THE DELAGOA BAY REVIEW

01/05/2010

NÃO SOMOS GREGOS (REPETIR DEZ VEZES)

Filed under: Economia Portuguesa — ABM @ 7:03 pm

por ABM (1 de Maio de 2010)

Se não fosse tão trágico e afectasse tanta gente, dava para rir.

Há uma semana, os média internacionais o mundo assistiam à lenta agonia da Grécia e os esforços do seu governo de tentar reunir consensos para obter um vultuoso empréstimo que desse para pagar as suas contas nos próximos tempos e assim ganhar mais algum tempo para endireitar as suas contas.

No entretanto, os destacados líderes portugueses, de uma forma um tanto ingénua e tépida, iam dizendo que a situação económica, financeira e fiscal portuguesa não era, de forma alguma, comparável à da Grécia.

Só que, como já aqui referi, lamentavelmente, é.

Dizer isto em amena conversa privada maschambiana não abala o mundo.

Quando, quase extemporâneamente, um ex-economista chefe do FMI o disse num artigo a semana passada, aí o trânsito das ideias parou por um momento para tentar perceber o que se passava.

Mas quando a Standard & Poors divulgou que tinha reavaliado a sua percepção do risco de (in)cumprimento das obrigações da república portuguesa no início desta semana, para A, foi o fim da picada. Até Aníbal Cavaco Silva, que estes dias navega no fio da navalha política, ficou mudo, dizendo naquele estranho discurso na terceira pessoa que ele parece apreciar, que “o presidente da república prefere não se pronuncar quanto esse tópico nesta altura”.

Imediatamente, instalou-se um pequeno pânico luso-latino. Na manhã seguinte, as taxas de juro dispararam e na pequena bolsa de valores de Lisboa uma pequena legião de investidores começou a vender o que tinham a qualquer preço. Foi o dia na história da bolsa em que mais acções se transaccionaram.

Mas como felizmente há gente que acredita na vida após o socratismo, e os depósitos a prazo nos bancos portugueses, verdade seja dita, pagam cerca de um por cento ao ano depois de impostos, aí pela hora de almoço percebeu-se que, em contrapartida aos que estavam a vender em pânico, havia uma série de gente a comprar acções em preço de saldo, mesmo tendo em conta que o Sr engenheiro Sócrates há dias fizera passar uma lei que, retroactiva e provavelmente ilegalmente, passava a tributar as mais valias obtidas na bolsa [detidas por mais que um ano] em vinte por cento.

A medida faz parte daquela tese socialista de que há ricos em Portugal, que os ricos são quem tem todo o património e as acções, e que portanto lixar-se esses primeiro em tempos de crise é ser-se bom português.

A imprensa internacional contextualizou a questão. Em resumo, Portugal não é a Grécia mas é quase:

as taxas portuguesas não subiram como as gregas, mas estão a apontar bem para cima

...e já agora, a quem é que Portugal deve dinheiro lá fora

Claro que o problema de fundo não é que os portugueses individual e colectivamente estejam endividados até às pontas dos cabelos e que essas dívidas sejam devidas a estrangeiros nervosos.

O problema nem sequer é que eles não querem emprestar mais, e querem cobrar mais pelo que os portugueses devem.

O problema é que, em boa parte, eles olham lá de fora para dentro do rectângulo luso-ibérico e não vêm as coisas a irem ao sítio.

Pelo contrário.

Não se vislumbra crescimento ou sustentabilidade em lado nenhum, a taxa de inflação está a subir, já se começam a ver greves à moda da Grécia à esquerda e à direita, a taxa de desemprego subiu o mês passado meio por cento para uns meteóricos 10.5 por cento, o governo continua a gastar desportivamente como se nada estivesse a acontecer, e toda a gente menos os comunistas e aqueles senhores da esquerda chiquérrima perfumada já bradam sangue nas ruas com o pouco que se fez pelas massas vulneráveis, e que dá pelo curioso e algo kafkiano nome de Plano de Estabilidade e Crescimento.

No fundo, tudo isto é excelente para José Sócrates, que não tem mais que fazer que dizer que tem que ser: aumentar estupidamente os impostos, algo que é nobre e socialista, tentar timidamente conter as despesas, algo que nenhum governo naquele país, muito menos um de socialistas, alguma vez conseguiu fazer em 36 anos de república socialista. E clamar vitória.

Ainda por cima a oposição é suposta assinar por debaixo.

O resultado vai ser o agravamento da agonia económica e social dos residentes em Portugal e mais uma onda de fuga de captais (maioritariamente portugueses) para praças offshore, mais desemprego e mais uma onda de emigração de gente para fora.

Incrivelmente, Pedro Passos Coelho, o novo José Sócrates do PSD, foi à televisão desabafar que a gente que meteu Portugal no euro cometera um erro. Ou seja, o que ele implicitamente estava a dizer é que, se ainda houvesse escudos, o que ele faria era desvalorizar o escudo uns 25 por cento e estava o assunto arrumado. O que é uma das mais lamentáveis expressões de desistismo e falta de espírito de luta e de sacrifício que vi estes dias. Grave, por sair da boca de quem saiu.

O que prevejo é que estes dois anos que se abordam vão ser verdadeiramente inesquecíveis. A versão lusa do inferno na Divina Comédia de Dante Alghieri, de que a imagem em cima é uma alegoria.

E a procissão ainda nem vai no adro. Os exmos Leitores que esperem até o Sr. Papa se meter no avião de volta para Roma lá para o fim do meado de Maio, depois de visitar a Cova de Iria e arredores.

2 comentários »

  1. ABM eu que sou analfabeta financeira acho bem que as mais valias sejam taxadas e deveriam ser taxadas sempre. Parece-me quase imoral que se taxe tanto o rendimento do trabalho e tao pouco o dinheiro especulativo… Se eu ganhar 100 euros a trabalhar pago 30% de imposto, acho eu e se ganhar 1 mmilhao na bolsa nao pago nada? Nao me parece bem! Principalmente quando os ‘ricos’ nacionais pouco ou nada investem no pais em termos produtivos ou, quando o fazem, se revelam maus empresarios e pessimos pagadores…

    Comentar por AL — 03/05/2010 @ 12:22 am

  2. Sra Baronesa

    A questão aqui não é de princípio, deste princípio, é outra, completamente diferente.

    Por princípio, o que dizeis está correcto. Taxe-se tudo para que o Estado socialista possa empenhar-se em mega-obras betonais e sociais. Tudo bem.

    Mas entremos nos detalhes. E se tiveres perdas na bolsa? descontas nos impostos?

    Mas há um outro aspecto muito mais fundamental, que aqui está em causa. O de que investir em acções de empresas numa bolsa de valores, que é um mercado regulamentado onde as pessoas e empresas podem transaccionar títulos do capital social de empresas, é “especular”.

    E ainda mais: que, por alguma razão, “especular” é mau, é predador, é anti-capitalista.

    Ah é? Ah são?

    Quem disse?

    Porque é que se acha que é assim?

    Na minha humilde perspectiva, não é nada disso. Estes são mecanismos estruturantes de uma economia de mercado e devem ser preservadas e promovidas. Os maiores “jogadores” nas bolsas hoje são estados, empresas e fundos de pensões de empresas, não são tanto os “ricaços” que toda a gente anda sempre a perseguir.

    E já agora, o que é que está de errado em ser rico? um tipo esfola-se uma vida a adquirir fortuna, apenas para depois, em vez de ser respeitado pelos seus feitos (que se presumem honestos até prova em contrário) ser enxovalhado e colocado numa lista de suspeitos por enriquecimento ilícito? caso não me faça entender, eu acredito que os dinheiros investidos nas bolsas por indivíduos são rendimentos auferidos os quais já pagaram impostos. Em Portugal, a não taxação dos ganhos nas bolsas após um ano foram um incentivo fiscal específico para incentivar esta forma de investimento aos portugueses, porque eles não investiam através da bolsa. Virem agora os socialistas de Sócrates e Passos Coelho carpir como se isto fosse uma conspiração é caricato, pois fazem-no sem olhar nem para o passado e para o futuro e apenas para tapar os medonhos buracos fiscais que os seus governos criaram nos últimos trinta anos.

    Recordo, por fim, as verdades mais objectivas que se devem ter em conta nestes dias de globalização financeira:

    1. O dinheiro migra para onde rende mais
    2. O dinheiro vai para onde é mais seguro

    A prazo, pode ser que, com a medida dos 20 por cento e mais outras que andam a ser magicadas, aconteça o que já aconteceu antes: que quem tem dinheiro para investir e é português, invista noutros locais.

    Comentar por ABM — 11/05/2010 @ 7:13 pm


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