THE DELAGOA BAY REVIEW

24/04/2010

O 28 DE MAIO DO 25 DE ABRIL

http://www.megavideo.com/v/QHOYAVC0c88b2df95cdaaaecced4af3c7aeeff90

por ABM (24 de Abril de 2010)

Estas coisas das memórias e do seu significado têm tanto que ver com o seu impacto e posterior percepção e re-interpretação como das idades e experiências de cada um de nós.

Quando eu crescia na cidade outrora conhecida como Lourenço Marques, lembro-me muito, muito, vagamente, de que se dizia qualquer coisa no dia 28 de Maio sobre o 28 de Maio. Que terá sido a “Revolução Nacional”. A tal que, descobri mais tarde, descambou para a incontornáveis quatro décadas e meia de Salazar e afins. Pois. Que isto de ser-se português, ou afim, significa que, dada a inabilidade dos políticos e da congregação política de evoluírem e mudarem as coisas, faz mais ou menos parte do processo haver revoluções, hecatombes, golpes de Estado, pronunciamentos militares, etc.

Mas o ponto aqui é que 28 de Maio, nos anos 60 do século passado, com as devidas diferenças ideológicas e fanfarra um tanto quanto mais militarizada, fora o 25 de Abril para muitos da então velha geração. E nessa altura em Lourenço Marques, penso, já ninguém se lembrava do que aquilo fora. Tirando o ocasional velho caquético já ninguém sequer existia que tivesse visto o que aquilo foi, e tirando os quase absolutamente insuportáveis discursos dos senhores da Situação, herdeiros directos desses longinquos ecos da História, ninguém já percebera o que fora e para que fora.

Era mais um feriado.

Estamos a um dia do dia 25 de Abril de 2010. Isso significa que amanhã se assinalará que, há trinta e seis anos, meia dúzia de oficiais militares de baixa patente, com o beneplácito de (mais ou menos) os dois principais ex-chefes militares portugueses (os generais Spínola e Costa Gomes) e na minha opinião o desistismo de um derreado Marcello Caetano, a II República portuguesa acabou e se inaugurou o que se supõe ainda hoje ser uma versão revista da I República, sem os seus exageros e histerismos.

A República Socialista.

Trinta e seis anos é muito tempo e revelador. Em Junho faz trinta e cinco anos que Moçambique é independente e continuamente liderado pelas mesmíssimas pessoas que desde meados dos anos 60 já controlavam, do seu lado, o poder político. Daqui a cinco anos, já terão estado mais tempo no poder continuamente, que os anos durante os quais a União Nacional criada por Salazar governou Portugal.

Circunstancialmente, levou trinta e cinco anos para Portugal mais ou menos bater com o seu virtual nariz no espelho e, depois das repetidas bombas de oxigénio e manobras, ter de se confrontar, como nação, para o seu corpo nú e esfarrapado, sem as muletas de África e das Índias, entrerrado em dívidas e sem os dinheiros oferecidos da CEE e da União Europeia, sem o internacional-porreirismo e o doublespeak da internacional camaradagem, e ter que se perguntar: quem somos nós? o que teremos que fazer e como? com o que podemos contar?

Esta fase da história portuguesa é verdadeiramente fascinante. Parece o fim de um thriller de Agatha Christie. Quem, afinal, matou o morto? como se vai descobrir isso? e o que fazer em seguida?

Mas o tempo não perdoa e a verdade dramática e reveladora está no vídeo acima. Como aconteceu comigo quando era miúdo em Lourenço Marques e, sem ninguém me explicar, eu assistia ao moribundo e insignificante deambular de alguns velhos e políticos cheios de caruncho, sobre a tal supostamente gloriosa revolução do 28 de Maio.

Pese a suposta explosão democrática trazida desta vez, já poucos sabem o que foi isso do 25 de Abril. Ou como foi. Ou quem o fez.

Os mitos das revoluções e os seus protagomistas são muito mais fáceis de manipular, de realçar e de a re-inventar em regimes onde essa experiência passada convém muito aos que mandam agora e que nela buscam a sua fraca legitimidade, que num regime (mais ou menos) democrático cuja legitimidade supostamente só pode ser derivada de votos depositados em urnas e contados um a um. Em Portugal, isso na verdade só aconteceu quase dois anos depois, em Abril de 1976. Poucos se lembram que foi quase por acaso. E mesmo aí foi uma democracia hifenizada: a tal república socialista. O pai, Mário Soares. Até este momento não se passou daí.

É por isso, com algum humor, que aqui assinalo o pronunciamento militar de Abril de 1974, o tal que libertou as colónias e os demónios sociais num dos países mais atrasados do continente europeu, que achou necessário tantos anos para começar vagamente a lidar com as suas hipertrofias. Aproxima-se a hora de mais uma reflexão: continuar o experimento socialista ou tentar outro rumo.

No meio disso, a ironia do tempo: a de as mais jovens camadas da população portuguesa em Abril de 2010 já não saberem bem o que foi o 25 de Abril de 1974, por que foi, para que foi, quem o fez. É apenas mais um feriado em Abril.

Tal como foi o 28 de Maio quando eu era miúdo, em Lourenço Marques.

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6 comentários »

  1. 36 anos! Bem que o regime pode aproveitar e seguir para aposentação. Os “filhos” de Mário Soares cumpriram a acumulação primitiva de cabedais próprios e, em fim de festa, novo rumo precisa-se para o país. Isto se ainda houver país…

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    Comentar por ERFERREIRA — 24/04/2010 @ 3:35 am

  2. Discordo muito deste teu post, concordando muito. O que parecendo não é um paradoxo. A comparação entre a imagem pública (a representação social) do 28 de Maio [já agora aproveito para dizer que sou neto de um “cadete do 28 de Maio”, daqueles que foram com o Gomes da Costa para por ordem naquela “choldra”, foram apenas em mais uma das muitas que aconteciam, só aquela vigorou vigorosamente] in illo tempore e a actual do 25 de Abril é defeituosa (ainda que sendo recorrente) – pois exactamente o que o regime democrático apresenta é uma menor capacidade/necessidade de sacralizar (dar densidade) às suas datas fundacionais e identitárias. Os jovens não sabem o que foi / aconteceu na data? Ok, mas sabem que podem arrotar à mesa que o sô cura não os castiga, e isso é o crucial (ainda que o bafo juvenil esteja cada vez pior)

    Depois, e muito mais substantivamente, discordo disso da “república socialista” – a democracia portuguesa não tem contornos socialistas no sentido que lhos queres dar (adivinho-os, pela semântica marota que abandonas). Sempre oscilou entre uma esquerda cuja social-democracia se assustava com o cristianismo e a democracia-cristã recuava face à social-democracia – se queres chamar “socialista” a isso é apenas um seguidismo terminológico, ao nome do partido de MS. O que aí há (ou melhor, o que aqui [cá dentro, do jpt, também] é um corporativismo estatizado, que de “socialista” nada tem, é apenas grosso modo um aggiornamento do salazarismo sem colónias, sem pide e com ensino liceal obrigatório, ainda que ensinando aos filhos do povo a assinar e a contar, que é o suficiente (e já agora, a descodificarem o código do multibando e a manipularem o controle remoto da tV para verem o porto-benfica em replay) – e Soares, com todos os defeitos que teve e terá (sou, eleitoralmente, inocente) é no pacote do melhor que houve.

    Agora no que concordo é no essencial do que dizes, o que somos, o que podemos e devemos fazer? E aí aflijo-me – está aí uma lista de categorias na direita do blog que explicita essa aflição, não me repito. Mas, honestamente, olhando um país que reproduz esta gente no poder, ou seja um país que é esta gente no poder (lembras-te da admiração que o “engenheiro” Jardim Gonçalves colheu nos pacóvios licenciados, lembras-te das notícias dos jornais que a filha andava a pedir crédito nos outros bancos porque se ia casar e queria comprar casa? – e a gente fala do Teixeira dos Santos) o melhor mesmo é imigrar. E nunca abrir blogs que o levam a pensar, sempre demasiado no país. Foi o que fiz – e, como acto de cidadania, deixei crescer o bigode para, metafisicamente, apoiar a selecção nacional de futebol na copa do mundo. Porque nada mais há a fazer…

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    Comentar por jpt — 24/04/2010 @ 4:28 am

  3. JPT

    Creio que a terminologia que aqui utilizo reflecte uma algo profunda e recente alteração na minha perspectiva, e que considero significativa.

    Vamos por partes, no que concerne ao “socialismo” e à “república socialista”.

    Sendo-o, o termo é menos ideológico e mais sócio-económico e em termos da vocação do sistema perante o futuro.

    Desde 1974, Portugal não teve um único ano de superávit em termos das contas das importações versus exportações.

    Desde 1974, Portugal nunca teve um ano em que as receitas dos impostos foram mais que o que o governo gastou.

    Com algumas interessantes, mas estruturalmente insignificantes excepções, este país tem sido absolutamente, escandalosamente renitente em forçar as mudanças que os últimos 36 anos impunham como condição essencial para que o mercado interno se acomodasse às novas circunstâncias da competição internacional nos mercados em que supostamente se integrou.

    Nesses 36 anos, o nível de vida dos portugueses só subiu quando ocorreram, ocasionalmente, situações em que houve influxos de capital para o país, sem ter havido, concorde-se, mudanças que representassem maior competitivdade em termos dos desafios que se apresentam.

    Desde meados dos anos 90 do século passado, a economia portuguesa estagnou em termos reais.

    Não se consegue subir o nível de vida dos mais pobres, a não ser através do lançamento de mais impostos sobre as classes média e alta (esta última, que em termos europeus, é média), aumentando os défices e introduzindo o conceito predador do “estatuto do pobre” que vive à custa do erário público.

    O número de funcionários públicos é exagerado e caro, e não se podem despedir.

    É, igualmente, quase impossível despedir e contratar livremente nas empresas privadas.

    O sistema dos tribunais está quase imobilizado e não responde atempadamente ao que se espera em termos de dispensa da justiça e dos negócios subjacentes.

    O sistema de saúde está cheio de buracos e insuficiências.

    O sistema de pensões é exagerado e sem equidade. Reformam-se pessoas em idades inacreditáveis como forma de as despachar ou de reformular empresas e serviços públicos.

    A burocracia, agora apenas mais informatizada, afoga pessoas e instituições.

    Como resultado, está-se perto de uma falência do estado, das empresas e das pessoas.

    Ora, o sistema político actual, ditado pela esquerda desde 1974, foi o responsável por este estado de coisas. Concordou no caminho que foi traçado e seguido, nisso nunca tendo sido consideradas alternativas que tivessem em conta o mercado. Se algo aconteceu nos últimos vinte anos, foi um perigosíssimo fenómeno, que lembra as últimas décadas da monarquia e uma parte da primeira república: o PS moveu-se muito igeiramente para a direita, e o PSD moveu-se ligeiramente para a esquerda, numa espécie de “enténte cordiale” em que o centro virtual é, organicamente, vocacionalmente, instintivamente, de esquerda.

    É a isto que eu chamo a república socialista.

    Um sistema que ignora os sinais e as imposições do mercado, um sistema que defende a sobreposição do estado (dirigido nauralmente pelos seus agentes políticos) sobre tudo e todos, definindo e defendendo modelos sociais e económicos igualitários, independentemente do dinheiro que haja e dos contributos de cada um para a produção da riqueza.

    Verdadeiramente, não existe desde 1974 uma direita política que possa contrapopor e disputar, nem sequer no campo das ideias, o modelo que tem vindo a ser seguido. A tríplice aliança socializante do PS, PSD e CDS limitam-se a regurtitar as mesmas fórmulas falidas e a tentar retalhar mais um ou outro incremento eleitoral que lhe dê mais um ou outro ministro na Nomenclatura. Nem sequer Cavaco Silva resistiu como PM e agora como PR, à centrifugação ideológica do sistema, falando dos sintomas mas não da doença, adiando perpetuamente para as calendas o que tem que ser feito. Nisso correspondendo a um eleitorado que se caracteriza pelo desenrascanço, pelo seu descrédito no sistema e nas pessoas, pelo medo raivoso de perder privilégios insustentáveis.

    O nível de vida dos portugueses está a baixar e vai continuar a baixar, enquanto o regime se masturba com a constatação de que é democrático. Mas democracia em que não há pão não dura. Defrauda-se quem pensar que não é assim. Uma democracia em que se acorda em não mudar e fazer evoluir substancialmente as regras do jogo está condenada a degradar-se.

    Os factores exógenos que permitiram manter a situação mudaram e agora são particularmente hostis. A mudança é uma condição imperativa para a sobrevivência do colectivo. E isso inclui tomar mais riscos, sofrer mais, trabalhar mais, sacrificar mais, no sentido de se criar mais riqueza e criar mais oportunidades.

    E eu acredito que o modelo que foi seguido nos últimos 36 anos esgotou-se finalmente. Sem dinheiro, só encontra em mais impostos, mais intervenção do governo, em mais demagogia, o caminho a seguir. Já não funciona, ou melhor, a partir de agora vai funcionar contra as pessoas e depauperar o colectivo.

    A esse modelo, eu chamo a República Socialista.

    Muita gente portuguesa e que viveu uns anos fora de Portugal, apercebe-se do que eu falo. Infelizmente, muitos dos que vivem em Portugal, não sabem a diferença.

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    Comentar por ABM — 24/04/2010 @ 6:43 pm

  4. *Av. Marechal Gomes da Costa

    Golpe militar de 28 de Maio de 1928.

    *Av. Capitães de Abril

    Golpe militar de 25 de Abril de 1974.

    Dizem/dirão as placas toponímicas, algures em Portugal.

    Cada Povo tem aquilo que merece.

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    Comentar por umBhalane — 24/04/2010 @ 7:42 pm

  5. ABM se é isso que tu chamas “república socialista” eu aceito (discordo de alguns pontos, mas sem grande base empírica – em particular sobre o sistema de saúde que não será perfeito mas que não me parece que seja tão esburacado como o pintam). Mas há uma adversidade generalizada pelo “mercado”, ou seja há um superproteccionismo interno. Ao proteccionismo imperial sucedeu-se uma política liberal, de abertura ao exterior, que é contrastada com um “proteccionismo” estadocentrado – se é isso o “socialismo” está bem. Eu gosto mais de lhe chamar estadocracia, que é palavrão feio que me veio agora à cabeça (e às teclas), mas são questões terminológicas.

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    Comentar por jpt — 25/04/2010 @ 3:56 am

  6. salazar foi preso depois de ter morrido.
    PIDE quer dizer pu….t…que os i…… mais nao digo…
    ahhhh aaaaaaaaaaaffffffiiiinaaaaaaaallll pois ja percebi
    CDS onde esta promessa eleitoral, PP andas demasiado por Marrocos querido ve se vens trabalhar.

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    Comentar por Margarida — 25/04/2010 @ 7:07 am


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