THE DELAGOA BAY REVIEW

20/05/2010

NÓ GÓRDIO

Filed under: História Moçambique, Memórias, Portugal-Moçambique — ABM @ 4:52 am

por ABM (20 de Maio de 2010)

Segundo a Wikipédia em língua portuguesa, o jornalista Joaquim Furtado terá três qualificativos, para além de uma carreira que desconheço na genial e obscenamente dispendiosa cadeia de media dos contribuintes portugueses, a RTP: estava na estação de rádio do Rádio Clube Português na noite de 24 para 25 de Abril, é pai da personalidade televisiva Catarina Furtado, e é autor de uma série documental sobre “a guerra”, que aqui significa a guerra colonial que decorreu entre 1961 e 1974 , a partir de Setembro de 1964 em Moçambique.

Esta noite, no prime time televisivo português, a RTP brindou a sua audiência com a sua mais recente produção, Nó Górdio. Este foi o nome dado na altura a uma complexa operação militar que teria por fim acabar, descobri hoje, com o controlo da região norte de Cabo Delgado pela Frente de Libertação de Moçambique.

A tal operação militar decorreu entre Junho e Julho de 1970 e se o exmo. Leitor for como eu, que tenho uns aparentemente saudáveis 50 anos de idade, naquela altura precisa jogava ao berlinde, ouvia discos de 45 rotações dos Beatles em Lourenço Marques e não sabia que havia uma guerra a não ser a do Vietname (essa ao menos vinha no Notícias e no Diário). Por isso, especialmente no caso dos mais moçambicanófilos e menos militarmente inclinados, importa tentar compreender melhor o que foi isso do Nó Górdio.

E, nesse sentido, independentemente de eventuais críticas para além do que o documentário ventila, Joaquim Furtado merece uma medalha, pois finalmente percebi em maior detalhe o que foi aquilo tudo, com a vantagem de, 40 anos após encerradas as hostilidades e estreadas as boas relações do pós-toma-lá-Cahora-Bassa, poder-se calmamente filmar os protagonistas do confronto a falar mais ou menos sem grandes papas na língua sobre como foi.

Devo dizer em abono da verdade que algumas das convicções que eu tinha sobre a operação mantiveram-se absolutamente inalteradas. Nomeadamente, que o dinheiro gasto ali tinha sido muito mais bem gasto noutro tipo de guerra, mais próximo daquilo que os rodesianos e os sul-africanos fizeram mais tarde. Essa de um exército formal chefiado por um centurião querer fazer guerra com uma guerrilha sem matar as populações é de gritos. Mas compreendo que os objectivos estratégicos eram diferentes. Os boers sul-africanos jogaram pelo tempo, ou seja por aguentarem até o bloco comunista se desfazer, e não se importaram de aterrorizar e matar populações inteiras. E, mais uma vez operavam como uma guerrilha contra um exército convencional. Os portugueses parece que tentaram ir metendo os dedos nos buracos porosos dessas (para eles) paredes que eram as fronteiras ao Norte. E basicamente ignoraram a necessidade de lidar adultamente com o facto de que a independência estaria para vir, com ou sem Frelimo. O que, como se sabe, era impossível dados os estados de espírito prevalecentes na altura.

Enfim, já passou.

No documentário, para minha surpresa, as críticas a Kaúlza de Arriaga foram de uma generosidade enorme, vindas de ambos os lados. No fim a coisa correu mal pois afinal, logo se percebe, não era preciso um Nó Górdio: eram precisos dois ou três. Mas Portugal não tinha dinheiro para isso e os russos e os chineses estavam empenhados em não perder face. Cabo Delgado foi tomado e a guerra passou para Tete e mais tarde para pontos ao Sul.

Independentemente do que eu pense sobre o assunto, acho que os testemunhos recolhidos e editados por Joaquim Furtado e a sua equipa são agora leitura obrigatória para quem quiser saber mais sobre este capítulo da história dos dois países. O que quer que seja que a RTP pagou pelo projecto de Furtado, para variar, foi dinheiro bem gasto.

Em baixo, alguns dos entrevistados.

4 comentários »

  1. Temos material histórico para produzir em imagens sem fim.
    Para quando uma série onde se conte o impacto em todos aqueles que se entendiam portugueses e ficaram nestes território ou voltaram a Portugal continental? Como viviam antes, o que lhes aconteceu nos processos de independencias, como vivem hoje. Saber onde param os restos do império.

    Comentar por Pedro Silveira — 20/05/2010 @ 1:30 pm

  2. Sr Pedro Silveira

    Como sabe, ou talvez não, esse assunto já foi todo esclarecido em cinco páginas de um livro de memórias escrito por uma senhora que nasceu em Moçambique e que uns anos mais tarde “regressou” a Portugal.

    Sem o pai.

    Comentar por ABM — 20/05/2010 @ 2:06 pm

  3. sofri muito nessa operaçao chorei cantei rezei sou ex comando da 23ªc comandos numa linda manha ao começarmos aprogueçao em direçao a base gungunhana como era costume todas as manhas eramos atacados a morteirada nao bastava isso como tive um ataque de quissongo bala por um lado formiga por outro so Deus sabe o que passei mais os meus companheiros foi uma operaçao que durou serca de 10 dias ate as meias apodresseram nas botas e cheio de felor do congo nas partes tanto saqrifiçio sangue dor

    Comentar por jose baltazar da conceiçao — 09/06/2010 @ 7:28 pm

  4. Sr Conceição

    Serviu o seu país com sacrifício e honra quando tal lhe foi exigido, e por ele arriscou a sua vida. Por tudo isso tem todo o meu respeito. Espero que o seu país lhe tenha retribuído da mesma forma.

    Agradeço a sua nota.

    Comentar por ABM — 14/06/2010 @ 12:56 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

site na WordPress.com.

%d bloggers like this: