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20/05/2010

MOÇAMBIQUE NO CASINO DO ESTORIL (e mais qualquer coisinha)

Filed under: António Botelho de Melo, Arte Moçambique — ABM @ 10:39 pm

por ABM (20 de Maio de 2010)

Cito o Diário de Notícias de hoje:

Inaugura-se hoje às 21.30, na Galeria de Arte do Casino Estoril, uma exposição de pintura, escultura, desenho e gravura de artistas moçambicanos, que se insere no programa comemorativo do 35.º aniversário da independência de Moçambique.

Nesta exposição vão participar trabalhos de Álvaro Passos, Bertina Lopes, Frank Ntaluma, Heitor Pais, Joaquim Canotilho, José Júlio, José Pádua, Lara Guerra, Lívio de Morais, Malangatana Valente, Mankeu, Naftal Langa, Reinata Sadimba, Roberto Chichorro, Shikani e Teresa Rosa de Oliveira. Assinale-se que foi na Galeria de Arte do Casino que em 1983, de 23 de Setembro a 10 de Outubro, se realizou o primeiro grande evento cultural em Portugal, depois da independência daquele país, chamado de Semana de Moçambique. Em Fevereiro de 1991, voltava a ser realizada outra grande exposição, intitulada “Pintores e Escultores de Moçambique”, com a participação de pintores nascidos em Portugal mas residentes em Moçambique.
Esta exposição manter-se-á patente ao público todos os dias, das 15.00 às 24.00, até 2 de Junho.

O que me mistificou mesmo foi início do texto do DN: a utilização do reflexivo “inaugura-se”. A exposição inaugura-se. A si própria. Ou talvez, “alguém que não se sabe bem quem é mas que não deve ser nem importante nem de outro modo mencionável senão apareceria nesta parte do texto onde está escrito “inaugura-se”, vai inaugurar a exposição”.

Quer dizer, estes usos são comuns: “realiza-se” e “assinale-se” são usadas com frequência, se bem que toda a gente sabe que nada se realiza, alguém tem que realizar, nada se assinala, alguém tem que assinalar.

Creio que é correcto mas fica estranho. É um pouco datado. Não? ainda me lembro de um episódio dos tempos idos em que quem escrevinhava nos jornais de referência usava o “nós” e vez de “eu”, presumo agora que tentando elevar-se com referência a um colectivo, que se presume que seja o (insignificante) escrivão e um seu colega ou, hiperbolizando, o jornal.

Ou seja, o colectivo valia mais que o individual.

Educado durante alguns anos nas garras das máfias culturais lourenço marquinas e mais tarde (cruzes canhoto) conimbricenses, quando cheguei aos Estados Unidos com 17 anos de idade, a Universidade de Brown, para onde fui estudar, mandou-me tirar um curso de escrita em língua inglesa, pois o estatuto de refugiado de Moçambique lusófono assim o recomendava. Com a maior das descontracções, imediatamente metamorfoseei a minha experiência luso-globalizada e procedi a usar o we (nós) quando na realidade me estava a referir à minha própria insignificância terrena. Durante meses, o meu tutor, um jovem mestre em inglês a ganhar a vida tormentando meia dúzia de nós (curiosamente, os meus colegas eram norte-americanos de origem, o que me deixou perplexo), bombardeou-me de forma inclemente com a sua canetinha encarnada (lá não há complexos com o uso da esferográfica vermelha), fazendo círculozinhos quase perfeitamente redondos nos textos que eu tinha que escrever, sempre que eu usava o we e punha à frente we, who? (nós? quem?). O meu vício era total e eu desesperava.

Até que um dia eu lhe tentei explicar, no meu elementar vernacular inglês de então que, na pórtuguize cultura, quando alguém escreve “nós” num texto, na verdade toda a gente que lê sabe mais ou menos que “nós” é quem escreve o texto. “Não sei. É uma coisa dos portugueses”.

Ele olhou para mim e perguntou simplesmente: “porquê? vocês pensam que são todos o rei?”

Pois, realmente.

A partir desse dia acabou o nós.

6 comentários »

  1. reconheço-me, literalmente, nessa luta contra o plural majestático. que nós, portuguese culture, exportámos para austrais paragens, vê-se bem

    Comentar por jpt — 20/05/2010 @ 11:14 pm

  2. Nós sabemos….nós vimos quando estivemos nas austrais paragens.

    Comentar por ABM — 21/05/2010 @ 12:35 am

  3. Que pena que “vós”, durante todos estes anos, se tenham esquecido do Antero Machado! Pode não ter tido muitas obras, mas todos vós se lembram, concerteza, do enorme mural dentro do BNU em LM. Mas ele fez mais coisas…incomodativas para alguns naquela época; por isso, foi viver para a África do Sul e onde nos deixou há já alguns anos.

    Comentar por Alexandre Viegas — 06/06/2011 @ 2:29 pm

    • Alexandre,

      Não sabia que o mural é da autoria do Antero Machado. Hum, se calhar devia-se fazer qualquer coisa só sobre ele.

      ABM

      Comentar por ABM — 06/06/2011 @ 4:46 pm

      • No site http://www.artafrica.info pode-se encontrar o artista Antero Machado, carregando no “artist record”, podem obter-se algumas informações. No entanto, estou a tratar de recolher mais informações junto do meu tio, Ângelo Viegas (da DETA), que era muito amigo dele. Tenho um livro com gravuras do Antero que saíu há já alguns anos; é bastante interessante porque algumas pessoas da geração dos nossos pais poderão reconhecer algumas personalidades laurentinas daqueles anos 50 e 60. Vou procurar o livro porque não me lembro se o título é “Ngaia” ou “Mkaia”. Logo que saiba mais coisas comunico, está bem assim?

        Comentar por Alexandre Viegas — 20/06/2011 @ 4:11 pm

      • Obrigado Alexandre, basta dar um toque se quiseres fazer alguma coisa aqui…. ABM

        Comentar por Antonio Botelho de Melo — 20/06/2011 @ 4:37 pm


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