THE DELAGOA BAY REVIEW

21/05/2010

UMA SANTA VISITA

Filed under: Sociedade portuguesa — ABM @ 2:37 am

por ABM (21 de Maio de 2010)

A visita de Sua Santidade o Papa a Portugal caracterizou-se principalmente por uma dose maciça de emissões de televisão ao vivo durante todo o tempo que SS esteve em digressão. Para mim foi mais ou menos o que se vê acima, mais longos e completamente incompreensíveis debates entre peritos e devotos à volta do tema do catolicismo. Bem, foi menos porque eu não tenho paciência para tanta expressão de devoção religiosa ao mesmo tempo. Mas pareceu-me ser uma visita essencialmente ecuménica e pacífica, numa semana em que em Lisboa e arredores não se fez quase nada.

Mas tentei canalizar essas energias de forma útil, lendo um livro que me foi oferecido a semana passada, da autoria de um tal Sr. Gianluigi Nuzzi, jornalista de investigação italiano agora ligado à publicação Panorama, chamado Vaticano, S.A. (Editorial Presença, 2009). Confesso que pensava que o livro, que achei relativamente mal escrito, mal editado e menos mal traduzido pelo Sr. Ricardo Sequeira – que espero já tenha sido pago pela editora – era sobre como funcionava o Vaticano enquanto estrutura digamos que operacional (nota-se que a obra é dirigida ao público italiano pois fala de roupa suja local que não acaba, com biliões de liras para cima e para baixo).

Mas não.

Essencialmente, é sobre algumas negociatas envolvendo o Vaticano, que, para quem não reparou, basicamente é um país soberano no meio de Roma e, mais importante para o caso, com estatuto bancário de offshore e com uma pequena (pequenina) praça financeira que, depreendo da leitura, não presta contas a rigorosamente ninguém, ao contrário, por exemplo, da Madeira, que ainda manda uns relatórios para os cubanos do contenente. E, baseado num chato e detalhado trabalho de investigação, em que às tantas saiu-lhe uma espécie de primeiro prémio da lotaria quando um tal Monsignor Renato Dardozzi, um daqueles homens sombrios, espertos e desconfiados como há tantos em Portugal, e que andava há uns vinte anos a guardar escondido em casa cópias de tudo o que de esquisito no seu emprego, sem ninguém saber, morreu, todo esse manancial foi parar às mãos do Sr. Nuzzi, que fez o texto.

O livro é quase tão fascinante como penoso de ler, dado o nível de detalhe contabilístico, até para um financeiro como eu, habituado a ler balancetes e contas de exploração para o pequeno almoço. Mas essencialmente é sobre as aparentemente infectas e infindáveis negociatas e trocas de favores e lavagem de dinheiro (tudo aparentemente sem qualquer transparência, pelo menos perante entidades terceiras) envolvendo essencialmente a elite romana que, a julgar pelo livro, faz o Engenheiro Sócrates e os seus muchachos parecerem rapazes de coro por comparação.

No centro de tudo, está o Instituto per le Opere di Religione, ou IOR, que basicamente é um banco controlado (mal, aparentemente) pela hierarquia do Vaticano, onde o nº 1 é, claro, SS o Papa.

Enfim, para quem gosta de intriga e não se importa de ler uma espécie de relatório forênsico de uma teia de operações bancárias, e quiser entender melhor eventos como a falência do Banco Ambrosiano e como os sucessivos papas lidavam com os decorrentes problemas de gerir as finanças de uma vasta operação mundial, merece uma olhada.

Não podia deixar de fazer referência ao toque final dado à semana santa que passou pelo presidente português. No fim da visita, em que Joseph Ratzinger, a alma reaccionária por detrás de João Paulo II, se banhou na esperada simpatia e devoção das multidões, tudo minuciosamente ensaiado com requintes de malvadez, uma estação de televisão anunciou que Aníbal Cavaco Silva iria fazer uma comunicação ao país e que essa comunicação seria vetar o tal de casamento entre as pessoas do mesmo sexo. Nos termos da lei e do protocolo, o presidente português pode assinar a legislação do PS, que passa a lei, ou pode vetar e aquilo dava umas cambalhotas, com um desfecho pouco previsível. Só que há prazos para isto e o prazo estava a acabar. Então à hora do jantar do dia 17 – só para chatear o dia mundial de qualquer coisa gay – Cavaco aparece nas televisões e dá o discurso que pode ser lido aqui e que por acaso está no mesmo lugar onde o JPT encontrou o discurso sobre a atribuição do prémio Camões ao Arménio. Bem espremido, o que ele diz são duas coisas: a) que noutras circunstâncias aquilo não passava, b) que de longe o que o chateava mais é ter que se chamar “casamento” àquilo. Ainda ruminou brevemente sobre umas estatísticas quaisquer sobre quem fazia o quê e como na Europa. Dito isso, assinou a lei e foi-se embora. Chateado.

E assim, no rescaldo da visita papal, e à beira de mais um precipício, Portugal passou a poder celebrar casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo. Presume-se que também passará, por maioria de razão, a haver divórcios gay, que prometem ser tão divertidos como os dos outros todos.

Com o anúncio presidencial, as conservatórias do registo civil, os notários os advogados portugueses, e os restaurantes que organizam casamentos, celebraram o evento.

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2 comentários »

  1. invejo-te o charme bloguístico, tivesse eu aqui aventado a ideia de haver alguma mafia vaticanesa acoplado às “deles santidades” e caía-me o “céu” e a trindade in-comments …

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    Comentar por jpt — 21/05/2010 @ 12:38 pm

  2. Jpt

    “God is God, but money talks”

    Bom fim de semana 🙂

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    Comentar por ABM — 21/05/2010 @ 2:22 pm


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