para os asslatantes.

Na face das recentes polémicas relacionadas com o assassínio de um antigo líder radical sul-africano, com uma canção cujo refrão é “mata o boer” e as declarações e atitudes do líder do sector da juventude do ANC, o Sr. Julius Malema, já me mandaram a foto acima (obrigado JP e CA) como forma, que espero ser humorística, de alguns brancos que visitam a África do Sul, se tentarem proteger contra eventuais represálias de terceiros pela circunstância da cor da sua pele.

Acima, no verso das t-shirts de uns turistas brancos à chegada ao aeroporto Oliver Tambo em Johannesburgo, a frase que se pode ler é “por favor não me mate, eu sou apenas um turista, não o boer”.

Entretanto, como aparentemente e para início de festa metade das pessoas que se esperavam na África do Sul não apareceram, está em curso a venda de quinhentos mil bilhetes para os jogos de futebol, a metade do preço. A alternativa era vermos os jogos do Mundial em estádios vazios.

Este campeonato mundial de futebol na África do Sul promete.

14 comentários »

  1. Se a isto não se chamar provocação………………

    Comentar por zeparafuso — 16/04/2010 @ 10:23 am

  2. …inteligente.

    Comentar por umBhalane — 16/04/2010 @ 12:22 pm

  3. Ainda não percebi quem é mais insultado…………

    Comentar por Pedro Silveira — 16/04/2010 @ 12:54 pm

  4. A unica hipotese de isto mudar de rumo é colocarem o Malema a fazer publicidade ao Mundial com o jornalista que ele expulsou e um representante da comunidade boer.

    Era sucesso garantido……..

    Comentar por Pedro Silveira — 16/04/2010 @ 4:37 pm

  5. Será mesmo que todo este medo realmente se justifica ? Esta ameaça não se equivaleria à ameaça representada pelos skinheads neonazistas durante a Copa da Alemanha reunificada ? Este medo não seria outro nome para um certo preconceito em relação a África do Sul pós-Apartheid ?

    Comentar por Ricardo Figueiredo de Castro — 16/04/2010 @ 7:53 pm

  6. Ricardo, essa é a melhor do ano. Voçê vive onde? na Ilha Graciosa, nos Açores?

    Comentar por Pedro Silveira — 16/04/2010 @ 10:54 pm

  7. Desculpem, mas não consigo parar de rir ao ler isto……….

    Comentar por Pedro Silveira — 16/04/2010 @ 10:54 pm

  8. Bom…é melhor ficar calado, raio de regulamento.

    E esperar pelo dia da reunião de cúpula o AWB, e suas conclusões.

    Entretanto decorrem negociações de bastidores, intensas, fortes, duras,…

    Independentemente dos resultados, há algo que fatalmente vai ter que acontecer.

    E lembro-me de um episódeo da Guiné-Bissau, que até envolveu Nino Vieira.

    E que seja esse mínimo que tenha, mesmo, que acontecer.

    Comentar por umBhalane — 16/04/2010 @ 11:21 pm

  9. Ricardo Figueiredo Castro a sua pergunta é perfeitamente legítima mas assenta num pressuposto errado. Proponho-lhe que leia

    http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/africa/article7078730.ece

    Não resolve a questão social e económica da Africa do Sul, não resolve a questão da terra e das modalidades historicas da sua aquisição e expropriação na Africa do Sul. Mas espero que possa responder em parte à sua questão. Permita-me que lhe diga, e vai sem acinte, que inquirirmos sobre as modalidades de luta política, e sobre a legitimidade do discurso racista, a ser preconceituoso será – quanto muito – um “preconceito em relação à África do Sul” pré-“apartheid” (e estou a citá-lo). E uma preocupação com o seu futuro, bem como suas influÊncias em relação aos países vizinhos. Acho que é algo injusto que “se vire o bico ao prego”, como a sua questão deixa entender (mesmo que não seja a sua intenção)
    cumprimentos

    Comentar por jpt — 17/04/2010 @ 12:15 pm

  10. E ja agora, RFC, há obviamente uma enorme diferença entre ameaças dos neonazis marginais e supraminoritários (mas ainda assim preocupantes) e as ameaças e práticas do lider da juventude do partido do goveno, até agora fortemente apoiado pelas elites do partido.

    Espero ter-lhe respondido. E ter-lhe mostrado que a haver preconceito é mesmo o seu, a encontrar “reaccionários” e “racistas” em que não partilha consigo a … pouca informação. Abaixo, se me permite a auto-referencia, tem um texto sobre Malema que culmina com uma nota exactamente sobre esse seu tipo de atitude.

    Comentar por jpt — 17/04/2010 @ 11:57 pm

  11. Caros amigos,

    quando escrevi meu comentário ao post sobre turistas brancos chegando à África do Sul trajando camisetas com dizeres “por favor não me mate, eu sou apenas um turista, não o boer”, não pretendi, de forma alguma acusar ninguém de reacionário ou racista. De forma alguma ! Queria apenas discutir um pouco mais profundamente este episódio.

    Quando me referi à uma provável ameaça representada aos turistas estrangeiros de pele clara e levantei a hipótese do quanto ela poderia se equiparar àquela dos skinheads neonazistas alemães da Copa da Alemanha, procurei apenas relativizar a ameaça; visto que o racismo violento e xenófobo é atualmente uma praga disseminada que assola a Europa e, infelizmente, também a África do Sul. Lembro-me dos vários impropérios racistas dos quais muitos jogadores brasileiros e africanos foram e são vítimas nos campos de futebol do velho continente: as torcidas ultras são uma realidade do futebol europeu e sua relação com a extrema direita europeia foi bem documentada pelo jornalista espanhol no interessante livro “Diário de um skinhead”. Nem por isso, os torcedores não europeus vestiram semelhante vestimenta ! Além disso, diria que a própria camiseta (T-shirt) em questão consegue perceber que o alvo dos “racistas” negros sul-africanos não é exatamente os brancos em geral, mas os brancos de origem boer que concentram a maior parte das terras agricultáveis da África do Sul, informação que a edição on-line do Times esquece de mencionar. Portanto, as camisetas parecem mais uma brincadeira de mau-gosto.

    Quando à minha segunda questão continuo acreditando na hipótese de que há um certo desconforto entre alguns grupos em relação a forma como se deu a transição na África do Sul para uma sociedade de cidadania ampliada, nas quais as antigas elites brancas sentem-se ameaçadas econômica e politicamente pelas novas elites que se formam.

    Além disso, fiquei profundamente chocado quando vi pela televisão manifestantes brancos, mais precisamente os militantes ou simpatizantes do partido do finado Terre Blanche, ostentando bandeiras neonazistas (suásticas estilizada) e fazendo a típica saudação fascista, ainda que com uma pequena variação do braço levemente curvado.

    Finalmente, parece-me que a séria desigualdade social e agrária, a sua intercessão com questões raciais e os sérios problemas sociais daí decorrentes estão na raiz da explicação dos sérios problemas políticos pelos quais passa a África do Sul e outros países africanos.

    Para enriquecer a discussão, sugiro a leitura do artigo “Afrique du Sud : l’ANC au défi de la justice sociale” (http://www.monde-diplomatique.fr/carnet/2009-04-24-L-ANC-au-defi) de abril de 2009 que parece antever a situação política atual no trecho “cette fracture raciale dans la représentation politique risque de s’accentuer avec la montée d’un certain populisme noir dans la base de l’ANC.

    Além deste, o artigo “L´Embauche équitable » pour les Sud-Africains de maio de 2007 nos ajuda a compreender os perigos da utilização da “discriminação positiva” na solução de sérios problemas de desigualdade social (http://www.monde-diplomatique.fr/2007/05/ROSSOUW/14704)

    Finalmente, sugiro o livro “Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. São Paulo: Madras, 2004” do historiador britânico Nicholas Goodrich-Clarke.

    Um fraterno abraço,
    Ricardo Castro
    Torcedor não-fanático do centenário Clube de Regatas Vasco da Gama

    Comentar por Ricardo Figueiredo de Castro — 18/04/2010 @ 7:01 pm

  12. RFC antes de mais gostaria de aqui referir a minha simpatia pelo clube Vasco da Gama, nascida devido
    á transferência nos inícios de 1970s desse extraordinários jogador sportinguista Fernando Peres para o referido emblema. Confesso que não acompanho o futebol brasileiro – nunca consegui estar a par das modalidades de organização das múltiplas “copas” ou “campeonatos”, tantas e tão mutantes eram que desisti. Mas fica-me sempre algum agrado quando ouço falar do VG …

    Quanto ao resto: já em post abaixo – Malema – aqui se referiu a questão das diferenças socioeconomicas, e sim nisso concordo (bem como com a dimensao histórica de apropriação da terra). E também que é esse um dos grandes alimentos do populismo racista. Nesse àmbito agradeço as recomendações de leitura. Agora há três pontos que gostaria de frisar:

    a) a questão da terra tem implicado o massacre dos agricultores (na maioria de origem africander). Isso não pode ser resolvido como uma das dimensões da grande criminalidade sul-africana: esta não segue linhas raciais, é totalmente abrangente. O que se tem vindo a passar neste àmbito é também mera criminalidade mas não só. E o facto de a estrutura fundiária sul-africana ter uma origem histórica (como em tantos sítios, por exemplo no Brasil) de expropriação não nos poderá fazer cair na menorização da gravidade do que vem acontecendo.

    b) a sua comparação com os grupos skinheadas marginais não colhe efeito, devido à assimetria entre grupos marginais extremistas e o peso da direcção da juventude do partido do governo, e de parte da sua direcção (vai um conflito interno no ANC no momento, em torno da situação). E mais do que isso é uma comparação que elide (conscia ou inconscientemente) o verdadeiro projecto político (que é trans-agrícola, procura a economia geral) que ali está em discussão. Convém ainda referir que a situação socioeconómica que gera esta política populista assenta também na rápida (e normal, num regime capitalista de transição social) acumulação das elites políticas do ANC (aconselho ler a ultima edição do Mail and Guardian, jornal nada pró-apartheid, já agora, para ver a luta da Cosatu, central sindical do ANC, contra a coexistencia entre cargos politicos e interesses economicos privados). A insistencia, em parte justificada, na ligação entre uma estrutura socioeconomica espartilhada por velhas divisões raciais como fonte do populismo e da violência vem, em meu entender, o fazer esquecer ou procurar esquecer ou esquecida de que as grandes divisões socioeconómicas não sao hoje estabelecidas pelas diferenças raciais (codificadas lá na Africa do Sul – estou a utilizar o senso comum quanto a raça). Ou seja o necessário cuidado historiográfico nestas questões arrisca a esconder (e não a desvendar) a realidade actual.

    c) finalmente, estas t-shirts são uma atitude, obviamente. Uma agit-prop. É certo que temos tendÊncia para simpatizarmos com alguns locutores de agit-prop e antipatizarmos com outros – deriva isso do que consideramos sobre as causas que eles agitam. Confesso alguma dificuldade em nao simpatizar com esta. E parece-me, pelo seu tom nos comentários, que bem pensando também não andará longe dessa simpatia.

    Em adenda, não está no seu comentário, mas na sequencia dos paragrafos até se podera deduzir isso. O AWB era um grupo minoritário – colheu apoio dos governos e da sociedade, é certo, não é apenas o equivalente aos grupos de miudos neo-nazis. Mas ainda assim não se pode resumir as comunidades africanderes aquele estertor nazi bafiento.

    cumprimentos

    Comentar por jpt — 19/04/2010 @ 10:39 am

  13. Srs

    Bem dito e escrito.

    Mas o facto é que, a médio prazo, a não acomodação entre os grandes interesses de brancos e negros na RAS, poderá resultar na perturbação do actual “equilíbrio” (aspas de propósito). O actual stau quo é um em que, em troca do pagamento da maioria dos impostos por maioritariamente brancos e capitais detidos por brancos, essas receitas são distribuídas a maioritariamente sul-africanos negros, bem como uma política acelerada de (literalmente) entrega do poder a cidadãos só porque são negros (hum, como é que se traduz black empowerment?).

    Continuo a defender que a questão da terra é falsa e demagógica, se emocional. Um terreno de dois mil metros quadrados em Sandton vale mais que cem hectares no mato. A ideia de “nacionalizar” as quintas actualmente posse de agricultores boer nem transferirá poder nem capaictação económica para os cidadãos negros, que aliás lutaram com unhas e dentes durante décadas contra as políticas do regime anterior de os manter no mato e fora das cidades. O futuro de África, e da África do Sul, é a urbanização, não essa panaceia de negros serem os donos da terra. A terra não vai para lado nenhum, ao contrário do conhecimento e o capital, que têm pés.

    O que eu creio que é extremamente tentador é, nas actuais circunstâncias, uma pessoa como o Sr Julius Malema, e os que no ANC o suportam (ou toleram) incitar a medidas extremas contra minorias, explorando o longo e fundo filão das sacanices feitas contra a população negra durante a maior parte do século XX. Da inexorável confusão resultante, tal como em parte sucedeu no Zimbabué, assistir-se-ia a uma tentativa temporária de apropriação do espólio resultante e a um desabar da actual situação. Não sei se isso é do interesse geral dos sul-africanos.

    Não fosse quem Julius Malema é nem os apoios que ele parece congregar, eu diria que isto é tudo fantasia de circo.

    Comentar por ABM — 19/04/2010 @ 4:08 pm

  14. tudo treta

    Comentar por Margarida — 21/04/2010 @ 5:40 am


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