THE DELAGOA BAY REVIEW

03/06/2010

OBAMA VS. SULEIMAN

Filed under: Economia de Moçambique, Política Moçambique — ABM @ 1:34 pm

por ABM (3 de Junho de 2010)

Maputo acordou ontem de manhã com a notícia, convenientemente digerida em privado antes de ter que se dizer alguma coisa em público, de que o governo dos Estados Unidos da América do Norte, na sua óptica, declarava proscritos o Sr. Bachir, a sua família, associados e negócios, acusando-o e às suas organizações, em termos muito pouco susceptíveis de interpretações diversas, de alimentarem, e alimentarem-se, de um considerável volume de tráfico regional e internacional de narcóticos.

O surgimento desta tomada de posição por parte dos algo longínquos Estados Unidos, num relativo vácuo de comentário quer por parte de Moçambique ou da África do Sul, supostamente um dos alvos principais do alegado tráfico, quer das suas autoridades quer da sociedade, quase chocaram os menos avisados. No noite passada, ao vivo na televisão nacional moçambicana, um Bachir combativo proferia a sua indignação e inocência e exigia que se provassem as alegações contidas nos comunicados de Washington. A seguir divulgou uma carta dirigida ao actual embaixador norte-americano em Maputo a pedir uma reunião e a produção das provas do que o seu governo dizia.

Apesar de, ao longo dos tempos, vários (e corajosos) jornalistas terem publicado detalhados relatórios sobre o aparentemente crescente negócio do tráfico de droga, do posicionamento de Moçambique na rede global desse tráfico, e dos numerosos indícios da presença desse negócio na economia e sociedade moçambicanas, a reacção da imprensa diária moçambicana desta manhã foi a esperada e dividiu-se em três campos. Uma parte limitou-se a reportar a acção americana, uma parte reportou o que os americanos fizeram e a declaração de inocência do Sr. Bachir, e uma parte reportou apenas a declaração de incoência do lídero do Grupo MBS. Um ou outro, inacreditavelmente, nem mencionaram o que acontecera.

Que eu tenha conhecimento, o governo de Moçambique nada comentou sobre o assunto até ao momento.

Sobre o assunto tenho apenas dois comentários a fazer.

O primeiro é que tudo isto é extremamente grave. Suleiman Bachir não é uma pessoa qualquer. É uma figura de primeiro plano do Moçambique actual, com um elevadíssimo perfil económico, social e político e ligações profundas com a comunidade de negócios e a elite política do país.

Se o que aquilo que foi divulgado pelo governo dos Estados Unidos da América é verdade, o que indicia sobre Bachir e especialmente sobre o Moçambique actual, deve preocupar de sobremaneira os moçambicanos. Pois, a ser verdade, indicia graus de impunidade e de compadrio a níveis nunca dantes observados. E, a ser verdade, implica a necessidade de um processo da lavar as mãos como nunca se viu em Moçambique desde a independência há 35 anos.

E, creio que, dadas as actuais circunstâncias, não há como dar a volta ao assunto. Alguém vai ter que investigar e dizer se o que os americanos, ao mais alto nível, dizem, é verdade.

O segundo comentário é que eu acho que as pessoas que leram e ouviram o que os norte-americanos, formalmente e por escrito, disseram, não entenderam bem o alcance das medidas agora implementadas.

Ao declarar proscritos o Sr. Bachir, familiares, associados e todos os seus negócios, o governo norte-americano não está apenas a inibir a actuação de cidadãos e empresas norte-americanas em relação ao dono da MBS, sua família e associados.

O impacto e abrangência das medidas agora tomadas é muito mais vasto, e inclui a maior dificuldade nestas pessoas se fisicamente se deslocarem internacionalmente e movimentarem fundos, e ainda de fazerem negócios, e, nas suas empresas, de transaccionarem internacionalmente.

Mais importante, as medidas ora anunciadas formalmente, inibem as pessoas e entidades por ela abrangidos, de transaccionarem com entidades que, directa ou indirectamente, façam negócios ou tenham alguma relação, directa ou indirecta, com pessoas ou entidades que tenham algo que ver com os Estados Unidos da América – sob pena de essas entidades serem severamente penalizadas com multas ou verem os seus bens nos Estados Unidos confiscados pelas autoridades norte-americanas.

Por exemplo, os bancos europeus e sul-africanos que detêm capitais de bancos moçambicanos (mais do que 80 por cento da banca moçambicana e que incluem o Bim, BCI, Standard, Barclays e o pequeno FNB) e que directa ou indirectamente têm relações com os Estados Unidos, deverão reconsiderar urgentemente manterem negócios com estas pessoas e entidades, sob pena de, da sua actuação em Moçambique, haver repercussões na Europa e nos Estados Unidos, na forma da imposição de pesadas multas e o confisco de bens. No mínimo (uma curiosidade que só mesmo os americanos é que podiam inventar) estas entidades provavelmente não poderão deter quaisquer contas no nome destas pessoas e entidades denominadas em dólares norte-americanos, mesmo (especialmente) em Moçambique.

Mas no fim do dia, a atenção recairá no plano diplomático. Face a uma acusação tão contundente, que não dá qualquer margem para uma interpretação diversa do que ali está dito, qual será a actuação do governo de Moçambique?

Qualquer que seja o resultado final, é um escândalo.

Se os americanos se enganaram, é um erro de proporções bíblicas e um crime contra Bachir.

Se não se enganaram (entre outros, um recente artigo de Marcelo Mosse na Newsletter da CIP Nº5, aponta contundentemente para este cenário) esta é uma situação insustentável.

Pelas ilacções que daí se podem fazer.

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3 comentários »

  1. Obrigada por ser uma grande voz da sociedade civil e não deixar passar em branco um escândalo destas proporções!

    Mantenha-nos informados, por favor!
    Bem-haja.

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    Comentar por Beijo de Mulata — 03/06/2010 @ 2:01 pm

  2. Permito-me não assobiar para o lado: 1) acredito até irrefutável prova em contrário na inocência do senhor Bachir e seus associados; 2) há mais de dez anos que a vox populi (que nunca é um critério de julgamento, nem nunca deve ser) resmunga o que agora o Estado norte-americano vem dizer [recordo a polémica no seio do universo muçulmano maputense aquando da reabilitação da chamada “mesquita velha”, sita na Baixa da cidade]; 3) no quadro daquilo que referes, e salvaguardando a eticamente inultrapassável presunção de inocência, seria interessante, se no meu país houvesse jornalismo de investigação – para além do serviço de recepção de gravações de escutas telefónicas -, olhar para as redes constituídas desde o tempo de Guterres entre os interesses económicos ligados ao partido Socialista português (inclusivé formas de financiamento deste partido) e as economias – no seu sentido mais amplo possível – dos países africanos de língua oficial portuguesa, bem como das práticas do Estado português inseridas neste contexto. Reafirmo que o recorte que abaixo republiquei é uma peça de valor historiográfico único, seja sob o ponto de vista político como sob o ponto de vista económico.

    Para os poucos (pouquíssimos) que olham com alguma atenção para os meandros das transacções de capital entre Luanda, Beijing e as instâncias portuguesas (entre o Rato e o Terreiro do Paço lisboetas) talvez fosse interessante virar olhos também para o leste austral.

    Depois sou eu (e/ou o ABM) que somos reaccionários…

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    Comentar por jpt — 03/06/2010 @ 3:35 pm

  3. Esta notícia pode abalar a economia nacional, principalmente no sector do comércio, uma vez que o Shopping Maputo tem várias agências bancárias, várias lojas internacionais, já para não falar dos produtos do grande hipermercado, na sua larga maioria, produtos importados de empresas que tb devem ter comércio com os Estados Unidos.

    Mas há aqui uma coisa que eu não entendo…como diz o JPT, quando se refere á vox populi, há anos e anos que se comenta as actividades do Sr. Baschir e do Grupo MBS, com alguma ligeiresa e que se põe em dúvida a origem de tanto dinheiro.
    Pelo menos os anos todos que cá vivo é sempre um tema corrente mas, como não se pode afirmar com certeza absoluta, torna-se mais uma conversa de quem diz o que não sabe e não sabe o que diz – pelos cafés de Maputo. E há quem se ponha a fazer contas á venda das capulanas e ao lucro possível.
    O que eu não entendo é o timming desta notícia. Porquê agora? Não haverá outra razão para esta notícia e que passe despercebida ao comum residente em Moçambique?

    Já é sabido que em Moçambique nunca se pode ser “uma das árvores mais altas”…qualquer árvore que sair fora da altura normal é logo atingida por um raio…Depois é que apura se era ou não para se atingir mas…ás vezes é tarde.

    E porquê tanto empenho na difusão da notícia? Em princípio há o velho costume de “inocente até prova em contrário” e a velha explicação de que para cada boato/história há sempre 3 versões:
    1) A versão de uma das partes
    2) A Versão da outra parte
    3) A verdade, que só pode ser descrita por quem lá esteve/viu/presenciou…

    Aqui em Maputo a história já atingiu proporções até engraçadas, com o Sr. Baschir acusado directamente pelo Presidente Obama, com o Sr. Baschir a pensar em fugir (!), com a PIC (!) a já ter ordens dos EUA (!!) para o prender (!) e já se programa assistir o julgamento pela TVM, em directo. LOL!

    Ao menos, enquanto água vai e água vem e até se apurar a gravidade/veracidade das acusações, vão dando motivo de conversa ao povo moçambicano.
    Quem sabe esta não é uma distração necessária para tirar os holofotes de, por exemplo, o aumento da gasolina e as suas consequencias na economia do já tão aflito comum moçambicano? Por exemplo.

    Aguardemos pela cena do próximo capítulo.

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    Comentar por Rita Soares de Oliveira — 03/06/2010 @ 5:58 pm


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