THE DELAGOA BAY REVIEW

05/06/2010

NACIONALISTAS DE MOÇAMBIQUE

por ABM (5 de Junho de 2010)

Quando primeiro ouvi falar de Nacionalistas de Moçambique, escrito por Dalila Cabrita Mateus e o seu marido Álvaro Mateus, instintivamente pus-me a magicar quem estaria incluído na lista dos heróis da chamada libertação. Logo, uma leitora com gume aguçado, acusou: “lá estão estes gajos a comentar antes de ler o livro”.

Só que aquilo não era comentar o que estava no livro.

Mas agora já li o livro, por isso, com licença dessa nossa Maschambiana meio descrente, vou comentar.

Dalila e Álvaro Mateus têm três coisas em seu favor: sólida experiência académica e no terreno, curiosidade, e sensatez, tratos que perspassam no que escrevem. Nos anos 80, Álvaro, que nasceu e cresceu em Moçambique, talvez num rasgo de inspiração revolucionária, ensinou durante alguns anos em Maputo na Escola Central da Frelimo, que não faço ideia do que era mas soa importante e ideológico, especialmente naqueles anos em que o Machelismo começava a incendiar o país à beira do Índico.

Dalila, cujo currículo académico é no mínimo impressionante, esteve lá com ele.

Mas, cedo descobri, já vira o nome deles antes, como autores de Purga em Angola, a magnífica obra cuja leitura é absolutamente obrigatória para quem quiser entender o que é que aconteceu naquele país (e não só) em redor dos eventos do chamado 25 de Maio de 1977.

Em vez de comprar só o livro, dei-me à maçada de, no dia 25 de Maio, me deslocar de Cascais a uma sala na loja da FNAC no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, onde Dalila e Álvaro assinalaram o lançamento de Nacionalistas de Moçambique, pela mão da Editora Texto (custo: 14.90€).

Surpreendentemente, estava lá pouca gente, e fiquei com a impressão que os únicos que tinham alguma coisa a ver com Moçambique naquela sala eram eu e o Álvaro (e a Dalila). Mas creio que foi só porque o lançamento foi pouco divulgado. Eu soube por mero acaso.

Antes de falar no conteúdo, um ponto de ordem: sendo sobre personalidades moçambicanas envolvidas no esforço para forçar Portugal a largar Moçambique, conforme referi, eu pensava que, de dez, iria acertar em pelo menos metade.

No fim, acertei em apenas um nome – o de Noémia de Sousa, poetisa que exprimiu em verso a aspiração por uma moçambicanidade emancipada.

E aí, curiosamente, reside um aspecto refrescante da obra e que nos faz pensar: o desafio ao conceito de que o esforço e mérito colectivo de levar Moçambique à independência, contrariamente à ortodoxia mais ou menos frelimiana de hoje e que ainda se supõe perdurará por muitos mais anos, coube apenas aos membros encartados da Frelimo e que deram pelo menos um tiro no mato contra um soldado português.

Na verdade, o termo contido no título do livro é deliberado. Nacionalistas de Moçambique é sobre pessoas que assumiram, de alguma forma, o manto da criação da nação moçambicana, alguns sendo da Frelimo enquanto organização guerrilheira, outros não. Um – Peter Balamanja – tecnicamente nem sequer era moçambicano, na óptica dos autores (bem, apesar de não falar português durante muito tempo e tendo nascido na então Niassalândia, ele era filho de pais oriundos de Moçambique. Isso devia contar para alguma coisa).

A obra, com 135 páginas aptamente pesquisadas, com dados inéditos como os registos da PIDE, é quase desconcertante na sua simplicidade, objectividade e quase doçura. As dez pessoas são ali retratadas na forma de curtas biografias É, sente-se, nalguns casos, um trabalho de amor. Dalila e Álvaro conheceram algumas das pessoas estudadas no livro e sentiram na pele o sofrimento por que elas passaram nos seus percursos.

E quem são elas, para além de Noémia de Sousa e Peter Balamanja? Como disse antes o nosso Carlos Gil, elas são Aurélio Bucuane, Ricardo Rangel, Matias M’boa, Malangatana (que ofereceu aos autores a imagem reproduzida na capa), Júlio Mulenza, Francisco Barreto, mais conhecido como Rui Nogar, Zedequias Manganhela e Sebastião Mabote.

Tive a chance de perguntar ao casal Mateus o porquê de salientar estas pessoas, pois que, como quem conhece o firmamento dos “heróis” convencionados do Moçambique actual, alguns deles parecem à partida um pouco fora desse contexto. Ou seja, quem seguir a temática em Moçambique, especialmente os moçambicanos com menos de 40 anos de idade, nunca adivinhariam, ou não lhes ocorreria, isolar o seu contributo. Creio que no fim do dia esta selecção é uma recolha pessoal, uma escolha, dos autores. Insisti: “e Marcelino? e Samora? e Mondlane?” pois…

Invariavelmente, as histórias que eles contam surpreendem. Pego numa ao acaso, a de Sebastião Mabote, cujo percurso é quase chocante para quem não a conhecia, muito especialmente após a independência, quando, por nenhuma razão aparente, é subitamente considerado persona non grata, afastado e castigado, apenas para, também sem grande justificação, ser “reabilitado”, para morrer a mais estranha morte nas águas calmas e muito pouco profundas da Lagoa do Bilene.

Na apresentação do livro, e num aparte, Álvaro Mateus teceu várias considerações, das quais retive apenas uma, a de quais na sua opinião foram os maiores erros da governação da Frelimo após a independência em 1975, e que, segundo ele, e nesta ordem, foram os seguintes: 1) o êxodo dos portugueses que viviam em Moçambique naquela altura, em que responsabiliza directamente a liderança do então movimento guerrilheiro transformado em governo; 2) a chamada Operação Produção, 3) o experimento das Aldeias Comunais, e 4) o Acordo de Nkomati em 1984.

Para o exmo leitor que gostaria de saber mais sobre a história de Moçambique, sem empolamentos nem embelezamentos, creio que este livro é um excelente, importante testemunho, sereno, objectivo, escrito numa linguagem acessível, e que dá uma perspectiva incomum de um grupo de nove homens e uma mulher que contribuíram, cada um à sua maneira, para a formação do que é hoje a nação moçambicana.

Imprescindível para um melhor entendimento de como foi.

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus no lançamento de Nacionalistas de Moçambique, 25 de Maio de 2010

aspecto do lançamento do livro

Um Maschambeiro fala com os autores na FNAC

6 comentários »

  1. O iletrado que apareceu a resmungar contra o estarmos a “falar” sobre o livro antes de o lermos não era uma leitora mas sim um barbudo leitor (é daqueles imbecis que metem a foto e depois andam anónimos, sob alcunhas ou abreviaturas, a mandar bocas)

    Quanto aos “nacionalistas…” gostava de recordar que M’boa lançou há pouco um livro. Comecei a ler, talvez ainda venha a por aqui uma pequena nota

    Comentar por jpt — 05/06/2010 @ 7:13 am

  2. gostei🙂

    Comentar por cg — 05/06/2010 @ 1:54 pm

  3. sempre que leio refªs assim fico com uma ciumeira danada.
    a globalização é uma treta elitista, que discrimina muitos “bens de consumo”, e tou mais uma vez a sentir-me barbaramente incluído nos “consumidores discriminados”😦
    fazes ideia da quantidade de livros que (principalmente por aqui, esta montra do caraças pra fazer luzir o olho) deseja poder comprar e nicles? aí editados? ok, há o contrário, poderás dizer. se o fizeres tás a dar-me razão!

    Comentar por cg — 05/06/2010 @ 3:06 pm

  4. Já o tenho🙂 mas ainda não o li, confesso.
    CG, o contrário é bem válido…deliciei-me a adquirir edições que aqui ninguém sabe que existem.
    Valha-nos o Ma-schamba que, desta forma, nos informa do que por aí vai sendo editado.

    Comentar por VA — 05/06/2010 @ 5:58 pm

  5. Os autores agradecem sensibilizados o comentário e as fotografias. Prometem continuar a trabalhar, com empenho e honestidade, sobre temas de que gostam. E anunciam um novo livro sobre o início da guerra colonial, no próximo ano, já 50 anos depois do acontecimento.

    Comentar por Álvaro Mateus — 06/06/2010 @ 4:30 pm

  6. Exmos Dr. & Dra Mateus

    Nós (eu…) é que agradecemos a produção literária.

    Creio no entanto ser importante realçar a importância duma divulgação atempada e alargada dos vossos trabalhos, pois este feliz episódio de ter tido a oportunidade de ir ao lançamento deste livro foi obra do mero acaso. Ora, entre os contactos da vossa editora e os vossos, não é difícil hoje mandar uns emails aos vossos 500 melhores amigos e outros contactos a dar notícia dos vossos projectos. Aqui esta casa faz questão de se manter informada e de informar, como poderão reparar, e temos uma alegre e interessada comunidade com quem dialogamos com assiduidade.

    Mais uma vez parabéns pela obra e muito sucesso em Moçambique também.

    Comentar por ABM — 14/06/2010 @ 2:31 pm


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